Notas iniciais
Mais uma vez, sinto muito por demorar tanto ;^; Mas torço para que a estória esteja ao seu agrado ; ;

Uma brisa suave invadia o quarto pela janela meio aberta, acariciando o rosto do rapaz. Em meio a uma série de devaneios, ele suspirou. Não era lá fã daquele cheiro asséptico, típico do hospital. E antes disseram que poderia frequentar as aulas normalmente, droga... Mas bem... Provavelmente o que mais estava afetando o austríaco no momento fosse o tédio. Se ao menos pudesse tocar, ou apenas ouvir um pouco de música estaria um pouco melhor. Estava tão disperso que não notou a pessoa de voz tímida ao seu lado, até ter a manga levemente puxada.

– ... Uh? Algo errado, Lily? — Perguntou à enfermeira, que com a mão livre segurava uma prancheta contra o peito. Ela balançou a cabeça negativamente, com um sorriso leve nos lábios.

– É que... tem uma visita pra você... — Recebendo um olhar aparentemente curioso do paciente, a garota foi até a porta, abrindo-a. Uma presença albina de aspecto animado entrou no quarto, ainda que evitasse fazer barulho — ainda estavam em um hospital afinal.

– Fala, engomadinho. Como está? — A chegada dele fez o austríaco arquear uma sobrancelha. Não era exatamente a pessoa que ele esperaria que fosse visitá-lo. Acabou por não responder à pergunta, deixando o silêncio pairar no local. Olhou um pouco pela janela. Havia uns poucos pardais na árvore próxima. Tendo sido deixado no vácuo, o prussiano emburrou um pouco.

– Ei, não me ignore só porque é rico. — Roderich demorou uns instantes a mais antes de voltar o olhar para ele, apenas fazendo uma pergunta:

– Estão todos bem? — Tão logo o albino pronunciou um “que”, o austríaco repetiu a questão, complementando-a — Estão todos bem? É realmente inconveniente de minha parte ficar doente no meio do ano.

Gilbert coçou a nuca com a mão livre. O outro parecia mesmo preocupado. Mas deu de ombros, respondendo a pergunta:

– Nah, como se alguém previsse quando iria ficar doente. Seguinte: Como eu estou te devendo uns favores aí, me incumbiram de entregar as lições. — Aquilo arrancou do austríaco um sorriso um tanto desconfiado.

– Gilbert, eu te conheço. Por que não fala que queria me ver? Seria bem mais cavalheiro do que com essa desculpa esfarrapada. — Aquilo aparentou causar um leve rubor na face do prussiano, visível devido a sua pele albina.

– Nein! O que eu disse é verdade, vai se ferrar!!

– P-por favor, não grite... — Disse a pequena Lily erguendo um pouco as mãos, preocupada. Roderich não se incomodou, soltando um suspiro mesmo que ainda sorrindo um pouco.

– Aparentemente já estou ferrado.

“Droga...” — Pensou o albino antes de largar as lições no colo do austríaco e sair do quarto, sem dizer mais nada.

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Naquele lugar, pouco se ouvia os carros passando lá embaixo. O paciente estava dormindo, num sono tranquilo. Num sonho embalado ao som de um violino. Era agradável, aquela melodia. Porém antes que pudesse identificar o violinista, foi acordado por papéis sendo derrubados em cima de seu rosto.

– Mas que diabos? — Levantou bruscamente, derrubando os papeis pelo chão. A sonolência combinada à ausência dos óculos deixava sua vista terrivelmente embaçada, mas pôde reconhecer a voz do visitante:

– Calma aí, almofadinha. Não vá piorar sua situação. — Sorrindo, o prussiano recolheu os papeis e sentou ao seu lado, entregando-os. — As lições. Não pense que não vai precisar delas só por ser um cdf. — Riu, com a intenção de provocá-lo. O outro devolveu com um sorriso irônico, rebatendo a provocação.

– Ainda estou melhor que você. — Mostrou as anotações que o albino trouxera no dia anterior, essas com os erros corrigidos à caneta. Isso resultou em um albino emburrado, fazendo bico. O austríaco riu, folheando as páginas — Você nunca foi bom em matemática.

– Diz o marmanjo que não faz educação física. — Tal comentário fez Roderich arquear uma sobrancelha, demorando alguns segundos para dar uma resposta.

– ... Você sabe bem por que eu não fazia. — O prussiano bufou. Sabia que tinha pisado onde não devia, mas ainda assim não voltou atrás.

– Hunf. O que eu quero dizer é que nem todo mundo pode ser bom em todas as coisas.

– Mas precisa fazer um esforço se não quiser continuar a ser chamado de delinquente e repetir mais uma vez. — Aquilo rendeu ao albino um silêncio incômodo, como o de algo sufocado na garganta. O austríaco acertara em cheio — Toquei uma ferida?

Gilbert levantou bruscamente, irritado e pegando de volta os papeis.

