Notas iniciais
Boa leitura!

Não percebeu que tinha adormecido até ouvir o barulho de suaves batidas contra a porta. Olhou ao redor confusa, piscando algumas vezes para se acostumar com as luzes. Ainda meio mole, se levantou e abriu a porta. Não se surpreendeu ao ver Lothriel parada no corredor, olhando-a com aquele sorriso que nunca deixava o seu belo rosto; mas não pode deixar de se assustar com as outras pessoas que estavam paradas atrás da elfa: duas elfas e um elfo.

“Boa noite, Tawariel.” Ela a saudou, entrando no quarto e sendo seguida pelos outros elfos. “Lembra-se do banquete? Viemos te preparar...” quando Lothriel terminou, percebeu que as elfas carregavam diversos objetos diferentes; uma delas carregava frascos coloridos, e a outra uma pilha de panos esverdeados. Já o elfo não trazia nada, o que a fez imaginar o motivo dele estar ali. Era loiro, alto, tinha uma face serena e olhos escuros que a encaravam, enquanto o mesmo sorria em sua direção.

Lothriel, provavelmente percebendo a confusão de Tawariel, tratou de apresentar os elfos.

“Esse é o curandeiro que tomou conta de você quando estava ferida. Seu nome é Mairon.”

“Minha senhora.” Ele disse fazendo uma reverencia, e sua voz conseguia ser ainda mais serena do que sua face. “Vim checar o seu processo de cura. Deite-se na cama, por favor.” Franziu a testa para o elfo, que nem bem chegara e já estava lhe dando ordens. O elfo a encarava com um olhar calmo, enquanto seu braço estava estendido em direção a cama; olhou para Lothriel, a única conhecida do quarto, e a elfa sorriu e assentiu, para assegurar que tudo estava bem.

Lentamente, e ainda relutante, deitou-se na cama; viu Mairon andar até ficar ao seu lado.

“Posso?” ele perguntou, apontando para a lateral da cama. Ficou encarando-o por alguns segundos, e por fim assentiu. O elfo sentou ao seu lado, e encaminhou suas longas mãos por cima de seu corpo. Se assustou ao sentir a mão do mesmo sobre seu ombro, onde a cicatriz negra estava; sentiu uma sensação de conforto e quentura, mas não uma quentura ruim. Observou a face do elfo, vendo seus olhos fechados e sua testa levemente franzida. Logo depois desceu a mão por toda a extensão do braço, com a mesma expressão sobre o rosto.

Quando abriu os olhos novamente, e Tawariel notou que eles eram cinzentos como os seus, sorriu em sua direção.

“Seu braço já está praticamente curado; quase não posso mais sentir a presença do veneno. Logo estará completamente extinto de seu corpo.” Tawariel ouvia tudo, mas não entendia nada.

“Veneno?” perguntou, franzindo o cenho. Antes de responde-la, o elfo trocou um breve olhar com Lothriel.

“Sim. Você foi atingida por uma flecha envenenada quando foi atacada. Era um veneno escuro, mas conseguimos tirar boa parte dele. Logo seu corpo expulsará o resto.” Tawariel assentiu, absorvendo a informação. “Posso?” foi tirada de seus pensamentos ao ver Mairon apontando para a região de seu abdômen.

“Sim.” Murmurou, e logo sentiu as mãos do elfo sobre sua barriga, e não pode deixar de corar e se sentir desconfortável, afinal ninguém lhe tocara desde que chegara ali e acabara de conhecer o elfo. Para seu alivio, não demorou muito para Mairon sorrir e lhe dar outra informação.

“Suas costelas já estão completamente curadas.”

“O que aconteceu?” perguntou Tawariel, olhando para a área onde as mãos do elfo estavam segundos atrás, e não percebendo a sombra que passou pelos olhos cinzentos de Mairon.

“Foram quebradas, minha senhora.” Tawariel franziu ainda mais a testa; o que quer que tivesse acontecido consigo, realmente fora severo. Lembrou-se das palavras do Rei “Você estava praticamente passando para os salões de Mandos, e estava severamente ferida(...)”

Aos poucos começou a entender a gravidade de sua situação; poderia ter morrido, constatou. Se não fosse por aquele povo, e por aquele príncipe que a salvara, não teria mais vida agora. Mordeu os lábios, encarando suas mãos. Era tudo tão estranho. Não se lembrava da dor, nem da situação na qual estava para ter sido tão ferida, e mesmo assim os ferimentos ainda estavam ali, marcando o seu corpo, como uma eterna memória de que algo acontecera, mesmo que não se lembrasse.

