Forasteiros? Não se o mundo for meu!
2 Capitulo 2 - Fogo vivo
Notas iniciais
Eu tinha escutado histórias de situações de vida e morte antes, em todas elas sempre havia algo em comum: “eu vi toda minha vida passar diante dos meus olhos”. Eu aqui, diante de uma besta de três metros de altura, com sua boca aberta em um berro que me faz tremer, com seus olhos injetados de sangue ela já me devora, todos meus pelos estão em pé, e o calafrio que percorre minha espinha me fala de morte.
A bocarra se escancara e se aproxima de mim, vejo seus dentes pontiagudos nos mínimos detalhes e seu bafo parece entorpecer minha mente e corpo.
Acho que vou morrer, sei que alguém grita meu nome, e tenho a vaga percepção de passos em algum lugar atrás de mim. E a cada segundo esses malditos dentes podres se aproximam de mim, acho que vou morrer… E ainda assim, nada de filme, nem lembranças, nem memórias, nem a porra de uma foto se quer! Alguém grita comigo, meus ouvidos são só zunidos, será que não veem que estou me concentrando aqui? Diabos!
Algo me puxa pro chão e sinto um ventinho agradável passar por cima da minha cabeça, pra em seguida se alojar em um dos olhos da criatura, uma flecha? Não consigo entender antes de ser atingido por um berro estridente que me fala de dor e ódio, e ódio é o que faz ela pular na minha direção, isso faz algo estalar na minha cabeça, vejo as coisas com clareza, rolo pro lado escapando das garras dela, a espada já está em minhas mãos antes de me levantar, ela se virar em minha direção e vejo outro flash pelo canto dos olhos, percebo então que não era um flecha e sim uma estaca que à atinge, porém o ferimento claramente não é profundo, mas é o suficiente para chamar sua atenção, eu avanço a espada sobe fazendo um arco e faço um rasgo na pata da criatura, ou era essa intenção, sinto como se tivesse tentando arrombar um cofre de banco com uma faca de cozinha, a espada nem chega a passar pela pelagem da criatura,porém para minha surpresa a vejo desmoronar pra frente sem equilíbrio, ela ainda tenta se levantar sem sucesso e tomba quando outra estaca lhe acerta, o corpo treme e para, acho que fomos alvo do seu ultimo suspiro.
Vejo Kevin se aproximando pelo outro lado, tomando cuidado para passar longe da criatura, olho em volta procurando Cris e a vejo metros a minha esquerda, ela vem em minha direção e fala algo.
—Não estou escutando nada Cris, os berros dessa criatura me deixaram surdo.
Ela me abraça e vejo que esta tremendo, abraço ela também.
—Você está fedendo. – Levo um soco e ela ri nervosa se afastando um pouco limpando os olhos. Acho que disse as palavras erradas.
Ela desenrola a falar e aos poucos minha audição volta
—…Pensei que você ia morrer, você ficou ali parado, sem se mexer, como se estivesse esperando ela te matar… Pensei que você ia morrer…
Minha mente ainda está clara.
—Não vi nenhum filme.
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Kevin e Alec estão olhando o corpo da besta, eu mesmo dei uma olhada antes deles chegarem, havia ferimentos por todo o corpo dela, parece que não fomos os únicos a ter um pequeno embate com ela hoje, me afastei pra deixa-los a vontade e poder respirar um pouco também, esse fedor é asfixiante. É interessante vê-los analisar a criatura, Kevin é curioso e agitado, fica mexendo, cutucando e soltando exclamações a cada nova descoberta, a pouco o vi arrancar algumas escamas da cauda dela, não consigo nem imaginar o que ele pretende fazer com elas. Já Alec é mais discreto, mas observa que qualquer coisa, toma medidas com as mãos algumas vezes, me parece mais um ritual que qualquer coisa, é nosso guia ou era nem sei mais, e tem uma memória impressionante, ele realmente VE tudo o que olha, nos mínimos detalhes.
—Vou dar uma olhada na pilha de destroços ali atrás, qualquer coisa me chamem. – Alec vira pra mim e afirma com a cabeça, Kevin está tão absorvido que nem me ouve.
