Four Sun — O Natal de Yume!
1 Capítulo único
Capítulo único: O Natal de Yume!
Uma bela e ensolarada manhã. Aquela era a melhor forma de descrever aquela véspera de natal, em um dia que acabara de nascer. Os reluzentes raios solares eram irradiados por toda a Nação da Água, o céu foi preenchido por um resplendor de ouro, incapacitando qualquer um de admirá-lo por mais que alguns míseros segundos. Os sabiás assoviavam, cantando em sincronia perfeita, adereçando ainda mais aquele já encantador dia.
Luzes pisca-pisca, árvores de natal, chaminés enfeitadas, viscos de natal pendurados em janelas, meias, respeitosos e temíveis samurais usando gorros iguais ao do Papai Noel. Tudo estava em perfeito clima natalino. Todos tinham o "espírito de natal". A Nação da Água estava em clima de festa. Risadas e sorrisos eram escutados por todo o canto. Aquele era um dia para se passar ao lado da família, dos amigos, ao lado de seus amores.
As lojas do Reino de Áries estavam sendo mais visitadas do que nunca. Um impressionante aglomerado de pessoas se formava na entrada de cada loja, o movimento estava melhor do que jamais esteve. Os vendedores lutavam para dar conta de tudo aquilo e acabar com os trabalhos rápido, não só pelo dinheiro, mas sim pela imensa vontade de voltar pra casa para passar aquele dia ao lado da família.
O fluxo de movimento das ruas daquele ilustre reino havia aumentado consideravelmente. Crianças correndo e brincando, adultos com sacos de compras em mãos, todos eles, sem pelo menos uma exceção, usava um gorro de natal. Era como se uma lei tivesse sido criada pela jovem líder do reino, lei que proibia qualquer um de perambular por ali sem qualquer coisa que demonstre seu entusiasmo pelo Natal.
Claro que a jovem Yume não seria a rara exceção. Muito pelo contrário, a moça de longos cabelos verde-água foi quem, dias, semanas antes deste dia mais demonstrou empolgação, foi ela quem contagiou a todos com sua felicidade e espírito natalino. E ela demonstrava isto enfeitando a grande árvore de natal que estava de pé no canto de sua sala, com um singelo sorriso nos lábios.
Depois que esgotou todas as bolas coloridas ao colocá-las como enfeite na sua árvore de natal, a guerreira se viu bem satisfeita. Levou as mãos à cintura e os olhos até a parte de baixo da árvore, levando-os a cada perímetro da peça. Fitou-a de baixo a cima, e de cima a baixo. Coçou o topo da cabeça confusa. Ainda está faltando alguma coisa. Foi quando desviou o olhar para o topo da árvore mais uma vez. Então é isso!
Andou calmamente até a tampa de papelão da caixa na qual havia guardado os enfeites que comprou, e lá encontrou o que faltava. A estrela do topo da árvore. O adorno que traria a verdadeira beleza à peça na qual trabalhou praticamente a manhã inteira. Acolheu o objeto entre suas mãos e andou até a árvore. Percebeu que era baixa demais para alcançar por si só o topo da árvore, mas ao equilibrar-se na ponta dos dedos ela conseguiu.
Yume se agachou no tapete rosa claro que cobria o chão de sua casa, recolhendo dele o fio da tomada que usaria para ligar o "pisca-pisca". Conectou-o ao interruptor, ligando tudo e fazendo resplandecer todas aquelas luzes coloridas; amarelo, vermelho, verde-claro, azul-marinho, azul claro e muitas mais. Toda a ampla sala foi tomada por aquela aquarela. Yume esfregou os olhos para ser capaz de ver tudo muito bem.
Sorriu admirada. Foi uma das visões mais lindas das quais já desfrutou em toda a sua vida. As cores irradiaram pelo rosto alvo da jovem líder, cintilavam, alternando a todo instante. Ela suspirou maravilhada, mordendo de leve seu rosado lábio inferior.
— Ficou perfeito! — Exclamou, alegremente.
— Yume-chan! — A voz feminina de sua amiga chamou por ela, vinda do interior de sua casa.
— Mel-chan? O que foi? — Ela perguntou.
— Onde está o pisca-pisca que você disse que eu podia levar? Não o vejo. — Respondeu.
— Tá aí no meu quarto, lá no fundo da terceira gaveta da cômoda que fica do lado da cama. — Gritou de volta.
— Ah, sim, acabei de achar. — Disse.
Alguma coisa na árvore de natal a estava "estragando", de acordo com a guerreira. Lançou para o objeto um olhar criterioso. Com uma das mãos sobre o queixo, Yume ficou a procurar pelo que, segundo ela mesma, não estava certo ali. Ela finalmente encontrou o que faltava, e sorriu como se tivesse tido uma ideia brilhante. Se agachou no canto da árvore e, de lá, retirou um cordão dourado, aquele que usaria para pôr sobre a árvore.
Subitamente, uma sensação de mal-estar a abateu. Tudo ao seu redor começou a girar. O enjoo que sentiu a seguir foi o pior, pois veio junto com a ânsia de vômito. De forma instintiva ela levou a mão até a boca. Começou a procurar pelo sofá, e como sua visão estava embaçada, ela foi obrigada a encontrá-lo tateando tudo, mas não teve forças para se sentar. Estava para cair.
— Escuta, Yume-chan, eu estava lá vendo umas coisas e... — A viu cair de joelhos no chão, muito mais branca que o normal. — Yume-chan!
E correu para socorrê-la, ajudando-a a se erguer. Deduziu que ela estava para vomitar, e resolveu levá-la até o banheiro, vagarosamente, claro, pois correr não ajudaria muito. Quando as duas chegaram lá, ela se agachou na frente de seu vaso sanitário e não pôde mais segurar. Para não deixar que ela acabasse se sujando, a jovem Mel segurou seus cabelos azuis em um rabo de cavalo.
Minutos se passaram, e aquilo parecia que nunca iria ter fim, tudo o que ela havia consumido estava sendo regurgitado ali. Quando acabou, estava sem forças para fazer qualquer coisa, e caiu para trás. Apenas não se machucou seriamente porque Mel a ajudou, e a ergueu, logo em seguida se dirigiu com ela até a sala novamente, e com muito cuidado a sentou no sofá.
— Diz pra mim, o que foi isso? — Curiosa, ela perguntou.
— Eu não sei. Acho que já faz várias semanas que eu tô assim. — Respondeu, com sua voz fraca e falha.
— E você não foi pro hospital? E se isso acabar ficando grave?!