– Não é nada. Vou consertar os erros. — E saiu do quarto sem olhar para trás. Roderich suspirou, porém sorrindo um pouco. Tornou a tirar os óculos, deitando e voltando a dormir.

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Aqueles momentos se repetiram por dias. E logo, por algumas semanas. Os erros nas anotações do prussiano diminuíam, mais pela vontade de provocar o outro do que por querer estudar. De qualquer forma, não era desagradável. Em um ou outro dia, conseguiam conversar quase tranquilamente. Por vezes Gilbert deixava o austríaco a par do que acontecia na escola durante sua ausência. Também nesse período, o albino descobria de pouco em pouco sobre a condição do colega de classe. Sobre sua doença cardíaca que ele carregava desde pequeno, e como a situação se agravara a ponto de cogitarem um transplante. Porém não estavam encontrando um doador, e foi a demora o que causou a internação do austríaco. De qualquer forma, a situação dele parecia ter estacionado.

Era domingo. Gilbert não tinha anotações que precisasse levar para Roderich. Mas passando numa banca encontrou um daqueles mangás que Kiku costumava ler. Deu uma folheada e achou interessante, então... Por que não? Pagou e colocou numa sacola, rumando ao hospital. De tanto que já visitara o austríaco acabou memorizando o caminho até seu quarto, sem precisar olhar nenhum dos avisos pelo caminho. No entanto, quando chegou ao local... Estava vazio. Como assim? Perguntou-se se ele havia recebido alta, mas não tinha sido avisado de nada... Enquanto o albino estava entre esses pensamentos, a enfermeira que cuidava de Roderich passou pelo local, dirigindo-lhe a palavra.

– Uh... Está procurando o sr. Edelstein...? Se estiver, ele está na sala de piano...

“Sala de piano? Esse hospital tem algo desse tipo?” — Foi o que passou pela mente do albino, mas deu de ombros. Se estava bem o bastante pra tocar piano devia ter melhorado. E se tinha melhorado, era apenas questão de tempo até que voltasse à escola.

– Onde é essa sala de piano?

– Ah, eu... Se quiser posso levá-lo até lá... — Com um sorriso tímido, Lily seguiu à frente dele, indicando o caminho. Ficava feliz com as visitas dele. Faziam bem a seu paciente.Não demorou até chegarem ao local, e quando ela abriu um pouco a porta pôde-se ouvir uma melodia suave, que preenchia os ouvidos e acalmava a mente. Gilbert entrou, sem dizer nada para não atrapalhar o momento. Assim ficou lá, apreciando a música, até que o austríaco simplesmente parou de tocar.

– ... O que está esperando? Venha. Sente. — O albino demorou alguns instantes, mas atendeu ao pedido. Pegou um banquinho, colocando-o ao lado dele e sentando, observando as teclas brancas e pretas do instrumento. Roderich estava com um sorriso leve, que o prussiano poucas vezes vira desde que o outro fora internado.

– Sabe tocar? — A pergunta pegou Gilbert desprevenido, ao que ele rapidamente tentou disfarçar.

– C-claro! Não seria awesome se oresama não soubesse, e-

– Então... quer tocar um pouco comigo?

– ...

O albino ficou olhando para o piano com um sorriso nervoso, pensando em alguma resposta provocativa. Ora, se fosse violino ou flauta daria um verdadeiro show àquele mauricinho. Mas piano... A despeito do nervosismo do outro, o austríaco carregava um sorriso calmo. “Você não sabe, não é?”. Não perguntou em voz alta, mas segurou umas das mãos de Gilbert sem se importar com o breve susto que o gesto o causou.

– Aqui. — E então, a um pouco de contragosto do albino, começou a ensiná-lo. Não fora desagradável, e ficaram ali mais algumas horas até que Lily precisou levar o austríaco de volta ao quarto. Gilbert se esqueceu de entregar o mangá, mas acabou não se importando. E aquelas aulas se repetiram por mais alguns dias, que foram bons momentos de calmaria.

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Como já era de rotina, Gilbert ia levando as anotações para o hospital. Até se deixava cantarolar uma canção pelo caminho, assobiando distraído. Assim que chegou, se dirigiu ao elevador subindo até o andar onde estava o austríaco. Entretanto, mal teve tempo de tocar a maçaneta. Foi empurrado subitamente para o lado, em uma confusão de vozes altas. Pôde ver uma maca sendo levada às pressas pela equipe médica, e deitado inconsciente... Roderich. A enfermeira saía do quarto aflita.

– Mas... quê...? — Foram as únicas palavras que escaparam dos lábios do albino. Sua expressão incrédula não passou despercebida por Lily, que apertou com força a prancheta contra o peito. Hesitando entre seguir com a equipe e falar com ele — afinal, as visitas dele eram constantes — preferiu ser breve e lhe dar o parecer da situação.

– Sr. Beilschmidt... D-desculpe, mas sinto que o Sr. Edelstein não poderá vê-lo desta vez. — Ouvir aquilo fez com que o prussiano amassasse um pouco as anotações, inconscientemente.

