Notas iniciais
Espero que gostem ^^

Fragmentada. Era como Beladonna se sentia após aquela luta contra alguns Lýkos que se reuniam na cidade de Portland. Geralmente, após uma boa luta, a garota ia até o seu quarto, queimava as roupas sujas de sangue, pagava as contas do hotel em que passara as noites com o dinheiro que Emma arranjava para ela, pegava sua moto no estacionamento e ia embora da cidade antes que a polícia a colocasse no local dos supostos “crimes”. Mas aqueles lobos imbecis conseguiram deixa-la em pedaços – tanto mentalmente quanto fisicamente.

Bela sabia que o mais sensato era ir embora antes que algum mortal idiota encontrasse os corpos – ou o que sobrou deles – e chamasse a polícia, mas seu corpo pedia por cuidados, seu estômago clamava por qualquer tipo de comida e sua mente rodava com pensamentos do que o chefe daquela gangue havia dito.

“Você não tem mais porque lutar. Não têm um lar, não tem amigos. Você não pertence a lugar nenhum. Você está resumida á NADA. Seu destino é viver assim, nos caçando e, no fim, vai morrer sozinha e não será lembrada.”

A voz ainda estava clara na mente da jovem caçadora, fazendo-a fechar os olhos. Para ela, aquilo era verdade. Ela não tinha família, seus pais haviam sido mortos quando ela era uma criança. Não tinha amigos, porque quase nunca parou em um mesmo lugar por muito tempo, e quando o fez todos fugiam dela. Não tinha um lar, vivia em cima de sua moto e dormia em hotéis de beira de estrada. E não pertencia a lugar nenhum. Não era totalmente humana, mas também não era uma das Imortais. Era um meio termo. Uma caçadora.

Bela sempre soube que a vida de caçadora era solitária. Sua energia atraia seres das sombras sempre que ela parava muito tempo, suas caçadas sempre a faziam ser perseguida pela polícia e as pessoas com quem ela conversava nunca estava realmente perto dela. Eram projeções ou vozes atrás de um celular.

Mas ela nunca se dera conta de como aquilo doía.

Estava no pequeno banheiro que o quarto possuía, um nécessaire aberto encima da pia enquanto ela se automedicava. Para não gritar de dor, Beladonna amarrara uma camiseta na frente da boca e a mordia com força cada vez que passava a agulha e o fio de sutura de um lado ao outro do corte na sua têmpora. Quando acabou, fez um curativo por cima dos pontos e se empenhou em tirar todo e qualquer resquício de sangue do local.

Não foi fácil, nem rápido. Limpou o carpete, separou as roupas ensanguentadas em um saco plástico, limpou seu facão, reorganizou as armas, jogou montes de algodão fora e se certificou que tudo estivesse devidamente trancado antes de se jogar na cama de colchão duro. Seus olhos estavam pesados, mas o estômago doía muito mais: não comera nada por quase vinte e quatro horas e precisava urgentemente colocar algo para dentro. Puxou de debaixo do móvel uma bolsa térmica, mas lá dentro só havia uma garrafa de água quase vazia e alguns papéis de fast food amaçados que deveriam ter ido para o lixo.

Ela resmungou baixinho e pegou seu celular na gaveta do criado-mudo. Sabia que, tecnicamente, não deveria possuir um celular. Eles eram facilmente rastreáveis tanto por humanos quanto por imortais, mas era o único jeito dela não enlouquecer entre uma caçada e outra. Por um segundo, ela hesitou entre dois números.

Um deles era de uma Mortal que conhecera alguns meses atrás quando Bela salvou-a de um vampiro num beco em LA, chamada Isabela. As duas mantinham contado sempre que a caçadora tinha uma chance, mas Beladonna não estava certa se Isa poderia ajuda-la naquela noite. Mesmo assim, a jovem decidiu mandar uma mensagem.

Oi Isa. Você está bem? Espero que sim.

Estou pensando em ir para LA na semana que vem. Escutei alguns rumores sobre cães infernais por aí e acho que vale a pena verificar. Quero testar aquela minha faca de bronze que peguei emprestada de Maia... enfim.

Se eu realmente for parar aí na sua cidade, te ligo.

Fique bem e mantenha seu pescoço longe das presas nojentas daqueles vampiros. Nos veremos em breve, e isso é uma promessa.

O outro número nos contatos era o de Emma. Emma era uma das mulheres que Beladonna mais admirava em todos os Mundos – e Bela conhecia muitas mulheres e muitos mundos­. Emma era uma agente do FBI e sua equipe conhecia a verdade sobre monstros, imortais... sobre tudo. Se tinha alguém que podia ajudar a caçadora, esse alguém era Emma. Apertou o botão para iniciar a chamada e esperou, rezando para que a amiga não estivesse em algum caso.

— Agente especial Murier — Emma atendeu. Bela sorriu, esquecendo por um momento das palavras do Lýkos;

— Emma? — A voz da caçadora saiu fraca — Preciso de ajuda.

