Forever
6 Uma lição em meio à tragédia. Parte 1
Notas iniciais
muito até que estivéssemos do lado de fora do quarto olhando para as flores e conversando sobre voltar para Hollywood Arts e nossa vida em Los Angeles.
Durante o tempo que ela passou em Barrow, tive a oportunidade de conhecer alguns dos outros pacientes que estavam nos quartos do mesmo andar que ela. Eles estavam em vários estágios de recuperação, e era bom ver os progressos que os outros estavam fazendo.
Aquilo me deu mais esperança em relação à Jade.
No dia seguinte, uma enfermeira e eu levamos Jade para dar seu primeiro passeio em outra parte do hospital. Nós empurramos a cadeira de rodas de onde ela estava até o refeitório dos pacientes para almoçar.
Entretanto, Jade não estava preparada para ver outras pessoas com problemas neurológicos debilitantes. Percebi que ela estava com medo assim que entramos no salão.
— Isso assusta você, não é? — Eu disse, quase involuntariamente, sem perceber se realmente havia dito aquilo em voz alta ou se havia apenas formulado o pensamento.
— Sim. — Jade respondeu, com a voz ainda um pouco rouca depois de passar cinco dias com um tubo de oxigênio enfiado em sua garganta. Eu não esperava que ela me respondesse, e senti uma explosão de alegria apesar do estresse que eu sabia que ela estava sentindo. Voltamos para o quarto, e Jade fez suas refeições ali até que estivesse em condições de ir para o refeitório geral do hospital.
Nosso médico aprovou o plano, pois ele não queria que ela tivesse que encarar constantemente os efeitos negativos e permanentes que afetam as pessoas com lesões no cérebro. Em vez disso, ele, assim como eu, queria que ela recuperasse sua força e se concentrasse em melhorar a cada dia.
Embora tivesse uma reação bastante ruim ao ambiente do refeitório, o gosto da comida, verdadeiramente, era um dos poucos prazeres que alegravam Jade. O horário das refeições acabou por se tornar um momento feliz para nós dois. Ela simplesmente gostava de comer. E eu adorava as refeições, pois eram praticamente as únicas vezes no dia em que Jade se mostrava mais animada.
Enquanto passávamos aquele tempo juntos, ela começou a conversar mais, e parecia estar um pouco mais próxima a mim durante as nossas conversas.
Durante aquele primeiro fim de semana em Barrow, fomos informados sobre a programação diária de Jade. Ela começaria o dia com uma sessão de terapia ocupacional, na qual reaprenderia habilidades pessoais, como tomar banho e se vestir. A seguir, passaria por um fonoaudiólogo, que identificaria possíveis deficiências da fala causadas pelas lesões e ensinaria como superar aqueles problemas. Sua terceira sessão do dia seria com um fisioterapeuta. Durante esse tempo, ela trabalharia para melhorar a coordenação entre as mãos e os olhos, o equilíbrio e habilidades motoras. Finalmente, faria uma pausa para o almoço. Depois, ela passaria as tardes trabalhando com tarefas caseiras básicas, tais como cozinhar, passar o aspirador de pó e arrumar a cama.
Era difícil acreditar que Jade não tardaria a ter uma agenda cheia de tarefas. Afinal de contas, ela ainda estava tecnicamente em coma. Quando chegamos em Barrow, menos de duas semanas após o desastre, ela ficava acordada apenas durante algumas horas por dia, e estava extremamente desorientada. Em sua primeira noite em Barrow, ela acordou durante a madrugada e tentou ir ao banheiro sozinha, mas acabou ficando presa na grade de proteção da cama que havia sido colocada ali para sua própria segurança. Daquele ponto em diante, sempre havia alguém dormindo no quarto com ela, todas as noites. Aquela tarefa geralmente ficava a cargo da mãe dela ou de Cat (quase sempre era a Cat), pois eu ainda não estava em condições de fazer muita coisa devido aos meus próprios ferimentos.
Como Jade ainda estava dormindo mais de 20 horas por dia e não conseguia acompanhar uma conversa por mais de um minuto ou dois, eu não tinha certeza do que iria ocorrer em seu primeiro dia de terapia. Naquela primeira manhã de segunda-feira, depois de ser internada, no dia em que ela seria examinada pelo Dr. Singh, cheguei cedo ao quarto de Jade porque queria prepará-la.
