Fragmentos de Lembranças
3 Quem quer ir para a lua?
Notas iniciais
[flashback]
– Quem quer ir para lua? — Meu pai gritava entusiasmado. Desci as escadas correndo, quase tropeçando.
– Eu quero, pai. Eu quero, — Eu gritava empolgado.
– E que tal você chamar a mamãe para irmos para a lua? — Ele me pegou no colo e disse.
– Mamãe, vamos para a lua com o papai. — Eu gritava de seu colo. Ir para a lua era meu sonho. Ela desceu as escadas em seguida, estava sorrindo, tão feliz quando eu. Seu cabelo castanho estava preso com uma fita vermelha escarlate, que cominava claramente com seu vestido de bolinhas, seus olhos verde esmeraldas brilhavam feito diamantes, suas rugas ficavam visíveis quando ela sorria. Era a imagem mais feliz que eu tinha dela.
– Vamos, meu pequeno. — Ela disse afagando meu cabelo. Tomou a frente, o que fez com que eu e papai a seguisse. Eu estava feliz e empolgado. Nunca havia visitado a lua antes.
Eu estava entre os dois, segurando suas mãos. Caminhávamos até nosso destino: a lua.
– Papai, vamos pegar um foguete para ir para a lua? — Perguntei olhando para cima tentando igualar nossos olhares. Naquela época eu não passava de um metro e meio.
– Não será necessário, Eric. — Ele disse.
– Mas a lua fica no céu. — Eu disse confuso. Até que chegamos a um enorme estabelecimento. Uma enorme porta de vidro dava a visão de dentro, e uma enorme placa com o nome Moonlicious chamava a atenção de todos, no lugar dos "o" haviam luas. Dentro, os funcionários vestiam uniformes de astronautas, e é claro, usavam aqueles capacetes. Andavam como se não existisse gravidade naquele lugar. Havia também diversas máquinas de fliperama, o que deixava o lugar com o aspecto dos anos 80. Papai nos levou até uma mesa para três, e rapidamente uma moça de cabelos loiros com alguns fios brancos que não davam para esconder se aproximou.
– Olá, queridos. — Ela disse.
– Olá, Maria. — Papai e mamãe disseram juntos.
– Este aí deve ser o pequeno Eric, certo? — A moça perguntou.
– É sim. Diga oi para a Maria, Eric. — Todos pareciam me encarar aquele momento.
– Oi Maria. — Eu disse envergonhado.
– Seu pai me disse que você adora a lua. E quando ele disse isso, eu tive a brilhante ideia de montar esse lugar, o que achou? — Ela perguntou.
– Você que fez esse lugar? — Eu perguntei animado.
– Isso mesmo, pequeno, eu sou a dona do Moonlicious.
– Que legal. É incrível. Eu posso brincar naquelas máquinas? — A felicidade transbordava e eu não conseguia esconder.
– Pode sim, querido. Mas não prefere comer ou tomar algo antes? — Maria entregou o cardápio, que tinha o formato de uma lua em roxo.
– Traga um cappuccino para Heloísa, um refrigerante para o Eric, e para mim o de sempre para mim. — Ele sorriu. Fez o pedido sem a ajuda do cardápio. Maria foi até a cozinha alegando que nosso pedido era prioridade. Eu estava maravilhado com o lugar, não era a lua, mas era algo próximo. Meus pais conversavam enquanto eu observava todos os cantos do lugar, que havia acabado de se tornar o meu lugar favorito.
Maria não demorou muito com o pedido, ela tirou duas xícaras e uma coca-cola da bandeja e os colocou na mesa. Mamãe bebia seu cappuccino, e ele sua bebida. Parecia estar delicioso, fui dominado pela curiosidade e quis de todas as formas provar aquilo.
– Deixa eu provar, papai? — Perguntei com os olhos arregalado para o copo que ele segurava.
– Acho que você não vai gostar, Eric. — Ele abaixou a xícara me dando visão do que tinha lá. Tinha uma cor caramelo puxado para o marrom.
– O que é? — Perguntei.
– Café com baunilha, caramelo e canela. Minha bebida favorita. — Ele colocou a xícara em minhas mãos. — Prove. — Ele completou. Tomei coragem o suficiente, não queria deixar o gosto daquela bebida por conta da minha imaginação. E acabei gostando. Era uma mistura perfeita.
– Essa bebida não é muito popular aqui. Eu á tiraria do cardápio se não fosse a bebida favorita do meu cliente favorito. — Maria disse olhando para meu pai. — Foi um prazer te conhecer, Eric. Espero vê-lo mais vezes aqui.
– Também foi legal te conhecer, Maria. — Eu disse bebendo mais daquela bebida. Maria voltou para a cozinha, deixando nossa pequena família a sós.