— Tenho medo do que o médico vai dizer! E além disso, você sabe que eu morro de medo de injeção! — Exclamou.
— Isso não é desculpa. — Disse, balançando a cabeça negativamente. — Você é a líder do Reino de Áries, deve estar sempre bem. Nós duas vamos agora ao hospital pra ver o que é isso.
— Ahhh. — Gemeu descontente. — M-Mas...
— Nada de "mas". — A pegou pelo braço e apoiou seu corpo ao dela, e assim se dirigiram até a porta de saída.
(...)
Sentada de pernas cruzadas, folheando uma revista, Mel aguardava pela chamada do médico que as atenderia. A sorte foi que as duas eram as únicas ali, porque se tivessem mais pessoas — ou melhor dizendo fãs de Yume — seria difícil poder andar com calma por ali. A seu lado, com o corpo inclinado pra frente, os cotovelos apoiados no joelho e o queixo entre as mãos, Yume também aguardava.
Visivelmente entediada. Sua atenção foi roubada pelo "tic-tac" do relógio. Bocejou. Passou o tempo todo tentando fazer com que Mel entendesse que já estava tudo bem, de que não se sentia mal, mas não havia adiantado, ela insistiu fazê-la ficar ali esperando. Sem mais nada para fazer, ela começou a roer as unhas.
— Credo, para de roer as unhas! — A repreendeu.
— Eu tô entediada. — Afirmou. — A gente não pode só ir embora daqui? Eu juro que já tô bem.
— Ai, para de falar assim, você parece uma criança! — Exclamou. — E eu sei que esse negócio de "eu juro que já tô bem" é passageiro.
— Mas eu tenho que me encontrar com o meu Azin daqui a algumas horas.
— Depois você vê isso, em primeiro lugar vem seu bem estar. — Contra-argumentou. — E falando nisso, cadê o seu marido pra cuidar de você?
— Você sabe que ele não está morando aqui.
— Vocês estão casados, não acha que já é hora de irem morar juntos?! — Indagou.
— Senhorita Yume. — O médico chamou.
— Vem. — Mel se levantou, a pegou pela mão e a levou para dentro da sala do médico, praticamente a arrastando.
Vários minutos se passaram com as duas lá dentro. Yume fez incontáveis exames, o médico pensou em medir sua temperatura para ver se havia algo a ver com, mas não deu em nada. Ela parecia perfeitamente bem de saúde, mas seu semblante era o de uma pessoa doente. Depois de tudo, o doutor pediu que elas aguardassem sentadas, ele parecia estar dando um diagnóstico.
Mais uma vez entediada, ela deitou a cabeça no ombro da amiga pra esperar. Impaciente, ela não parava de roer as unhas. Seus olhos vasculhavam toda aquela sala em busca de algo para entretê-la enquanto aguardava, mas pelo que viu nada iria ajudar nisto. Mel percebeu isto, mas ignorou. Yume sempre foi deste jeito, uma criançona, era sua característica mais marcante, o que mais cativava os outros nela.
O doutor carimbou alguma coisa, dando nela um susto. Mel sorriu discretamente. Nunca muda mesmo. E ouvir de Azin que sua personalidade era o que mais gostava nela não iria ajudá-la a mudar mesmo. Yume começou a brincar com os cabelos loiros de Mel, enrolando-os na ponta dos dedos. Mel resolveu ignorar. Pelo menos isso a distrai.
— Muito bem, senhorita Yume — o médico se pôs de pé e retirou os óculos do rosto, como se estivesse se preparando para lhe dar uma notícia bombástica, algo que preocupou Mel —, está tudo bem, não há nada de errado com a senhora.
— Então... Por que ela vem sentindo esses enjoos e a tonteira? — Indagou Mel, também se pondo de pé. Após pensar um pouco, finalmente caiu a ficha.Não, não pode ser.— Espera. Não me diga quê...
— Sim, é isso mesmo. Meus parabéns Yume-sama, a senhora está grávida.
A senhora está grávida. A senhora está grávida. Grávida.
As palavras ecoaram pela mente da jovem Yume, que de tão surpresa e feliz não sabia nem o que dizer. Simplesmente ficou estática, paralisada por completo. Sim, ser mãe era o maior sonho de sua vida. Ser mãe dos filhos do homem que ama era a melhor coisa. Ela se pegou imaginando em como seriam as coisas dali pra frente. Em como eles seriam felizes juntos.
Uma lágrima saltou de seu olho, escorrendo todo o seu rosto, só de pensar na hipótese de aquilo ser uma brincadeira de muito mal gosto, ou de o teste ter dado errado. Levou as mãos trêmulas até o rosto, enxugando a lágrima.
— Você... tá falando sério mesmo? — Perguntou.
— Sim, senhora. — O médico confirmou, sorrindo.
— Meus parabéns, Yume-chan! — Mel a felicitava, ambas sorrindo feito bobas.
— E-Eu vou ser mãe! Eu vou ser mãe mesmo! — Ela repetia para si própria, como se tentasse confirmar isto, queria a todo custo se fazer acreditar que aquilo não era um sonho. — Isso é... Isso é incrível!
E abraçou Mel com todas as forças, sendo retribuída. Após se separarem do abraço, ela pegou a amiga pela mão, correu com ela até a janela, abriu as cortinas, abriu a janela e, em seguida, levantou voo janela afora. Mel entrou em pânico, o fato de nunca ter feito aquilo antes somado à velocidade com a qual Yume voava tornava isto compreensível. Uma palidez incrível tomou sua pele.
Mel agarrou com toda a força a mão da amiga, que não reduziu a velocidade de voo nem um pouco desde que saíram do departamento médico. O vento indo contra seus rostos lançava os cabelos e as roupas para trás, juntamente com as lágrimas de felicidade que saltavam dos olhos brilhantes de Yume, que a todo momento repetia: "Eu vou ser mãe! Não dá pra acreditar, eu vou ser mãe!"
Ela só chegou a reduzir a velocidade do voo depois que as duas se aproximaram do palácio do reino, chegando até o terraço do mesmo. Lá em cima, Yume soltou Mel, que caiu no chão, literalmente derrapando.
— Ai, ôh! — Ela reclamou, esfregando as coxas raladas com as mãos. Se levantou.
Yume movia ambas as mão em frente ao rosto com a graciosidade de um anjo, como se fosse um pintor pincelando uma tela. Uma parede d'água se materializou na frente de seu rosto. Yume levou a mão até o bolso de trás de sua saia e retirou de lá o que parecia ser um fio de cabelo loiro. O levou até a parede d'água, deixando que sua mão a atravessasse, e pareceu deixar o fio de cabelo lá.
