Forgotten Portrait
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Andavam por aqueles longos corredores quase intermináveis daquele estranho lugar. Uma espécie de museu de arte abandonado.
Pinturas abstradas, muitas confusas outras sombrias. Esculturas sem formas definidas. Manequins com corpo e cabeça separados. Ornamentos de porcelana com formato de coelhos e estranhas bonecas feitas de pano azulado, ambos intitualados “Olhos Vermelhos”.
A pouca iluminação do lugar apenas aumentava o mal-estar. Em especial de Blue que parecia terrivelmente perturbado, como se fosse observado durante todo o tempo.
– Esse lugar é realmente assustador... Não acha Ib? – tentava manter a voz firme. – Não está com medo? – indagou e a garota apenas acenou a cabeça negativamente, largando pela primeira vez a mão dele para poder pegar um daqueles delicados ornamentos de pocelana.
– Não acha fofinhos esses coelhos, Blue?
– Fofo onde?! Só a atmosfera daqui já me deixa tenso. – reclamou. – Vamos continuar Ib.
– Okay... – assentiu devolvendo a porcelana na mesa.
– Sem paradas e... – interrompeu a própria fala ao sentir algo abraçar sua perna. Tensionando todo seu corpo. Acabou deixando um grito escapar de sua garganta, chutando o ar para o que tivesse se agarrado soltasse. – Uma... Uma boneca...? – indagou vendo o objeto arremessado.
– Blue é muito escandaloso. – ditou Ib fazendo bico e deixando o rapaz envergonhado. – A boneca só caiu no seu pé.
– Não foi só isso... – tentava se explicar, mas nem para ele fazia sentido. Tinha sentido algo abraçar sua perna e não apenas encostar. – Vamos... Vamos logo. – segurou a mão da garota novamente a puxando para longe daquelas peças em exposição.
– Blue...
– Desculpe Ib, mas eu realmente quero sair daqui logo. – continuou caminhando sem olhar para a garota. Apenas segurava sua mão bem firme para não perdê-la.
A sensação de estar sendo observado ainda o incomodava. Sentia que os quadros o avaliavam de cima a baixo. Parou por uma fração de segundos suspirando.
– Blu... Blue. – a garota chamou receosa.
– Algum problema? – indagou virando-se para a garota.
– Atrás de você... – pronunciou apontando com a mão solta.
O rapaz virou-se já sabendo que iria se assustar. Encontrando atrás de si uma Dama de Azul tentando abandonar seu quadro e agarrar a rosa presa ao casaco de Blue. Após um novo grito segurou com mais firmeza a mão de Ib começando a correr sentindo com o perda de uma pétala.
Não apenas a Dama se arrasta os perseguindo, mas toda a exposição por qual haviam acabado de ver.
– Blu... Blue... – a garota arfava de tanto correr e já sentia suas pernas falharem.
– Aguente mais um pouco. – pedia ainda a puxando.
Tropeçando entre os próprios pés a garota soltou a mão do rapaz indo ao chão.
– Ib! – gritou parando de correr e vendo a pequena no chão, logo atrás um manequim sem cabeça se preparava para agarrá-la. – Ib! –voltou a chamar pulando em sua direção a tempo de servir como escuto humano, podendo afastar aquele manequim. – Vem! Levanta! – gritou, porém a garota estava surpresa com a ação. Optou por pegá-la no colo e correr antes que aqueles objetos voltassem a se aproximar.
– Blu... Blue... Eu consigo andar. – ditou envergonhada, porém apenas foi ignorada, decidindo por segurar firme em seu casaco e observar a rosa que havia sofrido algumas perdas.
Após tanto correr, subindo e descendo escadas, passando por diversos corredores, encontraram uma porta que dava para um comôdo isolado. Assim que adentraram o rapaz colocou a jovem no chão e fechou a porta atrás de si. Quando finalmente não escutaram mais ruídos puderam finalmente suspirar aliviados. A sala era vazia e poderiam recuperar ao menos o folêgo.
