Forelsket
1 » Capítulo Único
"Eu fiz merda, Ivy. A polícia descobriu, sobre as pichações, sobre as invasões. Você tinha razão por ter me avisado. Mas se nada daquilo tivesse acontecido eu nunca te conheceria.
E nunca viveríamos tanto quanto vivemos em todas aquelas noites.
Eu não me arrependo."
O celular da morena vibrava a cada mensagem enviada. Era Chazz, de novo.
Ela apenas escutava o objeto tremer sobre a superfície do criado-mudo, abrindo os olhos taciturnamente. Não sabia o que ele queria naquele instante. E, sinceramente, tinha medo de certas respostas, às vezes. Chazz já lhe fizera pedidos loucos. Perguntas loucas. E ambos já haviam passado por momentos de pura insanidade. Mas sempre juntos. Nas casas abandonadas, nos roubos de tinta... Eles nunca se separavam.
Tinham medo da lei. Tinham medo do preço que teriam de pagar. E, mesmo que não admitissem, tinham medo do futuro.
Londres era um lugar vasto, grande. Se via morte e vida em cada esquina. E tanto quanto havia muito de certo, havia muito de errado em cada beco. Na escuridão. Debaixo do nariz dos policiais, dos postes acesos de madrugada.
Londres já não era inocente. Era um lugar que havia assistido muito. Talvez a personificação daquela capital fosse um cinquentão com roupas pesadas, passos pesados e a cabeça leve como uma pluma dos sábios. Um chapéu na cabeça, um sorriso triste nos lábios e olhos melancólicos. Talvez tal pessoa fosse nos bares, beber um bom uísque, observar pessoas se arruinando, vidas sendo jogadas fora.
Ninguém sabia exatamente se Londres era começo ou fim.
O fascínio do rio Tâmisa era aquela sensação de abismo. A superfície do rio era como um espelho que refletia a alma dos que olhassem. No entanto, poucos humanos estão preparados o suficiente para enxergar o que carregam dentro de si. Ver sua própria dor.
E é assim que muitos se perdem.
Blue Ivy e Chazz estavam apenas se encontrando na perdição.
E tinham culpa? Não eram imortais quanto aquele lugar, não eram poderosos como aquele rio de fundo negro, de morte. Não eram deuses, não sabiam o que poderia acontecer em cada segundo que se passava. E talvez nem mesmo se importassem com isso. Não queriam pensar no futuro, algo que temiam.
E aquele era um convite. Eles iriam fugir do futuro.
"Estou aqui.
Precisamos ir, Ivy.
Agora."
Ela se sentou de supetão, pegando o celular automaticamente. Não importava se instantes antes ela quisesse dormir. Sabia que aquele era o momento. E podia escolher entre continuar dormindo na cadeia, ou... fugir.
Então ela se levantou e seguiu até o guarda-roupa, o abrindo rápida e silenciosamente. Depois de tantas fugas noturnas, de tantos roubos, talvez ela estivesse se tornando uma profissional. Era uma corajosa, era perversa, longe de ser inocente. Era dona da crença que dizia que só vive quem se arrisca.
E era aquilo que ela fazia a cada instante de sua vida: vivia perigosamente, como se fosse o último segundo, a última respiração, a última palavra. Era impetuosa. Sabia de todas as consequências, mas depois de tanto tempo não as temia simplesmente por sentir que era maior que elas. Era a dona da noite, era esperta.
Ela não seria pega. Teriam de se esforçar muito mais.
Conferiu todos os ítens da mochila, e pôs rapidamente um moletom preto por cima da camisa justa. Calças jeans manchadas, tênis. Escutou as duas pedrinhas fazendo barulho ao bater no vidro de sua janela, adornada de madeira com uma camada de tinta branca. A abriu profissionalmente, e voltou a checar o quarto, pegando seus pertences favoritos que ainda não estavam na mochila. Pegou seu celular e o guardou no bolso.
Chazz estava a esperando. Ele lhe ofereceu um sorriso travesso, e totalmente malicioso. Mesmo o olhando da janela, estando um pouco longe dele, ela reconheceu que ele usava a jaqueta jeans da noite em que se conheceram. Era sua peça de roupa favorita dele. Ainda se lembrava da sensação daquele tecido em seus ombros.