A imagem de um rapaz foi refletido na tela d'água. Ele tinha pele clara, corpo atlético, lisos cabelos loiros que chegam até mais ou menos a altura de seus ombros, belos olhos cor de mel e, em suas costas, grandes asas douradas estavam manifestadas, e parecia mais um garoto de quinze anos. A sua volta havia um grande número de gente. Yume suspirou apaixonada.
— Olha o meu Azin, ele não é lindo? — Perguntou, sorria abobada.
— O que está pensando em fazer? Você vai contar a ele que está esperando um filho dele, não vai?
— Claro, né. — Falou, sem retirar os olhos dele. — Vem, vou pedir que os tios que cuidam dos pombos mensageiros enviem uma mensagem, dizendo para que ele venha pra cá agora. — Yume correu em sua direção.
— Ai, espera aí, a gente não pode ir... — Seu braço foi puxado, e antes que pudesse dizer mais alguma coisa, elas já estavam voando pelo céu. — ANDANDO?! — Completou, com medo.
Em uma explosão de impacto, Yume aumentou a rapidez com a qual voava, desaparecendo no horizonte rapidamente. A felicidade em seu coração crescia segundo a segundo. É por isso que começou a acreditar que nada, definitivamente nada neste mundo poderia arruinar aquele dia. Dia que tinha tudo para ser perfeito.
Este será o melhor natal de todos. O melhor natal não... o melhor dia de todos os tempos.
(...)
As asas douradas de Azin batiam o mais rápido que ele conseguia. Ficou desesperado ao ler a mensagem de Yume, que dizia para que ele fosse imediatamente para o Reino de Áries, pois era urgente o que ela precisava dele. Azin não pensou duas vezes em ir até lá. Se sentiu culpado o bastante ao dizer que iria chegar tarde no Reino de Áries para passar o natal ao lado dela, não está a fim de se sentir pior.
Para o que será que ela está precisando dele? Milhares de coisas passavam pela mente dele, e nenhuma delas parecia agradável a nenhum dos dois.Sabe quando uma pessoa diz que tem algo importante a falar com você, você fica curioso e preocupado a ponto de só pensar no pior? É assim que Azin se sente.Balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando afastar tais pensamentos.
Olhou para frente. Finalmente havia entrado no Reino de Áries. Aquele reino é pelo menos três vezes maior que o seu. Azin sempre foi orientado a, quando entrar ali, passar no palácio do reino primeiro, mas agora não tinha tempo pra isto. Além do mais, iria conversar com Yume, a líder do lugar, e sua esposa. Sua amada esposa. Por isto, ele seguiu caminho direto até a casa dela.
Segundos voando a aquela velocidade foi o suficiente para que chegasse no terraço do apartamento no qual ela morava. Recolheu suas asas de volta para dentro de seu corpo, correu até as escadas e as desceu desesperadamente. Descia todas as escadas, com o número do apartamento dela em mente, não tinha erro. Ao terminar de descer todas as escadas, ele cruzou vários corredores, à procura do que tivesse o número do apartamento de Yume.
241. 241. 241. Vamos. Ele logo foi capaz de avistá-lo e correu até lá. Havia um visco na porta de madeira. Ficou alguns segundos batendo na porta apressadamente, até que Mel abriu a porta, deixando que ele entrasse. Estava nervoso, sequer falou com ela antes de entrar, apenas correu até a sala, onde achava que ela estava. A viu sentada no sofá.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou, preocupado.
— Eu... — Ela fazia suspense, com a cabeça abaixada. Azin ficava cada vez mais nervoso, esperando ansiosamente por sua resposta. — Eu...
— O que foi? Diz de uma vez, essa preocupação está me matando! — Exclamou, impaciente.
— Eu — ela se levantou, parou frente a ele, o pegou pelas mãos e o olhou nos olhos —... estou grávida. Nós vamos ser pais!
— S-Sério...? — Mel observou que os dois tiveram quase a mesma reação, ao ouvirem tal notícia.Até nisso são iguais. Parece que foram mesmo feitos um para o outro.— Isso não é brincadeira... né?
— Não! — Ela exclamou, pulando de felicidade. — Azin, nós vamos ser pais! Imagine isso!
Os dois começaram a rir abobados, e se abraçaram. Mel, observando de longe, apenas sorria alegre com a felicidade dos dois.Sim, Yume havia ganho na loteria com Azin. Qualquer outro homem teria ficado apavorado com tal notícia. Ele sem dúvidas é especial. Mel se dirigiu para a cozinha antes que os dois começassem a se beijar, odiava lembrar que era apenas uma "solteirona".
Azin selou os lábios de sua esposa — alguns centímetros mais alta que ele — com um longo selinho. E vários seguidos. Tamanha era a felicidade que os dois sentiam. Yume o pegou pelo pulso e, em seguida, pôs a palma de sua mão em seu ventre. Ele se agachou frente a ela e levantou um pouco a camisa que ela usava, deixando-o a amostra. Azin sorriu bobo mais uma vez, e começou a beijá-la.
Yume apenas ria. Ria como uma criança, pois aquilo lhe fazia sentir cócegas.
— P-Para... — Ela pedia, entre as risadas. Corou. — Eu vou acabar fazendo xixi nas calças se você continuar com isso! — E ele continuou.
Inesperadamente, ele a abraçou pelos quadris e se pôs de pé, a erguendo poucos centímetros do chão. Yume continuou a sorrir com aquilo. Ele andou com ela até o sofá e a soltou ali, deixando que ela caísse. Se jogou por cima dela em seguida, deitando seu corpo sobre o dela, colando-os.
Seus rostos ficaram próximos. Os narizes roçavam um contra o outro. Seus lábios em seguida se tocaram em um beijo dócil e cálido, bem calmo. Se afastaram mais uma vez. Ele, mais uma vez, beijou o ventre de Yume.
— Tá me fazendo cócegas! — Ela protestou. — Agora me responde uma coisa. Você ia mesmo vir pra cá?
— Eu... — Ele nem sabia o que dizer. Tinha medo de que sua resposta a decepcionasse ou a deixasse triste, Yume era muito sensível.
— Azin. — Ela lhe chamou pelo nome, autoritária.
— Eu não sei, talvez eu chegasse tarde demais. Mas é porque... como líder do Reino de Câncer, tenho muitas coisas a resolver. Você sabe muito bem como é isso. — Respondeu.
— É chatíssimo. — Disse, revirando os olhos. — Mas hoje é natal. Não é dia pra trabalhar.
