Notas iniciais
Conforme prometido, o capítulo 09.
Provavelmente teremos capítulos mais curtos agora, mas ainda não posso afirmar que todos serão menores. Vamos ver se consigo manter um ritmo!

Quando Patch chegou daquela forma no apartamento, correndo, com desespero em seus olhos, eu já sabia que algo muito sério tinha acontecido. Ele estava inteiro, saudável, e Rixon vinha atrás dele com as mãos nos bolsos e uma expressão de desalento, o que indicava que os arcanjos não estava chegando no elevador. Mas havia algo errado, e a forma como os olhos dele ficaram sombrios de repente, como se contivessem uma tempestade.

Ele não precisou me contar o que era. Eu soube no momento em que ele segurou-me pelos ombros e correu os dedos por meus braços; a pressão que eles exerciam sobre minha pele estava errada. Eu soube enquanto nossos corpos ainda estavam próximos demais para que eu pudesse sentir seu diafragma subir e descer e contar as batidas do seu coração.

— Por que, Patch? — Perguntei, um pouco aturdida demais com a realização daquela verdade. Eu já tinha me acostumado com um Patch com sentidos, eu não queria que ele perdesse aquilo.

— Porque nossa filha está em perigo, e eu faria qualquer coisa para protegê-la, Nora. — Ele explicou, mesmo que não precisasse. Bem, eu sempre demandava explicações, exigente como de costume. Mas Patch sabia que não precisava justificar nada que ele fizesse por Rose.

Rixon e Vee não ficaram conosco por muito tempo. Os nossos sentimentos estavam todos misturados, confusos, desconexos. Afinal, Rixon não deveria entender como Patch poderia abrir mão da bênção. Ele desejava aquela bênção; ele queria ser humano mais do que tudo. Sem ter a experiência da paternidade, Rixon não poderia compreender bem o amigo. Quanto a Vee, ela estava diariamente com um anjo sem sentidos, e desejava saber como seria se tudo fosse diferente. E Patch parecia tão desolado com a escolha que ele precisou fazer quando realmente deveria estar. Afinal, ele desistiu de tudo pelo que ele tinha lutado antes de me conhecer exatamente por ter me conhecido.

— Por que você precisou fazer isso? — Eu tinha que entender. Estávamos na sala, e Patch de costas para mim, sem camisa, com os jeans escorregando pelos quadris, parado na janela observando a noite densa. Era tão tarde, mas ninguém conseguiria dormir, mesmo.

— Eu me lembrei o quanto fico frágil com os meus sentidos. — Ele respondeu, sombrio, sem virar-se. Os músculos de suas costas pareciam tensos na penumbra do luar, mas eu sabia que ele não os flexionava mais. Patch não tinha mais sentidos e não responderia mais aos estímulos humanos como um… humano. Torci os lábios. Eu não sabia o que pensar daquilo, não com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. — Eu seria uma presa fácil para qualquer um dos nossos inimigos, e eu precisei tomar uma providência. Agora estou forte, sou suficiente para manter vocês duas em segurança.

— Eu também posso me proteger, afinal eu também sou um Nefilim.

— Você nunca fez a transição, Nora. — Patch franziu o cenho e então me encarou. — Você é uma mulher com características especiais, mas você nunca fez o juramento.

— E eu preciso jurar para ser o que eu sou?

— Sim, precisa. — Ele caminhou em minha direção, ainda parecendo muito tenso, e colocou as duas mãos nos meus quadris. Senti eletricidade percorrer meu corpo inteiro e eu sabia que aquele sentimento era unilateral. — E eu não vou deixar você fazer isso. Você não precisa ser um deles, nunca.

— Se for para proteção de Rose, eu…

— Eu protejo vocês. — Patch deu sua palavra final. Eu não tinha entendido bem o que significava aquele juramento que eu teria que fazer para me tornar um Nefilim; afinal eu já era uma mistura de anjo e gente. Mas ele parecia tão seguro do que dizia e tão decidido quanto ao fato de que eu nunca faria qualquer coisa que pudesse me transformar em um Nefilim que achei melhor não questionar mais nada. Eu ainda estava atordoada com o fato de que não veria mais Patch desmanchar-se de prazer em minhas mãos, e aquilo ainda não tinha sido digerido direito.