— Adeus. — ela sussurrou, enquanto descia pelo seu telhado com cuidado. Chegou até a entrada, descendo pela pilastra também pintada de branco. Não ousou encostar na cerca, caindo na grama como uma gata, sem sequer desequilibrar. Andou em direção ao mais alto, as mochilas em seus ombros balançando a cada passo.
— Tá tudo aí? — perguntou, sem rodeios. O moreno concordou com um meneio de cabeça.
— Boa noite, senhorita. — o cacheado se aproximou.
— O ladrão andou estudando vocabulários e modos vitorianos? — ela ergueu uma das sobrancelhas. — Que orgulho, realmente. — ela riu em escárnio, virando o rosto para o outro lado da rua.
— Posso te dar outros motivos para ter orgulho de mim. — ele a puxou, um braço rodeando sua cintura, a prensando contra si. Um sorriso que declarava mil pensamentos indecentes. Ele mordeu o lóbulo de sua orelha, se afastando e se sentando na moto, preta e fosca, como o céu daquela noite, como o rio Tâmisa numa noite sem lua nem estrelas.
A vizinhança era típica de um cenário cinematográfico. Era doce, gentil. Você poderia imaginar crianças brincando nos gramados, e dias felizes de famílias dignas de comercial de margarina.
Mas era só uma ilusão. Londres já havia presenciado muitos crimes. Aquele lugar não era diferente.
A morena tinha um sorriso malicioso no rosto, sentando-se atrás do mais velho, segurando-o com seus braços.
— É? Pois eu adoraria conhecer esses outros motivos. — era alta o suficiente para alcançar seus ouvidos sem esforço. A voz saía sedutora, e era a voz de uma caçadora.
— E conhecerá. Mas não agora. Talvez... Depois. — ele sorriu, e mesmo que não estivesse olhando em seus olhos, sabia que as orbes esmeralda estavam cintilando. — Apenas digo que sua espera valerá a pena.
Ele pisou fundo, a moto deu partida e eles seguiram sem destino, levando apenas lembranças daquele lugar. A essência do passado.
Um futuro indefinido.
•••
Estavam a quilômetros de seus crimes, num motel de beira de estrada quase vazio. Não era nada da realeza, mas servia, ao menos por aquela noite. Se tudo desse certo, teriam mais tempo.
E era nisso que queriam acreditar. Mas a garota já tinha certeza.
O quarto era uma mistura de tons pastéis, e tudo ali parecia dobrar o cansaço que sentiam. Já se passava das três da manhã, e ambos estavam exaustos. Chazz havia acabado de fechar a porta, e então, subitamente, desligou as luzes, fazendo a de olhos castanhos parar no lugar onde estava, perto da cama. O barulho de sua mochila caindo dominando o quarto.
Tudo era escuridão naquele instante. Estavam se afogando em sombras.
— Chazz, não tem graça, acende essa merda. — ela engoliu em seco. Não gostava de não ter controle sobre as coisas.
— Você me atiça e me provoca, e depois ainda espera que saia ilesa? — ele a empurrou na cama, ficando por cima dela. As mãos ao lado de seus ombros, os joelhos ao lado de suas coxas, erguendo seu corpo sobre o dela. — Não, não. — ele segurou o queixo dela, que estava entre seu indicador e o dedão, e ergueu seu rosto para si, estando a centímetros dela. — Hoje você provará... coisas novas. Coisas que nunca sentiu antes. — ele sussurrava contra sua pele. — E se quiser mais, eu lhe darei. Até o amanhecer.
— Nós estamos sendo procurados e você só consegue pensar em sexo. — ela sorriu ironicamente, mas não se opôs quando sentiu uma mão dele em sua cintura, outra em seu pescoço.
— Se o nosso sexo não fosse tão bom eu não estaria pensando nele agora. A culpa é sua. — ele sorriu maliciosamente.
— Minha? — ela perguntou, rindo baixo.
— Sua. Porque você me faz sentir coisas que nenhuma garota conseguiu me fazer sentir. Você é a única a conseguir essa proeza. — ele sussurrava contra seu pescoço. — E por isso é minha tanto quanto sou seu. — ele sussurrou, a beijando com calma, de forma provocante, até ambos perderem as estribeiras e começarem a se beijar com urgência, como se aquele fosse o oxigênio, e tivessem passado tempo demais debaixo d'água.
Talvez a única coisa definida naquele futuro fosse o fato de que estariam juntos.
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