Fragmentos de Lembranças

6 Campos e Jardins, parte II


Notas iniciais
Aqui está a parte dois. Boa leitura (:

Assim que o ônibus chegou ao seu destino, ou no caso: o nosso destino. Um carro esperava por ela, e acho que o enorme cara de cabelos negros jogados para trás era o famoso Sebastian do qual ela falava. Ele usava um fraque junto de um colete, uma gravata borboleta de cor escarlate, sapatos visivelmente lustrados e luvas brancas, sua aparência estava impecável, ele tinha um olhar sério e intimidador.

– Senhorita. — A voz grossa e rouca de seu mordomo se fez presente. Ele se curvou perante ela com uma de suas mãos nas costas.

– Sebastian — Ela sorriu para ele. — Este é o Eric, e Eric, este é o Sebastian. — Ela nos apresentou.

– É um prazer conhece-lo, Eric. — Ele esticou seu braço e estendeu sua mão.

– Digo o mesmo. Ana falou muito de você durante nosso pequeno passeio. — Comentei de forma amigável.

– Não quero me gabar, mas sou um mordomo com mil e uma utilidades. — Ele sorriu novamente deixando que minha primeira impressão sobre ele mudasse completamente. Talvez ele fosse um mordomo amigável como Ana disse.

– Senhorita, temos que ir. — Ele dizia à Anabell.

– Oh, sim, é verdade. — Ela se aproximou do carro que já estava com a porta aberta para sua entrada. — Eric, não gostaria de ir conosco? — Ela perguntou antes de entrar no carro.

– Ir com vocês? Tipo, para sua casa? — Perguntei sem entender o real significado da pergunta.

– Exato. Quero que conheça meu pequeno jardim. — Ela colocou um de seus pés no carro, mas ainda me olhava esperando por uma resposta. O que eu tinha a perder afinal? Eu já havia matado aula com ela, conhecer seu pequeno jardim talvez não fosse a pior coisa do mundo.

– Tudo bem. Será um prazer conhecer seu pequeno jardim. Espero que ele seja tão bonito quanto aquele campo. — Eu disse me aproximando do carro. Ela sorriu como resposta. Entrou no carro e deu espaço para minha entrada. Assim que entrei, Sebastian fechou a porta, e com postura foi até o banco do motorista. Ele quem dirigiria o carro.

Sebastian fazia um caminho do qual eu não reconhecia. Virava esquerdas, direitas, seguia reto, mas para onde ele nós levava afinal? Até que comecei a reconhecer o lugar que chegávamos.

– Ah, não me diga que você mora na rua dos riquinhos? — Perguntei ao reconhecer o lugar. Havia enorme árvores de diversos tipos, o gramado era do mais verde, e as casas as mais bonitas, mas o lugar era mal habitado apesar da aparência. Talvez porque fosse um lugar de pessoas que realmente possam pagar pelas casas que o formava, ou talvez porque realmente fosse um lugar chato.

– Sim, eu moro aqui, Eric. — Ana riu debochando. Logo em seguida Sebastian parou o carro em frente a um enorme portão de cor branca com seus apoios dominados por plantas já crescidas. Desceu do carro e abriu a porta — não que eu precisasse da ajuda dele para abrir -

– Chegamos. — Ele disse ao abrir a porta. Desci e logo em seguida Ana desceu. Sebastian apertou um botão que fez com que o portão se abrisse.

Não chegava a ser uma mansão, mas era com certeza mais que o dobro do tamanho da minha. Havia um extenso jardim com o gramado mais verde possível logo a vista, porém eu não encontrava flores nenhuma. Ana e Sebastian tomaram a frente, enquanto eu os seguia ainda admirado com a beleza daquele lugar.

Dentro, uma enorme sala com um ambiente de classe e antiguidade. Os moveis eram modernos e pareciam ser confortáveis. As paredes eram forradas por um papel de parede com estampas de um desenho que não sei explicar. Por cima do papel, haviam quadros que aposto que custaram caro. Diversas caixinhas de música com pequenas bailarinas estavam espalhadas pelos móveis.

– Irei preparar um chá, senhorita. — Sebastian disse se direcionando, talvez, a cozinha. Parei de admirar o interior daquela casa e voltei minha atenção para Ana e Sebastian ao ouvir a palavra “chá”

– Chá? Desculpa, Sebastian, mas eu detesto chá. — Eu disse fazendo uma leve careta.

– Juro que você vai gostar do chá que Sebastian irá fazer. E se você não gostar, ele faz suco, café, ou o que você preferir, okay?

– Tudo bem, Anabell. — Ela me venceu. Ela se jogou no sofá de forma confortável. Fiz o mesmo. Alias, foi o que fiz o dia todo, o mesmo que ela logo em seguida.

