Four Sun: Legados
3 3# — Uma distração.
3# — Uma distração.
Yue deu uma risada, pôs o copo no braço do sofá e as mãos na frente dos joelhos.
— Vamos ver se agora descobrimos porque você é um idiota suicida! — Exclamou.
Sora ignorou o comentário dela e se dedicou a pensar no melhor jeito de entrar na história que planejava contar. Tinha apenas seis anos quando toda a sua família foi massacrada e precisou aprender a se virar sozinho. Sua casa foi explodida, junto com tudo o que seus ente queridos guardavam e possuíam. Não lhe sobrou nada. Estava sozinho. Tudo o que lhe restou foi continuar indo ao colégio, se alimentar lá. Dormir lá.
Mas isso, infelizmente, durou pouco tempo. Infelizmente. No final do mesmo ano em que ocorreu aquela tragédia, ele foi raptado e trancafiado em uma cela, em algum canto de um imenso esconderijo subterrâneo. Forçado a lutar, a matar para se alimentar, se abrigar, por um colchão e um travesseiro para dormir e por água para beber. Conviveu com assassinos e psicopatas. Fez amigos, os traiu e matou com as próprias mãos pela própria sobrevivência. Um suplício indizível que durou nove anos.
Suas experiências naquele lugar ainda o perturbavam durante o sono. As coisas que teve que fazer para permanecer vivo castigavam até hoje sua consciência com a culpa, as piadas e o jeito descontraído foram o meio que ele escolheu para esconder seu sofrimento. Todo o bem que vinha fazendo, desde então, não passava de uma forma de pagar por seus pecados, de descontar todo ódio, revolta e sede de vingança que residiam em seu coração.
O mundo não é um mar de rosas — mas também não é só espinhos. Tirou boas lições do tempo que passou lá. Devia seu caráter, sua força a ele. Sua dureza ante os problemas. Seu talento para julgar as pessoas, sua capacidade de discernir entre boas e más companhias. Sua frieza quando de frente para a morte. A bravura com a qual enfrentava o perigo. O valor que hoje dava aos laços que formava.
Mas aquele inferno, como já era de se esperar, trouxe mais efeito negativo do que positivo. Sua visão pessimista do mundo, seu desapreço pela vida e a angústia decorrente da sensação de não ter um propósito para viver vinham dele. A desconfiança com a qual olhava até mesmo seus amigos mais próximos, que empesteava todas as suas relações, também. Viveu mais tempo entre inimigos que o matariam em seu primeiro descuido do que entre amigos verdadeiros.
— Então um dia o... o chefão lá só abriu os portões e te deixou sair? — A dúvida era sincera, mas Naomi também queria atrasar o seu momento de contar sua história. Não por achar que não podia se abrir com eles, apenas não gostava de falar nisso. Tinha medo só de mencionar o nome do maior vilão dela.
— "Viva", ele me disse. "Daqui pra frente você me será mais útil lá em cima do que aqui em baixo. Quando a hora de te cobrar o que me deve chegar, você vai saber." — Sora recitou a fala dele sem tirar ou acrescentar uma única palavra. Por meses tentou entendê-la, passado um tempo só desistiu.
— E você nunca tentou saber o que ele quis dizer com isso? — Disse Yue, com essa nova pulga atrás da orelha.
— Não importa. — Afirmou Sora, após um novo gole. — Um dia descobrirei onde achá-lo e o enfrentarei. Aí ou eu vou matá-lo ou ele me matará. Sua vez, francesa. Desembucha, vai.
— Sem enrolação. — Mais uma das poucas vezes em que Yue e Sora concordavam com algo.
Naomi respirou fundo. Sua história era quase tão ferrada quanto a do Sora, portanto, assim como ele, ia precisar de alguns segundos para saber por onde começar. Estava pronta para falar mas o pager preso ao seu short apitou. Salva pelo gongo, comemorou.
— Vou ter que sair. — Disse, de pé, ajustando as luvas pretas às mãos.
— Quem era? — Yue, frustrada, perguntou.
