Formas de Amor
1 Crônicas De Um Círio
Notas iniciais
O som dos fogos propagou-se a cima de mim, olhei para o alto, o céu amazônico matinal estava como sempre, cheio de nuvens brancas que caminhavam preguiçosamente pelo azul límpido do céu. O sol baixo denunciava que ainda iriam dar sete horas.
Suspirei e abaixei meu olhar. A praça em frente à Catedral Metropolitana estava lotada, sentada de um dos bancos da praça pude visualizar grupos sociais diversos, recém-nascidos, crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, ricos, pobres, brancos, pardos, negros, brasileiros e estrangeiros... Todos juntos por um motivo, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
Para quem não sabe ou não conhece, o Círio é uma das maiores procissões religiosas do mundo, já considerados por muitos como a maior. Um processo em andamento na UNESCO quer intitular tal procissão como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
Ela ocorre todos os anos em Belém, no Estado do Pará. A festa em si dura cerca de quinze dias com várias procissões complementares, como moto-romaria, círio fluvial e transladação, mas para falar a verdade a festa dura o ano todo. A população do determinado local vive, suspira e se prepara para o Círio o ano inteiro, festa essa que ocorre em outubro, sendo que sua procissão principal ocorre tradicionalmente todo segundo domingo de outubro.
A festa tem a presença de muitos personagens típicos: voluntários da cruz vermelha, religiosos, voluntários da distribuição de água, peregrinos, promesseiros, entre outros.
E aqui estou eu. Amanda, 18 anos, estudante de direito sendo uma promesseira. Para falar a verdade eu estou pagando a promessa que outra pessoa fez, mas que me colocou como pagadora de tal promessa.
Aff, além de fazer uma promessa, tinha que me botar no meio mãe?
Pagar promessa é uma atitude muito comum pela população local. De um modo geral as pessoas após receberem uma graça pedida ou antes de receberem tal graça cumprem uma tarefa que se propuseram a fazer. No meu caso, minha mãe prometeu que se caso eu passasse no vestibular da universidade pública de meu interesse, eu iria distribuir vinte cafés da manhã e acompanharia o Círio.
– O quêêê? – perguntei exasperada quando ela me contou há uma semana sobre tal promessa – Mãe, por favor, me diz que você está brincando comigo.
– Desculpe-me filha, mas você sabe, promessa é promessa – disse enquanto preparava a maniçoba, prato típico paraense que demora uma semana para ficar pronto.
– Mas mãe, final de semana que vem é feriadão e todos os meus amigos vão para as praias com seus amigos. Cristiano – abri um leve sorriso pensando em meu namorado – me chamou para ir para Salinas com ele e os amigos dele de Engenharia Civil e vai ser tão legal mãe...
– Amanda – disse interrompendo-me. Ela fixou seu olhar no meu, o olhar que eu conhecia muito bem e que traduzia como “não adianta o que você vai me dizer, você vai cumprir essa promessa e ponto final”.
– Droga – resmunguei observando um grupo de jovens sorridentes que conversavam calorosamente enquanto ajeitavam seus equipamentos da cruz vermelha.
– Esse linguajar não é muito apropriado para uma jovem bonita que está em uma procissão religiosa – disse-me uma voz masculina atrás de mim.
Assustei-me o suficiente para pular do banco e encarar o jovem de aparentemente 20 anos que se encontrava do outro lado do banco, agora na minha frente. Ele tinha cabelos castanhos dourados, seus olhos castanhos eram mais claros que os meus, sua pele era alva e tinha um sorriso grande e alegre, suas vestes se resumiam em uma camisa branca com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, uma calça jeans e um tênis branco. Ele parecia bem mais enquadrado ao local do que eu. Eu não sou a mais comportada e religiosa jovem do mundo, minhas vestes se resumiam à uma blusa amarela com a imagem da santa, um short branco de cintura alta e um tênis branco, minha única joia era um cordão de ouro delicado com um pequeno pingente de cruz, olhando para as minhas vestes eu até pareceria uma pessoa normal e comportada, mas as mechas vermelhas em meu cabelo negro e liso preso em um rabo de cavalo e a maquiagem negra contornando meus olhos castanhos escuros denunciavam que eu não era tão certinha assim e estava totalmente deslocada naquele local.
Encarei o jovem por inteiro, ele era apresentável mas não fazia o meu tipo então resolvi cortar logo a cantada dele:
– Desculpe-me já sou comprometida.
Ele olhou-me confuso por um tempo antes de dizer:
– Mas eu não estou cantando você.
Ok, momento vergonha alheia, pensei.
– Então porque você está falando comigo? Eu te conheço?
– Hm – ele ponderou pensativo com o dedo indicador direito sobre o seu pequeno bico, só então notei que ele carregava uma rosa vermelha em tal mão – para falar a verdade, acho que você me conhece, mas não sabe quem eu sou.
