Notas iniciais
Essa ficou um pouquinho diferente das que costumo escrever, porque tem uma dose de drama ;) Espero que gostem *-*

"Como ela está?" "Ela está bem?" "Será que tem comido?" "Será que estão tratando-a bem?" "Será que ela está segura?”

Essas questões me assombram o tempo todo, desde que Jane foi presa ha uma semana atrás. Quase todos os dias, acordo no meio da noite pensando nela.

Jane. Taylor. Taylor Shaw está morta. Jane Doe está presa.

E eu me sinto perdido sem as duas. Na manhã de hoje, acordei com um pressentimento de que deveria visitá-la. Evitei até agora, pois não sei se consigo vê-la presa, sabendo que fui eu que a coloquei lá. Ignorando o sentimento de culpa e seguindo meus instintos, saio do SIOC decidido a visitá-la.

* * * *

− Bom dia. Estou aqui para visitar uma.. — minha voz falha e não sou capaz de dizer presa, detenta — .. Uma pessoa. — digo para um funcionário que deveria estar na recepção, mas passa correndo por mim, me pedindo para aguardar.

Algo esta errado. Os carcereiros estão agitados, correndo de um lado para o outro. Aconteceu alguma coisa. Será uma rebelião? Ouço a sirene de uma ambulância. Vou até uma janela que dá para a quadra de esportes e vejo uma multidão reunida. Há sangue no chão. Muito sangue.

− Ei, o que está acontecendo? — pergunto a uma policial que estava passando.

− Atentado. Uma detenta foi esfaqueada. — diz ela já se afastando e falando ao radio com outro policial.

Espero durante um bom tempo, até que um policial vem até mim.

− Desculpe a demora, tivemos um atentado. — lamenta ele. − Fazia tempo que não tínhamos algum. Em que posso ajudá-lo?

− Estou aqui para visitar Jane.. Jane Doe.

− A moça das tatuagens? — pergunta ele. − Receio que ela não possa receber visitas no momento.

− Por quê? — questiono.

− Eu não posso lhe dar essa informação. Mas as visitas a ela estão suspensas por tempo indeterminado. Sugiro que não volte tão cedo. — responde o policial.

− Kurt Weller, FBI — digo mostrando meu distintivo ao policial, que parece surpreso. − Por que Jane Doe não pode receber visitas?

− Porque ela foi a vitima do atentado. Ela perdeu muito sangue e não sabemos nem se ela vai sobreviver. — responde ele.

Na hora que ouço isso, meu coração falha uma batida.

Jane foi esfaqueada.

Pergunto para que hospital ela foi levada. O policial me passa o endereço e saio em direção ao hospital.

* * * *

Chego ao hospital e vejo a ambulância que trouxa Jane. Entro no hospital observando os pacientes de todas as macas, procurando por Jane. De repente, eu a vejo. Pequena, cabelo preto e curto, e completamente tatuada. Sua roupa está coberta de sangue e ela esta desacordada. Dois médicos pressionam sua barriga para tentar conter o sangramento, mas mesmo assim, ha muito sangue escorrendo pelas mãos deles. Corro até a maca, que está sendo levada para a emergência, e pego sua mão, imóvel.

− Jane! Você vai ficar bem.. — digo. Ela tem que ficar bem.
Nosso contato físico dura pouquíssimo tempo, mas pouco antes de nossas mãos se soltarem, sinto minha mão ser apertada tão levemente, que quase não consigo sentir. Mas sinto. Senti tanta falta desse contato. E Jane, mesmo inconsciente sente a minha presença.

E então os médicos a levam, fechando as portas atrás de si.

Volto para a sala de espera e tento me sentar em uma poltrona, mas estou muito agitado e nervoso pra isso. Os médicos entram e saem das salas e nenhuma notícia de Jane.

De repente meu celular toca. Patterson.

− Patterson, alguma coisa errada? — digo com a voz tensa.

− Eh.. Oi. Na verdade me diga você, que voz é essa? Onde você está? Você saiu dizendo que não demorava e..
Olho rapidamente a hora no celular. 13:45H. Não vi o tempo passar.

