Notas iniciais
Está é a primeira coisa que publico depois de muitos anos com a conta inativa no Nyah.
Infelizmente, muitos livros originais não tem sua valorização aqui. Por essa razão, eu migrei para o wattpad, mas voltei a esta conta para deixar aqui meus futuros livros e fanfics caso alguém goste ou queira ler.
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It seems so different from where i've come

The Middle East - Deep water

The Middle East — Deep Water

O primeiro ato foi o de tomar consciência do universo. O apoio rígido embaixo do meu corpo fora percebido da maneira como o ar frio que me embrulhava. A escuridão desvanece perante a emergência das cores e formas que se concretizam em diversos elementos de um cenário predominado por marrom e suas derivações mais claras. Minhas pálpebras fecham e abrem espalhando o líquido transparente que se acumula em meus olhos. Um zumbido agudo e alto soa dentro da minha cabeça constantemente. Todos os sons externos são abafados de forma que eu somente os perceba quando o mesmo tinido desaparece.

E aqui está o mundo. Aqui estou.

Onde estou?

Essa é a pergunta-chave que faz minha mente funcionar como um relógio danificado. Imediatamente, no instante em que meu cérebro é obrigado a responder, encontro-me com um mar negro de esquecimento, o qual afoga quaisquer informações que eu possa ter.

Quem eu sou?

E quando me indago, tenho a mínima expectativa de que uma voz ecoe em minha cabeça com a resposta. Nada além do nada. É o meu estopim.

Com um impulso, eu me ergo através de movimentos bruscos. Minha mão pálida agarra no encosto do banco de madeira, aonde meu corpo repousava há alguns segundos.

O cenário é distorcido por alguns instantes. Eu não posso controlar a ânsia que me bate com o pânico crescente. Meus olhos correm pelo ambiente enquanto busco pelo reconhecimento, pelas lembranças.

A ideia de nunca ter visto um lugar como aquele antes me assusta, mas o deja vu insistente aponta que eu conheço algo parecido. Engulo em seco.

— Uma igreja. – concluo em voz alta, porém, quase num sussurro. Tenho receio ao ouvir minha própria voz, pois não a reconheço. E isso me assusta.

Não sei o que sentir. Não sei o que pensar. Apenas, involuntariamente, sei que está tudo errado. Ainda que aparentemente normal, há uma série de falhas que, a princípio, parecem extremamente complexas para mim.

Eu tento raciocinar, mas é inevitável não entrar em desespero quando a nenhuma resposta consigo alcançar em meus pensamentos. Não há nada concreto dentro de mim, então eu me agarro naquela estranha realidade.

Por mais irritante a sensação que tenho acerca do que meus olhos vêm e, embora eu seja incapaz de negar a certeza de que há um desvio absurdo naquilo tudo, é real.

Minha pele estremece debaixo dos tecidos leves que uso, ainda que não esteja realmente frio e que barreiras de vidro me isolem do que há diante delas. Meus braços se cruzam, dedos tateando partes de um fino casaco cinza em cotovelos opostos. Permaneço assim por alguns segundos até que um barulho intervalado chama minha atenção para uma nova presença no local.

Um velho homem arrasta uma vassoura por cima do altar da igreja. Ele está de costas para mim. Eu não reparei nele antes, o que me faz pensar se esteve ali o tempo todo. Somos as únicas figuras naquele lugar. Encolho-me enquanto decido se devo aceita-lo como uma ameaça, mas o senhorzinho expressa tamanha indiferença que começo a duvidar a respeito de sua percepção sobre minha companhia.

Fungo levemente, observando-o de longe. Sei que preciso começar uma conversa, apesar de não me lembrar exatamente como se faz isso.

O que eu deveria dizer em uma situação como aquela? Talvez devesse perguntar as horas? Talvez elogiar seu boné? Medito por um curto período. Eu não consigo. Tudo em que eu penso são ideias que não parecem muito boas.

Oh, sim.

— Perdão! – eu digo em alto e bom som. A palavra sai um pouco tremida, forçada e veloz. É realmente um sentimento muito estranho que me atinge quando minha voz se propaga. É como se eu não falasse por anos.

O senhor prossegue com sua tarefa, sem dar nenhuma pista de que ouviu.

