Four Sun: Origins

1 1# - Conhece-te a ti mesmo.


1# — Conhece-te a ti mesmo.

Em todos os oito solitários anos que sucederam o dia de seu sexto aniversário, a madrugada de hoje foi a primeira que Yume não passou em claro porque teve o mesmo pesadelo que tem sempre. Deveria estar feliz. E ela estaria feliz... se aqueles sonhos não fossem reais.

Se o que ela vê ao deitar a cabeça no travesseiro não fosse a reprodução de um trauma real, ela só iria acordar e se sentir aliviada quando visse seus pais, mas o que vivia a noite graças a seu subconsciente era mais do que um mero pesadelo. Muito mais.

Quando fez seis anos, foi forçada a assistir sua mãe e seu pai partirem através das fendas de um armário, nada pôde fazer, afinal era uma menininha de seis anos. Foram assassinados pelos soldados do tirano cruel que governava a Terra há séculos. O motivo? Eles possuíam habilidades iguais às que ela tem, eram uma ameaça ao domínio dele. Assim como ela.

Se está viva hoje, é porque a sua essência despertou um pouco mais tarde do que a dos outros de sua espécie, o que, por muito tempo, a ajudou a se passar por humana e a não ser rastreada pelos detectores deles. Teve sorte. Ou azar. Não chama de vida o que passou a levar depois deste incidente.

Vive porque é o que seus ente queridos iriam querer e porque tem um sonho: derrotá-lo, algum dia. Almeja fazê-lo pagar por todas as atrocidades que obriga seus soldados a cometerem em público — não que alguns não gostassem dos serviços.

Para tanto precisará treinar, se aperfeiçoar, seu grande problema é não ter onde aprimorar a sua força sem correr o risco de ser descoberta e morta em seguida, por isso ela se esconde e faz morada dentro de um dos quartos de um pequeno hotel abandonado.

Aquele hotel estava abandonado porque, assim como muitos proprietários de outros estabelecimentos, todos os seus donos foram fuzilados a mando do líder autocrata, seu regime, segundo suas próprias palavras, excluía capitalistas e empresários gananciosos.

Yume ainda não tinha a idade legal estabelecida para o trabalho formal, recebia mensalmente uma indenização do estado, uma quantia tão pequena que só cobria gastos com a alimentação, as roupas que vestia ela encontrava no porão do lugar que chamava de lar, devem tê-las esquecido quando entraram ali para confiscar todos os bens das suas vítimas.

Economizava ao máximo o dinheiro que recebia, mas enquanto cozinhava em uma velha panela que encontrou e lavou insistentemente, sente falta de um ingrediente.

Olha através da janela. Verifica o tempo.

— Parou de chover? Que coisa. — Estranha. A razão de seu espanto é muito simples: os céus sobre a cidade de Osaka derramaram lágrimas por trinta dias inteiros, hoje é o último dia do mês e o primeiro sem trovões. Os raios de sol começam a perfurar as nuvens com mais força. — Acho que tá tudo bem sair agora.

Seu problema com a água se resume ao fato de que a Essência de um guerreiro fica mais em evidência quando se molha, já é perigoso ela perambular por aí num dia normal, imagine então se sair durante uma tempestade como a que cobriu a região? Vai ser descoberta na hora.

Está tudo tão calmo. Não há gerentes, vendedores de rua ou civis apanhando em público, não vê nenhuma tenda de camelôs sendo destruída. Que estranho. Ali, a calmaria e a paz são sempre motivo de desconfiança.

Ok, passou muito tempo dentro de casa, tanto que já é até difícil reconhecer lugares por onde sempre caminhou, mas ainda assim há alguma coisa errada em tudo isso, ela sente como se algo não se encaixasse, como se aquele dia estivesse incompleto.

Encara isso como paranoia sua e segue a caminhada. À sua volta, porém, as pessoas começam a se dispersar, a evitar cruzar olhares com ela. As ruas ficavam desertas, ela é a única que não entra disfarçadamente dentro de casa. O que está acontecendo?

