Fragmentos de Lembranças
11 Depois do Acidente
Notas iniciais
Finalmente eu tinha um motivo para sorrir todos os dias, eu tinha um motivo para me sentir parte do mundo novamente. Os meus dias ao lado dela não poderiam ser mais perfeitos. Eu passava mais tempo em sua casa, e ela visitava constantemente o meu pedaço de família — até construiu uma certa amizade com Caroline — Tia Luíza, por sua vez, ficou feliz com os últimos acontecimentos, ela considerava Anabell uma porta para a cura da minha depressão e do estresse pós-traumático, e ela tinha razão, ela realmente era.
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O vento estava forte, o sol queria desaparecer atrás das nuvens, os pássaros voavam livremente, as folhas escapavam dos galhos das árvores, a rua deserta. O enorme portão se abriu, dando vista à alguns arbustos e uma pequena trilha feita de paralelepipedos que levava exatamente à porta de entrada da casa de Anabell. Pressionei meu dedo contra a campainha e esperei que alguém atendesse a porta. Sem resultado, apertei a campainha outra vez. Tenho certeza de que aguardei apenas um pequeno minuto, mas parecia ter demorado muito mais do que isso. Ninguém atendeu. Antes que meu dedo pudesse ter o prazer de apertar aquela campainha outra vez, uma moça atendeu a porta interrompendo minha ação. Seu cabelo loiro era curto e ondulado, exceto por sua franja que era escorrida e ocupava apenas um lado de seu rosto. Sua pele era caucasiana, e combinava com a cor de seus olhos castanhos. Aparentava ter seus bem vividos trinta anos. Ela parecia ter ficado surpresa em me ver, ficou sem reação nos primeiros segundos, mas depois resolveu se pronunciar.
– Você deve ser o famoso Eric. — Falou empolgada com um sorriso estampado em seu rosto. — Está assustado? Já sei, esperava por Sebastian certo? Ele está preparando o almoço, insistiu em atender a porta, mas ele sabe que sou teimosa. — Ela continuava. Eu não sabia o que dizer, muito menos o que pensar. Não poderia ser a mãe de Anabell, pois a mesma já não pertence a esse mundo, então quem seria aquela moça?
– É um prazer conhece-lo. Você é muito mais charmoso pessoalmente. — Ela continuava.
– Desculpe, mas quem é você exatamente? — Perguntei.
– Oh, é mesmo. Desculpe, é que estou muito empolgada em conhece-lo. Sou Alice, tia da Anabell. Estou de visita, vai ter que me aturar por um tempo. — Ela riu. — Entre, vou chamar Anabell. — Ela disse dando espaço para minha entrada.
A moça que agora tinha uma identidade subiu as escadas atrás de Anabell me deixando sozinho na sala. Pelo menos foi o que pensei, não notei, mas havia um homem barbudo na sala. Assim como a cor de seu cabelo, seus olhos eram castanhos. Ele aproximou-se e estendeu sua mão, apresentando-se.
– Sou Alexander, prazer em conhece-lo. Você deve ser o Eric, certo? — Perguntou. Ele era certamente francês, seu sotaque não negava.
– Certo, sou mesmo o Eric. E pelo visto sou bastante comentando por aqui. — Falei gentil.
– Anabell fala muito de você. Tem muita sorte de tê-la. As garotas da família Moore são esplendidas. — Ele falou maravilhado.
Não demorou muito para que as duas descessem as escadarias. Se aproximaram e as apresentações oficiais começaram.
– Vejo que já conheceu meu noivo, Alexander. — Alice falou agarrando seu braço ao dele.
– Noivo? — Anabell perguntou surpresa.
– Você estragou a surpresa, Alice. — Alexander falou de forma afável.
– Vocês vão casar? — Ela perguntou entusiasmada.
– Sim, nós vamos. — Alice gritou esbanjando felicidade. Estendeu sua mão para Anabell, de forma que ela pudesse ver o anel de noivado em seu dedo anular.