Sinto meu rosto esquentar. Tenho certeza de que deveria pedir por perdão, mas talvez eu tenha o dito em um tom agressivo, o que pode ter ofendido o velho homem.

— P-Perdão? – vacilo em minha segunda tentativa. A fina voz que me pertence ecoa pelas paredes internas da igreja.

Espero mais alguns segundos. O homem congela, a vassoura parando há centímetros de tocar ao tablado. Transbordo em expectativas até que o idoso retorna a sua atividade, concentrado em varrer, plenamente ignorando-me.

Relaxo meus ombros em absoluta decepção. O que está acontecendo aqui, afinal? Minha respiração fica mais e mais dificultosa à medida que os segundos são marcados. Será que eu errei nas palavras? Talvez um "perdão" não tenha o significado que meus instintos guiaram a mim.

— Senhor... — hesito por alguns segundos. — E-Eu acho que preciso de ajuda — falho mais a ainda à medida que as palavras fluem em minha voz rouca. — Por... Por favor. Eu me sinto perdida — fecho os olhos, como quem foge de assistir as consequências.

Meus dedos apertam o tecido de meu casaco com mais firmeza, percebo que estou tremendo. Apenas o som intervalado do atrito da vassoura com o chão quebra o silêncio e cria incentivos para a minha ansiedade conforme eu aguardo uma resposta que não virá.

Ok. Chega. Isso só pode ser uma brincadeira. Não pode algo assim ser sério. É errado. É simplesmente errado.

Não consigo controlar a tremedeira. Fecho os olhos molhados e é como se, momentaneamente, eu fosse afogada.

Azul.

Risadas.

Gelo.

Frio.

Chocolate.

Abro os olhos e estou de volta à igreja, um pouco mais atordoada do que antes. Pisco várias vezes antes de simplesmente esquecer os flashes luminosos, meditando alguns segundos acerca deles. Não importa. Eu preciso sair daqui.

A impaciência move meus membros por mim, dando-me a força necessária para me jogar a frente, apoiando minhas mãos claras e finas no encosto do assento adiante. Arregalo os olhos e as palavras estridentes interrompem de minha garganta sem permissão.

— Dá pra me escutar?! – sinto meu rosto esquentar. A descontrolada angústia disfarçada em raiva.

Então eu paro. Eu desisto com um suspiro derrotado. Meus dedos relaxam e meus ombros contraídos caem. Surdez, definitivamente este homem deve ser surdo. Pareço tão tola ao chegar a esta conclusão, porém, prefiro não acreditar em crueldade.

Dou-lhe as costas e corro em direção à saída. Não há mais nada a fazer aqui.

Antes que eu possa sequer pensar sobre tocar as largas maçanetas das portas duplas, uma delas é aberta por um sujeito. Percebo que é um homem, mas não me apego aos detalhes. Nossos corpos não têm tempo de chocarem-se porque eu recuo com um curto passo.

Nada digo. Nada ouço. Apenas passo pela porta avoada demais para distinguir qualquer coisa fora do espaço vazio que é minha cabeça.

Isto é, até que, pela segunda vez, dou-me conta da realidade e o pânico se intensifica, contrariando minhas expectativas ao sair da igreja. Sinto-me mais perdida até do que antes, se isso era possível.

Há várias pessoas estranhas. Não conheço seus rostos de nenhum outro lugar. Elas passam umas pelas outras em seus trajetos, alheias a qualquer anormalidade, o que me faz pensar que estou ficando louca com esta paranoia de que algo está terrivelmente fora do lugar.

Passo minha visão pela rua, ligeiramente. Talvez esse algo seja eu. Faria mais sentido.

Um cão late para os carros enquanto tenta abocanhá-los em patéticas tentativas direcionadas à dianteira dos veículos. O céu acima é branco e de alguma forma, isso me incomoda, pois sei que não é assim.

E qual seria mesmo a cor do céu?

Eu quero vê-los outra vez.

Quando abro os olhos novamente, uma bicicleta vem na minha direção. Por pouco, consigo desviar de maneira atrapalhada. Solto o ar que estava prendendo. Levo uma de minhas mãos até a minha cabeça.

— O que está acontecendo? – sussurro enquanto estou franzindo a testa, aturdida. Minha voz sai embargada, porém não choro. Ainda não.