– De onde eu te conheço? – indaguei.
– Não sei, de vários lugares, conhecemos e nos esbarramos com pessoas em tantos lugares, que as vezes simplesmente as conhecemos e depois tomamos caminhos opostos. Podemos ter nos conhecido um dia desses e você não esteja se lembrando.
Olhei-o confusa, aquela conversa não tinha sentido.
– Então você me conhece? – perguntei por fim.
– Quem sabe. – disse-me com as mãos espalmadas para cima na altura de sua cintura com um olhar divertido em minha direção.
Ok, estranho na parada, nota mental: fugir o quanto antes.
– Beleza então, eu vou indo – disse tentando ir para o mais longe possível daquele estranho.
– Espere, você é uma promesseira também, não é? – perguntou-me, pergunta a qual me fez paralisar no meio de um passo.
– Como você sabe? – olhei-o com suspeita por cima do ombro.
– Eu estou distribuindo rosas – disse mostrando-me a que estava em sua mão – não é uma promessa, apenas virou costume. Ás vezes um pequeno gesto pode alegrar o dia de uma pessoa. Eu cheguei aqui 6 horas da manhã, logo quando começou a missa e pude ver que entre os promesseiros você estava distribuindo café da manhã para as pessoas. Você tinha uma mulher te ajudando, mas ela já foi embora e desde então você ficou sentada nesse banco esperando algo. Supus que você estava sozinha e que iria acompanhar o Círio. Na verdade, – disse pondo a mão direita em sua testa e um sorriso envergonhado surgiu em seu rosto. Ele queria me dizer alguma coisa mas não sabia como – eu pensei que poderia acompanhar você na procissão, também estou sozinho e é ruim acompanhar uma procissão de quase 4 Km só.
Encarei-o com a boca aberta em completa surpresa. Ele sabia o suficiente sobre mim só me observando e ainda por cima queria me acompanhar na procissão?
Oh, céus! Ele poderia ser um psicopata querendo me atacar. Eu precisava fugir o quanto antes. A sociedade atual fazia com que desconfiássemos de qualquer um que se aproximasse sem sentido.
– É melhor não – disse por fim continuando meu trajeto de fuga.
– Meu nome é Filéas – parei instantaneamente o meu passo.
– Como? – perguntei apressadamente, que tipo de nome é esse?
– Filéas – disse com um sorriso inseguro – eu sei, é diferente, não é? Mas meu pai me deu esse nome por causa de seu significado – esperei um momento confiante que ele continuasse, sinceramente eu não sabia qual era o significado daquele nome estranho, mas quando retornou a falar ele não tirou minhas dúvidas – mas as pessoas me chamam de Fil para ser mais fácil.
– Tudo bem, mas Fil, eu não costumo andar com pessoas que eu não conheço.
– Eu sei, é prudente da sua parte, mas você quer mesmo ficar sozinha no Círio? Uma comemoração que deve ser uma confraternização entre as pessoas.
Suspirei exasperada antes de começar a falar:
– Cara, você não vai desisti mesmo, né?
– Não – disse-me rindo.
Seria só por algumas horas e pelo que ele havia dito, ele era experiente em Círio, eu, pelo contrário, nunca havia ido em tal procissão, só assistia por televisão e mal ainda.
– Tudo bem vamos – disse desistindo da batalha.
– É melhor irmos logo, a procissão já vai começar – como se para confirma-lo os fogos e o sino da Catedral ressoaram em alto e bom som, anunciando o fim da missa e o início da procissão.
Caminhamos juntos pela avenida por onde a procissão iria começar. Fil, avisou-me para ir ou na frente ou atrás da berlinda (o carro ornamentado de flores e feito de vidro que levava a imagem pela procissão), pois perto de tal carro era muito apertado, a aglomeração de pessoas era intensa.
Ok, admito, foi uma boa ideia vim com o Fil no final das contas, pois se estivesse sozinha ficaria como uma tonta esperando todo mundo sair da igreja e seguiria a berlinda e acabaria sendo esmagada pela multidão.
– Aliás, qual é o seu nome? – perguntou-me assim que estávamos distante da Catedral, pelos fogos supus que a berlinda estava saindo do local.
– Patrícia – disse mordendo os lábios. Eu não diria meu nome verdadeiro para um estranho.
Ele me olhou sério, talvez tenha percebido que eu havia mentindo só que não insistiu na pergunta.
– Então Patrícia, você conhece a história do Círio?
– O básico – admiti.
Ele sorriu amistosamente por causa de minha notada ignorância no assunto.
– É incrível como uma manifestação religiosa pode tomar proporções gigantescas e ser a vitrine de várias formas de amor.
– Várias formas de amor? – indaguei.