A menina começa a entender quando vê mais policiais nas ruas do que pedestres e vendedores ambulantes. Sou a próxima vítima deles. Não pode ser. O que fez? Será que já descobriram sobre seus poderes? Não tem como. Tem sido tão sutil, agiu com tanta cautela.

Está prestes a entrar em seu primeiro confronto, claro que se quiser sobreviver, ela quer, portanto não há forma de escapar, mesmo porque a essa altura ela já está cercada, já deve haver patrulha até em sua moradia. Vai ter que lutar.

Para de andar. A vinte metros de distância, quatro dos vários homens que a perseguiam se revelam e lhe apontam os seus fuzis. Ela cerra os punhos, franze o cenho. Não tira os olhos deles, nem sequer pisca.

Está prestes a atacá-los quando, de repente, vê-se no centro da explosão de uma granada, uma bomba que libera uma pequena cortina de fumaça rosa, quando tem a ideia de não respirar o nevoeiro já é tarde, a toxina já invadira o seu organismo, a deixou sonolenta, fraca, exausta.

Os joelhos dela vão ao chão. Com as mãos pressiona o peito, tosse com todo o resto de força que tem. É inútil, a pequena diz a si mesma. Aceitara o seu destino. Mãe, pai... Por favor, me perdoem. Desiste de resistir, se entrega.

No entanto, há alguém ali que não desiste de salvá-la, alguém disposto a se arriscar mesmo sem nunca tê-la visto antes, um garoto que recebe todos os tiros que eram dela e não sofre um arranhão. Ele é como eu.

Os inimigos questionam o seu herói:

— Quem é você?

— É o que eu espero descobrir depois de matar todos vocês. — Responde, se movimenta e, num abrir e fechar de olhos, todos os homens armados estão agonizando no chão frio, engasgando com o próprio sangue.

Depois de matá-los ele vai na direção dela, fazendo o seu coraçãozinho disparar — não de medo ou de surpresa, de amor. Um novo sentimento nasce em seu peito na mais inesperada das situações, ela se apaixona por ele antes de perder a consciência.

O rosto dele é o último que vê antes de adormecer, tal como a paixão que invade, ilumina e alegra a sua alma é a última sensação que experimenta antes de cair.

Qualquer um diria que é estranho já que ela nem ao menos sabe o nome dele, mas foi incontrolável, ela mesma não esperava. Só... aconteceu.

Quando acorda, está deitada sobre um colchão fino e coberta por um lençol de seda, no fundo de uma caverna na qual jamais esteve. Não sabe exatamente o que aconteceu, esquecera-se completamente, até lentamente se lembrar.

Estava cercada, sozinha. Perdida. Senta-se no colchão e olha ao redor. Alguém a salvou. Um garoto. Ela cora ao se lembrar do que sentiu por ele. Não sabia bem o que era, só que queria vê-lo de novo.

Cinco metros ao lado haviam dois outros colchões, ela presume que o garoto misterioso não estava sozinho. A sua identidade ainda é uma incógnita. Ela se pergunta onde ele pode estar agora.

Os barulhos que vêm de fora da caverna roubam toda a atenção de Yume, ela se levanta, caminha devagar até lá e descobre as fontes deles. É ele. Seu herói trocava socos com um menino loiro e franzino, eles eram supervisionados por um senhor baixinho, barbudo e calvo de pele escura.

Ao notá-la ali o garoto loirinho se distrai, leva um soco no rosto e cai por terra. O velhinho balança a cabeça como desaprovação, o outro estende a mão para ajudá-lo a ficar de pé.

— Eu já te disse para manter o foco no combate, Azin. Se você se distrair assim em uma batalha séria, não espere receber só um soco na cara. — Na sua contagem essa é a milésima vez que o alerta a respeito disso, mas depois de olhar melhor e ver a razão de sua falha, deu um desconto. — Oh, que bom que acordou.

Acompanhado dos garotos, o ancião vai até a menina. O moreno não sabia nada sobre ela, tudo o que fez foi ver alguém em perigo e resgatar, portanto nada pôde lhes dizer sobre Yume — nem seu nome ele sabia.

Ela é um mistério tão grande para o trio quanto o trio é para ela.

— Eu me chamo Hanzuki. — Sorriu amigavelmente. — O loirinho é o Azin, o moreno é o Santsuki.