— Lá no Reino de Câncer as coisas são um pouco mais diferentes. — Ele se levantou de cima dela separando seus corpos, sentando-se normalmente no sofá. — Mas com a união dos nossos reinos isso com certeza vai mudar.
— Tomara. — Ela concordou.
— Ei, não quer "fugir" das responsabilidades comigo? — Ele perguntou.
— Como assim? — Yume estranhou.
— Vamos sair, oras. Seu reino está muito mais bonito que o meu, lá não tem nenhuma decoração de natal. — Falou.
— Espera aqui. — Yume se levantou, e andou dirigindo-se a seu quarto.
Pôde ouvir o barulho de gavetas abrindo-se e fechando-se em seguida. Empolgada, Yume correu a porta do quarto a fora até ele, com ambas as mãos atrás das costas, com um singelo sorriso nos lábios. Ela se sentou ao lado dele e, tirando as mãos das costas, ela pôs sobre a cabeça dele um gorro, um gorro como o do papai noel.
Ela o abraçou por cima dos ombros.
— Feliz natal pra você. — Ela lhe disse.
— Pra nós. — Ele se levantou, pegando-a pela mão e a fazendo levantar também. — Que tenhamos o melhor natal de todos!
— Ei, Yume-chan — Mel apareceu na porta, segurando um saco vermelho enorme —, o que têm aqui?
— É a minha roupa de mamãe noel! — correu até Mel, retirando a sacola das mãos dela — Eu tava planejando usar isso quando fosse distribuir presentes essa noite. Mas agora que você — apontou para Azin — tá comigo, pode ser o meu papai noel. — Concluiu, mostrando-lhe a roupa que queria que ele usasse.
— Eu não vou usar isso. — Azin disse.
— Por quê? — Indagou, com os olhos brilhando e olhar triste, que pareceu comovê-lo. — Não gostou? Tinha escolhido especialmente pra você.
— Não, não é isso. — Viu saltar lágrimas dos olhos dela. — Tá bom, tá bom, eu uso.
— Eba! — Ela sorriu satisfeita. — Pega isso! — E jogou as roupas para ele.
— Você acabou de cair em uma das atuações brilhantes da Yume-chan. Vai se preparando para quando forem morar juntos. — Mel sussurrou para ele, enquanto Yume parecia se distrair com a roupa que havia retirado da sacola.
— Vem, vamos comprar presentes. — Falou, antes de puxá-lo pela mão e arrastá-lo dali pra fora.
Mel saiu seguindo-os, com um sorriso no rosto. Queria muito ver no que aqueles dois iriam se envolver. Um fato que sempre estranhou é Azin, que é cronologicamente mais velho que Yume, ter a cara de um garotinho de quinze anos, mas Yume ter a cara de uma jovem de vinte e cinco anos, que é a sua idade.
Vai entender.
E bateu a porta antes de sair.
(...)
Azin passeava pelas ruas do reino com Yume na cacunda, os dois pareciam até crianças brincando. Mas ele não parecia se importar com isto. Com o queixo deitado sobre a cabeça dele, Yume olhava para dentro de todas as lojas perto das quais eles passavam, todas pareciam lotadas, o que os fazia desanimar de entrar pra procurar algo lá. Já haviam passado por várias lojas, e ainda não compraram tudo o que Yume queria, na verdade estavam bem longe de conseguir isto.
Ela sorriu e apontou para uma outra loja, até que algo lhe chamou a atenção. Os dois tiveram a mesma sensação e, por instintos, olharam para um brilho dourado no céu, brilho que parecia deixar um rastro de fogo por onde passava. Yume desceu da cacunda de seu esposo, ficando de pé normalmente, assumindo uma postura mais séria.
— O que foi, gente? Por que essas caras? — Mel havia percebido o quão diferente eles haviam ficado de uma hora pra outra.
— Esse chikara... — Azin pareceu dizer. — Alguma coisa não está certa.
— Não me diga que é Santsuki outra vez?! — Mel disse, e pareceu ter arrepios de terror só por falar o nome dele.
— Não, dessa vez não é ele. Minha capacidade sensorial é a melhor, por isso consigo reconhecer chikara. — Yume disse. — Mas eu nunca senti essa energia antes.
Algo pareceu se chocar com a Terra com grande força e brutalidade. O planeta inteiro tremeu de forma abrupta. Mel acabou por cair sentada no chão, não foi capaz de se manter de pé. Yume e Azin se mantiveram concentrados naquele poder.
Eles se entreolharam por breves instantes.
— Você também percebeu isso? — Yume lhe perguntou.
— Sim. Estão em dois, e cada um deles possui poder o suficiente para destruir um planeta como a Terra, e se tiverem vontade poderiam devastar até mesmo o sistema solar inteiro. — Azin respondeu.
— Vamos investigar. — Os dois se prepararam para ir, para levantar voo, mas foram impedidos.
— Ei, esperem, vão me deixar aqui?! Eu estou longe de casa, sabiam?! — Ela perguntou, visivelmente irritada.
— Mel-chan, por favor, diga ao tio Hanzuki que eu tive que sair, e que não vou demorar muito. — Yume pediu, e em seguida levantou voo, afastando-se dali em um abrir e fechar de olhos.
Azin foi o último a levantar voo, só o fez após abrir as asas e manifestá-las, mas rapidamente a alcançou, mantendo-se em pé de igualdade com ela. Os dois cortavam os ventos, voando na direção da qual sentiam as energias mais poderosas e em um piscar de olhos eles se viram fora da Nação da Água, voando sem nem olhar para trás.
Azin voando emanava uma aura de cor escarlate em torno do corpo, enquanto Yume emanava uma de cor azul clara, tão azul quanto seus cabelos. A expressão séria da jovem líder dava a entender que aquilo não era mesmo uma brincadeira, que eles estavam para confrontar inimigos de fato poderosos.
Bem distante de onde ambos estavam, uma explosão de incrível magnitude engolia uma cidade inteira. Logo, voando em pleno ar, dois guerreiros — fisicamente idênticos; baixinhos, com bigode mexicano, pele de cor verde-musgo, olhos sem a íris ou a pupila, apenas branco total, usando armaduras de guerreiros da antiguidade — davam gargalhadas daquilo. Eles se moveram mais uma vez.
O movimento foi instantâneo, e eles logo estavam em uma cidade inteira. Um deles — o que estava a direita — apontou um único dedo para a cidade e, em seguida, um raio de fogo voou com grande velocidade até a superfície terrestre, gerando uma explosão, uma que fez a cidade desaparecer em poucos segundos; tudo o que estava no alcance da explosão se desfazia facilmente, como se fosse uma simples folha de papel sendo jogada ao fogo.