– Sim. Uma festividade religiosa que junta em uma só manhã mais de 2 milhões e meio de fiéis, sem contar com as outras romarias durante os quinze dias de festa, só pode ser uma forma de amor e dentro dela tem as diversas formas de amor, a forma como o amor de um fiel pode ser demonstrado.
– Você é confuso, alguém já te disse isso?
Ele rio abertamente sobre o meu comentário, mesmo estando muito à frente da berlinda o ponto onde estávamos estava cheio e apertado, o que fazia com que eu e Fil ficássemos muito próximos e mesmo com tal proximidade tínhamos que praticamente gritar para que o outro escutasse por cima do alto som das rezas e músicas religiosas que ressoavam das caixas de som da cidade.
– Acho que o termo mais adequado para o meu linguajar seja antiquado.
Olhei-o surpresa, realmente por mais que ele se aparentasse um jovem, a maneira como ele falava era de alguém mais velho, como se ele fosse de outra época.
– Pois bem – ele reiniciou a fala – o Círio é uma festa religiosa que surgiu em Belém em 1793, mas que já existia nas províncias de Portugal. Um exemplar da população de baixa renda teria encontrado a imagem quando praticava a pesca. Tal imagem ao ser transportada para sua casa sumiu e no dia seguinte foi encontrada no local de origem, após muitas tentativas frustradas enviaram a imagem para o Palácio do governo do Estado e no local onde encontraram tal imagem construíram uma capela onde as pessoas começaram a frequentar e demonstrar sua fé. Como resultado da grande multidão que foi acertada por tal fé, todos os anos começou a acontecer o Círio, que hoje dividisse em uma imensa festa de várias etapas e que atrai milhões de peregrinos de todas as partes do mundo nesta cidade.
Ok, ele sabia bem mais do Círio do que eu. Beleza, talvez ele não seja um psicopata.
– E quanto as formas de amor que você disse antes? – indaguei.
– Você ama Patrícia? – perguntou sorrindo com as mãos nos bolsos.
Pensei em meu namorado. Eu o amava? Sim, já estávamos juntos a dois anos, eu deveria amá-lo, se não, não estaríamos tanto tempo juntos.
– Bom eu tenho namorado então...
Interrompi a fala assim que Fil começou a gargalhar.
– O que tem de tão engraçado no que eu disse? – perguntei vermelha.
– É que eu não estava falando de amor romântico, estava falando de outra forma de amor. Aliás, é uma pena que muitas pessoas confundam amor romântico com paixão – disse com um mínimo sorriso de canto.
– Você está dizendo que eu não o amo? – perguntei atônita – Você nem me conhece cara...
– Ok, ok – disse de forma defensiva com as mãos espalmadas a sua frente em posição de defesa – não está mais aqui quem falou, ok?
Bufei e concordei com a cabeça.
– Pois bem – começou Fil – as formas de amor que eu digo é como as pessoas as representam por ações, de uma maneira global a ação o Círio pode ser dito como uma forma de amor...
– Meus amigos de outras religiões indagam quanto a essa procissão ser feita em função de uma imagem – o interrompi em um sussurro.
– É errado demonstrar o amor dessa forma? É errado amar à sua maneira? – indagou-me com um sorriso de canto – Cada religião tem sua maneira de demonstrar o amor, o que temos que fazer é respeitar suas diversas formas de manifestação.
Ok, eu tinha que admitir. Fil tinha uma resposta para tudo.
– Agora – Fil reiniciou sua fala – olhando de maneira micrômera observamos as formas de amor individuais, olha ali – apontou para um dos carros da procissão que passava do nosso lado esquerdo. Olhei para tal carro, ele era simples em forma de canoa – é o Carro dos Milagres, as pessoas fazem objetos representativos de seus milagres e depositam nesse carro – como se para confirma-lo algumas pessoas depositaram alguns objetos dentro dele – esse carro é tão importante que já até virou tema de literatura.
Comecei a rir descontroladamente. Realmente era tema de literatura regional, uma delas estava em minhas leituras obrigatórias do vestibular. A tal literatura tinha o mesmo nome do carro, mas o cômico da história é seu enredo ser em volta da tentativa frustrada do narrador colocar uma miniatura da embarcação no Carro dos Milagres, frustrada e cômica pelo fato do tal personagem está completamente sob os efeitos da embriaguez após ingerir cachaça.
Ri com a lembrança, aquela havia sido a leitura mais engraçada que eu tive durante o vestibular. Mas Fil não partilhou da minha graça, ele só ficou olhando fixamente meu acesso de loucura. Reprimi o riso e enxuguei com o meu dedo indicador direito as lágrimas que se formavam em meus olhos.
– Aposto que você pensou na literatura Carro dos Milagres – supôs Fil.
– Acertou em cheio.
