Fotografias
19 Reconhecimento
Notas iniciais
Quando deu cinco da manhã, o galo cantou em alto e bom som. Sarah e Manu dormiam abraçadas na cama de solteiro do quarto. A cama improvisada por dona Helena para a ruiva, forrada no chão, continuava da mesma maneira da noite anterior, completamente intacta. A porta estava trancada por dentro, então não tinha problema. E mesmo não tendo espaço suficiente, nenhuma das duas de fato se importou. Apesar da cantoria da ave, ninguém acordou. Poucas horas depois, o sol começou a surgir e sua luz entrava timidamente pelas frestas das madeiras da janela do cômodo.
O final de noite havia sido perfeito. Não pelo fato de terem feito amor pela primeira vez, mas sim porque foi o que comprovou que realmente havia algo entre as duas. Não só amizade e cumplicidade, havia paixão e possivelmente amor. Elas passaram mais algumas horas conversando e rindo sobre trivialidades. Manu tirou fotos da vista e do céu, mas se concentrou em Sarah. Assim que ela vestiu suas roupas, bateu uma, duas, três fotos. Sempre que fazia isso, ela ficava sem graça. O rubor em suas bochechas era evidente, mas Manu adorava vê-la daquela forma.
Foi só então que decidiram voltar. De mãos dadas e sorrindo, Sarah percebeu que já não imaginava sua vida sem aquela garota de cabelos dourados. Lembrou da última vez que havia batido o pé e dito que era hetero com todas as letras e com H maiúsculo. E quem diria que hoje estaria ali, de mãos dadas com uma fotógrafa gostosa, numa cidadezinha do interior? Talvez fosse a influência das meninas, já que todas eram bi ou homossexuais, ou apenas fosse o destino das duas estarem juntas.
Sarah apertou os olhos, antes de abri-los. O quarto continuava escuro, mesmo que as frestas das janelas estivessem brilhando bem diante de si. A loira estava enroscada em seu corpo, vestida numa camisola de cetim azul. Por um segundo se pegou observando o cômodo e imaginou como teria sido a infância e adolescência de Manu naquele lugar. Mesmo tendo o reboco da parede caindo e o teto precisando de reparos, sabia que qualquer pessoa seria mais feliz ali do que na cidade grande. Os lençóis foram trocados e não estavam mais cheirando a mofo, como na hora que chegaram. Estava com cara de lar.
Poucos segundos depois alguém bateu na janela. A ruiva teve vontade de se cobrir e fingir que não ouviu, mas sabia que de nada adiantaria.
– Ei, gente, levanta dessa cama! – A voz de Marcela atravessou livremente a madeira da janela, confirmando as suspeitas de Sarah.
Ignorando a veterinária, Sarah baixou os olhos e observou Manu dormir profundamente. Ela respirava com suavidade e parecia um anjo. Mesmo não querendo acordá-la, sacudiu-a de leve e sussurrou seu nome. A loira resmungou e não acordou. Repetiu o movimento mais algumas vezes, até os olhos de um azul perolado fitar os seus de forma preguiçosa.
– Bom dia – disse ela, com a voz embargada de sono.
– Bom dia – Sarah respondeu com um sorriso aberto. Mesmo com os cabelos desgrenhados e a cara amassada, ela continuava linda. – Marcela está lá fora chamando a gente.
– Que horas são? – Indagou, ainda sonolenta.
– Acho que vai dar oito horas.
– Por que tão cedo? Essa garota é malu...
– Como é que é, gente? Levanta dessa cama – Marcela gritou lá de fora, dando tapas na janela.
– Deixa que eu resolvo.
Assim que terminou de dizer, a jogadora de vôlei levantou da cama, deixando uma loira sorridente ainda deitada. Manu relutou, mas virou de costas para visualizá-la melhor. Observou-a girar a tramela de madeira e abrir a janela, dando de cara com a veterinária de cabelos castanho-claros. De inicio nenhuma das duas abriram a boca, ficaram apenas se fitando. Mas foi só Sarah perceber que Fábio estava encostado no tronco da árvore da frente que seu rosto ficou mais vermelho que um tomate. Manu riu quando ela bateu a janela na cara da Marcela e encostou as costas na madeira morna.