“Não se preocupe, criança. Tudo se resolverá no fim das contas.” Ouviu a voz de Marion, e percebeu que pequenas lagrimas desciam sobre sua face. Rapidamente, envergonhada por estar chorando novamente, limpou-as. Mairon sorria, sem se importar com o fato de ela estar chorando, e deu um pequeno aperto em sua mão, que a fez se sentir melhor. Logo o mesmo retomou com sua inspeção, passando para suas pernas. Viu-o passando a mão por sobre a cicatriz de sua perna, mas o mesmo não falou nada; apenas mantinha os olhos fechados e a testa franzida, como se estivesse completamente concentrado no que estava fazendo. Contudo, percebendo que Mairon não diria nada sobre a cicatriz, e estando ávida para descobrir o que lhe acontecera, Tawariel murmurou.

“E essa cicatriz?”

A principio Mairon não falou nada, ainda com os olhos fechados, e Tawariel se sentiu inquieta pelo silêncio do curandeiro. Estava pronta para perguntar novamente, quando a voz de Mairon soou em seus ouvidos.

“Uma ferida feita por espada, minha senhora.” Foi o que ele disse, abrindo os olhos cinzentos e a encarando solenemente “Bom, tudo está bem com o seu corpo. Logo todas as feridas estarão completamente curadas. Infelizmente as cicatrizes demorarão para desaparecer, mas não são eternas; logo o seu corpo voltará a ser belo e sem marcas como antes.” Pausou, olhando-a seriamente. “Agora, veremos as feridas da mente como andam.”

Tawariel o olhou confusa, mas suas perguntas foram respondidas quando as mãos do curandeiro vieram parar sobre sua cabeça.

“Feche os olhos, criança.” Ele comandou e assim Tawariel o fez. Sentiu uma onda invisível lhe invadir, mais forte do que tinha sido em seu corpo, e ainda mais quente e confortável; como dedos tateando na escuridão, sentiu o poder do curandeiro a sua frente. Sua mente relaxou, e logo adormeceu.

Estava em um quarto amplo, com paredes de pedra polida e o chão de madeira; era mal iluminado, com apenas uma vela acesa em uma mesa ao lado da cama. Mal podia ver o que acontecia, mas pode ouvir uma voz distante, límpida e suave, cantando uma melodia triste e bela. O som de um instrumento se misturava com a voz, enquanto dedos tateavam no escuro, tirando notas que se misturavam com o ar em volta.

Deixe o dia passar,

Para que a noite escura o proteja.

Azul aveludado, verdade silenciosa

abraça o seu coração e espírito.

Nunca chore, nunca suspire

Não se pergunte a razão,

Sempre seja, sempre veja,

Venha e sonhe a noite comigo.

Não tenha medo

Quando a noite se aproximar

Te enchendo com sonhos e desejo.

Como uma criança dormindo,

Confortável, profundo,

Me encontrará esperando por ti.

Abriu os olhos de supetão, encarando Mairon a sua frente, ofegante. Se sentou rapidamente, mas se arrependeu ao sentir uma onda de tontura lhe atingir.

“Teve uma lembrança, não é mesmo?” Mairon sorriu, vendo Tawariel fechando os olhos.

“C-como?” a elfa balbuciou, apertando sua cabeça entre as mãos. A tontura ainda não cessara, e estava se sentindo enjoada.

“Eu forcei.” Tawariel levantou a cabeça, tomando cuidado para não ser muito rápido, e encarou-o confusa. “Sua memória foi perdida por causa do veneno usado. Como eu disse era um veneno escuro, feito por mãos poderosas. Se espalha rapidamente, seguindo a corrente sanguínea, fazendo o corpo perder as forças; um veneno feito para tirar a vitalidade de um elfo, de uma forma deveras eficaz.”

A cada palavra que o elfo falava Tawariel ficava ainda mais confusa. Logo Mairon teve que lhe contar toda a história em torno de sua perca de memória.