– Você com certeza não entendeu a essência da literatura – disse Fil após ter bufado.
– Ah! Mas é claro que eu entendi a essência da história, ela tinha o toque de uma certa Cachaça de Abaeté – disse brincalhona cutucando o braço direito de Fil, ele não se aguentou, com certeza conhecia tal literatura e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
– Ok, vamos voltar para a seriedade Patrícia. – comentou tentando inutilmente reprimir o sorriso – Olha ali, – apontou agora para uma abertura que se abria no meio da procissão, algumas pessoas estavam caminhando de joelhos sobre um tapete de papelões – aquelas pessoas prometeram que se tivessem tal graça elas iriam acompanhar o círio inteiro de joelhos.
Retorci meu rosto imaginando a enorme dor que eles estariam sentindo ao fazer tal coisa.
– Sua fé é tanta que eles creem e conseguem fazer tal ato que para muitos parece impossível. – explicou assim que viu minha expressão – Agora olha ali – ele apontou para um grupo de pessoas que carregavam sobre suas cabeças miniaturas de casas e embarcações, por mais que as maquetes aparentassem ser pesadas elas eram na verdade muito leves e delicadas, construídas a partir da madeira do miriti, uma árvore regional muito utilizada no artesanato – aquelas pessoas se propuseram a carregar tais objetos para agradecer todas as conquistas do último ano, algumas delas conquistaram a casa própria, outras uma embarcação ou qualquer outro objeto de seu interesse, conquistado com muito esforço. Agora olha ali – apontou para um caminhão pipa que caminhava preguiçosamente um pouco mais a nossa frente do lado direito – olhe para aquelas pessoas sobre o caminhão. Elas são voluntárias na distribuição de água, você sabe, não é, que nenhuma pessoa recebe para participar de tal festa? Toda a festa é realizada com a ajuda de voluntários.
Balancei minha cabeça em concordância, após ver meu ato ele continuou sua fala:
– Pois bem, os voluntários são o grande exemplo de amor no Círio. Em geral eles não estão pagando promessa e por mais que estivessem pagando tal promessa eles fariam isso porque querem, já que eles escolheriam essa demonstração de amor. Os voluntários disponibilizam-se para acordar de madrugada e ajudar os outros sem esperar nada em troca, apenas com a satisfação de poder ajudar o próximo e participar da festa – olhei-o surpresa, realmente Fil era experiente no assunto e tinha um olhar muito sensibilizado sobre a festa – Você está com cede? – pergunto-me sorrindo.
Olhei para o céu deveria ser umas nove e meia, estaríamos chegando na metade do percurso. Assim que abaixei a cabeça para olhar para Fil, a balancei levemente em concordância. Ele sem esperar qualquer outro gesto meu partiu em direção ao carro pipa que distribuía copos de água com tampa de papel alumínio.
Fiquei encarando tal carro, o que foi um erro, já que com a minha notada distração eu acabei não ouvindo os gritos de uma garota voluntária da cruz vermelha que pedia para abrir caminho, já que um dos peregrinos passara mal e tinha desmaiado no meio da avenida.
Assim que a garota abriu o caminho e eu estava no meio, ela me empurrou levemente, mas por meu alto grau de desconcentração, o leve toque foi resultado de um grande tombo meu para frente. Fiquei ajoelhada com minhas mãos espalmadas na avenida, as pessoas começaram a me contornar para não se atrasarem na procissão. Olhei com raiva o grupo da cruz vermelha que me derrubara, odiava ser derrubada ou empurrada pelos outros, mas ao encará-los minha raiva se desvaiu.
Eles estavam no meio da avenida, uma jovem de mesma idade que a minha estava desmaiada no chão escuro do asfalto. Suas vestes brancas estavam completamente molhadas tanto por suor quanto por água. Um choro de uma mãe estridente ressoou pela avenida até chegar aos meus ouvidos. Olhando ao redor da garota eu percebi que ela estava na corda (um dos grandes símbolos da festa, tem em torno de 400 m de comprimento, corda esta que faz com que a berlinda seja puxada pelos fieis, o problema é que todos querem ficar na corda e o sufoco faz com que muitos passem mal) e ela havia sido uma das vítimas da exaustão.
Os fieis se aglomeravam na avenida apertada, muitos ignoravam a cena, considerada um pouco comum no Círio. Eu já havia visto cenas como aquela pela televisão assistindo ao Círio dos outros anos, mas agora vendo ao vivo era muito diferente o sentimento que eu vivia.
Os voluntários da cruz vermelha eram jovens entre 15 e 16 anos. Eles abriam espaço na avenida apertada para fazer os primeiros socorros. Gritos, choros e palavras de ordem estavam presentes. Uma das garotas voluntárias acalentava a mãe da garota, enquanto que os três garotos e uma garota colocavam a garota na maca e abriam espaço pela multidão para levar a paciente até mãos mais experientes do que a deles.