— Olá. — Acenaram para ela.

— É um prazer. — Os reverenciou. Abraça forte o seu herói, que não sabe como reagir. Ele repara que aquele é o primeiro abraço que recebe de alguém em toda a sua vida. — Obrigada por me salvar, Santsuki. Muito obrigada!

— Não foi nada. — Sorri. Uma só pergunta ilustra sua mente: por que a salvei? Não sabe a resposta. Não que se arrependa, é que, desde que entrou na adolescência, tem questionado a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. E esse é justamente o tipo de pergunta que lhe tira o sono.

— Então, Yume, Santsuki nos contou o que aconteceu. Por queestavam atrás de você? — Hanzuki sabia o motivo, só queria que ela admitisse, assim saberia o que ela acha e diz sobre os Seres de Essência.

— Acho que foi pelo mesmo motivo que mataram os meus pais quando eu tinha seis anos. Eu não sou humana. — Pela sua forma de falar, Hanzuki deduz que ela não gosta das habilidades que tem, ou ela se envergonha delas ou as trata como uma maldição. Talvez as duas coisas. — Eu não sei como eles descobriram.

Azin dá o seu palpite:

— Pode ser que eles não tenham descoberto nada, mas que apenas suspeitavam. Pra esse tipo de gente, as provas não importam. Eles gostam do que fazem.

Azin carrega uma chama no olhar, é centrado, odeia o que vê todos os dias, mas acima de tudo, ele odeia não ter o que fazer para mudar o que vê. Se esforça, é inteligente e é cheio de energia. Isso, faz dele a peça fundamental para a equipe que Hanzuki pretende montar.

Quer saber mais sobre Yume.

— Você tem algum lugar pra ficar?

— Eu moro em um hotelzinho que abandonaram lá no centro da cidade, mas não acho mais seguro voltar pra lá. — Na verdade não parou para pensar se é seguro ou não, o que ela quer mesmo é ficar ali, mais especificamente, ficar perto do Santsuki.

Ela lança um olhar discreto sobre o seu salvador. Sabe o nome dele, mas ele mesmo ainda é um enigma e apesar de conhecê-lo há anos, seu mestre concordaria com a sua opinião sobre ele, se a expressasse em voz alta.

— Se quiser pode ficar aqui conosco, temos espaço de sobra. — Hanzuki não demorou muito tempo para perceber o que acontecia ali, ele sabe que ela aceitará ficar e sabe a sua razão, mas decide guardar o segredo dela.

— Mesmo? — Ela se anima. Sorri pela primeira vez em oito anos. — Quero dizer, eu agradeço! Quero ficar, muito obrigada!

Nunca esteve muito certo sobre Santsuki ser uma boa escolha para o time, mas ele é muito talentoso, isso não dá pra negar. Rejeitá-lo é burrice, o que enxerga para aquele garoto é um futuro no qual tê-lo como aliado será melhor, muito melhor do que como rival.

O problema do moreno misterioso é que ele ainda não se definiu, ainda está se conhecendo, não sabe o que virá a ser algum dia, não sabe nem mesmo o que é. Isso o torna perigoso.

— Gostaria de saber, também, se o senhor pode me treinar. Eu quero ficar realmente forte pra conseguir derrotar o infeliz do Kazu. O meu sonho é poder... poder vingar a morte dos meus pais e fazer ele pagar por tudo o que tem feito! — Vê nela o quarto membro perfeito para a turma, ela tem a mesma sede por justiça que o loirinho.

Como pode recusar?

— É claro. — As duas palavras enchem de alegria o coração da menininha, ela não se detêm, abraça o velhinho em um ataque repentino.

Azin sorri. Já estava na hora de entrar uma menina. Estava tudo sombrio e cinza demais, só um toque feminino poderia colorir aquele lugar, ele está certo, pensa assim desde o início, só não pensou que fossem conhecer uma garota tão especial, porque alguém que passa por tudo o que ela passou e ainda consegue sorrir é, sem sombra de dúvidas, especial.

