Fracture (sequencia De Falling)
2 01 - Rose
Abri os olhos com muita preguiça. Eu estava mais cansada do que deveria, provavelmente, mas imaginava que toda mãe de primeira viagem sentia-se da mesma forma. Eu deveria dormir, mas desde que Rose nasceu eu mal tinha duas horas seguidas de sono. E aquilo já perdurava por uma semana.
Minhas mãos tatearam a cama vazia ao meu lado e sentei-me, sobressaltada. Calcei minhas pantufas, liguei o abajur que ficava na mesa de cabeceira e levantei-me, arrastando os pés pelo chão de madeira até chegar ao quarto dela, da minha filha. Rose dormia serenamente no berço branco, protegida com um cortinado de tule cor de lavanda. A janela aberta do quarto deixava soprar uma brisa suave, que amenizava a temperatura mais quente do verão. Ela nunca dormia com a janela aberta, porque Patch não permitia. Ele trancava, pessoalmente, todas as janelas da casa, antes de dormir. Eu não entendia aquela paranoia dele, mas não ia discutir.
Daquela vez, ele estava parado no batente, com as mãos espalmadas apoiadas na pedra fria que sustentava a armação de madeira da janela, olhando para fora. À noite, na penumbra, as cicatrizes nas costas de Patch eram quase imperceptíveis. A sua pele tinha uma textura lisa e cinzenta, quase irreal. Ele não parecia mesmo um anjo; não daquela forma, sombrio, esfumaçado, tenso pela chegada da noite. Aproximei-me dele e o envolvi com os dois braços enlaçando sua cintura, as mãos firmes em seu abdômen definido. Ele tinha uma perfeição física que impressionava, e eu não sabia se era porque ele era mesmo lindo ou se eu o amava tanto que o enxergava daquela forma.
— O que está fazendo acordada, anjo? – Ele disse, sem virar-se para mim. Parecia que ele estava vigiando o lado de fora, garantindo que nada entrasse pela janela. Como se alguma coisa fosse realmente entrar por ali. Aquele comportamento dele me assustava, às vezes.
— O que você está fazendo acordado, Patch? – Devolvi a pergunta, certa de que ele estava dormindo menos que eu. – Está tudo bem?
Patch preferia agir a falar. Ele virou-se para mim, suportando seu corpo na janela, e me puxou para tão perto que pensei que podia entrar dentro dele. A sua pele ardia, de tão quente. Seus lábios me violentaram, porque com Patch era sempre daquela forma. Ele me beijava sem qualquer sutileza; nada nele era delicado. Ele era o homem – anjo – mais suave e gentil que eu conhecia, mas nunca quando nosso relacionamento ia para o plano físico. Eu não me importava em ser explorada por ele daquela forma viril, porque nada era mais agradável, em uma noite horrível, do que ter os dedos de Patch em mim, suas mãos por dentro da minha roupa, seus lábios em minha pele, em todo lugar. Eu adorava senti-lo; quando ele estava excitado, quando ele mostrava que me queria.
Na verdade, não havia nada naquela vida que fosse mais delicioso do que Patch.
E eu estava sem ele há algum tempo. Final de gravidez – ele nem mesmo me tocava. Talvez exatamente porque ele não sabia ser comedido. Eu tentava entender Patch – eu pensava que ele tinha passado toda a sua existência desejando um corpo físico que ele não tinha, com sensações físicas proibidas. Ele possuía uma criatura híbrida para ter prazer com mulheres pelas com as quais ele não sentia nenhuma conexão. Dava para entender, realmente, ele não conseguir ser muito contido quanto à sua sexualidade. Então, nada de sexo por um longo período, desde que eu comecei a ficar incomodada demais até para me mexer.
Inicialmente eu considerei que aquela era a desculpa que ele usava para não contar que, na verdade, ele não me desejava mais. Eu estava horrível. Acima do peso, mal humorada, completamente deformada. Quem inventou que mulheres ficam lindas na gravidez obviamente nunca ficou grávida. Mas ele reafirmava todo dia o quanto me amava, e o quanto me queria; e me beijava com tanta paixão que eu não tinha autorização para duvidar dele.
E, depois do parto, eu precisava esperar. Eram quarenta dias sem poder senti-lo em mim novamente, quarenta dias até meu corpo voltar ao normal completamente, até meu corpo estar pronto para Patch. Eu não podia discutir com a natureza; naquele momento tudo que eu me sentia era desagradável. Eu tinha muito leite, o que era bom para Rose, porque ela podia mamar bastante. Mas eu me sentia horrível, com peitos enormes e doloridos, que mal podiam tocar a roupa que eu vestia. Eu ainda tinha as marcas da gravidez e a barriga muito maior do que eu estava acostumada a ter. E meu humor ainda não tinha voltado ao normal.
