Notas iniciais
Eu sei que esse capítulo ficou péssimo, mas desculpem-me. Ando em um modo meio exageradamente romântico. Bleh. Temos 2 pontos de vista aqui; inicialmente Nora fala, e depois temos Patch. Quem se cansa dele? Eu não :)

Foram três dias sem sair do quarto.

Eu voltei para casa e não falei com minha mãe. Rose estava dormindo e eu a levei para meu quarto. Tranquei a porta e acomodei minha filha em um colchão no chão. Ela não acordou; Rose não me dava nenhum trabalho. Mas eu sabia que aquilo não ia durar muito, porque ela sentira falta do mesmo que eu. Era uma pena que eu não podia explicar para ela que o pai dela era um canalha. E que ele tinha despedaçado meu coração, e que eu não estava preparada para suportar nada do que vinha pela frente.

Eu não suportaria ver a cara de Patch. E eu não suportaria viver sem Patch.

Minha mãe bateu à porta várias vezes, e eu fingi que não estava ali. Depois de várias horas sentada na cama, olhando para lugar algum, com a cabeça completamente vazia de pensamentos, Rose acordou. O meu celular estava vibrando, mas eu ignorei. A porta continuava a ser esmurrada por Blythe, mas eu ignorei. Rose começou a chorar, e eu precisava cuidar dela. Primeiro, devia amamentá-la. Depois, ela precisava de um banho, e de atenção. Eu podia desistir da minha vida, mas não da vida dela. Meu cérebro provavelmente funcionaria no piloto automático, para que Rose tivesse todos os cuidados necessários durante o meu período de luto.

O dia passou, eu não fiz nada além de vegetar na cama e dar a Rose os cuidados necessários. A noite chegou, mas eu não dormi. Desmaiei por volta de uma hora da manhã, exausta, enjoada, cansada demais de tudo para infligir ao meu corpo uma tortura maior. No dia seguinte, eu estava oficialmente doente. Meus olhos mal abriram, e estavam lacrimejantes e ardiam muito. Meu corpo parecia pesar duas toneladas, e eu sentia tanta dor em todas as juntas que nem se tivesse sido atropelada estaria tão mal. Rose estava chorando, aos berros com fome, e eu mal conseguia levantar-me do colchão. Amamentá-la seria quase impossível, mas eu precisava fazê-lo.

Blythe ameaçou derrubar a porta — e chamar Patch — se eu não abrisse para ela. Decidi que deixá-la entrar e pedir que ela alimentasse Rose seria a melhor estratégia. Arrastei-me — literalmente — até a porta e a destranquei. Tive que ouvir minha mãe dizer que chamaria uma ambulância, que me internaria, que eu não podia ficar um dia inteiro sem comer, que, se eu quisesse morrer, deveria arrumar uma forma mais fácil. Mas, apesar do sermão desinteressante, ela fez o que foi preciso. Depois de preparar uma mamadeira com a fórmula infantil receitada pelo pediatra, para casos excepcionais, ela preparou um caldo quente para mim, e me ajudou a acomodar-me na cama.

A dor não passou. Depois de outro tanto de horas em agonia, comecei a chorar compulsivamente. Eu não queria chorar, mas eu não controlava mais minhas emoções. Tudo que eu tinha construído estava consolidado em Patch. Com ele, meu futuro não se parecia com nada além das ruínas do meu presente. Eu chorei quase duas horas seguidas, ouvindo minha mãe blasfemar qualquer coisa enquanto rodava pela casa considerando o que fazer comigo. No terceiro dia eu continuava doente, mas as dores estavam suportáveis e eu podia respirar. Coisa que não conseguia fazer.

Pedi que Rose voltasse para o quarto, e retomei os cuidados com minha filha. Mas eu não saí dali. Eu me alimentei, eu me fortaleci, mas eu me mantive no mesmo lugar. Talvez eu decidisse que ser traída por Patch não era o final da minha vida, e que eu deveria prosseguir. Ao menos para mostrar para ele que eu não sucumbiria. Que ele não tinha aquele poder sobre mim. Eu queria que ele visse que, apesar de tudo, eu conseguiria viver sem ele. Mesmo quando eu não tinha tanta certeza.