Cris já está a revirar a pilha de destroços e consigo ver seus movimentos irritados, sei que a irritação é com ela mesma, está se repreendendo por ter congelado antes, não conseguir se mover naquela situação a deixou irritada, mesmo eu já tendo dito que não havia nada a fazer, que eu também travei e tudo o mais, ela sabe, nós sabemos, escapamos por um triz, se travarmos assim outra vez, pode ser a ultima.
—Então, achou algo de interessante aí?
—Talvez… Vem aqui.
Aproximo-me lentamente, não exatamente por cautela, digamos apenas que seria um pecado não saborear a pose que ela está fazendo, e ela ainda me diz um: “Vem aqui” Serio? Balanço a cabeça pra clarear as ideias, melhor guardar os comentários que vieram a cabeça pra outra oportunidade.
Ela olha pra trás, a sobrancelha levantada, cara de quem sabe das coisas: “ Da pra parar de olhar pra minha bunda e vim logo me ajudar?” E eu pensei que estava sendo discreto. Apresso o passo, e quando chego ao lado dela ela me indica uma pequena luminosidade avermelhada que vem de algum lugar por baixo dos entulhos de metal retorcido e mobilia quebrada.
—Eu perguntaria o que é, mas não acredito que você saberia me responder… Certo?
—Certo.
Ela levanta um pedaço de madeira podre que antes deveria pertencer a uma mesa e joga pro lado, começo a retirar os entulhos também.
—Obrigado por antes.
—Pelo que?
—Você sabe, me puxar me tirando do caminho do tiro do Kevin…
Ela para um instante e olha pra mim, e consigo ler claramente e que não foi ela.
—Bem, você gritou meu nome, foi como se me puxasse pra longe do perigo. Obrigado – Se não foi ela, quem foi?
Finalmente conseguimos retirar todos os entulhos e ver o que estava emitindo o brilho, para minha surpresa era uma esfera de vidro, dela emanava calor e um brilho vermelho, olhei para Cris e indiquei a pedra
— Você descobriu, você pega. – Ela concorda e estica a mão pra pega-la, parando em seguida
— Tem alguma coisa para usar como isolante ai? Pelo calor que emite, deve estar quente.
Olhando em volta vejo um recosto de cadeira ainda com o estofamento parcialmente inteiro
— Já volto.
Desço na direção da cadeira com cuidado pra não enganchar o pé no monte de entulhos e pedaços de metal retorcido, a uma quantidade surpreendente deles nessa pilha, normalmente as que encontrara antes tinha mais pedaços apodrecidos de madeira que metal, foram semanas até encontrar algo que servisse de arma e não quebrasse no primeiro uso, agora ao olhar com atenção vejo vários seguimentos de metal que com certeza faziam parte de alguma estrutura grande, e cacos de vidro ou algum cristal translucido, comparado as pilhas de lixo que passamos antes, isso aqui parece uma mina de ouro, será que o Kevin já viu tudo isso? Kevin me lembra um desses gênios malucos com suas invenções loucas e brilhantes que só uma mente curiosa, pra não falar outra coisa, é capaz de fazer, e o mais incrível, sem ferramentas, não a toa suas mãos vivem enfaixadas.
Olho na direção de onde Kevin e Alec ainda estão mexendo no corpo da besta, Alec se vira pra me encarar, me pergunto como ele faz isso, as vezes acho que nosso guia tem olhos nas costas.
—Então…?
—Esse aqui – Alec indica Kevin – Já recolheu tantas amostras e pedaços que acho que logo não vai sobrar nada do corpo…
— E você, recolheu alguma? Só o vi fazendo medidas com as mãos anteriormente.
Alec olha novamente pro corpo da besta, parece pensativo e caminha até a cauda da criatura, a três ferroes no final de uma cauda escamada, e o vejo se abaixa e tirar uma faca e bater contra os ferrões, um som metálico que não posso deixar de pensar como sólido, muito sólido, se faz ouvir.
