Four
2 Capítulo 1 - Baixinha revoltada
Notas iniciais
PARTE UM

Eu tinha que ter a imensa sorte da guria mais ridícula da face da terra pegar carona comigo todas as manhãs até o colégio. Motivo? Minha mãe que ama ser caridosa com as pessoas pediu para o motorista levá-la também. Não é um grande sacrifício, ela mora na minha quadra e estuda no mesmo colégio, mas... A menina é completamente pirada. Não tem outra explicação. Tirando o fato que ela me odeia...
Todos os dias é a mesma coisa: ela entra no carro sem olhar pra minha cara, cumprimenta o John e coloca os fones de ouvido porque claramente não quer falar comigo. Hoje não foi diferente. Sua mochila preta estava rasgada faziam meses e nunca entendi o motivo dela continuar usando. Fazer o que, ela é realmente esquisita. Seu nome é Elizabeth, nome nobre e clássico, novamente não combinando nada com sua personalidade.
O cabelo dela é na altura do queixo, a sua franja é maior que o resto e sempre jogada pro mesmo lado. Nunca vi isso acontecer, mas os olhos tem o mesmo tom de um castanho claro dos cabelos, sério, é exatamente o mesmo (pelo menos na minha percepção de cores, que não é nada boa). O rosto dela é bonito e ela tem um piercing no septo desde praticamente “sempre”. Eu acho que é a guria mais baixinha que eu conheço, com certeza deve ter um metro e meio, ou menos.
Ela usava hoje uma calça rasgada e um casaco grande para seu tamanho. Hoje seria o primeiro dia de aula em uma provável faculdade pra mim, se eu não tivesse reprovado a sétima série. Pois é, me julgue. O terceiro ano não deve ser tão ruim afinal.
Eu estava perdido nos meus pensamentos e nem percebi quando chegamos à escola. Pela primeira vez, desde muito tempo, Elizabeth olhou pra mim e virou os olhos. Não entendi por quê. Saiu do carro e foi sabe-se Deus pra onde.
Quando eu estava saindo do carro, um dos meus amigos veio me cumprimentar. O nome dele é Luke e o conheço faz muito tempo. Pode ser considerado “meio” idiota, mas é gente boa. Ele é um pouco mais baixo que eu e tem o cabelo preto. Eu acho.
—Hey Andrew. –Luke chegou perto de mim e me deu um soco no ombro. –Não te vejo desde...
—Não precisa comentar sobre isso. –O cortei antes que começasse com a historia...
—Desde a sua ex ter te dado um fora na frente de todo mundo em uma balada. –Ele riu. –Que foi tipo, uns dois dias atrás.
Não foi uma boa experiência. Eu realmente gostava da minha ex, Vicky e fazia um tempo que ela andava estranha comigo, mas eu achei que fosse a TPM ou sei lá o que do universo feminino.
A festa ainda estava na metade e eu já estava chapado. Não aguentava mais beber e então Vicky disse que o nosso namoro era sufocante e que ela precisava de espaço. O problema era que ela também estava bêbada e não se incomodou em falar só pra mim.
É pra isso que servem os amigos... Luke sempre amando me lembrar das desgraças que acontecem na minha vida.
—E sabia que ela ficou com o Derek cinco minutos depois de você ter ido? –Luke riu de uma maneira irônica.
—Chega. –Luke pegou uma garrafa na mochila e bebeu. –Já falei pra não vir chapado pra aula...
Continuei andando e entrei na escola. Eu definitivamente não senti falta desse lugar. Vi algumas gurias que eu também não sentia falta. Se eu pudesse escolher explodir algum lugar, seria o colégio sem sombra de duvida.
Eu e Luke pegamos nossos horários na secretaria, mas só tínhamos inglês e historia na mesma sala. Ele foi falar com Derek, o viado que provavelmente pegou minha ex-namorada. A primeira aula do dia era física, então resolvi ir logo pra não ter que ficar olhando pra cara daquele idiota.
O que eu fiz para merecer física? É uma matéria inútil que provavelmente nunca será usada na minha vida. E pra completar, o professor parecia mais drogado que o Luke.
Fui à direção da ultima cadeira ao lado da janela, mas já estava ocupada por uma alternativa de cabelos curtos que estava dormindo nos seus braços.
—Elizabeth, cai fora. Este é o meu lugar. –Caminhei até ela e disse. A menina não disse nada e continuou dormindo. –Ei, estou falando com você!