PATCH

Eu sabia que não adiantava argumentar com Nora; eu precisava descobrir quem tinha armado para mim. Ela falou um monte de besteiras que não entendi, mas eu sabia que ela não poderia ter um ataque somente por causa de uma noite de bebedeira. Bem, ela nunca me tinha visto bêbado. Não daquela forma degradante. E ela estava realmente paranoica. Talvez ninguém tivesse armado nada, e Nora estivesse sendo apenas humana demais, mulher demais. Eu até apostaria em depressão pós-parto, mas ela cuidava bem demais da nossa filha.

De qualquer forma, conversar com ela era inútil. Dar tempo ao tempo, era a melhor solução com aquela teimosa. O problema era que não se tratava mais de nós dois apenas; havia uma criaturinha inocente no meio da nossa briga e eu não podia admitir que Rose saísse prejudicada por causa disso. Eu também duvidava que conseguiria ficar muito tempo longe de Rose. Ela precisava de mim, para mantê-la segura e para impedir os arcanjos de se aproximarem dela; e eu precisava dela porque eu não sabia mais passar meus dias sem vê-la, ou sem segurá-la em meus braços. Aquela ausência estava me incomodando, e não seria porque Nora tinha resolvido dar uma de ciumenta que eu me afastaria de minha filha.

Eu só não sabia que teria que lidar com a chefia. Porque foi como aconteceu, naquela fatídica tarde em que os arcanjos resolveram me fazer uma visita.

— Saudações, Jev. — A voz de Rafael me paralisou de cima em baixo. Eu estava na casa de Rixon, vestindo-me para uma entrevista de emprego, quando eu o ouvi falar. O dia estava fresco e todas as janelas do apartamento estavam abertas. Rixon não sabia o risco que ele corria, deixando a casa escancarada. — Faz bastante tempo que não nos falamos.

— Eu preferia que nunca mais nos falássemos. — Respondi, virando-me para ele. — O que foi, Rafael? Tem possivelmente alguma outra coisa minha que você deseje?

— Não seja arrogante, Jev. Eu vim em paz; eu sempre venho em paz. — O arcanjo se aproximou de mim, com aquele sorriso fingido que ele sempre carregava. Eu estava rígido; todos os meus músculos tensos e preparados para espancá-lo até a morte. Se fosse possível. — Como está nosso anjo?

— Eu não sei do que você está falando.

— Seu filho, Jev. — Rafael mostrou impaciência. — Estou falando da criança que você e a filha de Mizael conceberam. Como ele está?

Seria possível que eles não soubessem que Rose era uma menina? Ou para eles aquilo pouco importava? Eu achei divertido entrar no jogo.

— A criança está bem. — Respondi, sem demonstrar emoções. Quanto menos emocional se pudesse ser com os arcanjos, melhor. — O que você quer, Rafael? Eu tenho um compromisso, e estou atrasado.

— Eu vim te alertar, Jev, que você não tem autorização para se aproximar da garota. — Ele disse, e seus olhos brilhavam. Eu odiava aquele olhar cinzento de tempestade, que sempre parecia se iluminar com um relâmpago. Por sorte, eu tinha perdido aquilo há muitos séculos. — Você só pode estar com ela se ela quiser você. Nós não admitiremos que você se imponha, essa foi a regra do jogo.

— Não há mais jogo! — Indignei-me, mas tentei me conter. — Vocês garantiram que eu seria livre após conseguir recuperá-la.

— Mas nós te deixamos livre. E você fez tudo errado. — Rafael deu uma risada cínica. — Não seja ridículo, Jev; você acha mesmo que Azrael faria algum pacto para te libertar? Você está andando por uma linha, meu caro. Saia dela e seu caminho será o inferno.

— Serei banido se me aproximar de Nora? — Arrisquei. Aquela conversa estava começando a me deixar tenso.

— Não exatamente. Primeiro, retiraremos usa bênção. Se você não aprender a lição, eu provavelmente terei que concordar com seu banimento. Lúcifer vai adorar te ter por lá.