– ... O que farão com ele?

– Uma cirurgia arriscada. Ele teve uma súbita piora, mas... esperamos que seja apenas um susto... — Sentindo que já passou tempo demais, desculpou-se novamente, correndo para a sala de cirurgia. Quando ela deu as costas a luz do corredor deu uma falha, o que Gilbert interpretou como um sinal do que aconteceria com Roderich.

É estranho pensar que a qualquer momento uma cena típica de filme pode acontecer conosco; mas lá estava o albino, encarando a porta com desgosto. Seus pensamentos desfocados, além da angústia e do ódio reprimidos não o permitiram se mover por alguns minutos. Mas então, propositalmente amassou as anotações numa bola de papel, jogando-as no lixo com raiva. Não acertou, porém não parou para recolher. Saiu do local às pressas, com passos severos.

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Não era algo que Gilbert conseguisse engolir. O som monótono do aparelho que monitorava os batimentos cardíacos. Todos aqueles fios e tubos, a máscara de oxigênio cobrindo o rosto do colega de classe. Lily tinha dado pessoalmente a notícia que a cirurgia fora um sucesso, e que ele iria sobreviver... Mas era óbvio que não por muito tempo. Gilbert sentia ódio do coração tão fraco que batia no peito do austríaco. Se fosse mais resistente não o deixaria naquela situação. E se Roderich morresse, quem mais ele iria perturbar, droga...

Porém o albino sabia. Sabia que era mais que isso. Com um olhar entre a indiferença e o ódio, tirou da mochila uma folha de papel, estendendo-a em frente ao austríaco inconsciente.

– ... Justo você faltando na prova, mauricinho maldito... Mas olha... Tirei 10, está vendo? Quem aqui nunca foi bom em matemática mesmo? — Não houve reação alguma. Como esperado, mas isso não deixou de irritar o albino. Apertando a prova, balançou-a em frente a Roderich, diminuindo o tom de voz sem perceber.

– ... Não vá me deixando no vácuo só porque é rico. Não pense que pode ir embora e me deixar pra trás só porque me chamam de delinquente. Nem sonhe com isso. — Sacudia a prova com força, tanta quanto a que precisou pra evitar duas lágrimas de escorrerem.

– ... Acorda, seu maldito. Acorda. — Afundava o papel nos dedos. E foi inevitável que uma das lágrimas escapasse de suas tentativas de controle.

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O som de um violino invadia o lugar. Ele se via sentado numa plateia vazia exceto por ele próprio, assistindo ao concerto de um violinista. De início, ele não pôde reconhecê-lo. Era como se uma sombra encobrisse seu rosto. Porém, aos poucos... E então seus olhos se arregalaram por trás dos óculos, por enfim descobrir a fonte daquela música tão bela. Qualquer palavra que poderia dizer morreu em sua garganta, o que não desagradou o músico. Com um riso provocante e um pouco zombeteiro, ele cessou um pouco o concerto, dirigindo-lhe a palavra:

– Bem vindo de volta, engomadinho.

Uma luz forte invadia o quarto pela cortina aberta, machucando os olhos do rapaz conforme estes se abriram. Em meio à lembrança do sonho, ele suspirou. Por quanto tempo dormiu? Não... “Dormiu” não era bem um termo adequado, ele achou. De qualquer forma... Não se importaria de ouvir aquele violinista mais um pouco. Não pôde deixar de sorrir. Contaria sobre tal sonho a Gilbert, assim que ele aparecesse para visitá-lo. Estava tão disperso que quase não notou a pessoa de voz tímida ao seu lado, que parecia estar quase chorando de felicidade.

– Sr. Edelstein...

– Uh? Lily...? — Demorou um instante, mas acabou dando-lhe um sorriso calmo. Não sabia por quanto tempo esteve apagado, mas era certo que a preocupou. Será que Gilbert sentira o mesmo? Bem, poderia perguntar quando ele aparecesse — Bom Dia... O que aconteceu?

– Eles... Conseguiram encontrar um doador... A cirurgia foi feita ontem... — Por um momento, o austríaco parecera incrédulo. Então finalmente... depois de tanta espera... — O senhor precisará ficar mais um tempo em observação, mas logo poderá voltar à escola...

– ... E Gilbert...? Ele veio enquanto eu estava inconsciente? Sabe do transplante? — Foi estranho. A simples menção ao albino pareceu fazer o sorriso da enfermeira murchar. Ela baixou a cabeça, apertando a prancheta num gesto típico de quando estava nervosa. Confuso, o austríaco inclinou um pouco a cabeça, buscando olhar em seus olhos. — ... Algo errado, Lily?

– O sr. Beilschmidt... Ele...

– Sim...? — E o que a enfermeira disse em seguida fez com que Roderich sentisse como se seu novo coração, por um instante que pareceu um século, parasse de bater.

– ... Ele foi o doador...

Notas finais
*escondida numa caixa de transporte de queijo* ; ; ..... Obrigada por ter lido ;u;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!