— Arashi. — A morena respondeu. — Kin e ele precisam de mim. Vocês podem ficar aqui me esperando. Meu sofá é novo, se forem relembrar os velhos tempos, façam no chão.
Ela correu, mas Yue conseguiu acertar a travesseirada.
O céu na Fronteira do Sul estava se acinzentando. A temperatura, de um leve calor, mudava aos poucos para um frio insuportável para qualquer um que tentasse sair de casa sem no mínimo três camisas. As primeiras gotas d'água, bem pequenas, já caíam timidamente do céu, seguindo sempre o caminho indicado pelas fortes correntes de ar frio que faziam as árvores mais robustas da região balançar. Os raios brilhavam entre as nuvens mais escuras das alturas, restavam poucos cidadãos nas ruas.
Tal mudança de clima provocava preocupação em Arashi que, agachado, examinava os dois cadáveres deixados e volta e meia voltava os olhos para os portões destruídos. Deram-lhe cinco minutos com a cena do crime antes de chamarem os legistas e uma equipe investigativa oficial. Nunca foi um homem supersticioso, mas sempre que o tempo mudava de maneira tão abrupta era porque algo grande estava para acontecer. Sempre. Tinha até uma teoria sobre isso, ela dizia que isso ocorria porque a energia poderosa dos inimigos afetava a atmosfera.
Seus dedos, cobertos pela grossa camada de látex da luva azul que suas mãos vestiam, tocavam a ferida do rapaz que foi morto por um golpe no estômago. Que não foi através de uma lâmina qualquer um dizia só de olhar. O que lhe chamava atenção, no entanto, era que tudo dava a entender que ele foi atingido apenas uma vez, mas o ataque repercutiu no corpo inteiro. O sujeito estava todo quebrado.
Uma espessa gota d'água caiu na sua calça cinza jeans. Várias outras, pelos próximos segundos, molharam seus cabelos negros. Naomi precisava chegar logo, ou a chuva levaria as evidências embora. Kin conversava com a vigilante para que ela não notasse que estava chovendo e diminuísse o prazo dado a Arashi. O moreno se colocou de pé e apontou seus olhos verdes, escurecidos pelo céu, para o outro cadáver. Caminhou a passos lentos até ele.
Mesma conclusão. Um golpe, corpo inteiro danificado. Provável que o matador estivesse sozinho e que era capaz de voar, já que não haviam pegadas no solo. Ou que tivesse os pés de uma bailarina. A conclusão mais sensata era que, fosse quem fosse o assassino, era muito, muito forte. Nem Arashi se julgava capaz de matar dois retalhadores daquele nível com um só golpe. Talvez nem mesmo Kin.
Precisava de Naomi para saber se a pessoa havia usado pelo menos algum poder especial, a essência. Arregaçou as mangas da jaqueta e olhou as horas no relógio. Tinha perdido as esperanças de que a francesa chegasse quando olhou para trás e a viu se aproximar. Foi até ela. Quando apalpou o topo da cabeça dela como sempre fazia quando a via, num gesto fraternal, a chuva, bem pálida e fina, caiu sem trégua.
— Droga. — Ele praguejou. Se havia algum rastro de energia no ar, a água a levaria embora em questão de segundos. Naomi precisava de mais do que isso para farejar poder. — Desculpa por fazer você vir atoa.
— Calma, guerreiro glacial. — Disse a menina, indo pacientemente até o corpo mais perto dela, o que foi atingido no estômago. Se agachou ao lado do morto, removeu as luvas das mãos e disse: — Ainda está em tempo de-
Uma força assombrosa saltou do ferimento do caído quando o tocou, algo tão aterrador que, no susto, ela caiu sentada. Seus cabelos se desgrenharam como se tivesse acabado de ser eletrocutada. Com a ajuda de Arashi, ficou de pé, mas o olhar de espanto não saía de seu rosto.
Chegou a perder o fio da meada, por alguns instantes. Quanto poder, pensou, ainda em transe.