Minha intenção era acordá-la gentilmente e, depois, ajudá-la a se preparar para as atividades do dia. Tentei conversar com ela e acariciar seu rosto, mas não obtive resposta. A seguir, coloquei a mão em seu ombro e a agitei. Mesmo assim, não houve qualquer reação, por menor que fosse.
Naquele momento, o Dr. Raj Singh entrou, vestido como se tivesse acabado de sair das páginas de revistas de moda. Ele não era nada do que eu esperava, nada de jaleco branco, nada de estetoscópio, e nada de frieza profissional. Ele me deu um aperto de mão firme, aproximou-se da cabeceira da cama e curvou-se sobre Jade. Eu estava fazendo o melhor que podia para tentar acordá-la cuidadosamente, mas o médico tinha outros planos.
— Você tem que acordar. — O Dr. Singh disse, com firmeza. Novamente, Jade não reagiu.
— Você tem que acordar. — Repetiu o médico, exatamente com o mesmo tom de voz. e Nada.
Então, o Dr. Singh fez algo que eu nunca teria imaginado que fosse possível fazer. Ele estendeu o braço e deu um forte beliscão na altura da gola da camisola cirúrgica que ela estava usando. Os olhos dela se abriram repentinamente, e ela gritou: “Me deixe em paz!”, junto com um sonoro palavrão. (Me deu vontade de rir pois eu vi um ato da minha antiga Jade.)
Entretanto, o estratagema funcionou, porque agora o Dr. Singh tinha toda a atenção de Jade concentrada nele. Ele pediu a ela que movimentasse a mão direita. Ela obedeceu. Depois, pediu que movimentasse o pé esquerdo, e ela o fez. O Dr. Singh olhou para mim e abriu um largo sorriso.
— Ela vai ter ótimos resultados. — Ele disse confiante. Em menos de uma hora, Jade já havia começado sua primeira sessão de terapia ocupacional.
Às vezes, eu tinha dificuldades para lembrar que Jade não fora a única pessoa que sofrera ferimentos no acidente: eu estava no meio das ferragens também. Enquanto estávamos em Nova Jersey e Los Angeles, havia sido atendido no hospital cerca de seis vezes. Mesmo assim, não havia sido formalmente internado para passar a noite, porque não conseguia suportar a ideia de ficar longe de Jade. Eu pensava nela o tempo todo, todos os dias. Mesmo quando cochilava por alguns minutos não conseguia relaxar, pois estava preocupado demais com ela.
Mas meus ossos quebrados estavam se regenerando, e os cirurgiões de Los Angeles conseguiram restaurar meu nariz e minha orelha. De forma surpreendente, dali a poucos meses ninguém diria que eu quase os perdera do meu rosto. No entanto a situação era bem diferente com as minhas costas. A dor que eu sentia era constante. Embora os cortes causados pelos estilhaços do vidro do teto solar estivessem cicatrizando, eu sentia dores lancinantes por toda a extensão da coluna. Nunca sabia quando teria um ataque de dor ou quanto tempo cada crise duraria. Tinha que tomar analgésicos muito potentes para conseguir passar os dias.
Quando pensava no que havia acontecido conosco, ainda ficava assombrado por nossas vidas terem sido poupadas. Meus pais haviam visitado o pátio onde os veículos acidentados ficavam guardados em Nova Jersey para tentar encontrar minha carteira dentro do que restava do carro, Meu carro estava completamente destruído, e o interior estava coberto com sangue e cabelos. Parecia que ninguém havia sobrevivido ao acidente, mas, incrivelmente, nós dois estávamos vivos.
Quando Jade estava a caminho da recuperação, consegui ceder um pouco da minha atenção para preencher os documentos exigidos pelo seguro e para organizar a papelada médica, que já estava começando a se empilhar. Em meio a todo aquele estresse e incerteza, começava a me perguntar se seria capaz de dar conta de tudo aquilo. Jade estava com uma lesão cerebral que não era totalmente conhecida, e eu estava em um estado constante de dor e preocupação.
Algumas vezes, chegava até a esquecer da enormidade da situação quando lembrava dos poucos momentos felizes ou coisas engraçadas que haviam acontecido durante as últimas três semanas. Entretanto, logo em seguida, começava a pensar em Jade, deitada no escuro naquela cama de hospital. Eu a imaginava lá, dormindo, respirando lentamente, um fôlego após o outro. Será que algum daqueles seria fatalmente seu último suspiro? Eu sabia que ela estava melhorando, mas e se ela tivesse uma recaída? E se os médicos não tivessem percebido alguma lesão grave, algo que poderia matá-la de uma hora para outra?
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