Notas iniciais
Nunca sei o que falar nas notas inicias, mas espero que vocês gostem da leitura. Criticas construtivas e elogios são bem-vindos.

As cores acinzentadas. O Fogo. O som da madeira queimando. O cheiro. As risadas de Thomas e Anthony.

Tudo aquilo ainda estava presente em sua memória, as lembranças eram frescas e reais.

E tudo era culpa dela.

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Não sabia se tinha feito certo em mudar-se para a fria e distante cidadezinha onde sua tia morava, mas tinha certeza de que isso era necessário para os seus pais. Natalie não queria ter vindo, mas a verdade é que não sabia como encarar a antiga realidade novamente. Os antigos amigos. Os antigos colegas. E até mesmo seus pais. Todos iriam recebê-la com o mesmo olhar no rosto... de pena. E ela precisava recomeçar. É, recomeçar seria bom para ela. Primeiramente pela escola. Não podia cometer os mesmos erros que cometera no passado. Não dessa vez.

Respirou fundo, abrindo os grandes olhos verdes e deixou que a leve brisa de fim de verão balançasse seus cabelos pretos ainda platinados nas pontas, dissipando os pensamentos tenebrosos de sua mente. Pegou sua mala e a maleta com seu violino do interior do táxi e se dirigiu a entrada da antiga casa cor de vômito, onde sua tia a esperava com os braços abertos.

Abriu um sorriso fraco nos lábios e se deixou ser abraçada pela tia. A mulher estava envelhecida pela idade, porém ainda tinha o mesmo cabelo loiro encaracolado que caia sobre seus ombros, o mesmo cheiro de mel e o mesmo olhar radiante que a jovem Natalie se lembrava de sua infância. Ela não a via fazia anos, e agora estava de volta a convite da tia. Depois de tudo o que aconteceu, já era previsível esse convite.

- Ah, Natalie! Como você cresceu... e está tão bonita! – disse a mulher observando a garota de baixo para cima.

- Tia Rosaline, que saudades – disse a garota.

- Vamos, entre. O Puff está na pet shop, mandei ele tomar um banho para lhe receber.

Puff era o gato de Tia Rosaline, ele era cinza e tinha uma mancha preta sobre o olho direito. Natalie se impressionou que ele ainda estivesse vivo.

A garota entrou na casa observando cada detalhe. Aquele lugar estava exatamente como se lembrava. A cor pastel das paredes, as cortinas beges encardidas, o sofá bordô de veludo, a mesinha de centro de madeira velha, a pequenina televisão sobre a estante de madeira com o videocassete em uma de suas prateleiras, e, por fim, o quadro com a foto de sua tia e seu falecido tio, pendurado em um local de destaque na sala. E tinha o cheiro. O cheiro de casa antiga era maravilhoso. Tudo em seu devido lugar.

Rosaline andava por um longo corredor, conduzindo sua sobrinha até uma porta branca com flores desenhadas em dourado. A mulher girou com cuidado a pequena e delicada maçaneta dourada, abrindo a porta e revelando o quarto em que Natalie passaria todas as noites do resto do ano.

Era lindo.

As paredes eram brancas e limpas, o quarto era gigantesco, os móveis eram cor de creme e dourados, as cortinas eram de seda roxa, a cama era enorme e havia um edredom roxo sobre a mesma. E ainda havia um banheiro só para ela. A luz do sol atravessava a grande janela que dava para a parte dos fundos da casa... o quintal.

Sua tia entrou no quarto e colocou a mala preta e surrada junto com a maleta do violino ao lado do guarda-roupa. Ela sorriu.

- Sua mãe disse que você gostava de roxo, então comprei esse edredom. Espero que goste.

- Está perfeito, obrigada – Natalie sorriu. Um sorriso fraco, e pequeno, mas ainda sim um sorriso.

- Acho que você gostaria de ficar sozinha agora.

Na verdade, ficar sozinha era exatamente a última coisa que Natalie queria no momento. Precisava de algo que a distraísse, precisava de algo que afastasse aquelas lembranças de sua cabeça. Durante todo o verão aquelas memórias a assombravam, em seus sonhos e nos breves momentos em que seus pais deixavam-na sozinha. Tinha passado tanto tempo relembrando aquela noite, e tentando acreditar no que as pessoas lhe diziam: que a culpa não era dela.

- Se precisar de algo é só chamar – disse Rosaline. – E Natalie... Sinto muito pela sua perda. – A garota assentiu com a cabeça observando a porta se fechar. Aquelas eram as piores palavras que sua tia poderia ter dito. E dessa vez aquele olhar estava estampado no rosto da mulher. A garota tinha vindo de tão longe para fugir dos rostos das pessoas com esse olhar, mas não importava aonde ela fosse. Aquele olhar a perseguia. Aquele maldito olhar de pena.

Após a tia ter deixado o quarto, Natalie arrumou suas coisas e pegou o seu caderno. Observou-o em suas mãos pequenas e ásperas. Lembrava-se da época em que ela o folhava animada, da época em que ela escrevia nele suas músicas até a sua mão começar a doer. E, inevitavelmente, o seu objeto mais precioso lembrava-a deles. Lembrava-a das risadas de Anthony em sua nuca, as mãos dele apertando sua cintura, o sorriso inocente de Thomas, e, de repente, chamas.

A garota não estava pronta para voltar a folhear o pequeno caderno preto, fechou os olhos sentindo sua visão ficar embaçada por conta das lágrimas que brotavam em seus olhos. Estava cansada de chorar. Estava cansada de tudo. Abraçou seu precioso objeto de capa dura, e fez o que lhe restava a fazer.

Dormir.