A noite logo cai e, enquanto todos dormiam, Yume se levanta e descobre então que nem todos dormiam. Procura por Santsuki, mas não o encontra. Ela, mais uma vez, tenta imaginar onde ele deveria estar e deixa a caverna, sai em busca do garoto.

Rapidamente o encontra, o vê sentado no topo de uma árvore próxima. Ele admirava a lua, as estrelas, não só isso, mas refletia sobre a própria existência, sobre o seu ser. Estava perdido em pensamentos, fazia-se milhões de perguntas em pouquíssimo tempo, imaginava um monte de coisas e situações diferentes.

Yume escala a árvore, fica de pé sobre o galho ao lado dele. Ele não a nota ali de imediato, permanece concentrado em seja lá o que está fazendo. Decide olhar para a lua também, queria saber o que o atraía daquela forma, mas não o entende, não cai no mesmo encantamento que ele.

— Oi. — Chamou por ele.

— Hum? — Finalmente a captou. Que desligado, ela ri. — Ah, oi. O que faz aqui?

— Nada não, é que eu tava sem sono, resolvi sair e te vi aqui. Você gosta de olhar as estrelas?

— Não exatamente, eu gosto do que elas me fazem sentir. Elas me fazem refletir, sabe? A ideia de algo tão imensuravelmente maior do que os homens é o que provoca em nós essa sensação de insignificância.

— É verdade. Em uma escala de tamanho astronômica, nós não somos do tamanho de uma poeirinha. — Concordou, agora refletindo junto a ele.

— Isso é incrível. Além disso, as estrelas podem viver por bilhões e bilhões de anos. Quando explodem, são capazes de devastar sistemas solares inteiros. Não há nada mais poderoso do que elas. Nossos corpos são frágeis, pequenos, se deterioram rápido. É por isso que eu acho que ele não é o que nós temos de melhor, que é apenas um meio para um fim. Senão, não teríamos porque estar aqui.

— Acha que há um sentido para a nossa existência? — Toda a sua atenção se volta para ele, está cada vez mais interessada nas coisas que ele diz.

— Tudo no universo tem uma função. Ou já teve. Tudo contribui para um todo ou já foi parte de um todo, por isso acredito que tudo tem a sua razão para existir. Cabe a mim descobrir a minha. Cabe a você descobrir a sua. A felicidade é consequência. Encontrar a razão de ser é como encontrar o maior dos tesouros, o que quer dizer que nem todos conseguem. Muitos morrem sem nem começar. O meu sonho é poder conhecer a mim mesmo, meu maior pesadelo é morrer sem conseguir.

— Você acha que todos têm esse poder? O poder de conseguir conhecer a si mesmo? — Ele a fascinava.

— Tenho um palpite. Acho que isso depende do tempo de vida que temos, o tempo que somos capazes de sobreviver. Nós, os seres de Essência, podemos viver por até quatro séculos, temos muito mais tempo de vida do que qualquer ser humano, por isso não sei dizer se isso é porque a nossa caminhada é mais difícil do que a deles ou se porque somos mais capazes. Se eu tive a chance de conseguir, você só vai saber depois da minha morte.

— Faz sentido. Chegou à essa conclusão sozinho?

— Fui obrigado. Quando chegou ao poder, Kazu ordenou que queimassem todos os registros dos maiores pensadores da história da Terra. Nada sobrou. — Terminando de se explicar, ele olha as horas. Fica de pé. — Vamos, precisamos dormir. Temos um longo dia pela frente.

O sentimento que nutre por ele acaba de crescer, mas ela se angustia ao perceber quão desligado ele é. Ficar perto dele será mais difícil do que pensava.

Ali para dizer seus pontos fortes e fracos, apontar os seus erros, acertos e dizer onde podem melhorar, Hanzuki não se impede de ficar impressionado com as habilidades deles três. São fantásticos. É até difícil de acreditar que eles têm apenas quatorze anos.

Pode até dizer o futuro que os espera. Tanto talento em crianças tão novas só resulta em sucesso, os seus discípulos serão verdadeiras lendas.

Em especial Yume, que iniciou seu treinamento hoje e já pegou o ritmo de Azin e Santsuki. Trocava socos com os dois como se já estivesse acostumada a fazer aquilo, em muitos momentos chegou a se defender de ambos atacando-a juntos.