− Eu fui visitar Jane, mas.. Estou no hospital. Jane sofreu um atentado na prisão. — digo ainda focando minha atenção nos médicos que circulam pelo saguão.

− JANE? O QUE ACONTECEU? ELA ESTÁ VIVA? — grita Patterson do outro lado da linha. Ouço Tasha se aproximar e perguntar “O que aconteceu com a Jane?”.

− Ela foi esfaqueada. Está na emergência há.. Mais de uma hora, na verdade. Ainda não tenho noticias. — respondo inconformado.

− Meu deus! Então assim que tiver alguma notícia nos avise, por favor, Weller. — diz Patterson preocupada. − Nós cuidamos de tudo por aqui, pode deixar.

− Obrigado. — desligo rápido ao ver um dos médicos que estava com Jane.
Pergunto sobre o estado dela. Ele diz que ela ainda está sendo atendida, que não pode dar muitas informações ainda, porque ela perdeu muito sangue e seu estado é crítico.

14:32H. Essa espera sem notícias está me deixando maluco.

Começo a me lembrar de momentos que tivemos juntos. As missões, todas as vezes que formamos uma dupla perfeita, salvando a vida um do outro; Jane repetindo a frase que eu disse a ela uma vez: "Você é meu ponto de partida.". Tudo isso parece ter acontecido ha tanto tempo e com outras pessoas. Outro Kurt. Outra Jane. Uma Jane que na ocasião, eu pensava que era Taylor Shaw.. De repente pensamentos ruins tomam conta da minha mente: E se Jane não sobreviver? Não fui visitá-la na prisão nem uma vez sequer. Nosso ultimo contato foi um interrogatório formal demais até para os padrões FBI, e carregado de ódio... Eu não fiquei ao lado dela. Eu deixei o ódio me cegar. Eu deveria ter ficado ao lado dela.. E se agora for tarde demais? Afasto esses pensamentos ruins, porque simplesmente não consigo sequer imaginar o pior acontecendo com Jane.

15:15H. Estou quase indo novamente atrás de um médico, quando o mesmo que falei anteriormente, sai de uma sala e vem até mim.

− Conseguimos conter a hemorragia e a paciente já foi levada para o quarto. Ela est.. — não espero que ele termine de falar e o interrompo.

− Posso vê-la? — pergunto um pouco desesperado demais.

− Vocês são parentes ou têm algum tipo de relacionamento? — questiona o médico.

− Não. Nós.. Eu sou do FBI e ela é um caso meu. — "Você nunca foi apenas um caso para mim." A frase que eu disse para ela ha alguns dias atrás, ecoa na minha mente. Jane definitivamente nunca foi apenas um caso para mim. Ela sempre foi mais do que isso.

− A paciente ainda está sedada, mas deve acordar logo. Ela está no 3º andar. Quarto 307.

Agradeço e vou para o 3º andar, quarto 307.

* * * *

Dois policiais estão parados na porta do quarto de Jane. Eles bloqueiam minha entrada, mas assim que mostro meu distintivo, eles recuam.

Abro a porta do quarto lentamente e assim que a vejo, meu coração dispara e se aperta ao mesmo tempo. Jane está com um enorme curativo na região do abdômen. Está ligada a um tubo de oxigênio para ajudar na respiração e recebendo soro. Ha uma mancha roxa em seu ombro, alguns cortes em seus braços e seu olho direito parece levemente vermelho. Ela lutou. Essa é a minha Jane. Pego sua mão, que também está com alguns machucados, e seguro levemente. Ela também esta bem mais magra que da ultima vez que a vi. A culpa me atinge e sinto um enorme aperto no peito. Se eu não tivesse a levado presa para o FBI, ela não estaria nessa cama agora. Quão impulsivo eu fui! Se ao menos eu..

− Kurt? — diz uma vozinha fraca.

− Jane. Oi. — digo ao vê-la começando a despertar.

− O que você faz aqui? Onde estou? — ela começa a tentar se levantar mas faz uma careta de dor reprimindo um gemido.

− Fique deitada. — digo impedindo-a de se levantar. — Você foi esfaqueada. Está no hospital.
Jane deita de volta na cama e fecha os olhos, respirando com dificuldade.

− Eu pensei que nunca mais veria você. — diz ela.