Tudo ocorreu rápido, mas foi de tal intensidade que me fez ficar paralisada de quatro na avenida observando a cena e mesmo depois que eles sumiram das minhas vistas eu continuei lá. O problema é que a corda se aproximava perigosamente de mim. Por ser extensa e ter uma grande quantidade de pessoas sobre ela, qualquer movimento para os lados faz com que todos da corda sejam levados para tal lado. Olhando de cima a corda tem o movimento de uma cobra.
E agora aqueles milhares de pessoas estavam se aproximando rapidamente de mim. As pessoas ao meu redor fugiram para se protegerem da corda.
Eu ainda estava paralisada no chão, não conseguia me mover, mas precisava. A única coisa que eu consegui foi cobrir meu rosto com meus braços.
– Segura a cordaaa! – gritou um voluntário da festa por um alto falante.
Eu ainda estava viva, então arrisquei olhar o que havia ocorrido.
Assim que baixei meus braços fiquei paralisada ao ver que muitos voluntários, tanto da distribuição da água quanto da cruz vermelha, juntamente com familiares de pessoas que estavam na corda e completamente desconhecidos, fizeram uma corrente humana para segurar a corda de desviar ainda mais de seu caminho e machucar algum inocente. A corda foi detida a centímetros de mim. Vi nos rostos das pessoas a força sobre-humana que executavam para segurar tal símbolo religioso.
– Você está bem? – perguntou uma voluntária da cruz vermelha ajoelhada ao meu lado.
Apenas acenei com a cabeça.
– Patrícia! – uma voz preocupada ressoou acima de mim tirando minha atenção na garota – Você está bem? Está machucada? – perguntou Fil abaixando-se até ficar de joelhos ao meu lado.
– Estou bem. – sussurrei – Eu só escorreguei.
– Tire ela daqui – ordenou a voluntária antes de voltar a correr em busca de mais pessoas necessitadas por atendimento médico.
– Ela tem razão, é melhor irmos – disse ajudando-me a levantar. Seu rosto demonstrava uma emoção intensa. Ele estava preocupado comigo? Alguém que ele mal conhecia – andamos muito devagar, a corda nos alcançou, precisamos andar o mais rápido possível se não ficaremos presos na grande multidão quando passarmos por avenidas estreitas. Toma – disse esticando o copo de água em minha direção – você se sentirá melhor.
Não neguei, peguei o copo com uma mão trêmula. Fil notou que eu não estava bem, então segurou meu braço esquerdo até que eu me sentisse melhor. Agradeci internamente pelo cuidado e presença dele naquele local.
– Eu vi uma garota da minha idade desmaiada após entrar na corda – sussurrei assim que estávamos longe o bastante da corda para que pudéssemos desacelerar nossos passos.
– Infelizmente alguns não conseguem cumprir suas promessas ou desejos, mas a simples tentativa de fazer algo que talvez você não seja capaz é uma forma de amor – respondeu-me em um sussurro.
– Eu vi o pessoal da cruz vermelha atendendo-a e acalentando a mãe da garota – encarei o chão, aquela imagem não saia de minha cabeça.
Fil olhou-me de canto e um pequeno sorriso amistoso apareceu em seu rosto quando disse:
– Ainda bem que existem pessoas boas que se disponibilizam para ajudar o outro sem nada em troca. Essa é uma bela forma de amor.
Olhei-o surpresa. Fil decididamente encontrava beleza e bondade em tudo, até em momentos intensos como aquele. Não resisti, sorri de volta para ele.
Ficamos calados por muito tempo. Eu já conseguia caminhar sem o apoio de Fil. Aproveitei para observar as largas avenidas que atravessávamos. Já deviam ser onze horas, o cansaço, o calor amazônico e as dores nas pernas já me atingiam com intensidade, mas a beleza na qual estávamos cercados fazia-me esquecer de todos os problemas.
As avenidas que percorríamos eram em suma maioria localizadas na cidade velha da metrópole. Eu nunca havia notado ou prestado atenção na imensa beleza arquitetônica que minha cidade tinha.
Os casarões, prédios públicos, teatros e feiras tinham sua arquitetura datada do século XIX e início do século XX. Durante o Círio, a população em geral enfeitava suas casas com enfeites coloridos, imagens da santa e faixas desejando Feliz Círio a todos. Os imensos prédios modernos que contrastavam com a arquitetura rústica das outras edificações eram ornamentados com imensas faixas de tecido colorido com cores fortes desde o topo do prédio até a calçada.
Por onde passávamos as pessoas em seus prédios e casas jogavam sobre os romeiros confetes coloridos.
Era lindo de uma maneira peculiar e simples...
A procissão parou mais uma vez, é comum a procissão parar para que a santa receba uma homenagem programada de uma empresa particular ou pública.