– Bela casa. — Disse ainda observando.

– Obrigada. Eu tive o melhor decorador. — Ela colocou seus olhos na decoração da casa, assim como eu fazia.

– Meu docinho, o que faz aí. — Ela disse de repente ao fisgar algo com seus olhos. Olhei para onde ela olhava tentando descobrir com quem ela falava. Ela levantou-se do sofá e caminhou lentamente até um dos cômodos que ainda estavam a vista. Pegou em seu braços um gato preto e voltou para a sala.

– Shadow, este é Eric. — Ela disse acariciando os pelos negros do gato em seu colo. Ele parecia gostar, estava sonolento mas ainda estava com seus olhos verdes abertos. Me surpreendi ao ouvir o nome do gato, desde pequeno eu sempre quis ter um gato preto e o nome que me vinha a mente era Shadow baseado em sua cor. Nunca consegui realizar esse pequeno sonho, pois minha mãe era alérgica a pelo de gato. Ouvir aquele nome desenterrou um sonho que existia em mim.

– Shadow? Não brinca. O nome do seu gato é Shadow? Que coincidência, eu sempre quis ter um gato preto de nome Shadow. — Eu dizia boquiaberto. — Posso segura-lo? — Perguntei me aproximando.

– Claro. — Ela parou de acariciar o gato e entregou-lhe em minhas mãos. Passei a acariciar seus pelos da mesma forma que ela fazia. Ele rosnava calmamente. Acho que isso era a forma dele demonstrar que estava gostando, certo?

– Ele gostou de você, Eric. Está até adormecendo em seu colo. — Ela dizia enquanto olhava para seu gato.

– Sério? Porque eu também gostei dele. — Falei acariciando desta vez as costas do gato. Ele usava em seu pescoço uma coleira vermelha com suas bordas douradas, e preso á coleira estava um pingente arredondado, gravado nele palavras das quais não consegui ler direito.

Sebastian entrou na sala logo em seguida, segurando um bandeja com xícaras e bule de estampas florais. Ele colocou a bandeja na mesa de centro, e serviu o chá de cor amarelada, em seguida colocou uma folha fresca de hortelã em cada xícara.

– Aqui está senhorita. — Ele curvou-se novamente. — Se precisar estarei na cozinha. — Ela disse se retirando da sala. Peguei uma das xícaras ainda com Shadow em meu colo, encarei um pouco a cor amarelada que ele possuía, e me atrevi a experimentar. Degustei um pouco o sabor, senti gosto de mel, de hortelã e é claro, o gosto do chá. E não era tão mal. Pelo contrário, era bom. O mel cortou o gosto amargo, e a hortelã dava um ar de frescor no sabor.

– E então, gostou? — Ela dizia me encarando com sua feições entusiasmadas.

– Bom, eu… eu — Dizia fazendo suspense antes de responder. — Eu gostei. É ótimo. — Falei finalmente.

– Eu disse que você iria gostar. — Ela bebericou seu chá.

Minutos depois, ela me convidou para conhecer seu jardim. Cuidadosamente coloquei Shadow sobre o sofá, e a xícara floral na bandeja de onde á tirei. Ela me guaiva diante daquela enorme casa. Nos levou a uma porta nos fundos da casa. Era, literalmente os fundos da casa.

Como ela havia dito, tinham peônias, lírios e rosas de diversas cores que entravam em sintonia e deixavam o local com um ar de alegre. Era colorido e preenchido. Havia também uma pequena cabana de canto.

– Ali naquela cabana eu guardo as ferramentas de jardim e as sementes das flores. — Ela disse apontando.

– É, realmente lindo. — Eu disse admirado. — Conseguiu superar aquele campo. — Me agachei de forma que me deixasse mais próximo da variedade de flores. Ahhh como era bom aquele cheiro pregnando em minhas narinas. Quase tão bom quanto o de café.

– Sério? Você realmente acha isso? Porque um campo quase não tem comparação a um pequeno jardim de fundo. — Ela dizia com seus olhos em sua plantação.

– Acho. Aquele campo era lindo e simboliza coisas muito profundas, mas esse jardim é seu, e é muito mais colorido e belo. — Eu sorri. Ela retribuiu o sorriso.

– Droga. — Eu disse com uma das mãos na cabeça.

– O que aconteceu? — Ana perguntou assustada.

– Preciso avisar alguém que estou aqui. Elas devem estar preocupadas. — Tirei do bolso o celular, que estava no modo silencioso, e minha preocupação só aumentou quando vi que tinham 22 ligações perdidas.

– Droga. Vinte e duas ligações perdidas. Tia Luíza vai me matar. — Eu dizia nervoso com a situação.