Em mais um movimento com aquela velocidade, eles apareceram em uma outra cidade, que também estava inteira. Agora foi a vez do outro; este apontou as mãos para o céu, formando uma esfera de fogo minúscula, tão pequena que parecia até ridícula, mas seu poder destrutivo não tinha nada de bobo; a cidade foi completamente varrida pela explosão gerada com a partir do impacto da técnica com o solo. Os dois se moveram mais uma vez com a mesma velocidade, mas agora apareceram outra vez na frente da nave.
— Ai, ai... — Tentava falar, procurando recuperar o fôlego depois de tanto rir. — Mano Sato, destruir cidades é incrível, não acha, mano Sato?
— Sem dúvidas, mano Sota. — O outro respondeu, ainda recuperando o fôlego. — Eu adoro destruir! Queria poder fazer esse planeta desaparecer com uma de minhas técnicas!
— Nós não podemos fazer isso, mano Sato. Nosso objetivo aqui é escravizar esses humanos inúteis, não lembra? — Perguntou.
— Sim, tem razão. Vamos para a próxima cidade. — E em mais um movimento instantâneo, os dois desapareceram dali, aparecendo outra vez em uma cidade aparentemente inteira.
Sota apontou o dedo mindinho para a cidade, formando uma pequena esfera de fogo na ponta dela. A disparou contra a cidade, e quando ela se chocou com o solo, explodiu, levando consigo toda a cidade em questão de segundos. Os dois mais uma vez desapareceram, reaparecendo em uma outra cidade. Sato, agora, estufou o peito, reunindo grandes quantidades de ar do pulmão e, em seguida, soprou com tudo contra aquela cidade.
O sopro dele envolveu todo o lugar em uma explosão, e em menos de cinco segundos o lugar desapareceu do mapa. Os dois gargalharam por alguns instantes observando a destruição, e logo se moveram para outra cidade. Sota, agora, apontou a palma da mão para a superfície do lugar, formando uma esfera de fogo bem maior que as anteriores.
— O que acha disso, mano Sato? Agora eu vou destruir o país! — Disse.
— Mano Sota, essa tem que ser a última vez que nós fazemos isto, porque se continuarmos daqui a pouco não sobrará mais nenhum terráqueo para escravizarmos. — Afirmou.
— Tem razão, essa é a última. — Disparou a esfera. — A MELHOR DE TODAS!
O ataque estava a meados de se chocar com o solo e destruir a tudo, quando um outro raio de fogo entrou na frente dele, repelindo-a para o espaço sideral e a fazendo sumir no vácuo. Logo os dois puderam ver quem havia feito aquilo. No ar, de frente para eles, estava um casal, ninguém mais ninguém menos que Yume e Azin.
Azin cruzou os braços, e ficou encarando-os. Yume manteve a mão apontada para o chão, não a retirou daquela posição desde o momento em que desviou a técnica do inimigo.
— Veja, mano Sota, dois humanos inúteis vieram para nos desafiar! — Disse ele, sorrindo, mais Sota dessa vez não riu junto com ele, pelo contrário; a expressão que tinha era bem séria, séria demais para alguém que estava rindo até mais que Saito, momentos atrás. — O que foi, mano Sota?
— Eles dois não são seres humanos. — Afirmou, o que chamou a atenção de seu irmão.
— Bem, isso não importa! — Virou-se para os dois. — Vamos acabar com esses dois para continuarmos com o nosso trabalho!
— Esses miseráveis destruíram várias cidades, e queriam destruir o país. — Azin dizia, enraivecido. — Malditos! Eu não vou perdoá-los!
— Você ouviu só, mano Sota?! Ele não vai perdoar a gente! — Falou, logo depois gargalhando. — Você parece ser do tipo que fala demais, garoto!
— Sim, vamos mostrar pra eles. — Disse Sato.
— Yume. Tome cuidado, esses caras não estão de brincadeira. — Azin lhe disse, fitando-a por cima do ombro.
— Deu pra perceber. — Ela disse, em resposta.
— E, por favor, procure não se ferir. Se alguma coisa acontecer a esse bebê, eu... — Disse, mudando a expressão para uma de angústia.
— Não se preocupa com a gente — Yume olhou para seu ventre e acariciou de leve com a mão —, né? — Sorriu.
— Que bonitinho, ela está esperando um bebê, mano Sato! — Disse Sota.
— Não se preocupem, mataremos os dois muito rápido para que não sintam muita dor... ou melhor, vamos torturá-las até o fim! — E gargalharam juntos.
— Malditos! — E Azin investiu contra Sota, desferindo um soco contra o rosto dele.
Para se defender, Sota pôs o braço na frente, e o impacto gerado pelo choque de ambos foi arrasador; fez com que praticamente o planeta inteiro tremessem com grande violência. Logo, os impactos continuaram, e com a mesma potência. Yume atacava Sato dando o seu máximo, mas não conseguia acertá-lo. Sato contra atacava com socos e chutes mas também não era capaz de acertá-la.
E a troca de golpes se manteve assim por um tempo, todos naquele impasse. Azin desferiu um soco na direção do rosto de seu inimigo, mas o mesmo segurou seu punho. Vendo isto como uma brecha, Sota decidiu atacá-lo com um soco, mas Azin também segurou seu punho. Joelhadas foram desferidas por ambos, e seus joelhos se chocaram, gerando uma impressionante onda de impacto.
Decidida a dar um fim na troca de golpes contra seu oponente, Yume desferiu contra o mesmo um soco com todas as suas forças e seu máximo de velocidade, acertando em cheio o rosto dele, e o atirando para fora do planeta, jogando-o para o vácuo do espaço. Em seguida, ela atacou Sota com o mesmo golpe, também jogando-o pra fora da Terra e dando um fim na disputa entre o mesmo e seu marido.
— Como o esperado. Não vai ser fácil acabar com eles. — Disse Azin.
— Nós vamos conseguir. — Voou até ele e segurou com firmeza a sua mão. Seus olhos se encontraram, e os dois ficaram se encarando por alguns instantes. Yume sorriu gentil para ele. — Vamos proteger o futuro. O futuro de nosso bebê. Como pais guerreiros, esse é o nosso dever.
— Certo. — Azin sorriu em concordância.