− Eu também pensei. Duas vezes. Uma antes e outra agora enquanto os médicos estavam tentando te salvar. — confesso.

Uma enfermeira entra no quarto para checar se está tudo bem com Jane. Ela faz algumas perguntas, verifica os equipamentos, desliga o oxigênio e faz anotações no prontuário. Ela deixa uma refeição pra Jane e nos deixa novamente a sós. Pego a refeição de Jane e me sento em uma cadeira perto da cama dela.

− Você precisa comer. — digo já pegando a colher.

− Eu não estou com fome, Kurt. — diz ela.

− Mas você precisa comer. — pego a colher e entrego a ela.
Ela se recusa a pegar e me encara. Seus olhos sempre tão verdes estão abatidos e um pouco opacos.

− Olha, Kurt, você não tem que fazer isso. Eu sei que você não quer estar aqui. Eu estou viva, você já pode ir. — diz ela desviando o olhar.

− Não é verdade, Jane. Eu fui te visitar hoje. — digo olhando para baixo. − Eu sei que deveria ter ido antes, mas eu.. Eu não consegui. Tudo o que eu conseguia pensar, eram nas mentiras, que você fingiu se lembrar de uma coisa que você não pode ter lembranças porque você .. — estou prestes a completar a frase quando ela a completa comigo:

..não é a Taylor.— ela continua olhando para baixo. − Eu sei.

− Por que você mentiu para todo mundo, Jane? — pergunto. − Por que você mentiu pra mim? Você teve tantas chances de me contar, por que você não contou a verdade?

− Eu não sabia que não era a Taylor. E eu também não podia falar nada.. Eu já falei. Eu estava sendo ameaçada. — diz ela.

− Nós poderíamos te proteger! — digo um pouco mais alto. − Nós faríamos o que fosse necessário. Eu faria tudo para te manter segura!
Durante alguns minutos, o silêncio toma conta do quarto, até que Jane o rompe.

− Você sabe porque eu fui esfaqueada hoje?

− Você tem alguma ideia de quem fez isso? — pergunto.
Ela ignora minha pergunta e continua falando.

− Eu fui esfaqueada porque estava distraída. Eu estava pensando em todos os bons momentos que tive com Patterson, Tasha, Reade.. momentos que nunca mais terei novamente. — penso que ela terminou de falar, mas ela continua. − Eu estava pensando no nosso beijo.

Me coração se aperta ao ouvir isso, porque eu também penso no beijo. O tempo todo. Quase todas as noites, acordo sobressaltado, as lembranças do beijo e da noite em que descobri que Jane não é a Taylor, invadindo minha mente. O silêncio prevalece no quarto novamente.

− Tudo o que eu fiz, foi para te proteger. — continua Jane, baixinho.

− Como assim, me proteger? — pergunto sem entender.

− A ameaça. Não era a minha vida que estava jogo, Kurt. Era a sua. Se eu não cooperasse, eles disseram que te matariam.

Assim que ouço o que ela diz, sinto como se alguém pegasse meu coração com as mãos e o esmagasse. Jane estava o tempo todo tentando me proteger. Tudo o que ela fez, foi para salvar a minha vida. Ela arriscou a própria vida para salvar a minha. Fico completamente sem palavras, então ela continua.

− Agora nem sei ao certo se a ameaça era realmente válida ou se foi só para me pressionar, porque eles sabiam que eu faria qualquer coisa se te ameaçassem.
Ela me conta novamente tudo o que fez, todas as missões que foram dadas a ela, mas dessa vez colocando os detalhes sobre a ameaça a mim, que ocultou quando foi interrogada.

− E por que você não contou nada disso quando foi interrogada? — eu a questiono.

− Não iria ajudar em nada e com certeza iam pensar que eu inventei tudo isso. E agora já foi.. Fui acusada de conspiração. E falsidade ideológica. — ela ri levemente. − Falsidade ideológica quando na verdade eu nem sei quem eu sou e tenho lembranças que eu não deveria ter..

− Como assim lembranças que você não deveria ter? — pergunto intrigado.
Jane hesita um pouco, mas fala.