– Você está bem Ib...? – indagou finalmente e a jovem só assentiu. – Se machucou em algum lugar?
– Não... Mas Blue... – começou apontando para rosa.
– Isso? – tomou a rosa em mãos. — Parece que a cada pétala que perco sinto dores em meu corpo. – seu olhar era intenso sobre a flor. – Ib também possuí uma rosa, não? Ela é bem menos volumosa que a minha. Se eu não tivesse voltado para te socorrer... – pausou antes que completasse seu pensamente. – Desculpe por isso. Deve estar assustada. – a garota apenas negou. – Quantos anos têm?
– Treze...
– Bom eu estou assustado com todas essas coisas. E pareciam tão felizes quando nos perseguiam. Apesar de meus mais de vinte anos. Estranho... Da minha idade ainda me recordo brevemente. –riu. — Porém... Saiba que pode confiar em mim. – a garota apenas assentiu deixando um silêncio pairar.
“Sobre a rosa... É verdade”
“Como esperado... Esse Rei está preso em seu próprio labirinto”
“Realmente um Rei tolo”
“Tolo e violento... Viu o que fizeste por causa dessa criança?”
“Está disposto a nos ferir por causa dela novamente”
“Novamente será deixado aqui”
“Talvez se deixássemos ele se lembrar que é o Rei...”
“E estragar o jogo?”
“Ele deve ter perdido as memórias quando a puxou para cá”
“Tolo”
“Continuaremos só assistindo?”
“Por enquanto sim...”
“Talvez isso fique ainda mais interessante...”
“Devemos mostrar seus quartos?”
“E por que não?”
– Devemos continuar Ib? Ficar parados aqui não nos mostrarar a saída.
Agora o silêncio pairava pelos corredores. Nem parecia que haviam sido perseguidos momentos atrás. Tudo tão deserto que causava a mesma sensação perturbadora. O rapaz apertava levemente a mão da garota a medida que andavam. Queria garantia de que ainda estava ali.
– Esse parece ser o fim da linha... – comentou o rapaz ao pararem em frente a uma grande porta vermelha bloqueada por ramas de rosas. – Voltar e buscar outro caminho?
– Espere... Eu acho... Que tem algo aqui...
– Pra estar bloqueado assim, com certeza.
– Eu... Está chamamando-me... –soltou a mão do rapaz passando pelos espinhos.
– Ib! Ib! Pode me ouvir? – gritava sem resposta. Nem era capaz de ultrapassar o limite da porta. – Ib! – sua insistencia para entrar era inútil. – O que é isso? – indagou ao ver um ramo de rosas azuis enroscarem-se em sua perna e o puxando para longe da porta.
O puxando até outra sala. Cheia de rosas azuis escondendo um grande quadro na parede.
– Isso dói... – reclamava pela falta de delicadeza que o levou até ali. – Onde vi parar agora...? – olhava em volta até finalmente fixar seu olhar no quadro. – Isso é...
~*~
A garota explorava a sala vermelha olhando atentamente cada quadro exposto ali. À medida que andava lágrimas escorriam por seu rosto mesmo sem entender o porquê.
– Desejo... – leu a descrição de uma das obras. — Eu não entendo... Por que estou chorando? Esses quadros... É uma exposição realmente triste... Mas por que choro? Eu chorava assim antes? Não me recordo... – pensava consigo seguindo até o fim do corredor. – Não entendo... Sinto-me sozinha... Uma mão... Sinto a falta de alguém especial segurando minha mão... – finalmente cedendo as lágrimas e indo ao chão. – Quem é essa pessoa? Por que senti sua falta agora? Eu a soltei... Nunca deveria ter feito isso... Alguém, por favor. Blue... Esse não é o nome dele... – as lágrimas pareciam que não cessariam até o momento que sentiu algo enroscar-se em sua perna e tirá-la daquela sala.