– Você está com uma cara horrível! – A veterinária disse, deixando Sarah ainda mais vermelha.
– Cala essa boca, garota. Vem perturbar as pessoas cedo desse jeito – respondeu, evidentemente aborrecida.
– Aqui na roça todo mundo acorda cedo. Manuela sabe bem disso. Agora abra essa janela, antes que eu arrombe. Por aqui não é muito normal uma cabeleira ruiva bagunçada às sete da manhã, mas o Fábio não vai morrer se presenciar outra vez.
A ruiva tornou a abrir a janela e semicerrou os olhos, encarando o castanho dos da garota.
– Parem de brigar vocês duas – Manu finalmente levantou da cama, se despreguiçando logo em seguida. – Já que vocês dois chegaram tão cedo, que tal um café da manhã reforçado?
– Eu topo – Fábio disse, agora próximo à janela. Sua voz era calma e controlada, muito diferente dos escândalos de Marcela.
– Então entrem, a gente já encontra vocês na cozinha.
Quando eles saíram de vista, Sarah tornou a fechar a janela e a trancou com a tramela. Ao se virar, notou que Manu a observava com um sorriso nos lábios rosados. Quem diria que na noite anterior estava gemendo incontrolavelmente nos braços dela? Lembrar de tal cena fez um calor subir ao seu rosto. Então virou com pressa para ela não perceber o rubor, fingindo ir procurar sua roupa na mala. E acabou escolhendo por um short jeans e bata rosa avermelhada. Nos pés decidiu pelas tradicionais havaianas, brancas. Ao terminar de se arrumar, passou uma escova nos cabelos e esperou pela loira, que decidiu acompanhá-la no short, porém vestiu uma regata verde claro para completar o look, além dos chinelos.
Definitivamente, a ruiva nunca tinha comido tanto na sua vida. Logo assim que chegaram à cozinha, ficou boquiaberta com a quantidade de comida sobre a mesa. Havia de tudo. Bolo, pão caseiro, pão e rosquinhas da padaria dos pais de Marcela, suco, café, achocolatado. Em meio a tantas opções, Sarah não fazia ideia de por onde começar. E mesmo sem ninguém ter começado a comer ainda, o bolo estava com falta de dois pedaços. Como Miguel não estava com eles, imaginou que ele deveria ter levado para o trabalho.
Antes de se levantarem da mesa, Denise chegou e ainda conseguiu tempo para roubar um pedaço de pudim. Eles conversavam animadamente. Depois do café da manhã, eles partiram para o açude. Diferente do que Sarah imaginou, eles não subiram a colina da noite anterior. Pegaram uma estrada de terra repleta de curvas, a pé. Pelo jeito aquilo era um costume da maioria das pessoas da cidade. Todo mundo preferia ir a pé para os lugares. Desse jeito ficaria com as pernas grossas antes de voltarem para o Rio.
Não demorou muito para Bruno e Bento chegarem, alegando que precisaram tirar leite da maioria das vacas e que sua mãe ficou só olhando. De acordo com os gêmeos, um completo absurdo. Então passaram a manhã inteira tomando banho. Sarah achou aquilo magnífico. Nunca tinha tomado banho de açude em sua vida e apreciou muito sua primeira vez. Manu estava vestida num biquíni preto, que contrastava com a pele alva dela. Os cabelos, que batiam em sua cintura, estavam soltos. Seus olhos azuis brilhavam por causa da luz do sol. Ela, sem sombra de dúvidas, era a mulher mais linda do mundo, concluiu a ruiva.