Eles apostam corrida, salto a distância, levantamento de peso e, quando o relógio aponta a hora do almoço, estão exaustos, se encostam em algumas das árvores próximas e esperam pelo professor, que jurou trazer a comida: sardinha frita mais uma vez.

Com a boca ainda cheia, a garotinha agradece:

— Isso está delicioso, senhor Hanzuki. Muito obrigada.

— Ora, não precisa agradecer Yumezinha, é meu dever providenciar o seu alimento agora que é minha aluna.

— É, e você não vai agradecer depois de comer isso pela terceira semana consecutiva. — O loirinho murmurava, terminando de comer.

— Você não deveria estar reclamando, nós demos sorte de ter encontrado um rio tão perto daqui, temos comida de graça. — Explica-lhes o velho. — Você não vê o Santsuki reclamar... siga o exemplo dele.

— Ele nunca reclama de nada, é mais calmo do que você! — Esbraveja. — Se eu tiver que comer sardinha de novo, vou acabar arrotando um cardume... — Larga o peixe em protesto.

O ancião suspira como quem se dá por vencido.

— Está bem, Azin. Eu vou te dar dinheiro pra você comprar qualquer outra coisa para o jantar. — Odeia admitir mas ele está certo. Sente ânsia de vômito só de pensar em comer sardinha outra vez, mas como o homem sovina que é, gastar o pouco que recebe do estado vai ser doloroso.

Por sorte, legalmente os três ainda são crianças, por isso também têm seu direito a um salário mensal.

— Eu vou com você para evitar que se meta em confusão de novo. — Tal fala desperta a curiosidade da menina. Ao que Santsuki se referia? Deu muita ênfase nas duas últimas palavras, ela não pode deixar isso passar despercebido.

— "De novo"? O que aconteceu? — Os indagou.

— Ele está falando da vez em que eu espanquei alguns soldados em praça pública porque eles estavam chutando um homem caído. — Confessa um tanto quanto envergonhado. — Eu agi por impulso, mas foi porque não aguentei ver o que eles estavam fazendo, eram muitos batendo em um só. Nada nessa vida me irrita mais do que a covardia!

— É, mas isso nos comprometeu. As pessoas começaram a nos aplaudir e espalharam o que viram, por isso tivemos que nos mudar pra cá.

Ela sorri ouvindo a discussão dos dois. São boas pessoas. Há muito tempo não se diverte tanto quanto agora, ao salvá-la Santsuki não só a livrou da morte mas também a apresentou a todo um novo mundo. Está ali por causa dele, agir com o coração pode ser vantajoso, às vezes. Conseguem ser legais e divertidos mesmo vivendo presos às correntes daquele tirano.

Já os considera seus amigos. Se é recíproco, não sabe, mas de sua parte é verdadeiro.

Na padaria, o loiro gastava com doces, pães, biscoitos e bebidas, dando o dinheiro do idoso em muito mais do que ele ordenou. A menina e o moreno não participam porque sabem da bronca que está a caminho, porém também não o falam pra parar, só assistem.

Mas ele começou a passar dos limites, Yume, então, resolve alertá-lo.

— Err... Azin, eu acho que já está bom.

— Sim, sim, eu concordo. — Ele para de comprar, admira os dois cestos de mercadorias cheios, sorri vitorioso e dá o cartão ao balconista. — Pode passar, por favor.

Todos percebem a hesitação do gerente, ele não acreditava que alguém ali teria dinheiro para encher dois cestos daqueles até a máquina permitir todas as compras e ainda sobrar crédito. Fica estupefato, mas um pouco feliz por dentro. É a primeira vez no ano que vê alguém comprar tanto. O que ele não sabia é que o dono dos créditos vinha economizando há um bom tempo.

De repente, uma explosão. Ela sacode tudo e derruba os três. Eles olham para fora.

Azin é o primeiro a correr para a rua, seguido de Yume, depois é Santsuki.

— O que está havendo? — Yume queria saber.

