Fragmentada
10 S.I.L.E.N.C.I.O.
Notas iniciais
Ele encontrou Jemma no balcão que separava a cozinha da sala quando chegou em casa. Ela parecia muito concentrada no que quer que estivesse fazendo, com tantos ingredientes dispostos sobre a superfície de mármore. Ao ouvir o barulho das chaves de Fitz, quando ele as jogou sobre a mesa de canto logo ao lado da porta, ergueu a cabeça para encará-lo.
— Olá! – ela simplesmente disse e voltou a sua atenção para o que estava fazendo.
Fitz respondeu um tanto intrigado ao mesmo tempo em que atirava seu casaco sobre uma poltrona.
— Onde está minha mãe?
— Ela saiu tem uma meia hora.
— Pra onde?
Simmons ergueu o olhar novamente na direção dele.
— Para o apartamento dela — respondeu como se fosse algo óbvio a se dizer.
Fitz franziu o cenho.
— Athena está com ela?
Jemma deu um sorriso enviesado.
— Não, ela está logo atrás de você.
Ele virou-se rapidamente, encontrando Athena de pé, próxima a ele. Ao perceber que estava perdendo o equilíbrio, ela imediatamente agarrou-se às pernas do pai e ergueu a cabeça para olhar para ele. Como de costume, Fitz sentiu como se o sorriso dela fosse uma das únicas fontes de luz capaz de iluminar todo o seu universo.
— Hey! – os cantos de seus lábios foram se curvando para cima gradativamente ao observar sua filha.
Athena recuperou o equilíbrio, permanecendo em pé por sua própria conta e risco, então ergueu os braços para cima, um pedido para que o pai a pegasse no colo. Ele não tardou a entender, inclinando-se para baixo a fim de tomá-la em seus braços.
— Viu? Não há motivos para se preocupar. Eu sou capaz de cuidar dela por alguns minutos sem fazer nenhuma bobagem.
Fitz se voltou para Jemma, surpreendendo-se com o tom mordaz de sua voz e o cinismo contido em suas palavras.
— Eu não estava preocupado.
— Ah, claro que não – ela respondeu, mantendo a ironia em sua entonação.
— Jemma, eu não desconfio das suas habilidades em tomar conta dela nos minutos que antecedem minha chegada... Já vi você fazer isso...
— Ok, esqueça – ela o cortou abruptamente, mas não com austeridade, queria apenas dissipar a tensão – por que não se senta e come? – finalizou, apontando para um prato na bancada que dividia os cômodos.
Fitz colocou Athena no chão. A menina ficou de joelhos e inclinou-se para frente, pousando as pequeninas mãos no chão e engatinhando até o centro da sala. Ele a espreitou por um breve minuto, antes de se dirigir ao balcão. Quando chegou perto o suficiente, reparou com alguma surpresa que o conteúdo do prato se tratava de um sanduíche de presunto e mussarela de búfala, com uma pitada de pesto aioli caseiro.
— Você não precisava...
— Se tem uma coisa que eu me lembro sobre você – Jemma o interrompeu novamente, enquanto servia dois copos de suco de uva branca, um para ela e outro para Fitz – é que quando está envolvido demais com os estudos, com algum projeto, com o trabalho... Se esquece de comer. E alguém precisa interferir e cuidar de sua alimentação.
Fitz a encarou sem saber o que dizer.
— Portanto, sente-se e coma! – ela falou com um ar altivo e determinante.
Como não lhe restavam opções, ele simplesmente puxou uma das banquetas e sentou-se. Todavia, ainda levou um minuto inteiro encarando seu sanduíche sem tocá-lo.
Jemma o observou com cautela.
— A não ser que... – ela recomeçou a falar, meio sem jeito – esse não seja mais o seu sanduíche favorito...
— Não, não é isso! – ele a cortou prontamente – ainda é meu favorito.
A bioquímica suspirou aliviada.
— É só que... Você não precisava ter se incomodado.
Ela deu de ombros.
— Não foi incômodo.
— Eu não quero intervir no seu descanso...
Jemma deu uma risada carregada de ironia.
— Descanso? Eu não preciso mais descansar. Não estou doente, não estou me sentindo mal, já estou recuperada e farta de ficar sem fazer nada – ela foi categórica – o único problema é ainda não ter recuperado minha memória. Isso me deixa muito frustrada. E se eu continuar nesse tédio, minha frustração só tende a aumentar.
— Não precisa ficar brava – Fitz disse, erguendo as mãos de maneira defensiva – só... Estou preocupado com seu bem estar, só isso – completou sem olhar para ela, finalmente degustando seu sanduíche.
