Forgotten
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu não sei se era porque tinha muito tempo que eu não tinha um amigo que eu estava tão abalada com o que o Christofer fez, de todo jeito eu sabia o que tinha que fazer, só que eu resolvi contar para a minha mãe e ela me convenceu que talvez eu devesse deixar meu lema para trás:
–Mas filha, se esse garoto foi legal com você, você deve ser legal com ele... Vai que ele ta com algum problema em casa, sei lá, eu acho que você deveria falar com ele.
–Mas mãe, ele me queimou, q-u-e-i-m-o-u e nem se deu ao trabalho de perguntar se eu tava bem!
–Siga o conselho da sua mãe, por mais que eu não tenha gostado muito dele se você tinha construído uma amizade não vale a pena deixá-la ir assim.
–Tudo bem mamãe, eu vou falar com ele. –E eu realmente tentei falar com ele, nós tínhamos biologia juntos também, eu cheguei na sala e pedi para a parceira dele trocar de lugar comigo, de inicio ele fingiu nem notar, mas depois me olhou bravo e eu vacilei na hora de dizer ‘oi’:
–O-oi. –Ele continuou desenhando no caderno dele, ele sempre estava desenhando, mas nunca deixava eu ver. –Você sumiu. –Sem resposta de novo, eu desisti, pelo menos tinha tentado né? Eu coloquei a mão que ele tinha queimado na mesa e a cicatriz tinha ficado feinha, minha pele é muito branca então a mancha aparecia bastante – o diretor entrou na sala de repente para dar um aviso:
–Houve uma mudança de horários, muitos professores faltaram por causa do surto de virose, então vocês vão ficar na aula do Sr. Mirbust até a hora do almoço. –Que incrível, quatro aulas de biologia seguidas! O bom é que o Sr. Mirbust cansa de dar aula, então em meados da terceira aula – durante os 100 minutos das duas aulas anteriores Chris sequer olhou pra mim – o professor cansou de passar lição na lousa e nos deixou livres, porém dentro da sala, como era de se esperar o grupinho das lideres de torcida se reuniu em uma mesa para mostrar as belas pernas e seus outros atributos aos meninos que bobões de mais ficavam jogando aviõezinhos de papel em vez de prestar atenção nas meninas, os nerds continuavam estudando, os skatistas dormiram, enfim, os grupos fizeram o que faziam de melhor e eu? Eu coloquei meu fone de ouvido e liguei o Ipod no volume máximo, a música que tocou foi That’s the truth do McFly – música que me deu uma vontade repentina de olhar pra Chris que rabiscava com raiva e força seu caderno de desenhos.
‘I feel like I've been put on trial with you
I know that's something's wrong and I'm the one accused[…]’
Eu esbarrei na mesa e o meu lápis rolou para a mesa do Christofer, ele nem se deu conta, mas eu teria que pegar aquele lápis, estiquei a mão e tentei pegar o lápis o mais rápido possível, mas surpreendentemente Chris agarrou minha mão – com bastante força, a propósito – olhou a queimadura e perguntou:
–Eu fiz isso? –Eu puxei a minha mão para mim.
–Sim. –Respondi baixo, esperando um pedido de desculpas ou qualquer coisa assim, mas Chris só levantou e foi em direção a porta com os punhos cerrados, quando ele ia saindo o professor o chamou:
–Na onde o senhor pensa que vai?