De inicio tinha ficado um pouco receosa com a água, mas depois que viu Fábio e Bento pularem de cabeça, acabou perdendo um pouco do medo. O lugar cheirava a mato e a água cintilava. Não havia vestígio de uma nuvem sequer no céu e aquele azul fez Sarah lembrar os olhos de Manu, onde preferia estar mergulhando naquele momento. Não sabia explicar o aumento da temperatura quando via a loira olhá-la como se quisesse devorá-la. Não estava acostumada com esse tipo de coisa. Ultimamente sua vida sexual se resumia as fugidas constantes de Júnior. E agora aquela deusa grega olhava-a com tanto desejo que não sabia como reagir, mas jamais poderia negar o quanto também a estava desejando naquele biquíni escuro. E agora sim estava explicado todas as sensações que havia sentido quando foram tomar banho de piscina na cobertura do apartamento dela, no sábado de Carnaval. Desejava-a desde aquele tempo, porém foi burra o suficiente para não tê-la naquele momento.
Passaram a manhã inteira se divertindo e, pouco antes do almoço, Miguel apareceu de surpresa. Ele abraçou as meninas e apertou a mão dos meninos. Ele explicou que seu chefe o tinha liberado cedo para o almoço e que poderia voltar depois das duas da tarde, pois já tinha terminado a maioria do serviço. Então, devido a isso, decidiram ficar um pouco mais do que o planejado. O loiro terminou de agitar a festa. Fazendo Manu rir, ele pegou Sarah no colo, que gritou sem reação. Em seguida correu e pulou dentro d’água com ela ainda em seu colo. Assim que emergiu, ela jogou água na cara dele e bufou, provocando riso nos demais. Era divertido estar ali, com eles. Pouco tempo depois, antes de ir embora, Fábio empurrou Marcela da beira do barranco, jogando-a dentro d’água. Quando a veterinária saiu, ela correu atrás do garoto de cabelos arrepiados. Aquela foi a primeira vez que Sarah o viu rindo de verdade, sem apenas dar aquele sorriso torto de sempre.
Todos almoçaram na casa de Manu e Miguel. Dona Helena fez carne assada com batata, acompanhado de um delicioso feijão feito em fogão à lenha. O cheiro era embriagante. Enquanto comiam, eles conversavam animados sobre a festa de seu Tião, que seria logo mais a noite. Sarah comia como se sua vida dependesse daquilo. Nunca havia provado uma comida tão gostosa quanto a de Dona Helena. Bem que diziam que a comida da roça era mil vezes melhor que a da cidade. Trocaria fácil um trio do Mc Donald’s por um prato de comida daquela senhora simpática.
Assim que todos foram embora, Miguel voltou para a fazenda e as duas decidiram tirar uma soneca. Forraram uma esteira na varanda, onde estava mais fresco naquele momento, e dormiram pelas próximas duas horas, compensando a noite em claro que haviam passado juntas. O piquenique poderia ficar pra amanhã, já que logo mais teria a tão esperada festa.
(...)
– Você vai de salto ou rasteirinha? – Sarah indagou para a loira, enquanto ajeitava os cabelos vermelhos em frente ao espelho.
Ela tinha optado pela tradicional calça jeans, ao invés de vestido ou saia, e uma bata preta. Mesmo sem saber a resposta de Manu, que havia morrido dentro do banheiro, ela decidiu ir de rasteirinha. Já era alta o suficiente sem sandálias baixa, imagine de salto. Ficaria o dobro de Manuela, praticamente. A maquiagem estava moderada. Delineador preto nos olhos e nas pálpebras, realçando o verde deles. Blush rosa nas bochechas, disfarçando as sardas. Deixou o cabelo solto, com as tradicionais ondulações nas pontas. Para completar, colocou um par de brincos e um colar que tinha no pingente seu nome escrito. Já estava pronta. Só faltava esperar a enrolada.
– Eu vou de rasteirinha – Manu respondeu do banheiro.
Poucos segundos depois, alguém bateu na porta. A ruiva atravessou o quarto e a abriu, dando de cara com a versão masculina da fotógrafa. Ele estava de bermuda jeans preta e camisa polo listrada em dois diferentes tons de azul, claro e escuro. Sarah percebeu que aquela cor caía muito bem nele, pois realçava os olhos da mesma cor. Também notou que ele sabia se vestir, porque até o sapato combinava com o restante das roupas. Com os cabelos loiros arrepiados, ele sorriu e percorreu os olhos pelo cômodo.
– Manu ainda não está pronta?
– Entrou no banheiro tem quase uma hora e ainda não saiu – a ruiva suspirou.