[flashback off]
O vento forte daquela tarde fazia com que a poeira existente na rua voasse até meus olhos causando uma ardência. Esperava por Caroline do lado de fora. Ela nunca demorou tanto como demorou aquela tarde. Um enorme carro preto passou a diante, um pouco devagar. Devagar o suficiente para eu notar que havia uma garota ruiva com os olhos inchados e o cabelo bagunçado. Ela parecia estar acabada. Ela me fitava e eu fazia o mesmo, até que o carro lentamente foi saindo da minha vista.
– Vamos? — Caroline disse com uma de suas mãos em meu ombro, me assustando.
– Vamos. — Ela usava um vestido azul e sapatilha branca. Seus cabelos loiros estavam levemente jogados ao ombro, e sua bolsa de lado. Estávamos indo ao Moonlicious já que acabamos não concluindo o resto dos filmes na noite passada. Caroline não era muito fã de café, mas amava o fliperama.
Após longos quinze minutos de caminhada, chegamos ao nosso destino final. O lugar permanecia o mesmo desde a primeira vez que pisei ali, a mesma decoração, o mesmo cardápio, as mesmas máquinas, apenas alguns novos funcionários, acho que as garçonetes de antes ficaram velhas de mais pra andarem vestidas de astronautas por aí, afinal, já fazem onze anos desde que aquele lugar existe. Mesmo depois de anos, o lugar ainda era bastante frequentado. As únicas mesas disponíveis ficavam em lugares péssimos, sem ter outra opção, fomos até o balcão onde estava Maria com uma flanela limpando-o. Não havia mais nenhum fio loiro no cabelo de Maria, estavam completamente grisalhos, ela acabou engordando um pouco e adquirindo novas rugas. Já estava velha de aparência, mas ainda era a mesma de onze anos atrás. Ela ainda tinha paciência e energia para cuidar e administrar aquele lugar.
– Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo, Eric? — Ela disse ao me ver sentado a sua frente.
– Realmente, Maria. Não me lembro da última vez que apareci aqui. Que pecado, este é meu lugar favorito.
– O de sempre para os dois? — Maria perguntou guardando a flanela.
– O de sempre. — Eu e Caroline respondemos juntos. Maria rapidamente foi até a cozinha, onde acredito que foi preparar com suas próprias mãos nosso pedido.
– Desculpe. — Caroline disse me olhando. — Me desculpe ter extrapolado ontem, era pra ser nossa noite, não minha noite com Josh.
– Sem problemas, Car. — Eu sorri. Pelo menos alguém tinha que estar feliz, certo?
– Está usando colar? — Ela disse olhando fixamente meu pescoço.
– É o relicário. É um pouco feminino, mas ele é muito importante para mim.
– Ah, sim. Ele é lindo.
Maria não demorou muito com os pedidos. Café expresso para Caroline, e café com baunilha, caramelo e canela pra mim.
– Aqui está o de sempre para os meus dois clientes favoritos. — Maria colocou as bebidas no balcão.
– Ahhh, esse aroma. — Eu disse de olhos fechados com a xícara próxima de meu nariz de forma que eu pudesse absorver aquele cheiro.
– Eric, se eu te dissesse que só não tirei essa bebida do cardápio por sua causa, você acreditaria? Você é o único que pede isso. — Maria soltou uma gargalhada.
– Esse clientes bobos não sabem o que é bebida de verdade. — Eu disse dando um gole do café.
– Ou talvez eles não queriam diabetes. — Caroline entrou na conversa.
– Tome seu café quietinha, ok? — Falei brincando. Maria, infelizmente teve que atender outros clientes, mas deixou claro que eramos os favoritos. A família Portinatt era próxima à ela desde os tempos de colégio de nosso pais.
A nostalgia tomava conta de mim toda vez que eu me aproximava das máquinas de fliperama. Me traziam boas lembranças, as tantas vezes que brinquei naquelas máquinas com meu pai ao meu lado. Elas se encontravam um pouco empoeirada, eu me aproximava lentamente, passando a mão á cada máquina que eu encontrava. Eram tantas lembranças.
– O que foi, Eric? — Caroline perguntou ao me ver encarando uma das máquinas. Eu a olhei, e sorri.
– Eu me lembro de ter ganhado um jogo nesse máquina aqui. Eu nunca fiquei tão feliz. Foi a primeira vez que ganhei um jogo.
– É, eu me lembro bem. Você amava vir aqui. Quando eu procurava por você, eu sabia que aqui era o lugar para te encontrar. — Aquilo de certa forma me fez rir. Era verdade, o Moonlicious era o lugar certo para me encontrar.
Passamos, literalmente a tarde jogando fliperama. Eramos os únicos. Brigávamos para ver quem era melhor jogando, por eu ser um tanto viciado, acabei ganhando. Quando percebemos, já estava anoitecendo, e precisávamos voltar para casa. Nos despedimos de Maria, e saímos.