— Tudo bem, eu respeitarei o pacto. — Baixei a cabeça, assentindo naquela loucura. Eu não podia garantir que respeitaria nada, porque, eventualmente, eu me sentia no dever de proteger Nora. E Rose. E faria isso a qualquer preço.

— E tem mais. — Rafael afastou-se em direção à janela, mas continuou a me olhar. Ele estava sinistro, com aqueles cabelos sem cor e aquele olhar de prata. — A criança não é sua, Jev. Viremos buscá-la e vamos levá-la conosco. Ela fazia parte do nosso plano, e não do seu.

O arcanjo diabólico deixou o apartamento de Rixon e eu imediatamente desabei em uma cadeira. Os joelhos estavam amolecidos, e meu coração batia muito rapidamente. Eu estava me lixando para aquela porcaria de bênção, porque eu poderia perder os sentidos de novo que não ligaria. Eu já tinha usufruído bastante deles; depois de séculos sem sentir nada, eu tinha tido mais do que merecia. Mas eu não podia arriscar ser banido e deixar Rose desprotegida. Só havia uma hipótese na qual eu aceitaria o banimento; se fosse em um confronto para impedi-los de levá-la.

A entrevista de emprego poderia ficar para depois. Eu precisava falar com Nora, mesmo que ela não quisesse falar comigo. Para evitar problemas, eu precisava de um bom plano. Eu precisava convencer alguém que falar com Nora era uma necessidade, e eu só conseguia pensar em uma pessoa que teria capacidade de me ouvir, me entender e influenciar a cabeça dura de Nora Grey. Vee Sky.

Falar com a namorada de Rixon sem Rixon por perto era uma péssima ideia. Mas eu estava desesperado, e esperava que aquilo contasse. Peguei o Jeep e dirigi até o centro universitário, onde Vee deveria estar. Se eu ainda era bom conhecedor da rotina das pessoas, ela, naquela hora, estava na biblioteca. E encontrá-la em um prédio público era tudo que eu precisava. Evitaria escândalos e interpretações equivocadas. Eu só tinha que explicar o inexplicável, mas eu suspeitava que ela pudesse lidar com aquilo. Afinal, ela namorava um caído; ela estava preparada para a verdade.

— Olha, se não é o vagabundo desonesto do cara que engravidou a minha amiga e depois foi para cama com toda Portland. — Ela me recebeu gentilmente, enquanto fechava um pesado livro na área de estudos. A amiga que estava do lado deu uma risadinha, mas o olhar ferino de Vee a fez desistir de ouvir a conversa. — Patch Cipriano, além de viciado em jogos, alcoólatra e filho da puta, você também gosta de ler?

— Boa tarde, Vee. — Eu jamais revidaria alguma agressão de Vee. Era como atingir um deficiente mental. — Eu preciso conversar com você; é um assunto sério e envolve Nora e Rose.

— Não tem nada que você queira me falar que eu esteja disposta a ouvir. — Ela disse, virando-se e preparando-se para sair.

— Nem se for sobre os arcanjos?

Ela parou. Consegui impressioná-la, e foi uma grande sorte. Eu apostava que Rixon já tinha reclamado o suficiente no ouvido da garota, maldizendo os arcanjos com todas as suas forças.

— O que você pode ter para me contar que misture minha amiga e esses tais arcanjos? — Ela sentou-se novamente. — Você tem minha atenção.

— Eles querem Rose. — Eu disse, sem preocupação em esconder a verdade. Não havia nenhuma regra quanto àquilo. — E eles podem querer vir buscá-la antes do que eu previa; antes do que Nora previa.

Ante à expressão de “eu não estou entendendo nada” de Vee, decidi contar a ela os detalhes sórdidos que envolviam o plano dos arcanjos de criar um nefilim superdesenvolvido. Ela ficou chocada, e eu não podia esperar o contrário. Eu esperava que ela ficasse chocada, arrasada, com tanto pavor daquela história que fosse correndo até Nora.

— E o que você quer que eu faça, Patch?