Jemma bufou antes de sentar-se de frente para ele no balcão e empurrar o copo com suco em sua direção. Ela começara a arrepender-se do tom que empregara para falar com ele. Às vezes, nem ela mesma notava o quanto estava sendo rude. Isso era devido à revolta que sentia por conta de toda aquela situação. De repente, foi distraída pela visão de Fitz, bem diante de si, apreciando a receita que ela sabia preparar tão bem, como nos velhos tempos. Mas ele estava diferente de outrora, mais velho, mais maduro. O tempo, incluindo os traumas, as tragédias, bem como as conquistas e realizações, haviam operado verdadeiras transformações nele. A beleza de Fitz nunca havia passado despercebida por Jemma. Mas agora ele parecia ainda mais atraente e interessante. Havia vestígios de um brilho diferente em seu semblante. Certamente, reflexos da maturidade.
Fitz parou de comer por um momento. Notando que Jemma o encarava, devolveu seu olhar, o que gerou um instante de constrangimento mútuo. Ele pigarreou antes de falar.
— O que foi?
— Nada! – ela respondeu desconcertada, desviando o olhar.
— Bom. Eu quase achei que estava incomodada com a forma como eu estava comendo.
Ela deu uma risada genuína. E Fitz ficou feliz por isso. Era a primeira vez que a fazia rir em semanas.
— Não. Não é nada disso — ela fez uma pausa estratégica antes de continuar – então... Vai me contar o que está havendo na SHIELD?
O rosto de Fitz se alterou repentinamente. Foi a vez de ele bufar, passando a mão pela cabeça, denunciando toda a exaustão que tomava conta de si.
— Quer saber... Não precisamos falar sobre isso. Você anda tendo dias complicados no trabalho, esse deveria ser um momento para relaxar – Jemma tratou de tentar mudar o rumo da conversa, mas Fitz a impediu.
— Tudo bem, Jemma. Eu acho que você precisa saber. Mais do que isso, você merece a verdade.
Ela arqueou as sobrancelhas em expectativa, tomada por um forte sentimento de ansiedade, de repente. Era como se soubesse que o incidente que ocasionou sua perda de memória tinha ligação com o que quer que estivesse acontecendo na SHIELD naquele momento.
— Há uma célula terrorista que desenvolve armas de destruição em massa, tão estranhas quanto extremamente perigosas. Esse grupo é chamado de S.I.L.E.N.C.I.O. Eles utilizam como fachada a Corporação Além, um marketing estúpido, mas inteligente para manter em sigilo os reais propósitos da organização. Recentemente, eles desenvolveram uma arma biológica com potencial de devastação incomensurável. Talvez capaz de extinguir toda a humanidade. Com isso, o poder estaria todo concentrado nas mãos deles e ninguém ousaria não levar a sério as suas ameaças ou confrontá-los. Graças às habilidades de Daisy como hacker conseguimos encontrá-los, bem como descobrir o local em que eles haviam enterrado a tal arma, mas... Algo me dizia que havia sido muito fácil. Mesmo assim, a missão da SHIELD era neutralizá-los. A equipe de inumanos liderada por Daisy foi para a linha de frente. Conseguimos capturar a arma. Ela estava em minhas mãos quando tudo aconteceu...
O olhar de Fitz tornou-se distante, esquivo... Quase impossível de se ler.
— Mas se tratava de uma emboscada. Fomos traídos por um companheiro de equipe. Um inumano recém-admitido no time que trabalha para a S.I.L.E.N.C.I.O. Quem poderia acreditar? – uma risada sem humor partiu de sua garganta, deixando clara sua indignação com aquele fato – quando pensamos que a missão havia sido um sucesso... Na verdade, transformou-se em um fracasso retumbante. Falhamos miseravelmente.
Jemma o encarava perplexa, ouvindo em silêncio seu relato.
— Você não foi a única a sair ferida naquele dia. Elena Rodriguez, uma das inumanas do grupo de Daisy foi atingida... Houve danos permanentes em seus braços... Eles tiveram de ser amputados – ele engoliu em seco antes de prosseguir – olhando por esse ângulo, você teve mais sorte, Jemma. Levou um tiro de raspão de uma arma convencional para os padrões deles... Eu parei para ajudar Elena e, então... Um dos membros da organização estava prestes a atirar em mim, pois era eu quem estava em posse da arma biológica... Mas você se colocou na minha frente... Aquele tiro era pra mim, não pra você – concluiu, fazendo um esforço sobre-humano para reprimir as lágrimas.
A bioquímica permaneceu quieta por um instante.
— E é por isso que se sente tão culpado? – ela finalmente perguntou – por eu ter levado um tiro por você...? E por ter tido a chance de tirar a arma das mãos deles...
— Sim, eu falhei... Todos acabaram feridos de algum modo naquele dia. Você, Elena, Daisy por conta da traição de um membro de seu time, Mack pelo que houve com Elena, Coulson pela missão ter sido um fracasso... E eu por ter deixado a arma voltar para as mãos deles e por quase ter perdido você.
Fitz permaneceu de cabeça baixa, sem forças para olhá-la nos olhos. Jemma, por sua vez, o encarava com um semblante complacente, mas incerta do que deveria dizer. A mão dela encontrou a dele por sobre o balcão. Ao sentir seu toque, Fitz ergueu o olhar.