– Não quer ligar para ela e avisar que está aqui? — Ana disse erguendo uma de suas sobrancelhas tão perfeitamente esculpidas. Mas que boa ideia, Anabell. Mas que boa ideia. Tão boa e obvia que é surpreendente eu não ter pensado nisso. Disquei rapidamente o número.

– Alô? — Uma voz conhecida disse.

– Caroline? — Eu disse ao reconhecer.

– Sim. Eric? — Ela dizia do outro lado da linha.

– Eu só liguei para avisar que estou na casa da Anabell e que não vou demorar.

– O que? Não vai demorar? Você tá sumido o dia todo, Eric. Você quase me mata de preocupação. Dê graças, minha mãe não está em casa e não sabe que você deu essa fugida. — Caroline gritava brava. — A gente conversa em casa. Tchau. — Ela desligou logo em seguida.

– Muito brava? — Ana perguntou ao me ver guardando de volta o celular.

– Muito. — Disse conformado.

Matei aula e vim para casa de uma garota que acabei de conhecer. Terminar o que comecei era fundamental para mim. Eu nunca me senti tão bem como estava me sentindo aquele dia. E as palavras de Anabell me inspiraram á não me dar por vencido, e o mais importante: a superar a morte de meus pais.

– Você não tem nenhum irmão ou irmã? — Perguntei ao notar que a casa ecoava de tão vazia.

– Não. Sou filha única. — Ela explicou.

– Então, você mora aqui com algum parente?

– Não. — Ela riu. — Na verdade, nesta casa moramos apenas eu, Sebastian e Shadow.

– Não te incomoda ela ser tão grande para tão pouca gente? — Me atrevi a perguntar. Ela encarou um pouco o além, demorou a responder até que…

– Na verdade, sim. É muito calmo e silencioso aqui. — Ela parecia decepcionada ou triste, não consegui analisar seu estado, até que ela voltou a sorrir. — Mas com você aqui talvez as coisas mudem, fiquem um pouco mais animadas.

– Você realmente conta comigo para deixar as coisas mais animadas? — Franzi o cenho encarando-a.

– Sim. Já disse que você uma pessoa interessante.

– Tudo bem, Anabell. Qual seu sobrenome?

– Moore. Anabell Carrie Moore.

– Tudo bem. Anabell Moore. Você vai se surpreender.

– Okay, Eric Portinatt. — Ela entrou no embalo.

– Espera. Como sabe meu sobrenome? — Perguntei confuso. Não havia dito em momento algum meu sobrenome. Ela sorriu zombateira e se explicou.

– Um dia no colégio o professor chamou por seu nome, e você levantou-se. Ele não mentiria sobre isso, certo? — Era verdade. Um professor citou meu nome no dia da confusão sobre a matrícula.

– Ah, é verdade. — Eu dizia enquanto encarava a parede forrada com papel de parede. — Mas afinal de contas, Moore, porque me acha uma pessoa interessante?

– Ora, porque sei, sinto. Você gosta de The Shiver, já é um motivo. Seu sobrenome é Portinatt, o que indica que você é descendente de francês, certo?

– Correto. Meus pais são franceses, mas eu nasci e fui criado aqui nessa pequena cidade.

– E a prova final de que você é uma pessoa interessante: você sempre quis ter um gato de nome Shadow, e por coincidência, eu tenho um gato chamado Shadow. Já é coisa de mais não acha?

– É, você pode ter razão. Mas isso não significa que eu possa ser uma pessoa cem por cento de seu agrado. Não quero decepciona-lá, não esqueça que sou o garoto esquisito.

– Não vou te julgar só porque você foi a um psicologo porque perdeu os pais. — Ela disse olhando em meus olhos. Ela foi a primeira a compreender que não sou um louco por ter ido a um psicologo, e sim que foi necessário para amenizar o trauma.

O resto da tarde foi incrível. Sebastian fez torta de morango e mais de seu chá apreciável. Conheci um pouco mais da enorme casa de Anabell Moore, mas ela não permitiu minha entrada em seu quarto, disse que estava um bagunça e que tudo tem sua hora. Também foi feita uma promessa: Anabell prometeu um dia deixar que eu visse as estrelas do teto de sua casa, que davam uma vista incrível do infinito céu. Eu irei cobrar.

Quando notei já era noite, passei literalmente o dia conhecendo aquela garota de cabelos naturalmente ruivos e olhos cor-de-mel que no dia anterior eu não conseguia tirar da cabeça. Quem sabe as coisas não começariam a melhorar daquele dia em diante? Quem sabe eu não fiz uma amiga?

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até segunda que vem. xoxo, YC.