— Que peça para Nora me receber. — Era só aquilo que eu precisava. — Eu tenho que conversar com ela sobre isso, explicar algumas coisas. Ela pode não querer mais ser minha… — a palavra não saiu — ela pode não querer mais ficar comigo, mas ela vai querer manter Rose em segurança. E não há nada que eu possa fazer se ela não aceitar falar comigo.

— Eu não sei se vou conseguir convencê-la. — Vee cruzou os braços. — Você não tem nada mais grave para me oferecer, não?

— Sim, tenho. Eu recebi hoje a visita de um arcanjo. O nome dele é Rafael. Nora sabe quem ele é. E sabe o que ele pode fazer.

Vee não parecia muito satisfeita em me ajudar, mas ela também não parecia ter levado muito a sério o fato de que eu era um sacana que traía Nora. Ninguém podia acreditar muito naquela história; eu não admitia que Nora acreditasse. Ela acabou por aceitar, e prometeu que sairia dali e falaria imediatamente com Nora. Convenci-a, no entanto, a permitir que eu fosse junto. Eu queria esperar do lado de fora do prédio; queria ficar por perto para manter o apartamento em segurança, para vigiar e impedir que algum arcanjo se aproximasse. Eu queria impedir qualquer um de se aproximar, até se fosse um caído. Havia relatos de caídos que trabalhavam para os arcanjos, então eu não podia arriscar.

Segui o carro de Vee — que era o terceiro que ela tinha desde que foi para a faculdade — e fiquei estacionado, dentro do Jeep, na frente do prédio esperando algum sinal. Combinamos que, se Nora aceitasse ou não falar comigo, ela me ligaria. Não havia mentiras; não podia haver nenhuma informação subliminar ou implícita. Tudo tinha que ser transparente, óbvio, imaculado. Esse era mais um dos motivos pelos quais eu não admitia que duvidassem da minha honestidade — eu não podia ser diferente. Ou eles puniriam a mim e puniram Nora, também.

Não sei o que elas conversaram, mas Vee desceu as escadas quase uma hora depois de ter subido. Eu estava ansioso. Por que negar, eu estava muito ansioso. A amiga inconsistente de Nora debruçou-se na porta do Jeep e me encarou, lábios retorcidos.

— Conte para o Rixon que eu sou uma pessoa muito legal, sim? — Ela disse, com um olhar expressivo e inocente. — Nora está te esperando. Blythe foi ao supermercado, então essa é uma excelente hora para vocês lavarem a roupa suja.

Agradeci-a com um movimento de cabeça e uma expressão singular na face. Eu não falaria “obrigado” para ela, eu não era assim. Eu não agradecia ninguém formalmente, que não me cobrassem aquilo. Subi até meu apartamento pelas escadas, tentando manter o monstro dentro de mim controlado, tentando me convencer de que eu não podia perder a cabeça com Nora; de que eu tinha que engolir o que ela fosse vomitar em mim, e engolir calado. Eu não estava ali para discutir com ela, eu tinha que contar sobre Rafael, sobre os arcanjos. E, eventualmente, fazê-la acreditar em mim. Eu precisava estar calmo, mas eu não sabia até onde minha calma pareceria indiferença. Droga.

A porta estava aberta. Respirei fundo e entrei, passo a passo, pé ante pé. Minhas botas estavam limpas, porque eu deveria ir a uma entrevista. E elas tinham solado de borracha, então eram silenciosas, quando eu queria que elas fossem. A porta do quarto estava aberta. Eu ouvi Rose, e meu coração pulou uma batida. Ou mais. Senti uma vertigem, e, por algum motivo, detestei aquilo. Porque aquela sensibilidade toda me fazia frágil, e incapaz. Eu não me importaria de perder todos os sentidos, naquele instante, se aquilo significasse ver a minha família segura. Eu mataria arcanjo por arcanjo com as minhas próprias mãos, se fosse tirar meus sentidos tudo que eles pudessem me fazer. Mas o banimento, com aquilo eu não saberia lidar.