“Durante muitos anos temos sido os inimigos da escuridão desse lado do mundo. Enquanto a escuridão já toma grande parte da Floresta, nós ainda conseguimos manter a luz por aqui — somos uma pequena estrela em meio as sombras da noite. Depois de muitos anos de pratica, começamos a revidar com cada vez mais força os ataques de nosso inimigo, e isso obviamente o enfureceu. Formas para nos derrotar foram criadas, e dentre tantas, o veneno que entrou em seu corpo é uma delas. Você não é a primeira a aparecer aqui sem saber quem é ou onde está, criança.” Ele parou, passando as mãos sobre o rosto que de repente ficara sério e tristonho, e Tawariel percebeu que o elfo, apesar de parecer jovem, já passara por muitas coisas.

“Depois de tantos elfos terem desvanecido, por não se lembrarem de absolutamente nada, e passado para os salões de Mandos, sendo consumidos pelo veneno, conseguimos finalmente fazer um antidoto. Contudo, o antidoto não acaba com todos os efeitos do veneno. Um deles é a perca de memória, como a sua. A boa noticia é que não é algo eterno; logo pequenas partes de sua memória voltarão, como essa que eu forcei. O veneno não as apaga completamente, mas faz com que uma sombra sobreponha-as. Logo que a sombra se vai, as memórias voltam.”

“E como faço para a sombra ir?” perguntou Tawariel esperançosa. Mairon sorriu amigavelmente, apertando suas mãos novamente.

“Isso você terá que descobrir por si mesma, criança.”

Dizer que Tawariel ficou frustrada seria no minimo insuficiente. Se sentiu com raiva, e quando ia abrir a boca para falar com Mairon, implora-lo por uma resposta, o mesmo a interrompeu.

“Bom, tenho que ir. Temos soldados que chegaram de uma ronda a pouco tempo atrás, e que precisam de minha ajuda.” Se levantou, e enfiou a mão dentro do bolso de sua túnica esverdeada, tirando de lá um frasco com um liquido branco. “Conforme as memórias forem voltando, alguns sintomas virão. Tome desse liquido toda vez que se sentir mal, e assim ficará melhor. Foi um enorme prazer te conhecer formalmente, minha senhora. Nos vemos por ai.” E assim se virou para sair, dando um aceno com a cabeça para Lothriel, que estava ocupada com outra coisa. Contudo, antes de sair, parou ao ouvir a voz de Tawariel.

“Obrigada.”

E assim se foi, deixando a elfa imersa em pensamentos. Encarou o frasco em sua mão, vendo que era feito de vidro, e tinha uma pequena tampa de prata. Dentro, o liquido esbranquiçado brilhava a cada vez que o mexia.

“Tawariel, preparei o seu banho. Venha, se sentirá melhor após imergir sob as ervas da floresta.” Tirou os olhos do frasco encarando Lothriel, finalmente se lembrando de que a elfa estava ali; contudo, as outras duas elfas que vieram com ela e Mairon tinham sumido. Agora apenas ela e Lothriel estavam no quarto.

Se levantou, e percebeu que não estava mais tonta, e que se sentia um pouco mais feliz, apesar de ainda estar confusa. Viu que ao lado da cama tinha uma bacia de madeira. Estava cheia de água fumegante, e cheirava a flores e erva cidreira. Para a sua surpresa, sobre a banheira, uma pequena janela estava aberta. Quase como se estivesse sob um feitiço, Tawariel caminhou até ela, vendo as luzes da lua e das estrelas entrando no quarto e parando sobre as águas da bacia.

O céu estava escuro, sem nenhuma nuvem para atrapalhar a lua e as estrelas de emanarem o seu brilho.

Bain¹.” Murmurou, os olhos brilhando e um sorriso inconsciente em seus lábios. Era estranho como olhar para as estrelas, pela a primeira vez desde que chegou, era reconfortante e familiar. Uma alegria encheu seu coração apenas por ainda poder admira-las, e se repreendeu por não ter notado a pequena janela antes. Ficou observando encantada, até Lothriel tira-la de seus pensamentos.

“Minha senhora, a água irá esfriar.” Encarou-a ainda sorrindo, e assentiu. Tirou o vestido, sem nem se importar que Lothriel estava ali olhando-a, e entrou na água morna, sentindo seus músculos relaxarem.

Lothriel tivera razão quando dissera que se sentiria melhor com o banho. Principalmente com um banho a luz das estrelas e com pétalas de flores silvestres boiando ao seu redor. Quando saiu, com os dedos já enrugados, se sentiu uma nova pessoa; como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros.