—Achei que estava acostumado a ser ignorado. –Levantou a cabeça e me encarou. Fazia muito tempo que não escutava a voz dela, que era fraca e rouca, mas ao mesmo tempo era firme e compreensível. Agora estava um pouco mais forte do que eu me lembrava.
—Por você, estou acostumado. –Dei de ombros. –Agora vaza.
Ela levantou o dedo médio e voltou a dormir.
—E é por isso que você é ignorado. –Deu para escutar sua voz abafada pelo braço.
—E é por isso... –A arrastei da cadeira com um braço, e a levantei. –Que pessoas fracas e baixinhas não têm moral.
Ficou perplexa e começou a exigir que eu saísse. Claramente irritada, me deu uns vinte tapas no braço que não fizeram nenhuma diferença. Encarou-me, respirou fundo e pegou sua mochila. Ela sentou do outro lado da sala, na ultima cadeira.
Por incrível que pareça, tentei prestar atenção na aula, mas pelo visto, uma baixinha revoltada resolveu ficar jogando bolinhas de arame em mim. Sim, arame. Onde ela achou isso, eu não sei.
Depois, eu tive historia, química, inglês e um bando de coisa inútil. Mas logo, finalmente estava na hora do almoço. Não aguentava mais dormir, e fiquei entediado nas aulas.
—E ai? –Derek sentou do meu lado. Acho que ele cortou o cabelo, ta mais ridículo que o normal.
—E ai. –Resolvi ficar concentrado na comida para não atirar meu garfo na garganta dele.
—Como foi o...
—Eu sei que você ficou com a Vicky. Então pare de fingir que quer falar comigo e desembucha logo. –Nessa hora Luke chegou com dois caras que eu não conhecia, provavelmente algum amigo vagabundo dele.
—Eu não sabia que vocês namoravam antes... –Deu de ombros. –E não achava que você era o tipo de cara que namorava.
—Eu te conheço faz cinco anos, seu idiota. Namorei com ela por quase três. –Encarei incrédulo. –COMO VOCÊ NÃO IRIA SABER SEU RETARDADO?!
—Hey, peguem leve. –Luke se intrometeu. –Aconteceu e passou. Vocês vão mesmo deixar uma guria estragar a parceria?
Continuei comendo e a Elizabeth passou perto de nós. Ela me encarou como se pudesse me matar com um olhar, mas voltou a prestar atenção em seus amigos malucos e igualmente retardados.
—Qual é teu lance com a baixinha? –Derek perguntou e Luke começou a rir.
—Não tem lance. –Resmunguei. –Dou carona pra ela, mas nós não nos falamos.
—Por quê?
—Altas tretas. –Luke respondeu. –O Andrew conseguiu fazer a menina sentir um ódio mortal por ele desde a sétima série.
—A culpa não é minha se ela é completamente maluca e acredita em tudo o que falamos.
—Na verdade, você praticamente humilhou a coitada. –Luke riu. –Nunca vou me esquecer daquilo.
—Muito menos eu. –virei os olhos. –Quase fui expulso do colégio e por isso tenho que dar carona pra ela, minha mãe me obriga.
—Se a guria te odeia, porque pega carona? –Derek perguntou meio confuso.
—Sei lá. –Dei de ombros. –Como eu disse, ela é maluca.
—Todos amam uma maluquinha, não é? –Luke riu e eu o mandei calar a boca. Meu deus, como são idiotas.
—Na verdade, eu não o odeio. –Escutei uma voz rouca e irritada, bem familiar. –Só tenho repugnância a pessoas idiotas.
—Não é bonito escutar a conversa dos outros. –Luke retrucou com um sorriso idiota na cara.
—Você também não é, não é por isso que eu falo alguma coisa. –Virou os olhos.
—Elizabeht, você gosta de ficar onde ninguém te quer? –Perguntei, desejando que a retardada sumisse logo.
—Na verdade, André Gustavo, eu amo. –Sorriu e sentou ao lado do Derek. Pois é, meu nome é patético. Por isso ela tem o prazer de falar nas poucas vezes que dirige a palavra a mim.
Além de roubar meu carro, vai roubar meus amigos. Ótimo. Sai de lá rápido e Luke me acompanhou. Derek e os outros guris ficaram conversando com ela, e um deles tinha um sorriso idiota na cara. Como caíram no papo dela?!
—Você vai fazer alguma merda. –Luke me encarou e começou a rir. –Você está com aquela cara de que vai matar alguém hoje.
—Talvez.
É, até que eu tenho uma ideia...
Ela já me odeia, não é como se pudesse piorar alguma coisa.
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