Não havia mais clima para conversa. Mamãe estava no quarto com Rose, e eu sabia que ela provavelmente não acordaria mais naquela noite. Fomos para a cama, mas nós não dormiríamos. Não dava para fechar os olhos sabendo que os arcanjos poderiam, a qualquer momento, invadir minha casa e levar a minha filha. Mesmo sabendo que Patch estava praticamente indestrutível, seria ele capaz de derrotar os arcanjos? Eu temia Azrael, e ele parecia temê-lo também. Era um tipo de medo diferente, que não era respeito ou temor real, mas era aquela sensação de que Patch sabia com quem estava lidando.

O dia seguinte foi uma droga, e o seguinte também. Passaram-se três dias até que as coisas supostamente voltassem ao normal em casa, quando finalmente conseguimos superar algumas coisas. Eu trabalhava, Patch continuava com a ideia fixa de conseguir um emprego “honesto” que pagasse as contas, mamãe estava resignada com o fato de que não ditava as regras na minha casa, e Rose não fazia a menor ideia do que acontecia. Rixon e Patch passaram a ter encontros suspeitos, mas eles afirmavam que estavam apenas traçando estratégias caso os Nefilins atacassem. Mas eu sabia que a ideia era outra; que eles tinham outros planos em mente.

As minhas preocupações poderiam desaparecer por completo se Patch passasse mais tempo ao meu lado. A presença dele me transformava tanto que eu não conseguia pensar em muita coisa além dele. Ele me consumia. Aquilo era meio doentio, eu sabia, mas as idas e vindas do nosso relacionamento deveriam ser responsáveis por aquilo. Naquela noite, quatro dias depois da perda dos seus sentidos, ele parecia interessado em me fazer esquecer qualquer coisa. Chegou em casa com ingressos para um evento beneficente que estaria sendo organizado por um de seus “clientes” do poker e determinou que iríamos sair para jantar, dançar e nos divertir. Eu não sabia que Patch gostava de nada daquilo, mas ele estava falando sério.

Não foi difícil convencer mamãe a ficar com Rose porque ela gostava de ser necessária. Eu só tinha que deixá-la bem alimentada para que ela pudesse passar bem a noite, e deixar um pouco de leite preparado para qualquer eventualidade. Não gostava muito de tirar o leite com aquela bomba de sucção; era incômodo e desagradável. Fazer aquilo na frente de alguém, então, nem pensar. Mas a ideia de sair com Patch e passar uma noite como namorados, livre das minhas paranoias e ciúmes estúpidos, parecia boa demais para ser verdade.

Depois de tanto tempo grávida e depois da recuperação do parto, eu não sabia se tinha alguma coisa decente para vestir. Eu nem sabia que jogadores viciados em poker faziam eventos beneficentes, mas deveria ser alguma coisa chique, e eu nem tinha um vestido adequado. Tomei um banho quente e esvaziei meu guarda-roupas em busca de uma roupa que eu pudesse usar naquela noite. Os vestidos ficaram espalhados por sobre a cama, alguns caídos pelo chão, e eu não parecia ter nada que me servisse naquele momento. Estava tão distraída, absorta na minha tragédia pessoal, que não ouvi o chuveiro desligar nem percebi Patch sair do banheiro enrolado na toalha branca, pingando água pelo quarto. Eu não teria prestado atenção nele se ele não chegasse por trás de mim e me envolvesse em um abraço molhado.

— Você pode optar por qualquer um. — Ele sussurrou em meus ouvidos. — Eu vou arrancá-lo com os dentes no final da noite, mesmo.

— Eu deveria ter pensado nisso antes. — Franzi os lábios. — Queria um vestido bonito, para usar com você nesse evento. Os ingressos dizem traje gala… que tipo de jogador viciado de um bar pulguento oferece um baile de gala em prol de crianças portadoras de deficiência mental?