Estávamos na Avenida Presidente Vargas. Prontos para receber a homenagem de um banco tradicional. Homenagem esta vista como uma das mais lindas e esperadas no círio.
Fil disse-me rapidamente que queria que eu visse essa homenagem, então arriscamo-nos a nos aproximar da berlinda.
Estava muito apertado e lotado, mas o silêncio imperava sobre a multidão. Estava na hora, todos queriam ver a homenagem que aquele banco faria naquele ano.
Olhei para o alto prédio comercial de vidro negro, mas já desgastado pelo tempo. Ele não tinha nada de interessante, apenas um palco ornamentado com uma cantora paraense famosa no palco pronta para iniciar a homenagem. Não havia nada de interessante naquele momento, mas o que viria acontecer depois daquilo mudaria totalmente minha visão de tal lugar.
A cantora respirou fundo e começou a cantar a canção religiosa de maneira baixa, mas com uma melodia perfeita que fez os pelos de meu corpo se enrijecerem ao escutar. A música era linda, falava sobre o amor, eu não me lembro direito da letra, só me lembro de adentrar no meu coração como um foguete.
Olhei para as pessoas ao meu redor e vi um grupo de idosas com as mãos para cima rezando a minha direita, a minha esquerda uma mulher cantava com olhos fechados a canção com a mão sobre o peito, mas o que me chamou atenção foi uma menininha de talvez três anos de idade vestida de anjinho no colo de seu pai, ela sorria, ela estava feliz por estar naquele lugar com pessoas que a amavam. Ela esticou um de seus bracinhos tentando alcançar algo invisível no alto dizendo repetidamente:
– Arco-íris!
Todos os romeiros olharam para o alto assim que começamos a sentir os confetes tocando em nossos rostos. Todos que olhavam para cima abriam imensos sorriso. Eu fui uma das últimas a erguer meu rosto porque o sentimento transbordado dos fiéis era intenso e viciante de se ver.
Ergui meu rosto e ao visualizar o que encantava a todos o tempo pareceu ficar mais lento.
Como a menininha havia dito, aquilo parecia arco-íris.
Do alto do prédio comercial toneladas de confetes metálicos e balões coloridos foram jogados sobre a multidão, mas não era isso que nos encantava. Com a luz do sol refletindo as cores dos balões nos confetes, dava-os um efeito pirotécnico peculiar. As luzes multicoloridas banhavam os imensos prédios espelhados, aumentando ainda mais o efeito. No vai e vem do reflexo, o local ficou multicolorido. Os feixes de luz apareciam e desapareciam, refletindo-os hora nos prédios ora nos romeiros e ora nos dois.
Era um mundo de arco-íris dos sonhos infantis que tive. Todos os romeiros estavam encantados. Para completar com o show de luzes, uma imensa cascata de fogos de artifício cobriu a fachada do prédio comercial, mas isso não chegava aos pés do mundo multicolorido que a tal empresa proporcionou para nós, romeiros. A berlinda com a santa ao ser iluminada de tal forma pareceu ainda mais brilhante e especial. Era tão lindo...
– Por que você está chorando? – perguntou-me em um sussurro Fil.
Pus minhas mãos em meu rosto e com surpresa constatei que eu estava encharcada de lágrimas, lágrimas essas que não paravam de cair sem minha permissão.
Em um ato impensado joguei meus braços em torno de Fil. Ele não recuou, pelo contrário me correspondeu em um abraço acolhedor. Fiquei tão feliz por ele está ali, por eu não está sozinha, eu não sabia o que estava acontecendo, eu só sentia um grande aperto em meu coração e sentia vontade de chorar.
– Você está emocionada – sussurrou em meu ouvido como se lesse meus pensamentos. Levantei minha cabeça para encará-lo surpresa, mas recebi somente um sorriso de canto de volta – vamos,eu vou te levar para a Basílica.
Eu apenas concordei com a cabeça.
Seguimos calados pelo restante do percurso, não paramos em nenhum ponto o que nos fez chegar 12h 30min no ponto final da procissão, a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Sentei em um dos bancos da praça santuário. Fil ficou em pé na minha frente.
– Bom, eu acho que foi um Círio bem intenso para uma primeira vez – tentou iniciar um diálogo.
– E como – murmurei sem humor.
– Existe uma última forma de amor que eu gostaria de te contar antes de partir – ergui meu olhar em sinal que estava prestando atenção – a última forma de amor é você – disse sorrindo.
– Eu? – confusa perguntei.
– Aposto que a promessa não foi sua.
– Minha mãe fez a promessa e me fez cumprir – resmunguei.
– Interessante, sua mãe pôs sua própria filha em um mundo que essa não conhecia, completamente vulnerável para os perigos do Círio. Apenas com a nítida ideia de fé e confiança.