Os dois desviaram os olhos para o céu, e lá estavam ambos novamente. Os dois pareciam furiosos, possessos. Do canto da boca de Sota escorria o que parecia ser sangue, mas possuía cor amarela. Os dois perceberam de imediato a aura que eles emanavam; Sota, em especial, parecia concentrar chikara para algo, uma quantidade massiva de chikara. Ele apontou a palma da mão para um canto bem distante dali.
Azin e Yume ficaram atentos naquilo. O braço de Sota pareceu começar a pegar fogo, e da palma de sua mão surgiu uma esfera em chamas.
— DESAPAREÇAM COM ESSE PLANETA! — E disparou o ataque contra a Terra.
— NÃO! — Azin gritou, em desespero.
Desviou seu olhar para o ataque, seguindo o trajeto do mesmo com os olhos. Seus olhos pararam nos limites da pequena esfera, tão pequena que ninguém poderia acreditar que ali tinha chikara o suficiente para destruir a Terra inteira em poucos segundos. A íris e a pupila de seus olhos adquiriram uma cor avermelhada e, em seguida, um raio foi disparado.
A uma incrível velocidade, o raio escarlate disparado dos olhos de Azin se chocou com a técnica de seu inimigo, e a envolveu em uma explosão de luz vermelha de pequeno porte, mas que foi o suficiente para fazê-la desaparecer por completo e salvar a Terra do trágico destino que a esperava, ao receber um ataque daquele calibre em sua superfície.
— Ele ia... ele quase destruiu a Terra... com esse poder minúsculo...! — Yume dizia, incrédula. — Azin, você salvou a todos.
— Que tipo de técnica foi essa?! — Sota perguntou.
— Não podemos continuar lutando aqui na Terra, pode ser que na próxima vez não tenhamos a mesma sorte. — Azin finalmente havia se dado conta.
— Pra onde a gente vai então? — Yume lhe perguntou.
— Me siga. — Azin disse, momentos antes de partir em alta velocidade para os mais altos céus.
Os dois não levaram muito mais do que alguns segundos para chegar ao lado de fora da atmosfera terrestre, movendo-se para o meio do vácuo do espaço sideral. Menos de três segundos se passaram e, no encalço do casal, apareceram Sato e Sota, que pararam lado a lado, frente aos dois. Os quatro ficaram se encarando por alguns instantes, inflamando o chikara;
Partindo no máximo de velocidade que conseguiria contra o seu inimigo, Azin o atacou com um único soco, dando tudo de si naquele movimento. Escapando por pouco, Sota se jogou para o lado oposto, mas logo em seguida viu que estava para ser atingido por um chute, e pôs os braços na frente para se proteger do ataque. Conseguiu se salvar de levar o golpe, no entanto, o impacto o arremessou para bem longe dali.
Com socos, chutes, cotoveladas e joelhadas em uma rapidez de espantar, Yume pressionava seu adversário, o fazendo, sem perceber, recuar a todo instante para se salvar de seus movimentos, sem que eles mesmo notassem já estavam muito, mas muito longe da Terra. Os dois acabaram por cair dentro de um outro planeta, um repleto de crateras, montanhas e que continha a atmosfera amarelada.
Estavam a vários metros de distância um do outro, mas conseguiram se aproximar em um único movimento. Um soco foi desferido de ambos os lados, com todas as forças, seus punhos se chocaram, e o tremor que pegou todo aquele planeta foi brutal, o que fez com que o tal planeta se rachasse ao meio; e não parou por ali, mas golpes foram desferidos e bloqueados, o que aos poucos destruía o lugar.
Yume desferiu contra ele uma cotovelada no rosto, ele desviou jogando-se um pouco para trás e em seguida contra atacou com um soco na direção do estômago dela, atingindo-a em cheio, e a fazendo cuspir sangue, sangue que jorrou pelo canto de sua boca. Sato sorriu. Yume moveu a mão a uma incrível velocidade e segurou o punho dele, o puxou para perto de si e, consequentemente, fazendo-o ir de cara no chão mas, para impedir isto, ela o acertou no rosto com uma joelhada, mas não o soltou.
Começou a girá-lo com todas as forças, no final o lançou com tudo para bem longe dali. Passou as costas da mão no canto da boca, limpando o sangue que dali escorria. Sua capacidade sensorial ainda se mantinha focada nele, que por sinal ainda estava bem, e disposto a lutar. A velocidade com a qual o mesmo corria, se aproximando dali, era aterradora. Percebeu que ele saltou. O extra-terrestre concentrou toda a sua força no punho direito, pronto para atingir Yume em cheio.
Para escapar do golpe dele, ela saltou para trás, e ele acertou a superfície terrestre do planeta com tudo, e aquilo foi demais para o lugar; um rombo enorme foi aberto na parte inferior do planeta, uma cratera, um abismo enorme foi feito, um abismo tão profundo que a partir dele era possível até mesmo enxergar o espaço sideral, o vácuo. O planeta inteiro começou a se rachar, a se estilhaçar por completo.
E explodiu, desaparecendo da galáxia. Em um movimento instantâneo, Yume e Sato apareceram de pé sobre uma lua qualquer.
— Você vai gostar de saber disso. — Sato sorriu. — Eu e meu mano Sota plantamos uma bomba na nossa nave para caso algo desse errado, e essa bomba tem poder suficiente para destruir aquele maldito planeta inteiro em pouco instante. O mano Sota já ativou a bomba! — E começou a gargalhar.
— Droga! — Exclamou ela, preparando-se para voltar a Terra, mas, surgindo na sua frente, Sato a impediu.
— Nananinanão! — Dizia ele, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você só vai voltar pra lá depois de me derrotar! — E investiu contra ela mais uma vez.
Em um planeta qualquer — que devia ter mais ou menos o mesmo tamanho que a Terra —, Sota se divertia com a expressão de terror de Azin. Isto porque, havia acabado de contar a ele sobre a bomba que seu irmão implantou na nave, mas claro que não esqueceu de dizer a ele que já a havia ativado, e que ela detonaria em menos de um minuto. Azin, visivelmente ferido com metade da camisa rasgada, deixando seu peitoral à mostra, o corpo repleto de cortes, ralamentos e da poeira daquele planeta, apenas pensava.
Sim, não havia outra escolha. Ou o derrotava ali para voltar a Terra e acabar com a nave, evitando a explosão, ou a Terra encontraria o seu fim definitivo. Não irá derrotá-lo se continuar naquilo, já que ambos possuíam praticamente o mesmo nível. Foi aí que sua técnica especial lhe veio em mente, uma técnica na qual trabalhou incansavelmente. Azin treinou sem descanso para finalmente ser capaz de utilizar seu elemento luz sem depender exclusivamente de seus olhos.