— Ele é um bom homem, muito rico. — Patch riu. Senti seus lábios se esticarem em contato com meu pescoço. Suas mãos já tinham arrancado a toalha que me cobria e já estavam tocando meu abdômen. Eu podia senti-lo pronto para me jogar na cama e fazer sexo comigo. Ele demoraria cinco minutos e me deixaria completamente enlouquecida. Nunca descobri como ele fazia aquilo; provavelmente estava relacionado ao fato de ele ser um anjo. — Vista o vermelho, anjo. Ele combina com seus cabelos, e mostra suas pernas lindas.

— Você quer mesmo que eu me vista? — Brinquei.

— Eu quero passar outra noite fazendo amor com você sem parar, mas também quero que você se vista. — Patch me soltou suavemente. As marcas avermelhadas na minha pele indicavam que ele me segurava com muita força, mas eu adorava. — Prometi que teríamos uma noite legal, e vou cumprir minha promessa. Quero levar você para algum lugar que te faça esquecer os momentos ruins que passamos.

Bandido. Eu já disse que ele sempre sabe o que dizer na hora mais errada possível? Pois esse é Patch. Eu queria sim, esquecer de tudo, dos meus dramas e das minhas mazelas. Queria fugir dos problemas, eliminar as dificuldades, colocar um basta em qualquer inconveniente na minha vida. Queria simplesmente não ter que me preocupar com nada; viver a vida como uma pessoa normal. Só que havia um problema: eu não era normal. Nem eu, nem o homem — anjo! — que eu amava, nem a minha filha. Nada na minha vida era normal ou simples, nada podia ser categorizado como comum.

— Nós nunca tivemos momentos ruins, Patch. — Não menti. Mesmo quando estávamos nos odiando, eu preferia odiá-lo a não tê-lo em minha vida. — Mas sim, eu vou adorar esquecer de tudo e ficar apenas com você, essa noite.

Ele sorriu, e afastou-se. Era hora de vestir-me, ou chegaríamos atrasados à festa. Coloquei o vestido vermelho, com bordados e brilho, e uma longa fenda lateral que exibia muito mais do que eu pretendia mostrar. Como meus cabelos estavam agitados, decidi prendê-los de forma elegante, deixando uns fios soltos e fazendo um coque alto. Eu não estava acostumada a vestir-me sozinha para festas; geralmente tinha Vee ao meu lado para ajudar-me com o penteado e a maquiagem. Daquela vez eu teria que fazer tudo sozinha porque minha amiga não estava disponível e minha mãe já dormia, com Rose. Depois de alguns muitos minutos no banheiro lutando com um delineador para tentar fazer meus olhos mais charmosos, consegui finalmente terminar uma maquiagem que poderia ser caracterizada como honesta. Isso para sair do banheiro e dar de cara com Patch.

Claro que eu me encontraria com ele, afinal aquele era o nosso quarto. Mas eu jamais imaginaria vê-lo daquela forma — de smoking, cabelos penteados com gel, parecendo um ator de filmes antigos, muito mais lindo do que lhe seria permitido. O ar faltou subitamente aos meus pulmões, e considerei quanto tempo eu ainda levaria até parar de me surpreender com Patch. Bem, eu deveria considerar quanto tempo levaria até que eu parasse de me apaixonar repetidamente por Patch, porque era o que acontecia sempre.

Apesar de todo o glamour, nós fomos até a festa de Jeep. Era o único carro que tínhamos, e eu não estava reclamando. Adorava aquele Jeep e a forma como eu e Patch ficávamos confortáveis dentro dele. Quando Patch arrancou com o carro da garagem, notei que ele estava usando seu colar de arcanjo. Aquela era a indicação que ele tinha ser tornado um anjo novamente; que não havia nenhuma humanidade restante nele. A festa era em um salão bastante elegante de Portland, e havia diversas personalidades por lá. Não que eu me importasse, não que Patch estivesse interessado em alguma delas. Ele apresentou-me apenas ao anfitrião, e eu tive certeza que aquele homem era também um anjo caído. Talvez fosse a convivência, mas eu percebi imediatamente que também se tratava de um caído.