Em casa, Caroline sugeriu que assistíssemos um filme já que ainda eram 20h00. Jurou que desta vez Josh não iria aparecer para atrapalhar.
– Que tal um daqueles de terror que você escolheu?
– Certo. — Fui até a prateleira onde ficavam os filmes, e escolhi Pânico. Dei o filme para Caroline colocar enquanto eu iria fazer pipoca. Tia Luíza estava na cozinha preparando algo.
– Vão assistir filme, querido? — Ela perguntou enquanto mexia a panela.
– Vamos.
– Só não esqueçam que amanha tem aula, ok?
– Pode deixar, tia. — Coloquei milho na panela, e esperei que estourassem.
O filme já havia começado quando voltei para a sala com a pipoca. A desgraçada começou o filme sem mim.
– Nem esperou por mim. — Eu me joguei no sofá, o que fez com que um pouco da pipoca caísse.
– Não aguentei, você estava demorando muito. — Ela pegou um bocado de pipoca com sua mão e colocou em sua boca.
– Esse filme nem faz sentido. — Ela resmungou. Era a desculpa dela pra não dizer que morria de medo.
Um enorme cobertor nos cobria, e como previsto, havia pipoca espalhada pelo chão, e é claro, no sofá. Caroline havia adormecido e eu estava cansando. Cansado o suficiente para dormir no sofá mesmo.
Caroline puxou o cobertor, me deixando com frio. Abri os olhos lentamente com dificuldade para enxergar.
– Levanta, Eric. Estamos atrasados. — Ela gritava me puxando pelo braço.
– Atrasados para o que? — Perguntei sem entender.
– Colégio. Hoje é segunda, tem aula. Vamos, acorde. — Ela se esforçava para me tirar do sofá.
Levantei rapidamente, e corri até o banheiro. Joguei aguá fria no rosto tentando ficar mais atento. Escovei os dentes as presas, e coloquei um roupa qualquer. Caroline e tia Luíza me esperavam na cozinha.
– Avisei que haveria aula. — Tia Luíza dizia colocando o bule na mesa. — Só por hoje Eric, fiz café. Vocês precisam despertar um pouco. — Ela colocou café em uma xícara. Com pressa, tomei café e dei um jeito de saborear uma fatia de seu bolo.
Eu detestava me atrasar, somente pelo fato de ter que correr para chegar em um lugar nem tão agradável assim. Era o colégio, não era um cinema, ou um parque, era o maldito colégio. Chegamos a tempo, mas cansados. Faltavam cinco minutos para os professores começarem a chegar nas salas. Aceleramos os passos até chegarmos na sala. Ao entrarmos, atraímos os olhares de todos. Não sei se porque havia algo errado, ou se simplesmente porque nos atrasamos.
– Atrasados, não é mesmo, Eric e Caroline? — O professor entrou na sala antes que pudêssemos nos sentar. Atrás dele havia uma pessoa, eu não conseguia enxergar direito.
– Desculpe professor. — Falamos juntos. Fomos até nossos assentos, e esperamos o professor dar inicio a aula.
– Alunos queridos, está é Anabell. Nova colega de classe de vocês. — Ela tinha longos cabelos ruivos levemente ondulados, seus olhos eram cor-de-mel, era magra, não passava de 1,60 de altura, sua pele era tão pálida que parecia que ela nunca havia visto o sol antes, seus lábios naturalmente rosados. Não possuía nenhum imperfeição que eu tenha reparado. Ela usava um cardigã cinza, e por baixo do cardigã um vestido branco com estampa floral e calçava sapatilhas azuis. Ela caminhou lentamente até o lugar vago que havia no fundo sem dar a mínima para nada e ninguém. Todos pareciam ter gostado da presença da nova colega de classe, ficaram eufóricos, o que é algo raro naquela classe.
– Eric! — O professor chamou.
– Sim?
– Seu nome não consta na chamada. — Ele disse olhando para o pepel branco que segurava.
– Como assim não consta na chamada?
– Está riscado. — Ele disse me fixando.
– E porque está riscado? — Perguntei sem entender.
– Quando está riscado é porque o individuo não está mais na classe. Vou conferir. — Ele disse indo até a porta, certamente iria ver o que aconteceu com a diretora do colégio. Enquanto alguns começaram a cochichar o ocorrido, outros tentavam fazer amizade com a garota nova, e não tinham um bom resultado, ela parecia nem ligar.
Minutos depois, o professor voltou a sala. Todos se silenciaram e voltaram para seus lugares.
– Eric, me acompanhe por favor. — A voz autoritária do professor tomou conta do lugar. Engoli seco. O que aconteceu? Me levantei e caminhei nervoso até ele. Cuidadosamente ele fechou a porta da classe, e tomou a frente. Eu apenas o seguia sem entender o motivo.
Chegamos a sala da diretora.
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