Forgotten Portrait

1 Dessa vez eu deixei que a escuridão me levasse


Notas iniciais
Então, eu realmente espero que vocês gostem~Qualquer erro que encontrarem ou dúvida que tiverem me avisem, por favor, e aproveitem o capítulo~Boa leitura.

Ib acordou sobressaltada, ainda eram três horas da manhã. Aquele sonho de novo. Não aguentava mais acordar às três horas da madrugada se lembrando daquele sonho. Ela ainda recordava-se do que ocorreu na galeria de Guertena, apesar de suas memórias estarem um pouco bagunçadas.

Garry... aquela lembrança sempre provocava um aperto em seu peito. Era muita coisa para ela, mesmo tendo 16 anos.

Frequentemente Ib visitava a galeria, e tentava evitar olhar para o quadro o qual Garry aparecia. Morto. Sim. Morto. Não adormecido. Ela sabia disso. Sempre soube. E sempre saberia.

Ignorando esses pensamentos Ib levantou-se, pegou um par de sapatilhas vermelhas, vestiu um xale também vermelho e saiu de seu quarto. Seus passos eram como os de um gato, silenciosos e macios. Não havia ninguém em casa além dela, pois seus pais estavam viajando e só voltariam uma semana depois, por isso ela poderia sair nesse exato momento e ninguém sentiria sua falta. Ao chegar na porta, ela calçou as sapatilhas e saiu.

A brisa noturna soprava gentilmente enquanto esfriava a noite. Seus cabelos esvoaçaram-se com a brisa e sua camisola ondulava suavemente enquanto o xale acompanhava seus movimentos. Sua decisão estava firme. De qualquer forma, ela não conseguiria dormir mesmo.

A rua estava deserta, e todas as luzes estavam apagadas, até mesmo as dos postes. De fato, era assustador para ela sair de casa a essa hora da madrugada e com a rua imersa em escuridão. No entanto, ela tinha de avançar. Precisava vê-lo.

Depois de andar pelas ruas sombrias durante uma hora, ela chegou ao local desejado. A placa da galeria estava um pouco gasta, ainda bonita, mas nem um pouco parecida com a placa que a deixara entusiasmada há sete anos atrás. Agora, era só uma placa meio bonita e familiar. As letras de metal pintadas de dourado estavam com a tinta descascando. Mesmo visitando a galeria uma vez por mês, desde que recuperara suas memórias aos 13 anos, ainda parecia que ela não visitava aquele lugar havia muito mais tempo.

GALERIA DE GUERTENA.

Ela respirou fundo, o ar frio da noite começando a fazê-la sentir frio. Contou até três, e colocou a mão na maçaneta. Obviamente a porta não estaria aberta, no entanto sonhar não custava nada. Ib fechou os olhos. Ela ia mesmo procurar por aquele quadro? Desde que voltara nunca mais o vira. Após um longo suspiro ela abriu os olhos e quase saltou de tanto susto. Algo estava escrito na porta da galeria com o que parecia ser tinta vermelha.

Venha, Ib.

Ela teve um mau pressentimento sobre isso, pois se lembrava-se muito bem de quando essas palavras a convidaram para o mundo de Guertena na última vez. Poderia Guertena querer que ela retornasse ao seu mundo de horrores? Se... Se ela voltasse... Ela poderia rever seu querido amigo? Só havia uma maneira de descobrir as intenções daquele lugar. Respirou fundo novamente, girou a maçaneta, abrindo a porta, e entrou.

A galeria estava escura, silenciosa e deserta. Nenhum guarda estava vigiando as obras de arte, pelo visto. Por que não havia ninguém se todas aquelas pinturas e esculturas valiam uma fortuna? De repente um arrepio percorreu sua coluna. A primeira vez também foi assim. A galeria escura e deserta. Não. Ela não queria pensar em voltar para lá. Tudo o que queria era ver Garry novamente, mesmo que em um quadro.

Andando um pouco mais, ela chegou ao corredor onde alguns quadros se encontravam. Entretanto, lá, no meio de todos aqueles quadros, que não significavam nada além de terror para ela, estava o quadro dele.

Ela aproximou-se daquele quadro. Seu coração batia em compassos tristes no ritmo de dolorosas lembranças. Ao ficar frente a frente com o quadro, Ib sentiu um aperto em seu peito. Ele ainda estava lá. Com os olhos suavemente fechados, como se estivesse dormindo, mas ao mesmo tempo estivesse prestes a acordar. Seus longos cílios destacavam seus olhos fechados. O cabelo lilás com mechas mais escuras caindo em cima do rosto naturalmente. Os lábios meio abertos, como se ele tivesse congelado bem no momento de soltar a respiração pela boca. Assim como antes, ele estava sentado e com os braços ainda unidos. Seu lenço com o bordado Ib ainda repousava em suas mãos. Seu casaco todo desfiado, talvez até rasgado, estava amassado no chão. Rosas azuis como a dele rodeavam o corpo inerte do rapaz.

FORGOTTEN PORTRAIT.

Ela não aguentou mais. Mesmo tentando segurar, as lágrimas caíram, rolando suavemente pelo contorno de seu rosto e suas bochechas. Perder Garry fora tão doloroso assim? Ela tinha apenas nove anos, afinal de contas. Não era para ela se importar tanto assim, era?