— Naomi? Naomi, tá tudo bem? — Arashi, preocupado, a chamava.
— Tá, sim. — Ela, voltando a si, afirmou. — Tá, eu tô bem, é que... a cena toda passou pelos meus olhos por um breve segundo mas foi tão rápido que eu não consegui entender nada. Tudo o que eu sei é que foi obra de um retalhador. Senti uma essência diferente das nossas por aqui, mas ele não usou poder nenhum. Porém é extremamente poderoso. Até mais do que a Kin e o Haru.
Ela confirmou suas suspeitas.
— Quanto mais? — A indagou. Uma veia de estresse saltou em sua testa.
— A chuva levou embora, então não posso dizer nada com certeza. Mas é absurdo. Talvez seja exagero meu, mas acho que nem lutando juntos eles dois seriam páreo. — Alegou.
Era o que Arashi temia. Já especulava isso pela violência dos golpes e a facilidade com que o guerreiro desconhecido finalizou a luta, só não queria admitir. Com as mãos na cintura, olhou direto para Kin. Será que a veria ofender-se novamente ao se deparar com um inimigo mais poderoso, colocar o ego na frente da razão e arriscar a vida atacando displicentemente? Se pôs a pensar no que fazer.
Acompanhada da vigia, a loira foi até ele e Naomi.
— Lamento, mas vou ter que pedir que saiam. — Disse-lhes a mulher.
Arashi sorriu simpaticamente.
— Tudo bem, nós já estávamos indo. Muito obrigado e me desculpe por tomar o seu tempo, direi a Hayate e aos policiais o que descobri. — Disse, após apertar a mão da moça.
Alguns metros a frente, ele parou e contou todas as suas conclusões para Kin. Com o olhar pediu à Naomi para não dizer nada sobre o lutador misterioso ser, talvez, mais forte do que ela e seu irmão juntos.
— Tá, mas e agora? O assassino continua por aí e nós não temos nem uma pista de onde ele está e nem de quem é? — Reclamava Kin.
— Basicamente. — Seu parceiro concordou. — Vamos ver se a polícia descobre alguma coisa.
Kin balançou a cabeça.
— Se você e a Naomi não descobriram nada, duvido que eles consigam. — Disse, desesperançosa.
— Eu vi uma coisa, sei que vi. — Dizia a francesa. — Vou repassar tudo na minha cabeça até entender. Assim que conseguir, ligo pra vocês.
Arashi estendeu a mão para ela tocar. Kin acariciou seus cabelos negros até deixá-los tão arrumados quanto estavam antes da chegada dela ali.
— Antes descanse um pouco, sei que aquilo ali não foi fácil pra você. Não se esforce muito. — Recomendou o moreno.
— Pode voltar pra casa. Nós vamos ficar pra falar com a polícia. — Kin a liberou.
Ela já ia embora, mas quando lembrou o que a esperava em casa, contra-argumentou:
— Ir pra casa? Tão cedo? Não, não, não tenho nada pra fazer lá, acho que eu posso ajudar aqui.
Pelos dois estava tudo bem, então ela ficou e, junto com eles, foi até a cena do crime, que já estava sendo interditada, marcada e lacrada.
Algumas horas mais tarde, naquele mesmo dia, a rotina da maior prisão do Reino de Áries foi completamente rompida. Um menininho loiro de olhos castanhos, pés descalços, camisa e bermuda brancas destruiu os muros, invadiu o lugar e ficou no pátio matando, com uma facilidade fascinante, todos os agentes que cruzavam seu caminho. O piso do local estava banhado de sangue e repleto de corpos sem vida. Todos os homens que iam pra cima dele, iam esperando uma morte horripilante. Mas nem a pior das mortes era capaz de impedir um guerreiro de áries de cumprir com seu dever.