Lothriel lhe entregara um vestido, que, segundo ela, fora mandado pelo próprio rei. Era de um azul escuro, quase negro; pequenas pedras prateadas adornavam a parte do peito, e uma fina corrente, também prateada, fora posta ao redor de sua cintura. Quando o vestiu, sorriu com satisfação; o vestido caíra-lhe perfeitamente, e se sentiu ainda mais feliz por ser tão parecido com o céu negro do lado de fora. Calçou sapatos leves, deixou o cabelo caindo livremente sobre suas costas, e se virou para sair.

Enquanto andava pelos corredores já vazios, percebeu que Lothriel se vestia de forma diferente; estava com um vestido verde claro, que se não fosse pelo forro na parte de baixo, seria completamente transparente. Seus cabelos loiros tinham pequenas tranças presas com fios prateados, e seus olhos azuis brilhavam com excitação; a elfa estava ainda mais bela.

“Você parece animada.” Tawariel disse, sorrindo alegremente para a elfa, que também sorriu.

“Sim. Os banquetes são sempre alegres, mas esse é especial.” Vendo a sobrancelha de Tawariel se arquear, continuou, rindo. “Uma vez por semana, quando o céu está claro e as estrelas brilham, o Rei oferece um banquete ao seu povo. Todo o reino sai para o salão de festividades, que é usado para banquetes do Rei, e lá nós comemoramos as bençãos de Elbereth² sobre nós. Comemos, bebemos e cantamos canções antigas, feitas por nós e por nossos antepassados, de tempos de glória e de paz.” Lothriel tinha uma luz sobre seus olhos enquanto falava, e o sorriso nunca deixava sua face. “Nós, elfos da floresta, adoramos festejar. Principalmente nosso soberano; são várias as vezes em que saímos pela floresta, quando esta está calma e as criaturas negras estão longe, e festejamos com toda a liberdade que pode nos ser proporcionada. São poucas as vezes em que podemos esquecer temporariamente a escuridão que nos circula.”

–x-

Observava com certo desconforto o lugar onde estava; era enorme, maior do que aquele em que estivera para comer e grande o bastante para receber todos os elfos daquele reino, e muito mais belo. As paredes eram de rocha polida, e ramos de prata estavam desenhados, com pequenas flores douradas brilhando em suas pontas; o teto era aberto, sem nem mesmo uma cobertura de folhas, e a luz das estrelas entrava sem pedir licença aos habitantes. No centro, uma grande fogueira subia de encontro ao céu, enchendo o local com sua luz dourada e seu calor, e o som da madeira estalando sob as chamas era reconfortante. Ao redor da fogueira, elfos dançavam e cantarolavam, rindo deliciosamente, e uma alegria e calma visíveis pairavam ali.

Além disso, um pouco a frente da fogueira, uma enorme mesa estava, cheia dos mais diversos pratos de comida élfica e bebida, e em sua cabeceira se sentava o rei, imponente, com uma taça dourada em suas mãos compridas. Ele encarava tudo com um sorriso discreto, e uma calma emanava de seus olhos azuis, que agora brilhavam quentes enquanto via a alegria de seu povo. Vestia uma túnica dourada, com ramos esverdeados enfeitando as mangas, e uma coroa de flores brancas.

Logo que chegara ali, com Lothriel em seu encalço, ele lhe dera as boas vindas, com um sorriso aberto, mostrando a fileira de dentes brancos. Depois, Lothriel ficara com ela por mais algum tempo, até um elfo aparecer e chama-la para dançar. Embora a elfa parecesse relutante em deixar Tawariel sozinha, resolveu aceitar após Tawariel jurar que ficaria bem. Agora, enquanto estava ali, observando tudo sem saber o que fazer, e se sentindo deslocada em meio a tanta gente que não fazia ideia de quem eram, sentia falta da presença da elfa.

Viu que Lothriel estava certa quando disse que os elfos da floresta adoravam festejar, pois todos tinham um sorriso estampado nos belos rostos, e se mexiam livremente, alguns ao redor da fogueira, outros mais dispersos, mas todos cantando para as estrelas.

