Notas iniciais
Apenas uma introdução para dar gostinho de quero mais (ou não, né? haha)

Madame Verbeek olhava a paisagem pela janela do carro com um olhar cansado. Uma prima distante a convidara para sua festa de casamento e por suas boas maneiras, não pôde recusar o convite. Felicitou a prima e o noivo e assim que lhe conveio saiu da festa, tinha tantos afazeres ainda para o início do ano letivo que apenas o pensamento de perder mais um minuto naquela festa simplória lhe pareceu imperdoável. Era uma mulher que se baseava em seus princípios e nunca se desviaria deles. Alguns poderiam dizer que vivia presa ao passado, mas acreditava que, mesmo os ensinamentos de sua avó e posteriormente sua mãe, sobre boas maneiras e etiqueta ainda poderiam ser aplicados nesse mundo considerado “moderno” e era por isso que sua escola sempre fora referência para a educação de jovens moças.

Ah! O belo colégio Saint Claire encantava quaisquer pais preocupados com a educação das filhas. Centrado em uma grande área cheia de belas paisagens e uma floresta, era a distância necessária de qualquer tentação que poderia prejudicar suas meninas. Antigamente fora o lar de sua família, uma mansão imponente a que muitos se referiam como palácio. Com muitos quartos e salas com as mais requintadas decorações, o local já servira de inspiração para muitos palácios verdadeiros. Agora, os vários quartos se transformaram em dormitórios conjuntos e salas de aula, o que poderia fazer com que o local perdesse seu charme, contudo Madame nunca permitiria tal coisa e para provar isso além das visitas comuns de apresentação da escola, organizava um baile para apresentar tanto o local quanto as jovens moças. Os convites para tal grandioso evento eram muito disputados e Madame fazia questão de escolher os convidados a dedo, afinal, além de boas oportunidades de carreira para as alunas mais brilhantes o baile era conhecido por apresentar vários pretendentes as moças que futuramente poderiam se estabelecer com um bom pedido de casamento, o que Madame considerava a melhor oportunidade de vida para elas.

Suspirou, com os olhos fechados e repassando a lista de nomes em sua mente. Neste ano muitos dos pretendentes já se casaram e poucas famílias viriam passar o tempo na cidade, teria de arrumar um jeito de convidar alguns sujeitos de renome para que o baile não perdesse seu encanto. Já estava sentindo cair na escuridão do inconsciente quando o carro freou bruscamente .

–Ah! O que está acontecendo? – Madame Verbeek reclamou, passando a mão pelos cabelos e tentando ajeitar seu penteado.

O motorista abaixou o vidro que os separava e se virou para a mulher com um olhar incerto:

–Tem algo bloqueando o caminho, senhora. Não tenho certeza, mas parece ser uma pessoa.

–No meio da estrada? Só pode ser um bêbado qualquer. – ela bufou aborrecida – Vá lá e o tire do nosso caminho, rápido!

Ele assentiu e saiu do carro, caminhando apressadamente até o vulto. Madame revirou os olhos e abriu a janela, desejando respirar um pouco de ar puro. Quem sabe o cheiro do orvalho não a acalmaria? Porém tudo o que sentiu foi um forte cheiro de fumaça. Assustada, abriu a porta e saiu do carro, percebendo que alguns metros a frente uma vila inteira parecia queimar. As chamas altas consumiam tudo e a fumaça manchara o belo céu azul de preto. Não ouvia o barulho das chamas, mas já conseguia sentir o calor que aquilo deveria provocar. Pegou um lenço e tampou a boca e o nariz, caminhando para mais perto do incêndio, porém antes de chegar à casa mais próxima já sabia que não poderia ter esperanças o silêncio não condizia com aquela visão, mas confirmava um temor. Aquele suspeito e estranho incidente não deixara sobreviventes.

–Senhora! Senhora! – o motorista a chamou da estrada de terra.

Ela se virou, desejando não ter visto aquilo, mas sabendo que agora não poderia mudar nada e foi de encontro ao homem.

–É uma menina, senhora. Uma pequena menininha. – Ele explicou levantando o corpo da garota em seus braços.

Madame Verbeek se aproximou, observando a garota. Ainda era pequena, seu corpo franzino e magro poderia indicar que tinha seis ou sete anos. Os cabelos castanhos estavam bagunçados, sua pele clara estava suja e os pés machucados. Mesmo assim, madame não conseguiu não compará-la a um pequeno anjo, com os cílios longos e a boca rosada em forma de coração. Não poderia deixa-la naquele lugar. Mandou que o motorista a levasse até o carro e ele repousou o corpo da menina ao lado de Madame, que colocou a cabeça dela em seu colo e acariciava sua cabeça, aos poucos limpando seu rosto. Quando o motorista entrou novamente no carro e fechou a porta, ela olhou para ele pelo retrovisor de forma que não houvesse perguntas:

–Agora, se não tivermos mais contratempos, nos leve até em casa. Seja rápido. –ordenou.

Ele assentiu e fechou o vidro, para dar mais privacidade a mulher. Ela olhou uma última vez para a vila em chamas enquanto o carro rapidamente se distanciava e observou a menina. Será que ela tinha sobrevivido àquele incêndio? Era o que parecia mais provável, contudo a força necessária para escapar daquilo deveria ter exigido muito da criança, pois ainda estava desacordada e sua respiração de forma irregular. Assim que chegassem ela chamaria o Dr. Ferris e telefonaria para a polícia. Não sabia ao certo como toda aquela situação poderia se desenrolar, entretanto de uma coisa tinha certeza: ela cuidaria daquela menina.

Notas finais
Espero que tenham gostado ^-^ Comentários são sempre bem-vindos! Au Revoir,Trapezista.