E sua sorte é que seu adversário desconhece isto. Azin canalizou chikara nos punhos, dando a eles uma coloração vermelha, vermelho tão forte quanto o sangue. A mesma aura escarlate se fez presente em torno dele. Seus cabelos louros se moviam freneticamente com a inflamação de seu chikara. Azin se preparava para seu último movimento. Aquele que não só decidiria a luta, como também o destino da Terra.
E investiu contra ele o mais rápido que podia, chegando perto dele no mesmo milésimo de segundo. Sota atacou Azin com um soco na direção do rosto mas, se movendo para o lado oposto, ele escapou, e contra-atacou instantaneamente, acertando-o em cheio no estômago. A explosão de luz escarlate que veio a seguir não só cobriu todo o seu adversário em trajetória retilínea e o varreu da existência, como também acertou em cheio a superfície do planeta. Azin sabia o que aquilo significava.
Ele manifestou suas asas e, ao mover-se com grande rapidez, ele foi capaz de sair de dentro do planeta no mesmo milésimo de segundo, e ficou de lá observando-o explodir, desaparecer sem deixar rastro ao ser consumido pela luz vermelha de seu elemento luz.
Ao mesmo tempo que isto acontecia, depois de uma luta sofrida, Yume também pareceu triunfar sobre seu inimigo e, com um soco de cima pra baixo, ela o atingiu no rosto, jogando-o contra a superfície lunar com toda a força, a ponto de fazê-lo atravessá-la por inteiro e reduzi-la a pedaços, meros escombros. Perdido em meio a tudo aquilo, Sato parecia desacordado, e depois de senti-lo, percebeu que não havia nenhuma chance de ele voltar a lutar.
Mas não tinha tempo para se preocupar com isto agora.
Yume levantou voo e partiu rumo à Terra. Passou por vários planetas, luas e asteroides até ser capaz de avistar o sistema solar no qual orbitava a Terra. Pôde sentir o chikara de Azin, e quando olhou mais atentamente conseguiu vê-lo adentrar a atmosfera do lugar. Yume aumentou a velocidade de voo, também entrando rapidamente no planeta. Descendo com o máximo de velocidade, eles acabaram por se encontrar pelo caminho.
E deram as mãos. Yume sorriu para ele, e Azin para ela. Era como se dissessem um para o outro: "Se estivermos juntos, seremos capazes de fazer qualquer coisa". Em um abrir e fechar de olhos eles se viram frente a nave. Um brilho de luz escarlate tomou os olhos de Azin, que se preparava para acabar com a nave, quando Yume lhe deteve a tempo.
— Espera! — Ela pediu, freando no voo.
— O que foi? — Ele lhe perguntou, visivelmente confuso.
— Consigo sentir várias energias vitais vindo da nave. Eles disseram algo sobre "escravizar humanos", lembra? É possível que eles tenham visitado outros planetas, e que tenham raptado outros seres extra-terrestres? — Ela perguntou.
— É, você tem razão. — Ele concordou. — Mas como vamos fazer para deter a explosão sem explodir a nave? Nós temos menos que vinte segundos, agora!
— Não se preocupe — levou a mão até o rosto dele, acariciando-o de leve —, nós vamos conseguir. — Sorriu para ele.
Azin recolheu suas asas para dentro de seu corpo e logo depois andou até a nave ali parada; era branca, enorme, repleta de mecanismos, botões e televisores estranhos, tecnologia completamente desconhecida para eles. A única opção que viram para que fossem capazes de entrar na nave foi destruir a entrada, e assim o fizeram. Logo ali já foram capazes de ver várias pessoas, pessoas de todos os tipos de cores, inúmeros seres estranhos e diferentes do que estavam acostumados a ver, presos, acorrentados e amordaçados.
Yume se aproximou do primeiro grupo que viu e, usando pura força bruta naquilo, ela facilmente partiu ao meio a corrente que prendia todo aquele grupo, e logo depois correu até as pontas aonde as correntes estavam ligadas, e destruindo-a e libertando-os, não totalmente, pois ainda estavam presos um ao outro, mas para sair dali eles foram obrigados a correrem juntos.
Azin usava o elemento luz para acabar com as correntes, fazê-las desaparecer sem deixar rastros, libertando a todos. Olhou em volta. Aparentemente estavam todos livres. Até mesmo Yume conseguiu sair junto com os outros, mas sentiu a energia vital de mais alguém ali, foi quando olhou para o canto mais escuro daquela nave, e avistou uma garota, uma garota de pele amarela, olhos verdes como esmeraldas, longos e lisos cabelos laranjas e armaduras como as de uma samurai.
— Socorro! Por favor, me ajuda! — Ela suplicava.
Olhou para o timer, percebendo que faltavam exatos cinco segundos para a bomba detonar. Azin agiu rápido; correu até a menina, focou os olhos nas molduras que ligavam as correntes sob os pulsos da menina à parede e as destruiu. A pegou no colo e correu para fora dali, faltando dois segundos para a detonação da bomba. Após ver que ele havia saído, Yume não perdeu tempo; lançou contra a nave uma pequena bola de fogo, bola de fogo que explodiu e a consumiu por completo,salvando o planeta Terra do fim definitivo.
Uma nuvem de fumaça tomou conta de toda aquela região. Todos tossiam graças à fumaça que impregnava seus pulmões, não demorou muito para que a nuvem se dissipasse com o ar, e os escombros começassem a cair por ali. Choviam escombros e destroços. Azin colocou no chão a menina que tinha nos braços com todo o cuidado.
— Conseguimos. — Disse Azin, sorridente. Na maçã direita de seu rosto havia uma mancha de fumaça.
— Eu te falei, Azin. — Yume disse, aproximando-se, roubando a atenção dele para si. — Juntos somos invencíveis! — Sorriu para ele, que sorriu de volta.
Azin estava pronto para correr para seus braços. Para abraçá-la, para sentir o mesmo conforto que sempre sentia quando estava em seus braços. Sentir seus carinhos, tocar sua pele alva e macia, sentir o cheiro de seus cabelos, sentir seu perfume, apreciá-la. Era tudo o que queria naquele momento, mas foi subitamente agarrado por alguém.
A menina que salvou o agarrou pelo braço, e o abraçava com todas as forças.
— Obrigado! Muito obrigado por voltar pra me salvar! — Ela lhe dizia, meio ao choro e às lágrimas. Enxugou as lágrimas e olhou sorridente para ele. — Por favor, seja meu! Case-se comigo, juntos poderemos reconstruir a minha espécie e o meu planeta, que foram destruídos por aqueles malditos.