– Está me comparando a Jesus? – perguntei completamente confusa.
Fil gargalhou com a minha indagação.
– Bela analogia, só que não. Não há comparação. Só estou dizendo que o amor de sua mãe é você.
Fiquei completamente paralisada com aquela constatação.
Fogos estouraram no céu, a berlinda estava chegando ao local.
– Está na hora de eu ir – sussurrou Fil.
– Espera, me dá o seu número, seu insta ou sei lá, seu face para que possamos conversar novamente.
– Eu não tenho nada disso – comentou com um ínfimo sorriso de canto.
– O quê? Como ass...
– É engraçado nossos nomes, não é? – interrompeu-me – Filéas significa aquele que ama – fiquei completamente paralisada com aquela informação – já o seu significa aquela que deve ser amada – ele disse aquilo já se afastando de mim, só depois de uns instantes notei algo estranho.
– Mas Patrícia não significa isso – indaguei me levantando.
– Mas Amanda sim – falou olhando-me por cima do ombro um pouco distante de mim sem reduzi seus passos.
Perdi o ar. Como ele sabia meu nome? Como parecia me conhecer tão bem?
– Como? – perguntei inutilmente. Apesar do intenso barulho da praça se enchendo ele me escutou.
– Você não está sozinha como acreditas sempre está, Amanda. Eu sempre estarei ao seu lado te protegendo.
– O que? – perguntei exasperada. Comecei a correr atrás de Fil, mas a multidão intensa atrapalhava a passagem e cada vez mais Fil se distanciava de mim.
Vi um vislumbre dele entrando em uma das estreitas ruas do bairro histórico. Assim que entrei na viela a concentração de pessoas diminuiu consideravelmente, deixando espaço para que eu pudesse correr a vontade.
– Fil – gritei.
Dobrei em algumas ruas mas eu não o vi mais, estava sozinha novamente. Encolhi-me no chão chorando, porque eu tinha que sempre ficar sozinha no fim das contas? Solucei algumas vezes até ouvir uma voz rouca dirigir-se para mim:
– Por que você está chorando? – perguntou o mendigo encostado na construção a minha esquerda.
– Meu amigo foi embora.
– Você é a Amanda?
– Sim – disse surpresa.
– Um jovem me pediu para te entregar isso – ele estendeu a mão que continha a rosa vermelha que Fil carregara durante o Círio e um pequeno papel branco dobrado ao meio.
Peguei rapidamente a rosa e o papel das mãos do mendigo e pus-me ao trabalho de desdobrar o papel e lê-lo, nele continha essas palavras:
Querida Amanda,
Desculpe-me partir assim de repente, mas meu tempo em seu mundo de maneira física era curta e terminaria assim que o Círio terminasse.
O tempo curto não me permitiu que lhe entregasse essa rosa. Como eu havia dito, eu entreguei rosas para as pessoas, mas guardei esta última para entregar para uma pessoa especial e essa pessoa era você, Amanda.
Espero que goste desta minha forma de amor.
Sinto muito por me despedir de tal maneira, mas nunca se esqueça eu sempre estarei ao seu lado.
Ass: Seu Eterno Anjo da Guarda, Fil.
Terminei de ler a tal carta completamente em lágrimas, não acreditava no que estava ocorrendo. Eu tinha um anjo da guarda e esse anjo era Fil.
Mais soluços saíram sem minha permissão da minha garganta. O mendigo esperou pacientemente minha crise de choro acabar, quando eu estava mais controlada ele perguntou:
– Aquele cara terminou com você?
Não resisti, eu rir da ideia.
– Não, na verdade ele abriu meus olhos.
– Que maneira estranha de abrir os olhos de uma garota.
– Não posso fazer nada se essa é a forma dele de amor.
O mendigo não entendeu e eu apressei-me a me despedir.Segui para a Basílica enxugando as lágrimas e a ajeitando a maquiagem borrada da melhor maneira possível.
Assim que cheguei aos imensos portões de ferro da entrada eu paralisei. Eu não sabia porque estava ali, mas sabia que deveria estar ali. Encarei as imensas grades de ferro monocromáticas, mas que por ventura do Círio estava coberta pelas fitas coloridas de lembrança da festa. Fita esta, que pelo saber popular, caso você der três nós poderá fazer três desejos. Toquei o imenso tapete multicolorido e imaginei, quantos milhares de pedidos estariam amarrados naquelas grades. Uma risada a minha esquerda chamou minha atenção.
Um casal apaixonado com seus vinte e poucos anos abraçados amarravam sua fitinha.
– Que tenhamos um casamento longo – disse a loira fazendo um nó.
– Que tenhamos muitos filhos – disse o moreno beijando a testa da loira delicadamente enquanto abraçado a ela fazia um nó na fita que estava na mão de sua companheira.