Um guerreiro baixinho e mascarado apontava a sua espada para o pescoço de um jovem caído, aterrorizado, rendido. Tenta correr, mas apanha no rosto e cai novamente. Como era de se esperar, aquilo tira Azin do sério.

Antes de pensarem em contê-lo, o loirinho socorre o rapaz.

— Ei! Deixe-o em paz!

O samurai olha para Azin.

— E se eu não quiser deixar? — Disse, mudando a direção da espada.

— Azin, não se envolva nisso, você vai nos expor! — Santsuki sussurrava.

— É melhor você seguir o conselho do seu amigo e se mandar daqui.

— Quanta marra...! Apontando essa espadinha pra mim... Eu tenho certeza de que poderia decidir isso com um soco. — Azin estava tentado a atacá-lo com tudo, mas Santsuki tinha razão. Todavia, o que pressente que está prestes a ver faz com que a razão fique para depois, então ele atacou o guerreiro de máscara antes que este conseguisse passar a lâmina no pescoço de um inocente.

A sua surpresa foi enorme quando o inimigo parou o seu soco com uma única mão, mas ele não foi o único que ficou perplexo diante daquele cenário. A descoberta da identidade daquela pessoa é urgente!

Apertou o punho do loiro para obrigá-lo a usar a força, só assim o soltando.

— O que você é...?! — Perguntou, massageando a mão machucada.

— Você sabe o que eu sou. É por isso que vai morrer! — O ataca com sua espada, mas Santsuki se põe entre os dois e detém a lâmina usando as mãos. Olho no olho. Vê o moreno quebrar a sua arma com as mãos, se assusta e em seguida recua.

— Vamos embora daqui Azin, derrotar esse aí não vai ser tão fácil, nós não podemos correr o risco de nos expor enfrentando ele! — Tenta trazê-lo de volta a si mas quando consegue, são atacados de novo, dessa vez Yume precisa ir até lá, e intercepta o lutador misterioso com uma voadora no estômago.

— Tarde demais. Ele não vai nos deixar sair daqui sem uma luta e nós não podemos deixar ele ir, já que sabe que somos de Essência. — Falou a menina.

— Belo chute. Não vai ser fácil vencê-los, eu terei que ir com tudo. Vai ser bom, já faz um tempo que não estico os músculos. — O mascarado os analisa.

— Tudo bem, vamos fazer isso. — Santsuki vê que não há outro jeito. Azin, mais uma vez, agiu por emoção e fez besteira, precisam consertar. Mentalizou a formação de combate perfeita e avisou: — Eu vou primeiro. Azin, você vem logo depois e Yume, você avança no ponto cego dele.

— Entendido. — Estavam de acordo.

O primeiro investe em velocidade máxima, desfere o primeiro soco mas o outro se esquiva, desfere o segundo e ele se esquiva de novo, depois do terceiro e do quarto vem o contra-ataque, é aí que Azin entra, protegendo o aliado de um chute e devolvendo outros dois, seu inimigo se defende dos dois golpes e vê o moreno atacar de cima com a ponta da espada quebrada, recua e ele enterra no chão o que resta da arma, mas precisa se esquivar dos dois socos seguintes.

Azin se aproveita do foco voltado para Santsuki, desenterra o resto da faca e o arremessa contra o adversário que se esquiva por pouco, deixando um corte se abrir na máscara, Yume aparece nas costas dele, ele a percebe ali, defende-se do soco dela e ao mesmo tempo do soco de Santsuki, olha para cima, vê o garoto impulsivo cair, recua quatro passos e permite que ele colida com o chão, levantando poeira e destroços.

Incisivo, Azin enxerga vantagem na cegueira causada pelo pó e pressiona o espadachim com seus socos mais fortes, porém erra todos e é tirado do jogo com um chute giratório, em seguida vem Santsuki mas um chute atravessa a sua defesa, o arremessa para longe e o deixa vulnerável, o oponente, então, se vê diante da chance de matá-lo e não a desperdiça, arremessa a última espada que tem contra ele.

A ponto de ver o garoto que ama ser assassinado, Yume bate as mãos no chão em um ato desesperado e sem saber como, ou o que fez, uma barreira de terra salva o seu amado da morte certa.