Ato Continuo, Kevin vira a cabeça na direção do som, identifica a localização, engatinha enquanto tenta levantar não tento muito sucesso acaba indo aos tropeços com a cara a poucos centímetros do chão como se estivesse cogitando a ideia de beija-lo, porém não tendo muita certeza se deveria e quando está prestes a cair sendo salvo… Não, Alec da um passo pra trás deixando caminho livre e deixa Kevin terminar seu flerte com o chão, o que também não acontece, pois Kevin na ultima hora retorce o corpo caindo de lado e deslizando somente o suficiente pra parar entre Alec e os ferroes.
Alec vira pra mim sem conseguir conter a surpresa e um sorriso – Sabe, às vezes acho que esse aqui saiu de algum desses desenhos animados que eu assistia quando criança.
— Penso o mesmo – Falo rindo.
Vejo Kevin dando batidas e mexendo nos ferroes e resolvo me aproximar pra ver o mais novo alvo de seu interesse, cada ferrão tem cerca de 30 centímetros, com as pontas afiadas e levemente curvada, na parte de fora da curva duas pequenas esporas igualmente afiadas, porém apontando para a base do ferrão, se aquilo ali entrar em algo, não quero nem imaginar o trabalho e a dor que seria na hora de sair. Kevin passa a lamina da faca no ferrão e não consegue deixar nem um pequeno corte, tenta bater com a parte cega e não fica nem uma marquinha se quer, Alec se abaixa e tenta com a sua própria faca afiada, o resultado e o mesmo.
—Tentem a base, talvez consigam arrancar inteira.
Alec move a lamina naquela direção tentando perfurar a base, porém o resultado é o mesmo, a base é do mesmo material, parece que aqueles ferroes fazem uma peça única.
—Bem, acho que vocês vão ficar um pouco ocupados aqui.
Kevin já está tentando cortar a cauda da criatura, as escamas oferecem alguma resistência, porém parece estar conseguindo cortar, deixo-os novamente e volto a cadeira, por um momento esqueci-me do que vim fazer, Cris já deve estar querendo me matar, corto um bom pedaço do tecido do recosto e volto na direção de Cris logo a alcançando novamente.
—Aqui o pedaç – Cris está com a esfera na mão, não me surpreende, paciência nunca foi uma das suas virtudes – Não estava quente?
—Pensei que estaria, mais quando me encostei a ela, não me queimou – Ela se levanta aproximando-se de mim, estende a esfera a colocando a poucos centímetros dos meus olhos – Me diz o que você vê.
—Vamos ver, eu vejo uma esfera vermelha, brilhosa e – Chama minha atenção um movimento e rápida mudança de cor e inconscientemente chego mais perto – o que foi isso? – observando atentamente era possível ver um redemoinho vermelho e amarelo rodopiando sem parar dentro dela, a principio parecia uma linha de fogo rodando dentro dela e mudando do vermelho para o amarelo e novamente para o vermelho, esse movimento estranhamente me parecia vivo. – Talvez eu esteja louco Cris, mas, parece que tem alguma coisa viva dentro dessa esfera.
—Por um momento pensei que seria a única louca nessa historia. Também percebi isso, é como se o fogo tivesse vida, incrível, não?
—Sim – Estendo a mão encostando na esfera – Estranho.
— O que foi?
— Nada, só que, eu esperava que ela me queimasse ou me desse um choque ou qualquer coisa desse tipo – No lugar disso, sinto um calor agradável envolvendo meus dedos – Mas é como você disse ela tem um calor reconfortante agora. – Tiro a mão da esfera e o calor que envolvia minha mão se extingue deixando uma sensação estranha, olho para minha mão intrigado.
—E agora?
—Não sei bem, apenas tive uma sensação diferente quando tirei a mão da esfera – Talvez seja só impressão minha – Melhor irmos, não parece ter nada de útil alem do que já pegamos por aqui e talvez Alec e Kevin precise de nossa ajuda La embaixo. – Passo o pedaço de tecido para ela.
Ela faz uma pequena trouxa com a esfera ao centro e amarra no cinto.
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