*

— Está tão bom assim? — Emma riu ao perguntar. Seus cabelos negros e compridos estavam soltos, o que era raro, e seus olhos verdes acompanhavam Beladonna devorar um McLanche Feliz. A adolescente riu e parou entre uma mordida e outra para tomar fôlego.

— Desculpe — Pediu, ao se dar conta de que nem oferecera. Emma agitou a mão.

— Sem problemas. Estou sem fome alguma.

Beladonna conhecia aquele tom de voz. Reconhecia-o em si mesma.

— Algum caso? — Perguntou, momentaneamente esquecendo do sanduíche. Emma olhou para os olhos violetas da adolescente e, não pela primeira vez, a agente se surpreendeu com o quanto a garota já vivera em apenas 16 anos. Beladonna percebia quando algo estava errado só de escutar a voz da pessoa.

— Um. Estamos tentando resolver, mas ‘tá bem difícil.

— Já conversou com o Jonny? — A garota perguntou. Jonny era um Imortal que vivia na Terra e servia de consultor quando Emma e a equipe não sabia determinar com o que estavam lidando.

— Ainda não.

Beladonna terminou de comer em silêncio, pensativa. Emma a observou também em silêncio, se perguntando quando ela crescera tanto. A caçadora estava uns trinta centímetros mais alta do que da última vez que conversaram, e seu cabelo negro como o breu passava um pouco da altura de seus ombros. A menina era bem jovem, tinha apenas 16 anos, mas já enfrentara muita coisa. Em seu rosto, círculos quase negros por baixo de seus olhos denunciavam que a menina quase não dormia, ela estava muito mais pálida e magra e o machucado em sua têmpora era só mais um entre os muitos que as roupas pesadas de couro escondiam. Emma se preocupava que o próximo caso que pegaria seria para achar o assassino de Beladonna.

Emma ainda estava pensando nisso quando a menina tentou esconder um bocejo, mas era difícil. A agente sorriu e se levantou.

— Vamos. Pode dormir na minha casa por uns dias.

— Posso perguntar uma coisa primeiro? — Pediu. Emma se surpreendeu com a voz de Bela. Era um sussurro embargado. Voltou a se sentar e pegou a mão da menina nas suas.

— Claro. Qualquer coisa.

— Você acha que eu não pertenço a lugar nenhum? Que eu sou... um nada? Que... que se eu sumisse ninguém notaria?

Emma sentiu um nó no fundo de sua garganta. Ela sentia a dor daquelas palavras, e seu coração apertava ao notar que a menina guardava aquilo para si por anos.

— Quem te disse isso, Don? — Se qualquer outra pessoa a tivesse chamado de “Don”, a menina iria reclamar. Mas não com Emma.

— Um chefe de uma gangue de Lýkos que eu enfrentei hoje. Ele disse que eu viveria para matar Strófis, mas que isso não importava, porque eu não tenho...

— Ninguém? Não importa por que ninguém sabe o que você faz? Foi isso que ele disse? — Bela acenou com a cabeça, sentindo uma lágrima descer rolando por sua bochecha. Ela tentou esconder, segurar o choro, mas logo outra lágrima desceu, e outra e mais outra. Emma se sentou do lado dela e a abraçou. — Você é muito nova para enfrentar tudo isso sozinha, Don. Mas você não está sozinha, nunca esteve; Você tem eu e minha equipe, tem aquela sua amiga em Las Vegas, tem a irmandade... Muitos se preocupam com você, Bela.

— Mas eu não sou humana, nem Imortal... — A voz de Bela estava mais calma. Ela sentia os braços de Emma em volta de si e sentia a medalhinha de São Miguel que a agente carregava em uma corrente bater contra sua testa. Era uma sensação boa.

— E é isso que te faz especial, pequena. Não percebe? — Perguntou, sorrindo.

— Faz?

— Claro! Você é parte imortal e parte humana. Você faz parte dos dois mundos, Don. E você tem quem se importe em ambos os mundos.

Beladonna sorriu. Não se sentia mais fragmentada e quebrada, mesmo que ainda doesse um pouco. Agora ela se sentia completa, parte de ambos os mundos.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer. E não se esqueça, Don. Você ainda é jovem, tem muita coisa para viver, muitas pessoas para conversar e muitas vidas para salvar. Você é uma caçadora. Você mantém a paz entre todos nós.

Se levantaram do lugar e já iam saindo da lanchonete quando Beladonna lembrou-se que deixara o brinquedo que vinha junto com o lanche em cima da mesa. Voltou correndo e o pegou antes que fosse tirado dali. Quando já estava no carro com Emma, ela estendeu-o para a agente.

— Você tem uma afilhada, não tem? Dê isso à ela. Acho que ela vai gostar.

Emma sorriu e pegou a embalagem plástica. Sabia que Dominique amaria aquele pequeno bichinho de pelúcia. Quando virou-se para agradecer, viu que Beladonna havia caído no sono ali mesmo.

— Boa noite, Don.

Notas finais
♥ Obrigada por ler até aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!