— O quê? — Ele perguntou, espantado com tal proposta.
— É isso mesmo que você ouviu. Quero que case-se comigo, para que tenhamos muitos filhos! — Repetiu.
— Azin! — Yume parou pouco atrás dele, com as mãos na cintura e expressão que deixava claro que aquilo a estava irritando.
— Sinto muito mas, eu não posso. Já sou casado, e já estamos esperando um bebê. — Respondeu-a.
— Ah... — A menina suspirou, tristonha.
— Procura outro! — Yume exclamou, dando língua para a garota, enquanto abraçava-o por trás.
— Vocês são Azin e Yume? — Um ancião, obviamente um extra-terrestre por sua cor de pele vermelha, se aproximou, ao lado dele vinham mais outros três seres que pareciam ser da mesma espécie que ele. Azin e Yume assentiram para ele. — Em nome dos únicos sobreviventes do planeta Bean, nós gostaríamos de lhes agradecer por ter-nos salvo. Poderiam ter escolhido destruir a nave e poupar esforços, mas decidiram salvar a todos nós. Obrigado. — E os reverenciou.
— Não tem de quê. — Azin disse em resposta, sorrindo e coçando o topo da cabeça.
— Mas espera. — Yume, que ainda abraçava seu esposo por trás, e estava com o queixo deitado sobre o ombro dele, parecia querer esclarecer algo. — Quer dizer que aqueles dois destruíram os planetas nos quais vocês viviam?
— Não restou nada do meu. — Disse uma menina de cor verde.
— Nem do meu. — Disseram outros, e logo quase todos confirmou para os dois que todos tiveram seu planeta natal destruídos.
— E se não fosse por vocês, eles teriam nos levado para o planeta deles e nos feito trabalhar até a morte. — Um outro senhor disse.
— Vocês são nossos heróis! — Duas criancinhas, ambas com a cor da pele azul claro como os cabelos de Yume, abraçaram o casal.
— Parece que nem todos os seres de outros planetas são perversos como nos contaram. — Disse uma garota. — Como diriam os terráqueos, três vivas para Azin e Yume!
E por três vezes seguidas eles gritaram "viva" para os dois que, constrangidos com aquilo, apenas sorriam para eles, em agradecimento. Azin se agachou para que sua esposa pudesse montar em sua cacunda, e assim o fez; ambos sorriram, mas logo se lembraram de um detalhe.
Yume olhou para os extra-terrestres de um jeito meio estranho, como se estivesse confusa, o que chamou a atenção do loiro.
— O que foi? — Perguntou.
— Aonde vocês pensam em ir, agora? — Ela perguntou a eles. Todos eles balançaram a cabeça de um lado para o outro, dizendo que não faziam ideia. — Vocês podem ficar aqui na Terra por enquanto. Lá no Reino de Áries há espaço de sobra!
— Sério? — Mais animado, um senhor lhe perguntou.
— Claro que sim, afinal, hoje é natal. — Yume apontou para a lua cheia, o que os fez deduzir que a meia-noite já havia chegado. — E no natal, temos que ser solidários com os outros!
— Natal? — Um garotinho indagou, confuso.
— O que é natal, Yume-sama? — Um outro garotinho lhe perguntou, inocentemente.
— Vocês não sabem o que é o natal? — Ela perguntou, incrédula. — Até entendo, vocês não são daqui. Mas, não se preocupem, vou contar a história do natal a vocês agora mesmo, então prestem atenção.
— Mas Yume, já passa da meia-noite. Hanzuki e os outros devem estar preocupados com você. — Azin a lembrou.
— Ah, eles podem esperar. — Disse ela. — E não vou demorar pra terminar de contar.
E a bondosa Yume começou a contar a todos a história do natal. Contou a eles o que era, contou sobre o Papai Noel, contou sobre os enfeites, os pica-piscas, as árvores de natal, sobre os presentes, e todos eles prestaram atenção no que ela dizia, até mesmo Azin.
(...)
— Feliz natal! — Yume, juntamente com seu esposo, e Mel, acabavam de deixar no centro da praça do Reino de Áries um carrinho de mão repleto de presentes. Não demorou muito para que as crianças do reino o atacassem.
Um aglomerado de crianças e até mesmo adultos se formou em torno do carrinho de mão, obrigando ambos a saírem correndo dali para não acabarem sendo carregados juntos. Como disse que faria, Yume usava uma fantasia de Mamãe Noel, que consistia em um vestido vermelho sangue — que se alongava mais ou menos a uma altura pouco acima de seu joelho — com babados brancos, um cinto negro de fivela dourada em torno da cintura, um par de botas negras e uma meia-calça de cor branca, luvas brancas enormes que se alongavam até seus cotovelos e, claro, sem esquecer-se do gorro, mas, sem um motivo aparente, ela estava usando uma barba falsa, barba para a fantasia de papai Noel.
— Você sabe que sou eu quem deveria estar usando isso, não sabe? — Azin lhe perguntou. Sim, ela o havia feito se vestir de Papai Noel, fazendo-o colocar até mesmo uma barriga falsa.
— Não, eu gostei da barba. — Disse ela, acariciando-as. Os dois sorriram com aquilo.
— Em mim teria ficado péssimo, mas em você ficou lindo, é bom que tenha gostado mesmo. — Ele lhe disse, com um divertido sorriso nos lábios. Ele se aproximou dela pelas costas e a abraçou por trás, enquanto beijava sua nuca. — Eu te amo. — Sussurrou no pé do ouvido dela, fazendo-a estremecer, se arrepiar toda.
— Também te amo. — Disse em resposta. — A propósito, qual será o nome do bebê?
— Geralmente são as mulheres quem decidem. — Disse, deitando o queixo no ombro dela e a abraçando com mais força, unindo seus corpos.
— Acho que já sei quais vão ser. — Falou, depois de refletir um pouco.
— Fala aí, eu tô curioso. — Disse ele.
— Se for menina... — Pareceu sussurrar algo no ouvido dele. — Se for menino... — Sussurrou no ouvido dele.
— Só você mesmo. — Os dois riam feito crianças. Azin voltou a beijar a nuca dela com intensidade, provocando cócegas e arrepios nela, o que a fez rir ainda mais.
E assim os antepassados de Haru, Kin, Yue e Arashi passaram o natal, lutando para manter a paz na Terra, e sobre tudo, proteger o futuro para as próximas gerações. Obrigado por tudo, Yume e Azin, todos desejamos que tenham um feliz natal, até a próxima!
Fim.
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