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Todos se puseram à mesa, inclusive Sebastian. Alice contou a noticia de que ela e Alexander iriam se casar novamente. Ela não escondia a felicidade que preenchia seus olhos. Contou mais sobre ela. Alice era irmã mais nova do pai de Anabell, Andrew, e mudou-se de Londres para Paris na intenção de ser dona do próprio dinheiro e de seu próprio negócio. Lá, ela montou uma floricultura que alcançou o sucesso depois de tanto esforço. Certo dia, Alexander apareceu na floricultura de Alice, queria comprar flores para levar à um encontro. Alexander pediu a opinião de Alice sobre quais flores levar para o encontro, e ela sugeriu rosas. Logo, os dois fizeram amizade. Porém, Alexander levou bolo, a moça que ele teria o encontro não apareceu. Ele voltou a floricultura lamentando, e foi aí que uma bela história de amor entre os dois se iniciou.
– .. Vamos nos casar em uma capela antiga perto da Torre Eiffel. Ela é linda, e tem um enorme jardim que à cerca. — Alice contava. — Mas chega de falar de mim, vamos falar um pouco sobre vocês, meus pombinhos. — Ela apontou seu olhar diretamente à mim e Anabell, que sentávamos um ao lado do outro.
– Bom.. não foi grande coisa, nós conhecemos no colégio. Anabell me levou até uma colina e me mostrou a beleza de um pequeno campo formado apenas por flores azuis e violeta, e foi aí que tudo começou. — Expliquei.
– Anabell e eu compartilhamos do mesmo amor por flores. — Ela suspirou — Aliás, eu vi o seu pequeno jardim ali nos fundos, é lindo, querida. — Ela sorriu para Anabell, que retribuiu o sorriso instantaneamente. — Tem sorte de tê-la, Eric. Não digo isso porque é minha sobrinha, mas Anabell é uma pessoa maravilhosa, tão gentil e adorável. O pouco tempo que ela morou comigo em Paris foi o suficiente para provar isso. Até pensei em ficar com a guarda dela depois do acidente, mas ela se mostrou ser tão independente e determinada a construir seu próprio futuro..
– Depois do acidente? — Perguntei um tanto confuso.
– Sim, o acidente que..
– TIA! — Anabell à interrompeu antes que ela pudesse terminar. Era claro que ela não queria que o acidente fosse algo exposto. Alice calou-se. Evitou falar sobre o acidente durante o resto do almoço. Voltou à falar sobre o seu casamento que aconteceria em breve.
– Eu quero que você seja minha madrinha. — Declarou Alice à Anabell.
– Eu? Mas o casamento não vai ser em Paris?
– Vai. Tira uma folga do colégio. Você é tão inteligente, perder algumas aulas não vai fazer diferença.
– Não sei se isso é uma boa ideia, viajar para Paris assim de repente?
– É sim uma boa ideia. Eu quero que pelo menos alguém da família assista ao meu casamento, e esse alguém é você Anabell, já não resta mais ninguém.. — Ela falou mudando sua expressão alegre para triste.
Anabell suspirou alto, e convencida respondeu:
– Tudo bem, eu vou ser sua madrinha. — Rapidamente, um belo sorriso voltou a fazer parte do rosto de Alice.
– Ah, e mais uma coisinha, eu quero que você escolha quem quiser para ser o padrinho. — Ela revelou. As duas, imediatamente me olharam, me deixando constrangido.
– Ah, não brinca. Você não quer que eu seja padrinho de casamento, certo? — Ressaltei surpreso.
– Queremos. — As duas falaram juntas.
– Você não quer que eu use meus poderes de convencer as pessoas em você, não é mesmo? — Alice falou. — Ah, vamos Eric, vai ser divertido. Você e Anabell vão viajar juntos para a cidade mais romântica do mundo, vão assistir de perto meu casamento, vai ser perfeito!
– Vendo por esse lado não parece ser uma má ideia. Mas não é só isso que me impede, não sei se minha tia iria deixar, e também tem as passagens, e outros diversos detalhes que me impedem.. — Disse, decepcionando-as.
– Se o problema são as passagens, eu pago pra você se isso significa tê-lo em meu casamento.
– Não, eu iria considerar uma divida. Mas prometo que vou pensar.
Anabell e Alice argumentaram muito a favor de eu aceitar ser padrinho desse casamento e viajar para Paris durante o preparo e a cerimônia. Pouco a pouco elas foram me convencendo. Acontece que ainda não respondo por mim mesmo, e pra essa viajem acontecer eu teria que ter a aprovação de Tia Luíza.