Imaginava se, de onde viera, festejavam como eles ou comportavam-se como eles. Eram fisicamente parecidos, com suas belas faces, vozes, os cabelos longos e orelhas pontudas, além dos incontáveis anos de vida. Contudo não se sentia familiar a eles ou ao que eles faziam; mesmo sem lembrar de nada sobre seu passado ou sobre quem era, não pode deixar de sentir que aquele banquete não lhe era nem um pouco familiar. E por isso se sentia ainda mais deslocada, e um desconforto lhe abatia.

Pode ver Lothriel dançando com o elfo, e um sorriso de alegria estava estampado no rosto da bela elfa, tal como no de seu parceiro. Pareciam completamente entretidos um com o outro, sem nem mesmo olharem para o lado; o elfo falava algo com ela, e ela logo ria. Era agradável ver a forma como eles se olhavam, e como sorriam um para o outro. Tawariel só pode pensar se os dois eram parceiros, pois era obvio que eles compartilhavam de algum sentimento.

Suspirou, olhando para os seus pés. Será que algum dia já olhara para alguém daquela forma? Será que alguém a esperava no lugar de onde viera? Se sim, será que algum dia o veria novamente? Essas eram perguntas circundando sua mente no momento. E apesar de toda a alegria do lugar, e da tranquilidade que sentia, ficou um pouco desapontada.

“O que uma bela elfa faz sozinha em um canto, em meio a tanta alegria e festa?”

Deu um pulo de susto, sendo tirada bruscamente de seus pensamentos. Seus olhos se levantaram na direção da voz, observando agora a figura a sua frente com um sorriso no rosto. Se surpreendeu ao ver quem era, e não pode evitar apertar os dedos em sinal de nervosismo.

Era Legolas, o príncipe que fora tão gentil consigo e que, embora não se lembrasse, salvara sua vida. Ele vestia uma túnica cinza, com um cinto prateado adornando sua cintura, e calças acinzentadas; seu longo cabelo loiro estava trançado, da mesma forma que estivera quando o viu pela primeira vez mais cedo naquele dia, e uma pequena tiara de prata fosca adornava sua cabeça. Estava ainda mais belo e mais brilhante do que antes e apenas a imagem dele aqueceu seu coração. Piscou, lembrando-se que o mesmo lhe fizera uma pergunta e respondeu.

“Uma elfa observa seus arredores, sem saber o que fazer exatamente.” As palavras rolaram de sua boca, enquanto ela ainda o encarava com admiração. Observou a boca fina se abrir mais ainda em um sorriso, enquanto ele respondia.

“Ora, mas se essa elfa me der a honra, poderia mostrar-lhe o que fazer.” Ele estendeu sua mão, em um convite mudo, e Tawariel inconscientemente concedeu a honra que ele desejava. Sua mão tocou a dele, sentindo a pele calejada em contraste com a sua pele macia, e o toque quente lhe encheu de arrepios. Legolas levou-a até um ponto perto da fogueira, onde uma música sobre a floresta em seus tempos de glória era cantada.

Começaram a dançar juntos, ele a conduzindo enquanto seu corpo apenas obedecia. Os passos da dança eram simples, e Tawariel não teve problemas em segui-lo. Ele sorria enquanto a girava, trazendo-a para perto de si novamente, e dando pequenos passos ritmados. Seus corpos se tocavam, e a sensação era tão boa que Tawariel riu alegremente, se esquecendo dos pensamentos desanimadores de antes. Não entedia o que estava acontecendo, mas sentiu a magia de todo o lugar encher o seu corpo.

Estava tão absorta nele e no que os dois faziam, que nem percebeu os olhares cautelosos e surpresos dos outros elfos sobre os dois. Legolas, mesmo percebendo, não se importava. Seus pensamentos estavam totalmente focados na bela elfa a sua frente. Os cabelos negros caiam em ondas sobre suas costas, sua cor quase se fundindo com a cor do vestido escuro; os olhos acinzentados, que quando vira pela primeira vez estavam completamente sem brilho, perdendo a luz do mundo, agora brilhavam como as estrelas sobre suas cabeças. Ela sorria, ele sorria.

Alguns elfos murmuravam entre si, outros arregalavam os olhos, mas outros apenas sorriam. Ao longe, também observando, estava Thranduil, que não demonstrava emoção alguma. Seus olhos apenas escaneavam o casal dançando e sendo observados com certo interesse.