–No banheiro professor. –Ele deu um sorriso amarelo e mesmo sem a resposta do professor saiu. Ele voltou só perto do almoço, na verdade menos de cinco minutos antes de tocar o sinal pegou a mochila e saiu de novo – o que ele não reparou foi que o caderno de desenhos dele tinha caído – eu esperei um tempo pra sair da sala e sai levando o caderno de desenhos do Chris, eu decidi olhar apenas quando chegasse em casa já que devolver ao Chris não era uma opção, ele tinha desaparecido da escola. Depois de todas as aulas chatas eu decidi que iria pra casa de a pé, curtir um pouco a brisa com cheiro de água salgada, resolvi parar no bosque que ficava perto de casa, resolvi parar ali e sentar no velho balanço de pneu onde eu brincava quando era criança, com... O Chris. Espantei rapidamente aquelas memórias da minha mente e me concentrei no que eu ia fazer, tirei o caderno de capa dura preta da minha mochila e tive a sensação de estar sendo observada, olhei para os lados e não vi ninguém, só ouvi o barulho das asas dos pássaros batendo nas folhas das árvores – apesar de que o barulho parecia mais alto do que a asa de um pássaro pode provocar, ignorei e voltei a atenção ao caderno – quando eu abri o caderno fiquei em choque, os desenhos eram... Eu. Eu pequena, eu na pré adolescência, eu agora, eu com ele e... Ele com asas. Fechei o caderno perturbada de mais para pensar no assunto naquela hora, coloquei o caderno dentro da mochila e segui o caminho pra casa, minha mãe não estava em casa, ela era enfermeira, estava de plantão, achei melhor assim, subi para o meu quarto e tomei um longo e bom banho quente – deitei na cama e fiquei pensando no que eu deveria fazer em relação aquilo? Como ele sabia como eu era quando pequena? Ele era algum tipo de stalker? Um estuprador? Eu deveria contar para a policia? Para a mamãe? Decidi que antes de tudo iria tentar falar com ele. Adormeci em meio a tantos pensamentos, no meio da noite acordei, com aquela estranha sensação de estar sendo observada, liguei a luz, dei uma olhada no quarto e ninguém além de mim, desliguei a luz e voltei para a cama – no outro dia fui direto procurar o Chris na primeira aula dele, mas ele tinha faltado e foi assim no dia seguinte, e no outro, e no outro, mas no outro algo estranho aconteceu, Chris apareceu... Com o caderno dele que tinha desaparecido da minha mochila ontem de madrugada, eu revirei a casa inteira atrás daquele caderno e agora ele estava nas mãos de Christofer, mas como? Eu tinha que falar com ele. Mas ele fugia de mim, se esquivava, ia embora mais cedo, não respondia quando eu dava ‘oi’, ele estava mais estranho e misterioso do que sempre foi. Alguns dias depois eu observei ele na mesa do almoço com um convite da festa da Anne – a capitã das lideres de torcida, certeza que tinha alguma menina interessada nele – Anne foi até a mesa dele e perguntou:
–Então... Você vai? –Ele olhou pra mim e eu tentei desviar o olhar para que ele não percebesse que eu estava prestando atenção, então ele respondeu:
–Um dia depois eu vou viajar sem previsão para voltar, então acho que vou sim, me despedir né? –Ele deu um sorrisinho torto – o sorriso mais lindo desse mundo, confesso – e a Anne retribuiu o sorriso, se levantou e mandou um beijo para ele. A festa era no domingo, hoje era sexta, então a única oportunidade de falar com o Chris antes dessa tal viajem seria se eu conseguisse um convite para a festa e eu sabia exatamente quem daria um jeito nisso pra mim, o hacker da escola, o Matthew, fui até ele meio sem jeito e disse ‘oi’.
–Fala? Qual sua encomenda?
–Eu queria meu nome na lista da festa da Anne.
–Ah, todos estão me pedindo isso... Por que eu devo atender o seu pedido?
–Porque você sabe que eu nunca vou a festas e nem faço questão, então se eu estou pedindo é realmente importante. E eu estou disposta a pagar 150 dólares. –Ele abriu um sorriso.
–Tudo bem, pode contar comigo, vou fazer hoje mesmo, mas não tenho como conseguir o convite ok?
–Tudo bem, eu dou um jeito. –Meu nome estaria na lista, então bastaria fazer o segurança checá-la. O problema maior era outro, a minha roupa. Sai da escola e fui para a rua das lojas procurar alguma coisa que caísse bem — tomara que o Chris vá mesmo, ta me saindo caro ir para essa festa -.
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