Depois do almoço, Sebastian foi arrumar as coisas e preparar seus típicos bolos e tortas. Alexander subiu as escadas dizendo estar cansando da viajem e que iria descansar. Enquanto eu, Anabell e Alice conversávamos na sala. Alice continuava contando o quão incrível Anabell era, e dizia os tipos de flores que queria para enfeitar sua cerimônia. Ela estava nervosa, empolgada e até mesmo entristecida pelo fato de apenas um de seus familiares poder presenciar esse momento tão especial para ela.
– ... Faz bastante tempo que não recebo noticias de Beatrice. Eu só penso no pior, talvez ela tenha falecido e.. — Lágrimas começaram a escorrer sobre o rosto de Alice.
– Sinto muito tia, mas eu também não tenho muitas notícias. Quando saí de Londres ela estava péssima, tinha emagrecido muito e não queria receber visitas de ninguém. — Anabell revelou com a voz torturada.
Durante o tempo que estive com elas, descobri muito sobre os parentes de Anabell. A Beatrice de quem elas falavam, era a mãe de Alice, e vó de Anabell. Após a morte de Bernard, o marido de Beatrice, a mesma não aguentou a perda do grande amor de sua vida e se internou em um hospital psiquiátrico, Bernard era a única pessoa pela qual ela vivia. Anabell carregava o mesmo nome de sua avó materna, que veio a falecer alguns meses antes de seu nascimento. Dizem que foi para homenagear.
Alice mal chegou a conhecer a família de Elizabeth, assim como Anabell. A única coisa da qual Anabell sabia sobre a família de sua mãe, era que sua avó estava em um asilo e seu avô, falecido. Conclui que Anabell, assim como eu não tinha muitos parentes vivos, e que eu ainda tinha muito o que conhecer sobre aquela garota.
Alice pôs-se a chorar quando passou a pensar na possibilidade de sua mãe estar morta, o que estimulou mais ainda Anabell a não só assistir a cerimônia de seu casamento, como também a ser a melhor madrinha de todas. Elas eram o que restaram do sangue Moore.
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A noite estava caindo, e o ar abafado foi substituído pelo ar frio. Acompanhei Anabell até seu quarto, foi a primeira vez que coloquei meus pés naquele quarto. As paredes eram forradas por papel de parede azul bebê, com estampas floridas de cor prata. Em cima de uma cômoda branca, havia uma caixinha de música e alguns porta-retratos deitados de forma que ninguém pudesse ver as fotografias que carregam. As cortinas da enorme janela se moviam conforme o vento as tocava. Aquela janela à levaria até uma varanda, onde se tinha a vista da rua deserta. Sua cama grande e extensa estava perfeitamente arrumada, com lençóis brancos à cobrindo. No criado mudo se apoiava um abajur e um livro quase finalizado. Um enorme guarda-roupas ocupava grande parte do quarto, ao lado do guarda-roupas, um baú com um cadeado. E uma porta que certamente à levaria até o banheiro.
Cansada das lembranças melancólicas, ela deitou-se exausta em sua cama do mesmo jeito que estava. Cobri-a com um cobertor que encontrei, e me despedi. Ela estava tão cansada, que caiu no mais profundo sono assim que seus olhos se fecharam. Beijei-a na testa, e murmurei boa noite.
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Fechei delicadamente a porta do quarto de Anabell. Feito isso, me deparei com Alice no corredor. Seus olhos estavam inchados devido a sua crise de choro, mas um belo sorriso já havia voltado a estampar seu rosto, ela estava entusiasmada apesar de aparentar estar cansada.
– Quer que eu te leve até a porta? — Ela perguntou vendo que eu estava indo.
– Não. Na verdade, eu quero te perguntar algo. — Me atrevi.
– Vá em frente!
– Sobre o acidente do qual não terminou de falar. Eu só queria saber o resto da frase.
– Eric, sinto muito, mas se Anabell não quer que você saiba do acidente, não vai ser eu quem vai te contar. Mas não se preocupe, não foi nada de mais, quer dizer foi.. mas já passou.
– Entendo..
– Você é um ótimo rapaz. Vou adorar tê-lo como padrinho, espero que aceite logo. Vai ser uma viajem incrível, prometo. — Ela garantiu.
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