– Morreu afogada, garota? – Miguel gritou da porta. – Mãinha quer falar com você – disse, agora olhando para Sarah.
– Comigo?
– É. Deixa que eu apresso essa aqui. Ela ta no quarto terminando de se arrumar – entrou no quarto, indo diretamente para a porta do banheiro. – Vamos logo, Manuela Meleca.
– Cala a boca, garoto. Eu já estou saindo!
Sarah riu e logo saiu do quarto, passando pelo pequeno corredor e indo direto para o quarto de dona Helena. Quando chegou, deu três batidinhas suaves com o nó dos dedos. Três segundos depois, a mãe de Manu abriu e sorriu abertamente. Dona Helena estava com um vestido longo florido e os cabelos soltos. Estava linda, mesmo sem maquiagem.
– A senhora queria falar comigo? – Indagou, meio nervosa.
– Queria sim, minha filha. Entre, entre – Dona Helena abriu caminho para a ruiva passar. – Sente um pouco.
Se não fosse pelo blush, com certeza a senhora teria reparado no quanto o rosto de Sarah estava corado de vergonha.
– Então, me conte tudo. A Manu tem dado muito trabalho no Rio? – Ela indagou, sentando-se ao lado de Sarah.
– No começo, sim. Agora ela já está um pouco adaptada com a cidade, então anda mais independe. Emprestei um carro com GPS pra ela não ter que gastar tanto dinheiro com táxis – a jogadora explicou, receosa de olhar diretamente para o castanho dos olhos dela.
– Sabe, você está fazendo muito bem pra minha filha. Sei que ela tem outros amigos no Rio de Janeiro, mas tenho certeza que você é o principal fator dessa melhora – Dona Helena disse, pegando-a de surpresa. – Manu passou muitos anos deprimida com a morte do pai e nem os amigos daqui conseguiram fazê-la esquecer um pouco disso. Ela se divertia, brincava, mas chorava toda vez que chegava em casa. Já estava perdendo as esperanças. Foi então que ela voltou de Atenas e disse que moraria no sudeste, porque tinha conhecido pessoas maravilhosas. Não acreditei de inicio e me opus. Discutimos, mas eu sabia que não adiantava tentar impedir, porque ela sempre foi uma menina teimosa.
A ruiva manteve-se em silêncio, ouvindo atentamente o que ela dizia e esperando que continuasse.
– Sei que devo parecer uma doida falando essas coisas do nada, mas eu só queria te agradecer – Sarah percebeu o quão o sotaque dela era forte. – Percebi uma conexão muito forte entre vocês duas.
– Não precisa agradecer, dona Helena. Eu não fiz nada de mais – sorriu, um pouco sem jeito, e pegou as mãos cansadas.
– Claro que preciso, meu amor. Você conseguiu fazer com que minha filha voltasse a ser o que era antes. Conseguiu trazer de volta o sorriso mais sincero dela. Como mãe, eu posso afirmar uma coisa, ela está muito feliz em te ter por perto – ela terminou de dizer e apertou os dedos da ruiva. – Obrigada mesmo.
– Eu que agradeço pelo carinho – Sarah beijou as mãos dela e depois a abraçou apertado.
Seus pensamentos divagaram quando saiu do quarto para voltar ao de Manu. Quando Miguel avisou que sua mãe queria falar com ela, ficou nervosa. Talvez ela tivesse descoberto que estavam juntas. Por isso o assunto a surpreendeu. Manu já havia contado uma vez sobre seu passado, mas não imaginava que havia sido tão grave assim. Estava feliz por fazê-la tão bem quanto a dona Helena mencionara. É bom saber que sua presença é importante na vida de uma pessoa.
– Me solta, garoto! Mãinha, tira o Miguel de perto de mim, antes que eu dê uns socos nele – a voz de Manu soou bem próximo.
Foi nesse momento, quando a viu empurrando Miguel, que Sarah percebeu que queria passar o resto de sua vida ao lado de Manuela. Ela era a mulher mais linda do universo. E hoje, principalmente, ela estava um espetáculo naquela saia colada. Aquela festa daria o que falar.
Continua...
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