Com o susto de ser arrastada de repente, acabou por gritar. Apenas parou ao sentir pousar em uma nova área macia. Novamente sobre as costas do rapaz.
– Blu... Blue?! Des... Desculpa. Sempre paro dessa forma. – disse envergonhada.
– Tudo bem... Fico feliz que esteja bem...
Assim que finalmente ambos se colocaram de pé, a garota agarrou-se ao casaco do rapaz em busca de conforto.
– Você está bem? Aconteceu algo naquele quarto? – indagou surpreso pela atitude da jovem.
– Isso... – tentaria buscar palavras para explicar-se, porém quando seu olhar bateu de encontro com a pintura da parede sentiu-se muda. A mesma pintura que tanto apreciava na sala de estar daquela velha senhora estava ali a sua frente.
– Ib? – chamou percebendo que ela estava aérea ao encarar o quadro. – Sabe algo sobre essa pintura?
– Esse quadro... Parece-me tão familiar, mas não me recordo. – por mais que tentasse não conseguia lembrar-se ao certo de onde havia visto. – Sabe quem é ele? – a semelhança entre “Blue” e a pintura ela notara, mas esperava que ele se recordasse.
– Deveria...? – sua indagação fluiu vazia e dispersa. – Não me é estranho de alguma forma, mas... É um garoto ou uma garota? Não consigo decifrar...
– Ah! Isso... Parece que é um cara. Está escrito “Rei” aqui. – tentou contornar a situação. Recordou-se que ele não se lembrava de nada sobre si e tinha medo do que poderia ocorrer caso sua memória voltasse. Tinha medo de ser deixada sozinha. – O Rei do Labirinto Azul. Ou algo do tipo... Parece ser o título. – estranhou o nome diferente. Mesmo não lembrando exatamente onde havia visto o quadro percebeu a mudança.
– O labirinto azul não é como esse lugar? E ele seria como o dono? – a indagação do jovem fora inocente.
– Eu não sei...
– Hã? Mas...
– Eu disse que não sei! – ditou mais alto segurando firme a mão do rapaz querendo o tirar de perto do quadro. – Não sei que tipo de pessoa ele é, mas não gosto desse lugar.
– Ib... – assustou-se com a nova atitude da jovem, apenas se deixando guiar por ela. Não imaginou que poderia a ver brava. – “Ela está escondendo algo...” – pensou consigo.
“Eu não posso contar a ele... Nem sobre o quarto vermelho... Nem sobre o quadro... Também não quero mais soltar sua mão...” – a garota pensava consigo, tentando juntar todas as pontas e imaginar diversas possibilidades de justamente aquele quadro estar naquele lugar.
– Ib... – chamou meio receoso. O ar pesado que havia se formado realmente começava a incomodar. – Quando sairmos daqui o que acha de irmos comer Macarrones? São fofos e deliciosos?
– Não. – sua resposta foi seca e inesperada.
– Por quê? Não gosta de doces?
– Não é isso... Eu não posso fazer esse compromisso. – tentou consertar sua resposta. – “É que esse tipo de desejo... Não há como atendê-lo... De alguma forma sinto isso...” – completou a resposta apenas para si.
Ela sentia o desespero sobre si. E a sensação de estar afundando tomava conta.
– Ib! Seus pés! – gritou afoito ao notar que ela havia parado em cima de uma pintura e agora era tragada por ela. – Não solte minha mão! Irei puxá-la!
“Não posso soltar a mão dele... Não mais...” – seu pensamento estava distante e sua consciencia dissipava.
– Ib! – voltou a gritar no momento que a via caindo e suas mãos não estavam mais juntas.
Sem pensar pulou para dentro do quadro a abraçando e se deixando afundar junto.
“A garota está desvendando o jogo”
“Agora quer esconder tudo do Rei”
“Medo?”
“Claro que sim, senão jamais teria afundado”
“Assim que o Rei retomar a memória a deixará”
“Isso realmente está se tornando emocionante”
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