Eu preciso saber o que está acontecendo. Chorar como uma criança perdida não vai funcionar desta vez.

Arquejo em frustração. Desta vez.

Estou falando como se eu soubesse o que estou fazendo, mas não tenho a menor noção de qual trajeto tomar. Não que isso seja realmente um problema. Quando não se tem um destino, qualquer caminho serve.

— Oh! – assusto-me quando sinto algo roçar em minha mão direita. Um grupo de pequeninas borboletas de asas escuras passa por mim e paira no espaço a minha frente por algum tempo antes de levantar voo e desaparecer.

Procuro puxar o ar para mim calmamente e, sem pensar muito no que estou fazendo, apenas sigo a mesma direção que os insetos tomaram, apesar de não as ver conforme me desloco. Apenas continuo movendo meus pés, mãos abraçando o abdômen como se sustentassem todo o peso do meu corpo.

Em algum momento, quando percebo o quão ineficaz é simplesmente andar por ai sem rumo, paro ao lado de uma garota. Ela é baixinha, tem pele escura, roupas chamativas e está com os redondos olhos vidrados na tela de seu smartphone.

Hesito antes de tentar chamar sua atenção. Demonstro meu nervosismo através do ato de brincar com minhas próprias mãos involuntariamente. A atitude não ameniza os sentimentos indesejados, mas é como um vício.

— Hm... – começo. – Perdão?

Os dedos rechonchudos da jovem correm pela tela. Um sorriso divertido brota em seus lábios. Sou ignorada.

— Estou perdida – digo com a voz mais alta, esforçando-me para não deixa-la tremular. – Você poderia... – perco-me no meio da frase quando uma buzina faz a garota erguer os olhos instantaneamente.

Talvez fosse uma boa ideia andar por ai com uma buzina dessas. Ou quem sabe com um Nissan Altima, como aquele azul que estava estacionado há alguns metros de mim.

— Já estava quase mofando aqui! – a garota gritou ao meu lado.

A motorista do sedã sorriu.

— Então eu deveria ter demorado mais um pouco. – gargalhou a outra garota

A morena começou a se distanciar de mim.

— Espere, por favor! – eu disse em um apelo, mas nenhuma das duas me deu qualquer sinal de que eu havia sido notada.

O sedã se afastou. Engoli em seco, sem saber exatamente o que pensar sobre aquilo.

Suspirei pesadamente. Talvez fosse mais difícil do que eu estava esperando.

O que eu queria afinal? Claramente, eu estou equivocada. Mas onde? O que estou dizendo que está incomodando as pessoas para que seja a segunda vez que passo por uma situação tão desanimadora?

Tento ser otimista. Foi só a segunda vez. Eu poderia tentar quantas vezes eu quisesse. Tempo é a última coisa que me falta.

O último pensamento ecoou na minha cabeça. Sinto-me um pouco tonta e apoio-me ao poste mais próximo. Respiro fundo tentando me conter. Será que eu realmente tenho tempo? O que pode acontecer se eu não desvendar o mistério cerca a ausência de minhas lembranças? Será que eu tenho uma família? Alguém que está procurando por mim?

Será que essas lembranças existem? Ou estou sendo precipitada ao seguir cegamente meus instintos?

As indagações correm em meus pensamentos fazendo minha cabeça doer. Desanimo.

Aquele céu nublado me irrita.

Só mais uma vez.

Por favor.

Umedeço meus lábios e pressiono minhas pálpebras fechadas com a ponta dos dedos. Afasto-me do poste quando aquele grupo de borboletas escuras permanecesse a pairar em círculos sobre mim. Penso em como gostaria de poder voar sobre aquele lugar. Talvez tudo fosse mais rápido. Gostaria também de não ter uma consciência sobre as coisas. Não ter um instinto forte me dizendo que eu não posso desistir logo no começo.

Eu estou assustada, apavorada. Sinto minhas mãos como blocos de gelo. No entanto, apesar do medo, uma vontade mais forte faz com que, por mais uma vez, eu comece a caminhar para longe dali.

Notas finais
Espero que tenham aproveitado a leitura!
Comentem, deixem seu favorito e não esqueçam das críticas! Essa autora aqui ama críticas construtivas.

Beijos Azuis

??” Laís Bohrer