O que estes bravos homens não sabiam era que aquele espetáculo ali na frente não passava de uma distração. Porque enquanto o menino realizava um massacre na entrada, uma menina ruiva, da mesma idade que ele, vestindo as mesmas roupas, estava lá dentro soltando todos os prisioneiros, dos mais terríveis aos mais pacíficos — se é que fosse correto em algum grau usar essa palavra para descrever alguém ali dentro. Os detentos que não brigavam entre si iam pra cima dos guardas, os que não brigavam entre si e nem iam pra cima dos guardas corriam para o pátio.
Kin foi contactada, mas já estava muito ocupada e bem longe dali. Por sorte ela sabia de alguém que poderia chegar para ajudar antes que fosse tarde demais e o chamou na mesma hora. O reforço já está a caminho, foi a notícia que espalharam uns para os outros. Delegaram-se, então, a tarefa de manter todos os meliantes dentro da cadeia, não permitindo que nem o mais "limpo" deles escapasse. E para cumprir com esse propósito seriam capazes de sacrificar as próprias vidas.
Após libertarem mais de noventa por cento dos criminosos aprisionados naquela fortaleza de suas celas, as crianças se foram. Um grupo de setenta e dois bandidos desceu para o pátio com o intuito de fugir pelo rombo que os pequenos deixaram na parede, mas dez corajosos homens da lei se puseram entre eles e a liberdade. Os fugitivos, crendo-se vencedores, erguiam suas barras de ferro e os revólveres que roubaram dos policiais que mataram antes de descer e riam da cara deles.
As risadas acabaram quando Haru entrou e se juntou aos dez guardas. Os bandidos o reconheceram e tiveram vontade de voltar correndo pro local de onde saíram, mas o ruivo nocauteou os setenta e um, cada um com um único golpe. Tão grande era a velocidade de seus movimentos e socos que aos olhos de simples seres humanos ele nem havia saído do lugar.
No final só restou um criminoso de pé. Mas com esse Haru sabia que teria mais trabalho.
— Hiroko. — Disse o garoto, olhando sério para o prisioneiro vestido de camisa e calça bege. O inimigo, um rapaz que aparentava ter idade para ser seu pai, sorriu em resposta. Haru voltou sua atenção para os policiais atrás de si e disse: — Voltem lá pra cima e ajudem os outros. Eu cuido desse palhaço.
Os agentes o obedeceram. Hiroko, com seus cabelos negros arrepiados repleto de pequenas mechas grisalhas e seus olhos castanhos cheios de maldade, retrucou:
— "Palhaço"? Isso é jeito de se referir a um velho amigo do seu pai?
— Foi mal, vou ser um pouco mais educado dessa vez. — Pigarreou, projetou a voz e reformulou: — Por favor volte pra sua cela agora ou eu vou te machucar. Melhorou?
Hiroko estalou o pescoço, avançou alguns passos na direção de Haru para reduzir a distância entre eles a quinze metros e sorriu com empolgação.
— Eu tô há anos sem me exercitar devidamente. — Fechou a cara, o encarou e desafiou: — Me mostre o que as crianças de hoje em dia estão aprendendo nas escolas.
Haru atacou primeiro, iniciando com um soco. Hiroko se esquivou, assim como se esquivou de todos os que vieram depois, contra-atacou com vários socos mas também não acertou nenhum. Um atacou o outro com um chute alto, mas suas pernas colidiram e o impacto fez toda a arena tremer. Haru desferiu uma cotovelada, seu oponente a bloqueou e revidou com um gancho de esquerda, o qual desviou com a mão. Um tentou socar o outro no rosto, seus punhos colidiram, eles tentaram novamente com o punho que restou e acertaram em cheio.
A força de seus golpes não só tirou sangue de suas bocas como os distanciou vários metros um do outro. Hiroko, surpreso com o alto nível em que suas habilidades ainda se mantinham, não fez o menor esforço para conter o sorriso que surgiu em seus lábios. Haru estava sério, preocupado. Não podia cometer erros, muito menos se distrair. Recuperou, primeiro, o domínio sobre a própria respiração. Logo depois esfriou a mente, removendo dela tudo o que não fosse relacionado ao presente confronto.
Agora, sim, sentia-se preparado.
Fim do terceiro capítulo.
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