Resumindo, eu mal me aguentava. Não sei como ele podia ainda sentir tanto desejo por mim, e mostrar aquilo a todo momento.
— Vou levar você de volta para a cama. – Ele disse, sussurrando em meus ouvidos.
— Não, prefiro ficar acordada com vocês. – Eu protestei, derretendo como manteiga em seus braços fortes. Ele me beijou novamente, daquela vez um pouco mais suave, mas teve que interromper as carícias quando ouvimos um pigarro forte vindo da porta do quarto.
Minha mãe tinha acordado.
— Blythe. – Patch olhou para ela por cima de minha cabeça, e eu senti seus músculos tensos. Minha mãe estava conosco desde que Rose nasceu, com a justificativa de me ajudar. Eu não reclamava, pelo contrário, adorava que minha mãe estivesse em Portland. Minha filha era calma, mas eu não tinha experiência nenhuma com bebês. Eu nem mesmo sabia se queria ter filhos, antes de me dar conta que aquela criança era parte Patch. Não havia nada mais perfeito do que ter um filho com o homem que eu amava. Anjo. Eu sempre esquecia que Patch não era um homem. Aquilo fazia uma grande diferença.
Mas Patch não estava muito satisfeito com aquela ideia. Mamãe era irritante, quando queria ser, e ela sempre entrava naquele modo quando Patch estava por perto. Ela implicava com nossos momentos íntimos, entrava em nosso quarto sem ser convidada, se intrometia nos cuidados que ele tinha comigo. E se intrometia quando ele estava com Rose. Aquilo não podia ser perdoado por ele, até porque a sua natureza de anjo caído o impedia de ser um bom samaritano.
Havia apenas uma coisa que Patch reverenciava naquele mundo terreno, e essa coisa era nossa filha. Desde que ele a segurou nas mãos pela primeira vez eu vi seus olhos negros como a noite sem estrelas brilhando. A forma como ele a olhava, como ele agia na presença dela; eu tinha certeza que estava acima do amor de pai. Era verdadeira adoração por aquele ser tão pequeno. E, por uma peculiaridade do destino, Rose não se parecia com nenhum de nós. Talvez ela parecesse Patch, um pouco, fisicamente. Mas ela tinha cabelos loiros e cacheados na cabeça, tão loiros que eram quase brancos. Os olhos eram azuis e grandes, sempre abertos, como se ela prestasse atenção em tudo.
Patch explicou que ela era um anjo. Um anjo verdadeiro, e aquela era a sua característica física. Eu não conseguia enxergar nada daquilo; ela era o bebezinho que eu tinha carregado por nove meses na barriga e parido, que eu amamentava todo dia, que chorava quando sentia cólicas. Ela era tão humana que eu não conseguia entender como ela podia não ser. De qualquer forma, o que Patch sentia por Rose não parecia nada com o que eu sentia com ela. Eu a amava, ela era minha filha. Ele agia como se ela fosse uma parte inexorável dele; parte de seu corpo, parte de sua alma.
— Vocês vão acordar o bebê, e quando ela começar a chorar ninguém mais dorme nessa casa. – Minha mãe reclamou.
— Ninguém, além dela, está dormindo agora, Blythe. – Patch rosnou, afastando as mãos de mim e aproximando-se do berço. Com aquele olhar reverencial e os movimentos sutis como os de um felino, ele levantou o cortinado e pegou-a nos braços, aconchegando-a em seu peito. Rose moveu-se um pouco, mas continuou dormindo, aninhada nos braços do pai. – Vamos, Nora, vamos dormir.
— Assim você mima a criança e depois ela não se acostuma em dormir no quarto dela mais. – Mamãe insistiu.
— Está tudo bem, mãe. Boa noite. – Eu disse, acomodando-me no braço livre de Patch e indo com ele para o quarto. Eu já sabia como o resto da noite seria; eu e Rose, deitadas na cama, Patch ao nosso lado, acariciando meus cabelos e velando nosso sono. Ele cuidaria de mim e me beijaria até que eu dormisse totalmente, e não havia ninguém que pudesse me convencer de que ele não era absurdo demais para ser real. Longe da perfeição, mas completo.
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