– Enfim, que sejamos muito felizes – disse a loira fazendo o último e entregando-se aos carinhos de seu amado.
Eu e Cristiano não éramos assim, não tínhamos planos para o futuro. Será essa a diferença entre amor romântico e paixão que Fil dissera antes?
– A senhorita aceita uma fitinha? – perguntou um garotinho moreno de 10 anos do meu lado direito chamando-me a atenção.
– Como?
– Minha irmã passou no vestibular ano passado e está cumprindo a promessa de distribuir fitinhas de desejos para os outros. Eu estou a ajudando – disse sorrindo-me.
– Ah, sim, claro. Eu aceito – sorri.
– Pode escolher a cor que você quiser.
Olhei a variedade de cores em sua pequena mão. Peguei uma fita verde limão com as letras pretas e mostrei para o garoto.
– Vou ficar com esta – ele acenou concordando feliz – você é um bom menino – murmurei acariciando sua cabeça – vá para a sua família e aproveite o Círio.
Ele correu para o meio da multidão me deixando sozinha.
Olhei para a fita. O que faria com ela? O que desejaria? Mas uma ideia repentina surgiu em minha mente e me pus a trabalhar nos nós da fita ao redor da grade.
Um nó. Saúde. Outro nó. Paz. Um último nó. Amor, em suas mais diversas formas.
.
.
.
Peguei o ônibus e fui para a casa. As ruas agora desertas e sujas da capital por confetes denunciavam que àquela hora as famílias estavam reunidas em seus almoços de Círio.
Desci no meu ponto e rumei para minha casa. Adentrei o ressinto agora cheio de familiares. Atravessei rapidamente a sala respondendo a uns felizes círios que recebia. Fui para a cozinha onde minha mãe se encontrava.
O cheiro do ambiente denunciava a presença dos diversos pratos tradicionais a serem servidos, pato no tucupi, maniçoba, arroz paraense, tacacá... Tudo exalando o forte e delicioso cheiro do tucupi.
– Mãe – chamei.
A mulher olhou-me surpresa mas ao mesmo tempo com grande carinho. Você é a forma de amor dela, pensei com grande aperto no meu coração.
– Querida, você chegou. Que bom. Como foi?
– Foi legal – disse sem alterar a voz.
– Sinto muito deixa-la sozinha – disse tristonha.
Sorri com a ideia.
– Você sabe mãe. Eu nunca estou sozinha – na verdade ela não sabia. Mas eu sabia, eu tinha Fil e isso era o suficiente.
– Que bom. Lave-se, descanse um pouco e depois venha almoçar. Fiz seus pratos preferidos.
Sorri e virei de costas rumo as escadas que levavam-me para meu quarto, mas parei no meio de um passo. Olhei por cima do ombro e disse-lhe:
– Sabe mãe, acho que vou no Círio ano que vem. Dessa vez sem promessa.
A mulher ficou completamente em choque. Sorri novamente e subi aos pulos para o meu quarto.
Assim que adentrei o lugar joguei-me na cama e olhei as notificações do Instagran. Cristiano postara fotos dele na praia cercado de mulheres e seus amigos. Bufei e pensei que logo logo teríamos uma bela conversa esclarecedora.
Olhei para o teto e abaixei meu olhar para a rosa e a carta de Fil. Eu não estava sozinha e se o que ele disse estava certo ele deveria estar ali junto comigo. Não resisti, tinha que dizer:
– Sabe Fil, como um anjo da guarda eu acho que você vai ter muito trabalho pela frente. Estava pensando, acho que eu vou na corda ano que vem – Ok, pensamento suicida, mas eu tinha que provoca-lo – espero que esteja preparado.
Assim dito cochilei imediatamente.
.
.
.
Fil narrando:
Eu estava encostado na porta do quarto dela com os braços cruzados no peito encarando a garota que agora sabia que eu a protegia.
Ela bufou. Finalmente percebeu que aquele tal de Cristiano não era bom para si. Mas logo um sorriso travesso surgiu assim que viu minha rosa e minha carta. Fiquei apreensivo. O que ela estaria pensando? Minhas dúvidas logo foram sanadas.
– Sabe Fil, como um anjo da guarda eu acho que você vai ter muito trabalho pela frente. Estava pensando, acho que eu vou na corda ano que vem – ela ficou louca ou o que? – espero que esteja preparado.
Com certeza eu não estava preparado para tal atitude dela.
Assim que proferiu essas palavras a garota se encolheu em posição fetal e adormeceu.
Aproximei-me dela e fiquei de joelhos ao lado de sua cama. Beijei sua testa protetoramente e acariciei seus cabelos. Olhei-a profundamente antes de dizer:
– Não importa o que aconteça Amanda. Eu sempre a protegerei.
Fale com o autor