Ela estava ali, deitada no chão, em meio a almofadas. Ela era tão pequena; ficar alguns dias sem vê-la fez com que eu me perdesse em suas proporções. Ela mexeu os bracinhos quando me viu. Meu coração parou de bater, e voltou, e parou mais uma vez quando vi Nora de pé, na janela. Ela me olhava, e seus olhos estavam doentes. Eles não me passavam nada do que eu queria ver, e aquilo me deixou em agonia.

— Diga o que você quer. E depois vá embora. — A voz dela rasgou meus ouvidos como uma faca afiada. Como ela tinha aprendido a ser cruel! Ou ela sempre foi cruel e eu nunca tinha percebido. Ou ela estava se esforçando para parecer cruel para mim.

— Como vocês estão? — Aproximei-me de Rose, que parecia agitada. Um gesto de cabeça de Nora me autorizou a segurá-la. O contato de minha filha com minha pele foi gratificante; só por aquilo já valia ter enfrentado qualquer coisa.

— Eu não estou a fim de conversar com você, Patch. — Nora parecia ansiosa. — Vee disse que era algo muito importante, e se ela deu algum crédito a você, talvez eu também deva. Mas é só isso… o que houve?

— Eu recebi a visita de Rafael hoje. — Confessei. — Ele veio me avisar que eu não posso me aproximar de você, e que… — hesitei. Mas eu não podia hesitar. — Ele me recordou que eles vêm buscar Rose.

— Hoje? — Ela se apavorou, e me olhou suplicante. — Eles estão para vir buscá-la hoje, eles vão…

— Hoje, não. Ele quis me assustar, Nora; é o que eles fazem melhor. Mas eu já tinha sonhado com isso, eu já tinha uma noção de que eles não esperariam que ela crescesse e se tornasse adulta.

— E você não me contou? — Ela assumiu a postura anterior, novamente. Aquela expressão de “eu não vou te perdoar” que eu não queria ver nela. — Você sonhou quando com isso; é por causa desse sonho que você estava na minha janela? Que você está sempre na minha janela, que você…

— Nora. — Eu a interrompi. Caminhei na direção dela, bem devagar, tentando entender até onde eu podia ir. Ela não me repelia. Rose estava confortável em meu colo, calma e cochilando. — Ela ainda nem tinha nascido, e foi só um sonho. Não havia motivos para alarmar você; eu estava aqui para te proteger. Para proteger vocês.

— E agora você nos abandonou.

Aquilo doeu.

— Eu não abandonei vocês! — Minha voz se elevou, e fechei os olhos para tentar retomar o controle. — Eu fui porque você me mandou ir. Eu não voltei porque você não me chamou. Eu não sou como os outros homens que podem correr atrás da mulher que eles amam, Nora. Eu não sou um homem. Eu não posso ficar com você se você não me quiser aqui.

— Isso é ridículo. — Ela começou a caminhar em círculos. Aproveitei que Rose já tinha começado a dormir e a devolvi para sua cama improvisada, tentando concentrar meus esforços em acalmar Nora. Que parecia totalmente descompensada. — Isso é patético; esses arcanjos de merda ditam a nossa vida? É isso, vai ser sempre assim, nós dois com medo deles?

— Eu não tenho medo deles. Eu apenas preciso que você esteja ciente do que está acontecendo.

— Onde você estava? — Ela mudou de assunto em dois segundos. Nora, claro. Seu olhar direcionado para minha camisa gola polo por dentro da calça social indicavam surpresa ao me ver trajando aquele tipo de roupa àquela hora.

— Eu ia a uma entrevista de emprego. Mas Rafael apareceu, e achei mais importante vir falar com você.

— Emprego? Emprego como as pessoas normais têm?

— Sim. Eu pretendia conseguir algo como entregador de pizza, garçom ou office boy. Minha aparência deve influenciar em alguma coisa.

— Por que você quer um emprego, Patch? Você já não está bem, ganhando seu dinheiro naquele antro que você frequenta?

Ela sabia me bater. Aquilo também doía, porque ser quem eu era incomodava a ela. Demais.