— O que é isso? Foi ela quem fez isso? — Santsuki se abala.

A parede de terra bloqueia a sua visão, então o guerreiro desconhecido não a nota com a precisão que gostaria, por pouco não é destruído pelas lufadas que saltam das mãos da garota, que estava furiosa. Ela o erra, atinge e despedaça todo o solo junto com a parede que montou antes, mas o persegue a todo custo e decide que não parará até tê-lo morto.

Depois das correntes de vento vêm os jatos de fogo, turbinados pela força do sopro dela, ele não tem outra opção além de saltar. Ao redor da arena, todos observam a batalha, luta que se transformou em um espetáculo de luzes, fogo e explosão.

Ao resolver dar um fim ao show ela enfia as mãos na terra, faz com que de lá surja água e eletrocuta as mãos quando vê seu rival cercado pelo mar que foi capaz de criar, porém ao perceber suas intenções ele retira a máscara e levanta as mãos em rendição.

— Hã? Senhor Hanzuki? — Falou a menina, cessando os ataques.

— É, sou eu, heheh! D-Desculpa, isso foi só um teste! — Revelou, fazendo com que eles se ajuntem e relaxem os ânimos. — Fui pego de surpresa! Eu não contava que ela fosse despertar seus poderes no meio da luta! Talvez eu tenha pego pesado demais com o Santsuki...

— Se isso foi só um teste, então quem é o cara em quem o senhor estava batendo? — Azin queria amarrar esta ponta solta.

— Ah, ele é um amigo meu, o Keibi. — Apresentado, o rapaz sorri e acena. — E eu não estava batendo nele, foi só fingimento. Eu queria ver como estava o seu trabalho em equipe e devo parabenizá-los, é de um nível impressionante pra um trio que se formou hoje, vocês estão avançando muito rápido.

— Foi tudo... um teste. Fez tudo isso só pra ver o nível do nosso trabalho... em equipe? — Azin ainda o incompreende. — O senhor nos fez lutar em público!

— Praticamente nos expôs.

— Não acha que foi perigoso, senhor Hanzuki? — Yume se prova confusa.

— Vamos, não se preocupem com isso, com o nível de força que vocês têm, os soldados do Kazu não terão chances. Se os quiser mortos, ele vai ter que vir até vocês e ele não vai fazer isso. — Torcia para estar certo. — Que isso seja verdade, porque se não for, estamos todos perdidos. Kazu é um verdadeiro monstro... Não só por ser o primeiro retalhador, mas porque é fora do comum. Vão precisar treinar e se esforçar muito mais se quiserem vencê-lo.

— Então tudo bem. — Quando se dá conta de que é o próximo que vai ter que dar respostas, o loirinho resolve parar de fazer perguntas. Pede que eles lhe esperem, entra na loja e pega as duas cestas, petrificando o dono do cartão de crédito. — Relaxa, senhor Hanzuki. Senhor Hanzuki? Senhor? Reage. Acho que o matamos.

— Nós não, você! — Yume afasta a culpa de si.

— Yume. — Santsuki chama seu nome, ela lhe dá atenção. — O que você fez lá na arena foi incrível... O teria destruído se ele não tivesse se rendido.

— B-Bem, obrigado, mas... Não sei o que deu em mim naquele momento, eu perdi o controle sobre os meus poderes, agi por impulso. — Respondeu, sem deixar de pensar no que a levou a perder a razão daquela forma. — Foi por sua causa. — Ela pensava, olhando em seus olhos.

— Entendo. Parece que você nasceu com a Essência dos Cinco Elementos, é capaz de subjugar a natureza, o que faz de você um membro precioso para a equipe, mesmo que na hora em que fez aquilo não tenha sido você mesma.

Seu coração saltita de alegria depois que ela assimila aquelas palavras, o seu rosto se ruboriza. Quer abraçá-lo mas não quer deixá-lo sem graça, por isso é capaz de se conter, mas vira o rosto para que ele não a veja vermelha e se afasta para que ele não escute seus batimentos.

E assim se concluiu esta pequena introdução ao universo Four Sun! Se quiser saber o que aconteceu com nossos três heróis, acompanhe Four Sun: Earth!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!