Garry... Desculpe... ela dizia em meio aos soluços. Ib fechou os olhos e deixou com que as lágrimas continuassem a cair livremente enquanto soluçava. A culpa... A culpa é minha, Garry! Desculpe... ela culpava-se da morte de Garry desde que recuperara suas lembranças. Se ele não tivesse dado sua rosa para Mary no lugar da dela, ele ainda estaria vivo. Era para ter sido eu... ela passou a mão pelo vidro do quadro, como se o estivesse acariciando.

Ainda com a mão direita no quadro, a outra mão estava apoiada na parede, onde sentiu algo molhado. Ela abriu os olhos e viu o que havia molhado seus dedos. Tinta. Dessa vez azul. Aquilo realmente estava assustando-a.

Venha, Ib.

Ela enxugou as lágrimas em seu xale e olhou para o quadro. Queria tocá-lo de novo, mas resistiu ao impulso e continuou a andar pela galeria. Enquanto caminhava por aqueles corredores de mármore branco, Ib via todas as obras que causaram-lhe tanto medo antes. Só de olhar para as esculturas Morte do Indivíduo faziam-na ter calafrios.

Não demorou muito para ela chegar ao corredor onde o quadro do mundo de Guertena esteve em sua primeira visita à galeria. Ela percorreu o corredor calmamente, parando um pouco para estudar os quadros. Quando chegou na metade do corredor, lá estava ele. Depois da porta destrancada e dos convites em tinta, aquilo não a surpreendeu. Na verdade, ela já esperava vê-lo.

O Mundo de Guertena.

Ela encarou-o. Ela tinha pesadelos com aquele mundo mesmo quando não se lembrava dele.

Venha, Ib.

A tinta azul dessa vez era mais vibrante, como se insistisse que ela viesse. Ela pensou em Garry e pensou se seu corpo ainda estaria lá, ou se ele estaria... Não. Era impossível. Mesmo que não fosse ela não teria coragem de encarar seu antigo amigo agora. Não depois de seu sacrifício. Ele nunca a perdoaria certo? Sim, ela se culpava. Culpava-se de ter deixado a preciosa rosa de dele nas garras de Mary.

Ib... Por que você não vem?

Como se uma brisa fantasma soprasse as palavras num sussurro no ouvido de Ib, ela ouviu a voz dele. Sua doce voz que a confortara tantas vezes antes, mesmo sendo ele quem estivesse assustado. O coração dela deu um pulo, tanto de susto quanto de ansiedade. E se ele estivesse mesmo vivo? Ela não parou pra pensar duas vezes. Nem mesmo analisou a situação. Ela começou a correr. Queria vê-lo vivo e bem mais que tudo naquele momento. Seu precioso amigo. Seu melhor amigo. Todos os garotos que conhecera eram incomparáveis a ele. Sim, ele era seu único amigo. Enquanto seus passos ecoavam no corredor vazio ela pensava o que faria se o visse. Se ele estivesse mesmo vivo, é claro.

Quando finalmente chegou ao local estava arfando. Como da primeira vez, haviam pegadas azuis levado a entrada do portal.

Abismo das Profundezas

Ela sabia que poderia correr o risco de nunca mais voltar se pulasse lá novamente. Aquela escultura a levaria de volta para o mundo que nunca saia de seus pesadelos. O mundo o qual despertou um medo tão profundo quanto aquele abismo. No entanto, ele também roubou seu melhor amigo.

Por que tão hesitante, Ib?

A voz dele soprava novamente em seus ouvidos, tentando-a. Deveria mesmo voltar a encarar o mundo de Guertena?

Eu te perdoo.

Ela congelou. Como ele... Ele estava morto! Como ele poderia saber que ela se culpava? Não... Como ele poderia sequer falar com ela? Seu coração batia rapidamente, ela suava frio e suas mãos tremiam. Teria Garry sobrevivido e ficado preso no mundo de Guertena?

Garry? Ib arriscou. Se for pra voltar para aquele mundo ela precisava de um bom motivo. E Garry era um bom motivo, afinal, ela sonhava em reencontrá-lo vivo e com aquele sorriso bobo estampado em sua face novamente. Tudo o que ela podia ver era sua pintura. Garry?

Venha, Ib.

Ela sentiu um nó se formar em sua garganta e seus olhos começaram a arder e logo as lágrimas estavam caindo novamente. Ele estava vivo. Estava preso em Guertena, mas vivo. E ela traria Garry de volta nem que tivesse que sacrificar a si mesma. Encarando O Abismo das Profundezas ela sentiu um pouco de medo, é claro. Entretanto seu amigo era muito mais importante que aquele pequeno medo.

Ela aproximou-se da beirada. Mais alguns passos e ela estaria naquele mundo novamente. A ideia de reecontrar todas as Damas e os manequins sem cabeça a dava arrepios. O que lhe causava medo era Mary. Mary era uma amiga até mostrar sua verdadeira face, o que machucou Ib na época. Porém, ela tinha Garry. Ele ficou com ela até o fim. Até trocou sua rosa pela dela, e isso resultou em sua morte.

Ib deu mais um passo. Quando ia dar outro ela escorregou e caiu. Dentro da escultura. Dentro do portal para o mundo o qual ela tanto temia. Ela começou a afundar calmamente, como se mãos invisíveis estivessem puxando-a para o abismo. Mas, dessa vez, ela deixou que a escuridão levasse-a.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Diga não às pedradas, e aguardem o próximo capítulo~(E, sim, "Count on Me" ainda está ativa! :3)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.