— Eu preciso de um emprego para mostrar a você que eu não preciso daquele antro. — Disse, sem nem um pingo de ironia ou sarcasmo em minha voz. Meus gestos estavam cadenciados e sincronizados. Eu não estava mentindo, mas era imprescindível que ela acreditasse em mim. — Eu preciso de um emprego para mostrar a você que eu posso ser digno de você, Nora, e que eu sou capaz de viver conforme você deseja. Que eu posso mudar o suficiente para merecer estar ao seu lado, se eu ainda não consegui isso. Mas eu não vim…

— Patch. — Ela me interrompeu. O corpo dela pendia para o meu lado, mas eu me mantive imóvel. — Aquela manhã… o que houve?

— Eu não sei, Nora. — Respirei fundo. Ponto delicado, era aquele. — Eu estava bêbado; eu passei a noite jogando e perdi algum dinheiro. Precisava recuperar, então decidi apostar pesado. Eu ganhei várias mãos, e voltei me arrastando para o motel. Claro que eu não tranquei a porta, eu não sei se alguém foi até lá.

— Você estava nu. Havia… você poderia me dizer a verdade, talvez eu pudesse perdoar você se você admitisse que errou.

— Eu não posso mentir só para te fazer feliz, Nora. — Baixei o olhar. Eu não podia vacilar. — Por mais que eu deseje mentir, e por mais que eu deseje que você me perdoe, e por mais que eu queira, agora mesmo, calar a sua boca e te beijar, eu não posso fazer nada disso. Nada que vá te iludir, essa é a regra. Mentir para te agradar, eu não posso. Mentir para fazer você esquecer, eu não posso. Mentir para fazer você me amar, eu não posso.

— Então você está me dizendo que só pode dizer a verdade, para mim? Que nunca pode mentir?

— Eu posso mentir. Posso dizer que vi uma pessoa famosa agora na rua. Ou que vou ficar careca daqui há alguns anos. Eu não posso mentir para que você fique comigo. Se, para você me perdoar eu preciso admitir que fiz sexo com uma mulher qualquer; se eu preciso admitir que te traí, eu não vou poder obter o seu perdão. Porque eu não fiz nada disso. Eu sou um canalha, um idiota que só fez uma coisa boa até agora; apaixonar-me por você. Todo o resto da minha existência foi um desperdício, os arcanjos estão certos. Azrael está certo. Eu sou uma perda de tempo, a melhor coisa para o Céu foi a minha queda. — Ela prestava atenção em mim, e eu segurava os espasmos que se formavam em minha garganta. — Eu esperei anos por você, para ter você de volta e para que você se apaixonasse por mim da mesma forma que eu me apaixonei por você. Eu poderia ter me sacrificado, por você. Eu não sinto por outras o que eu sinto por você. Eu te amo. Sexo não faz mais sentido; não importa quanto tempo eu tenha que esperar, eu só quero ficar com você.

Eu não consegui segurar mais tempo. Eu sabia as consequências que aquilo poderia ter, mas eu não me importei mais. Que eles me mandassem para a porcaria do inferno, que eles fizessem o que quisessem. As lágrimas nos olhos de Nora me fizeram perder o controle. Segurei-a pelos dois braços e fiz com que ela olhasse diretamente para mim. E eu a beijei. Puxei-a para perto, fiz com que ela se encaixasse em mim, com os dois braços ao redor dela, como se ela pudesse fugir e eu não fosse admitir aquilo. Assaltei seus lábios com os meus, forcei a minha língua em sua boca, espalmei a mão em sua nuca e dei vazão a todos aqueles sentimentos confusos que estavam dentro de mim.

— Eu te amo. — Eu disse novamente, reafirmando-me. Ela não estava vacilante, eu não a vi hesitar nem um minuto. O comportamento de Nora era aquele, sempre. Explosivo, contraditório, efêmero. — Você só precisa acreditar que eu te amo.

Ela não respondeu. Ela não disse absolutamente nada. Ela levou as duas mãos até minha face e traçou a linha do meu queixo até minha orelha, roçando os lábios nos meus. Meus joelhos estavam trêmulos, mas nem de longe eu tremia como ela. Os dedos de Nora tremiam tanto que ela parecia inapta a segurar qualquer coisa. Depois de alguns segundos, ela foi quem decidiu retomar o beijo.