− Desde que.. tudo aconteceu, eu venho pensando nas coisas que lembro. Tentando dar um sentido a tudo.. Eu me lembro da escada, e de um homem me sequestrando. E.. — ela hesita novamente e eu a encorajo a continuar. — .. recentemente eu me lembrei de um ursinho de pelúcia. Azul.

Um ursinho azul.

Não é possível.

− Você.. Você tem certeza? — pergunto prendendo a respiração. Ela não pode se lembrar disso. Jane não é Taylor. Meu pai disse que matou Taylor Shaw ha 25 anos atrás.

− Sim. A lembrança é desfocada, mas eu o vejo em uma cama pequena.. — diz Jane. − Por quê?

Mil coisas se passam na minha mente. Não é possível! Será? Respiro fundo e respondo:

− Porque eu dei um ursinho azul para a Taylor no aniversário de 4 anos dela.
A respiração de Jane se acelera e seus olhos se arregalam.

− Kurt.. Eu não posso ter lembranças da Taylor.. Não é?? — ela começa a respirar com esforço e coloca a mão no lugar onde foi ferida, tentando se sentar devagar.

− Jane. Devagar — digo tentando fazer com que ela não se mexa muito rápido nem se exalte.

− Se eu não sou ela.. Kurt!! Diga que eu não posso, que estou ficando louca.. — diz ela já com os olhos marejados.

Me sento na cama do hospital, de frente para ela e pego suas mãos.

− Jane. Jane. Calma. — digo em vão, tentando acalmá-la.

− Kurt, quem eu sou? Quem eu sou??? — diz Jane caindo no choro.

Pego uma das mãos dela e coloco em meu peito, repetindo o que fiz com ela quando ela se lembrou de ser sequestrada e estava perdendo o controle, a beira de um ataque de pânico. Um ritual que criei para acalmá-la.

− Jane. Olha pra mim, olha pra mim. Se concentre aqui. Apenas aqui. — seguro firme a mão dela em meu peito. — Você está sentindo isso? Está tudo bem. Respira. Só respira.
Ela vai respirando junto comigo e aos poucos vai se acalmando, mas as lagrimas não param.

− Kurt.. Eu não sei o que fazer, eu não sei o que pensar.. Eu estou completamente perdida.. — ela faz uma careta de dor e cerra os dentes para conter um gemido de dor. Aperto um botão para chamar a enfermeira.

− Ei, ei, Jane. Você não está perdida. — digo com a mão no rosto dela, acariciando levemente sua bochecha.

− Eu não sei quem eu sou, Kurt, eu não sei quem eu sou.. — ela balança a cabeça, chorando e gemendo de dor, tanto fisicamente, quando emocionalmente.

Tomo o rosto dela entre as mãos e olho fixamente em seus olhos.

− Nós vamos descobrir quem você é, Jane. Eu prometo. — digo acariciando seu rosto e limpando as lagrimas dela. — Eu vou descobrir quem você é.

A enfermeira chega e ao ver o estado dela, aplica uma dose de sedativo. Ela também me pede para sair, mas eu me recuso. Ela insiste, mas ao ver minha determinação e meu distintivo, ela cede.

− Kurt.. Kurt.. — sussurra Jane a beira da inconsciência.

Me sento novamente na cama ao lado dela e pego sua mão.

− Eu estou aqui, Jane.

− Fica.. não me deixa.. de novo.. por favor.. — diz ela já com os olhos quase se fechando, mas tentando focar nos meus.

− Eu não vou sair daqui um minuto sequer. — digo acariciando o rosto e os cabelos dela.

O sedativo começa a fazer efeito e os olhos dela começam a se fechar, mas antes de apagar completamente ela ainda sussurra:

− Kurt, eu.. eu te a.. — ela começa a dizer, mas não consegue terminar a frase.

Eu sei o que ela ia dizer, porque eu sinto o mesmo por ela. Independentemente de ela ser Taylor Shaw ou não. Eu a amo.

− Eu também, Jane. Eu também. — respondo, depositando um beijo suave na testa dela, que agora dorme profundamente.

Notas finais
E então gostaram? Confesso que quase fiquei chorosa escrevendo o desespero da Jane :( mas o Kurt estava ali por ela, então ficou tudo bem ♥ hahhaha. Espero que tenham gostado ;)