Forgetting.
1 Capítulo 1.
Notas iniciais
Após nosso casamento, Ren e eu fomos para uma cidade pequena da Índia passar nossa lua de mel. Ficamos lá por exatamente duas semanas, apenas aproveitando-nos de nosso amor. No décimo quarto dia, arrumávamos as coisas para retornar ao Oregon, com o intuito de partir na manhã seguinte.
Ren fora o primeiro a adormecer, os braços envolvendo meu corpo. Abracei-o, admirando seu belo rosto e sorri. Finalmente deixei que o sono me envolvesse.
Acordei com uma dor de cabeça terrível. Não sentia os braços de Ren ao redor de mim e não parecia estar sobre a cama. Abri os olhos devagar e sentei-me, observando o local em que me encontrava.
Eu estava acima de um montinho de areia e palha. A minha volta, encontrei mais coisas do gênero. Respirei fundo. No centro do lugar estava...
Ah, não, pensei, sentindo lágrimas formando-se em meus olhos.
No centro do lugar estava uma jaula grande, a que abrigava um tigre branco de olhos azuis intensos, me estudando atentamente.
– Não... – murmurei. Tudo havia sido um sonho? Ren, Kishan e o Sr. Kadam nunca tinham existido?
Àquela altura, lágrimas desciam pelo meu rosto descontroladamente. Abaixei o corpo até ficar na altura do rosto do tigre, encarando-o.
– Você está brincando comigo, não é? – perguntei, mesmo sabendo que aquilo seria impossível. Olhei fixamente para os olhos do tigre. Aqueles olhos...
Como eu viveria sem ele?
Estava me sentindo como se estivesse sendo dilacerada por dentro. Não faria a menor diferença se Dhiren – o tigre – escapasse e me fizesse de café.
– Kelsey? – ouvi uma voz as minhas costas. Limpei as lágrimas e tentei segurar o choro quando me virei. Era Cathleen, a garota loura. Percebendo minha expressão, franziu as sobrancelhas. – Aconteceu alguma coisa?
– Sim – menti. – Sim, estou bem. Apenas... apenas me lembrei de algumas coisas.
Não era exatamente uma mentira. Ela pareceu convencida, então deu de ombros.
– O Sr. Davis está te chamando. Ele disse que você poderia estar aqui.
Suspirei.
– Claro. Já estou indo.
Saí do horrível local enquanto tentava organizar as coisas em minha mente.
Tudo tinha sido um sonho. Ou um pesadelo. Eu provavelmente adormeci enquanto lia algo para Ren ou dava-lhe comida. De qualquer forma, pareceu tão real...
Encontrei o Sr. Davis cuidando dos cães.
– Bom dia, Srta. Kelsey – disse ele.
– Olá, Sr. Davis.
Ele notou que minha aparência não era das melhores.
– O que houve?
Respondi a mesma coisa que dissera a Cathleen.
– Ah – ele suspirou. – Entendo. Sinto muito.
Assenti e soltei um sorriso forçado. Ajudei-o com os cães e retornei para alimentar Ren. Ren. Era triste pensar que eu não o veria mais.
Assim que cheguei à jaula do tigre, coloquei sua comida e sentei-me para observá-lo. Enquanto o fazia, tentava me recordar dos detalhes do sonho. Não consegui. Havia pouco dele em minha mente agora. Havia pouco deles.
O tom dos olhos de Ren e Kishan sumiram repentinamente de minha memória, mas ainda me lembrava que eram azuis e dourados, respectivamente. Como consegui sonhar quatro anos em uma noite? Era estranho.
Sentei-me, ainda observando o tigre comer sua carne. Pelo que Sr. Davis me informara, haveria uma apresentação à noite, a que o tigre seria o primeiro a aparecer.
Fui até a cabana de Cathleen e fiquei lendo até o horário me permitir. Às cinco da tarde, Matt foi me chamar para ajudá-lo a limpar o espaço circense. Fui até lá, varri o chão até não sobrar nenhuma sujeira e ajeitei as cadeiras com ajuda do garoto. Fizemos um trabalho rápido, considerando que ainda havia balões para encher e algumas barraquinhas para abastecer com lanches, doces e coisas assim.
Nem por um segundo parei de pensar em Ren. É comum se apaixonar por alguém inexistente?
Assim que terminamos de arrumar tudo, joguei meu corpo em uma cadeira. Estava pior agora que finalmente assimilara o que aconteceu. Mas me recusava a aceitar.
Quando conheci Ren, foi um sentimento repentino. Jamais havia sentido aquilo por alguém, um amor tão intenso. E, descobrindo que aquilo não passara de um sonho, sentia-me como se uma lança tivesse atravessado meu corpo e eu, de alguma forma, continuasse viva, sangrando e esperando por algo que nunca chegaria ou aconteceria.
Logo, os portões do circo foram abertos e eu tive de forçar sorrisos para vender os ingressos. O tigre foi a primeira apresentação, como Sr. Davis dissera anteriormente. Era tentadora a vontade de sair correndo para chorar.
Assim que Ren terminou de se apresentar, fui instruída a levá-lo novamente a sua jaula. Fiquei um pouco receosa, pois não sabia se ele cooperaria como o fez no meu sonho.
Por algum motivo, continuava a sentir o aroma de sândalo.
Levei Dhiren – Ren – para seu recinto e demorei-me ali por um momento. O aroma de sândalo parecia mais forte ali. Eu não sabia por que – e isso era o mais estranho.
Repentinamente, os olhos do tigre se abriram e eu hesitei. Como na primeira vez que eu o vira, parecia estudar até a parte mais profunda de mim. Aquele azul cobalto parecia perturbador após o ocorrido.
Com um leve pressentimento, fui até a porta e observei afora. Um vulto caminhava em minha direção, e eu acreditei que fosse o Sr. Davis ou Matt, então fiquei despreocupada.
Hesitante, fiz um carinho nas orelhas do tigre branco, que “ronronou” e virou o corpo de uma forma que as patas ficassem para cima. Eu ri, pela primeira vez aquele dia.
– Olá – ouvi uma voz atrás de mim. Congelei. – Você é a Kelsey?
Virei-me assim que belisquei o pulso e descobrira que não era um sonho. Levei um segundo para erguer os olhos e senti meu coração falhar uma batida.
O cabelo negro chegava à nuca e a pele era bronzeada. O sorriso era torto e sincero, como se quisesse saber algo sendo que escondia segredos. Mas o que mais me chamava a atenção eram os olhos. Olhos de meu tigre.
– Sim – respondi, com um fio de voz. Lágrimas brotaram em meus olhos novamente, mas eu segurei-as. – E você, é...?
Ele aproximou-se e estendeu a mão. Com um suspiro e um rápido brilho nos olhos, respondeu:
– Sou Alagan Dhiren Rajaram — ele disse. — É um prazer conhecê-la, iadala.
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