Ficaram ali, perto da fogueira, dançando até que a musica chegou ao fim. Legolas então beijou a palma de sua mão, olhos azuis brilhando contra os cinzentos.

“Se sentindo mais feliz?” perguntou ele, sorrindo ao vê-la ruborizar.

“Sim, meu senhor. Obrigada.” Ela respondeu, sem perceber que também sorria abertamente.

“Bem, minha cara Tawariel, agora você poderia me dar uma outra honra.”encarou-o confusa, e, percebendo isso, ele continuou. “Essa é uma das raras ocasiões onde o rei oferece ao povo o melhor vinho, vindo de sua adega particular. Venha comigo e, lhe garanto, não provará nada melhor em toda sua vida.”

Foram andando até a mesa, com Legolas puxando-a pela mão, ainda sendo seguidos por olhos, mas estes agora observavam disfarçadamente. Viu Legolas pegando uma taça, e derramando o liquido avermelhado, oferecendo-a logo em seguida. Quando o vinho tocou sua língua, um sabor familiar lhe invadiu. Era realmente delicioso, doce como mel, quente como o sol da manhã, o sabor da uva pura. Soltou um som de satisfação, sorrindo. Era como um sonho; um sonho doce, feliz e confortante. Legolas soltou uma risada, bebendo ele mesmo de outra taça, enquanto Tawariel também ria, sentindo a cabeça e o corpo ficarem mais leves após beber todo o liquido.

Agora entendia o porquê de todos ali estarem tão felizes e despreocupados. Aquele era o efeito da bebida adorada pelos elfos, aquele vinho bem feito, que adoçaria até mesmo a mais amarga das criaturas. E foi o que fez com Tawariel, após algumas taças.

A elfa agora dançava com outros elfos, rindo e ouvindo com prazer as canções. Legolas, que também bebera uma boa quantidade, se juntara a ela, cantando com os outros elfos as canções conhecidas de seu reino. Sorria satisfeito observando Tawariel, que antes estava em um canto com uma sombra sobre os olhos, confusa e acuada. Conseguira faze-la se soltar, aproveitar o que ainda havia de bom naquele mundo, e rir deliciosamente para quem quisesse ouvir.

Sabia que era um golpe baixo dar-lhe aquele vinho de Dorwinion, o único forte o suficiente para deixar os elfos “alegres”. Mas pensou que seria bom para ela esquecer o fato de que não lembrava de nada, e mostrar que ela não estava sozinha. Os elfos eram criaturas boas, que acolhiam os perdidos e amedrontados, e ele não era exceção.

Portanto, por influencia do ótimo vinho, e da alegria que de repente lhe contagiara, Tawariel dançou por toda a noite, esquecendo temporariamente o problema que teria que enfrentar futuramente. O problema de não se lembrar de nada de sua vida, e de estar no lar de estranhos, sem hora para ir embora.

Notas finais
Olá a todos! Eis me aqui novamente, com um capítulo quentinho para vocês. Ah, estou tão feliz por esta história estar sendo apreciada por vocês! A cada vez que vejo um comentário dou pulos de alegria haha. Agora, indo para o lado mais sério, como eu disse no capítulo anterior, vou usar os costumes dos elfos descritos por Tolkien em seus livros. Por isso, não se assustem se as coisas forem um pouco rápidas. A cerca do nome de Tawariel, o verdadeiro nome dela será mantido em segredo por enquanto. Neste capítulo eu escrevi a razão da perda de memória dela, e como perceberam, não foi por nada. Agora, vamos ao glossário da fic: 1: Bain quer dizer lindo em Sindarin, a língua falada pelos elfos. 2: Elbereth é a Valar Varda, responsável pelas estrelas. Ela é como se fosse a deusa dos elfos, e ,por ser a criadora das estrelas, eles a louvam. 3: A música que foi ouvida por Tawariel em sua memória é chamada Nocture, da banda Secret Garden. Como eu não sou boa em criar canções, haha, eu peguei essa, depois de procurar muito por uma que faria sentido na minha cabeça e para a história. Logicamente, tive que traduzir e fiz umas modificações. É isso por enquanto. Se tiverem dúvidas, qualquer coisa, podem perguntar. Mais uma vez muito obrigada pelos comentários e elogios, são maravilhosos e me dão ainda mais vontade de escrever. Críticas são bem vindas, então sintam-se livres. Bjs e até a próxima!