— Nada disso foi culpa sua, Fitz – o assegurou com um ar benevolente – a culpa foi daquele que nos traiu... Sinceramente, mais um traidor na equipe? – seu tom mudou de repente, expressando consternação.
— Um traidor na SHIELD tornou-se tão comum quanto o sol nascer todas as manhãs – o engenheiro encolheu os ombros, aparentando estar conformado com aquela situação.
— Como isso é possível? A SHIELD é composta de agentes treinados que possuem habilidades notáveis de espionagem. Como não identificamos traidores? Deveríamos treinar melhor nossos instintos.
— Talvez seja porque mesmo sendo agentes treinados, somos humanos... E nos afeiçoamos uns aos outros. Desconfiar dos amigos é difícil e extremamente doloroso.
Jemma suspirou, aborrecida. Se eles não podiam confiar nem nos amigos, em quem mais poderiam confiar?
De repente, ela se deu conta de que sua mão ainda estava sobre a dele e assim a manteve, agora com um aperto firme.
— Não deveria se sentir culpado.
Ele inspirou profundamente com um olhar vago.
— Eu não consigo... Eu estou tentando compensar. Eu construí braços robóticos para Elena, inspirados pela tecnologia que utilizei na criação da mão de Coulson. Sei que Stark e outros Vingadores estão furiosos por não terem sido alertados quanto à organização terrorista e suas armas de destruição em massa, que eles acham que estão mais preparados para lidar com isso do que uma equipe novata... E, no mais, acho que estou sendo punido justamente...
Fitz não precisou verbalizar, mas Jemma sabia que ele estava se referindo à sua perda de memória e a constante ideia de que ela estava decepcionada com o rumo de sua vida.
Ela contou até dez mentalmente. Não queria iniciar uma nova discussão. Eles já haviam sido feridos o suficiente.
Alheia àquela terrível e dolorosa realidade, Athena brincava com seu macaquinho de pelúcia no tapete no centro da sala. Ela dizia coisas incompreensíveis, como se estivesse tentando dialogar com seu bichinho inanimado.
Jemma procurou sorrir, mesmo diante de todas aquelas duras revelações.
— Foi você quem deu de presente a ela, não?
Fitz virou a cabeça para olhar na direção em que Athena brincava, sorridente.
— É tão óbvio assim? – ele forçou um meio-sorriso, mas a verdade é que, no fundo, estava exultante de certa maneira, ao se dar conta de que em determinados aspectos, Jemma ainda o conhecia bem demais. Primeiro com o sanduíche, depois ao mencionar o brinquedo favorito de sua filha.
— Sabe, ela fala de você o tempo inteiro, digo... Tenta falar de você o tempo inteiro – Jemma prontamente retificou – sempre perguntando se você já está voltando para casa... É incrível o quanto ela te adora.
O sorriso dele se ampliou.
— Eu... Fico pensando como deve ter sido... Quando descobriu que iria ser pai...? – ela estava genuinamente curiosa, mas ainda insegura de perguntar. Porém, aquele parecia ser o momento ideal.
— Eu fiquei terrivelmente assustado.
Foi a resposta que ela conseguiu obter. A boca de Jemma se entreabriu. Não era necessariamente o que ela esperava ouvir.
— Quer dizer, sim... Eu fiquei feliz. Mas não me sentia preparado. Foi tudo tão rápido. Eu não esperava que isso pudesse acontecer bem no nosso primeiro ano de casamento.
Ele fez uma pausa antes de continuar
— Nós tivemos uma lua de mel tardia em Seychelles, fomos meio irresponsáveis, acabamos nos empolgando naquela ilha, naquelas águas... – comentou com o olhar perdido, como se relembrasse com deleite daquele momento, até seus olhos entrarem em foco novamente e ele perceber que Jemma o encarava com uma sobrancelha arqueada e levemente boquiaberta.
Fitz pigarreou, seu rosto tingindo-se de um tom intenso de vermelho.
— Me desculpe.
Desconcertada, Jemma parou de encará-lo, ajustando o rabo de cavalo no alto da cabeça, apenas para disfarçar seu constrangimento.
— O fato é que... – ele tornou a falar – eu não tive uma figura paterna na qual poderia me inspirar, então isso me deixava apreensivo... Com medo de não saber o que fazer quando ela nascesse. Então, eu me lembrei do meu próprio pai, do que ele costumava dizer e fazer comigo...
Simmons recordava-se de Fitz lhe contando sobre seu pai quando eles eram mais jovens. Sobre os constantes abusos verbais, a falta de carinho e compreensão e de como ele o abandonou quando Fitz tinha apenas dez anos.
— E decidi que era nisso que eu iria me basear.
— O que quer dizer? – ela perguntou, confusa.
— Eu me lembrei de como meu pai agia comigo e decidi que, se eu queria ser um bom pai, deveria fazer exatamente o contrário do que o meu pai fazia – ele concluiu, olhando penetrantemente nos olhos de Jemma.
Ela não conseguiu evitar um sorriso singelo e compreensivo.
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