A música era ao vivo, e bastante animada. Havia um jantar sendo servido no salão principal, e dança acontecendo nos salões periféricos. Como eu estava com muita fome, fomos diretamente comer alguma coisa. O cardápio era variado e fino, com frutos do mar e pratos exóticos da culinária estrangeira. Havia comida indiana, tailandesa, mexicana, japonesa; até massas italianas com molhos que eu nem sabia que existiam. Patch demonstrou não querer nada, mas acabou escolhendo um prato com sushis, provavelmente para não me deixar comer sozinha. Eu já estava tão acostumada com ele sendo um homem que era difícil me lembrar que, como anjo, ele tinha necessidades diferentes das minhas.

Depois de me fartar com tagliatelle de abóbora com molho de ervas, perseguimos a música. Eu não era boa dançarina, mas apostava que Patch fazia aquilo muito bem. Ele fazia qualquer coisa com perfeição e eu nem fazia ideia de tudo que ele era capaz. A forma como suas mãos seguravam as minhas e o jeito de seu caminhar até a pista me indicavam que ele realmente me faria dançar a noite inteira, até que um de nós estivesse excitado o suficiente para voltar para casa — e, talvez, fazer amor pelo restante da noite. Terminaria da forma como todas as nossas noites terminavam mas, novamente, eu não estava reclamando.

— Acho que vamos ouvir músicas do século retrasado a festa inteira. — Patch implicou, segurando-me pela cintura e me fazendo girar na pista. Depois acomodou-me em seus quadris, permitindo-me acompanhar seus passos na dança. — Johannes é um anjo velho, tem gostos antiquados.

— Você o conhece há muito tempo?

— Todos o conhecem há muito tempo; ele foi um dos primeiros caídos, juntamente com…

Momento aula de religião na escola. O primeiro anjo caído era Lúcifer.

— Você o conheceu, também? — A pessoa naquelas frases estava implícita.

— Não. — Os olhos de Patch estavam sombrios novamente. — E não acho que precisemos falar nele em nossa noite, anjo. Vamos deixar os demônios para trás, só hoje, e curtir o momento.

Eu estava curtindo bastante. O movimento cadenciado dos quadris de Patch era um estimulante e tanto, e a música romântica e melosa me entorpecia parcialmente os sentidos. Recostei a cabeça em seu ombro, aproximei-me o máximo possível de seu corpo, e daquela forma dançamos por bastante tempo, até a música mudar para um ritmo mais agitado, quase frenético. Eu ainda não podia beber, estava amamentando, mas não era preciso com tanta adrenalina que corria pelas veias naquele movimento todo.

A noite acabaria perfeita quando nós dois, embriagados pela música e pelo cheiro da pele um do outro, chegássemos em casa e desabássemos em nossa cama. Patch praticamente arrastou-me até o Jeep aos beijos, e mal conseguimos sair do carro quando chegamos ao nosso apartamento. Comecei a despi-lo no elevador mesmo, arrancando sua gravata borboleta, tirando o blazer e desfazendo alguns botões da camisa branca. Meu vestido era sugestivo o suficiente para que ele colocasse as mãos por dentro da fenda lateral e alcançasse minha lingerie, fazendo-a arrebentar com os dedos. Entramos em casa já totalmente consumidos um pelo outro e quase nem vimos minha mãe na sala, parecendo um zumbi.

O assombro de encontrá-la naquela condição catatônica, parada, de pé, no meio da sala, imóvel e com os olhos arregalados foi tão grande que eu não tive tempo de sentir vergonha por ter entrado praticamente com as mãos dentro das calças de Patch. Ele recompôs-se em tempo recorde e aproximou-se de minha mãe com o semblante preocupado. Tocou-a no ombro, mas ela não se moveu. Meu assombro transformou-se em horror quando Patch olhou para mim e disparou para o quarto de Rose sem dizer uma palavra sequer, mas com a face completamente transtornada. Fui atrás dele sem conseguir respirar direito, sentindo que minhas pernas não iriam me levar até onde eu queria ir. A porta estava aberta, e Patch estava de joelhos em frente à janela aberta, com a cabeça apoiada nas duas mãos. Arregalei os olhos, sentindo meus batimentos cardíacos tão acelerados que meu coração parecia prestes a pular fora de meu peito. Tudo ficou escuro de repente e desabei no chão sem sentidos.

O berço estava vazio. Rose não estava mais ali.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.