Foragidos
4 Kary
Notas iniciais
Olive disse que precisava conversar com Phoebe e, pela cara dela, não era coisa boa. Ella resolveu me mostrar às partes da Fortaleza que eu ainda não tinha visto. A primeira parada foi uma espécie de “loja”. Ela me explicou que como as pessoas abrigadas ali geralmente só vêm com a roupa do corpo, eles decidiram disponibilizar algumas roupas e objetos. O sistema de compras é simples, no final de cada bimestre, dependendo da sua nota de comportamento geral, você recebe pontos no seu cartão e pode usar em roupas, acessórios, objetos, o que quiser.
– Isso ajuda a distrair um pouco também. – Ella comentou.
– Para esquecermos que somos fugitivos.
Ella fitou o chão.
– Não completamente, mas nos faz sentir um pouco mais normais. – a tristeza era nítida em seu olhar – Ah, já ia me esquecendo. Como você é nova aqui, já tem uns pontos para retirar algumas coisas aqui. Agora vamos, não posso deixar você só com essas roupas.
Olhei para o cartão prateado em minha mão, era bem parecido com um cartão de crédito. Ella começou a pegar varias roupas e me empurrou dentro de um provador. Depois de experimentar cada peça de roupa que ela me deu, escolhi apenas algumas calças jeans e camisetas. Também peguei um caderno e algumas canetas para usar nas aulas.
– Só isso? – Ella levantou uma sobrancelha.
– Sim Ella, não vou gastar todos os meus pontos agora.
– Não vai levar nem aquela saia linda?
Fui pagar enquanto Ella reclamava sem parar que eu precisava de roupas mais bonitas. Depois da loja, passamos por todos os cantos da Fortaleza, a sala de jogos, sala de TV, copa, cozinha, dormitórios, jardins e paramos em frente à porta da biblioteca.
– Esse é o lugar aonde ninguém vem, exceto a Olive, pessoas chatas e alunos desesperados um dia antes das provas. Fim do tour, vamos? – Ella me chamou.
– Eu vou dar uma olhada aqui, daqui a pouco volto pro quarto.
– Tudo bem. – ela se virou e seguiu pelo longo corredor.
Abri as enormes portas da biblioteca e meu queixo foi parar no chão. Me deparei com pelo menos uma dúzia de estantes repletas de livros de todas as cores e tamanhos. Passei a mão peles livros nas prateleiras e me permiti sorrir. Quando eu estava sozinha, até mesmo depois de ter conhecido Tyller, os livros eram meus melhores amigos. Sempre que conseguia, pegava algum livro para ler sem que percebessem e me perdia por horas nos mundos repletos de magia, mas então começaram as fugas e não consegui parar para ler.
Caminhei ate o fundo da biblioteca onde tinham vários safos, poltronas, mesas e cadeiras. Uma das mesas estava cheia de papeis e livros espalhados e um garoto não tirava os olhos dele.
– Você vai ficar parada ai por quanto tempo? – ele disse secamente sem tirar os olhos dos papeis.
– Não precisa ser grosso.
– Não fui grosso, apenas fui direito. – ele se virou para mim e lançou um sorriso arrogante.
– O que é tudo isso? – acenei com a cabeça para a bagunça na mesa.
– Planos e teorias. – ele voltou sua atenção para os papeis.
– Sobre?
– A nossa origem.
Eu ri e revirei os olhos.
– Não dos humanos, da gente. – ele fixou seu olhar em mim – Não me diga que não sabe que não somos humanos, Kary.
Eu dei um passo para trás e o choque provavelmente tomou conta do meu rosto, pois ele sorriu mais uma vez.
– Como você sabe o meu nome?
– Eu consigo acessar seu padrão mental, simples. Tenho um intelecto mais avançado do que o seu, em palavras mais simples, sou “super inteligente”, posso acessar seu cérebro e buscar informações como seu nome. Seu cérebro é como um computador para mim.
– Parecido com o que a Marissa faz, mas com um ego maior. Posso saber o nome da vossa excelência? – fiz uma reverencia.
– Zack.
– Vai me contar sobre sua pesquisa?
– Talvez outra hora. Seu amigo está te esperando.
Me virei e vi Tyller encostado em uma estante.
– Ty! Não te vi aí. – ele não estava com uma cara muito boa – Ta tudo bem?
– Sim. – ele me respondeu, mas não era pra mim que olhava.
Segui seu olhar e encontrei o de Zack que sorriu e acenou pra mim.
– Nos vemos depois Kary.
Eu segui Tyller em silencio ate a entrada da biblioteca. Nunca o vi tão quieto, geralmente ele não parava de falar.
– Então, que aulas você escolheu? – puxei assunto.
– Teatro e culinária.
– Eu também vou fazer culinária, mas você nunca foi muito bom na cozinha. – dei uma risadinha me lembrando da vez que Tyller tentou cozinhar no orfanato e quase colocou fogo na cozinha.
– Só estou tentando mudar um pouco. – ele disse secamente.
– Posso saber o motivo da mudança?
Ele fitou o chão.
– Nenhum em especial. – me respondeu.
Ele disse que ia me acompanhar até o meu quarto e passou o caminho todo em silêncio. Desde que chegamos ele vinha agindo estranho. Na verdade, ele vinha agindo estranho já tem um bom tempo, mas nunca quis me contar o que estava acontecendo. Tenho medo que agora que estamos aqui ele se afaste de mim, ele é o mais próximo que eu tenho de uma família. Quando cheguei ao quarto, ele estava vazio. Subi no meu beliche e fiquei deitada pensando. Tudo havia mudado de repente, tinha medo de como as coisas iam ser, estava acostumada com as fugas constantes e a companhia de Tyller. Agora estávamos seguros, não me lembro de ter me sentido segura nenhuma vez na minha vida. Então algo veio em minha cabeça, meu dom. Como as pessoas iam reagir a isso? Eu teria que frequentar aulas cheias de pessoas e me transformar na frente deles! Não posso fazer isso.
Me levantei e comecei a andar de um lado para o outro, uma ansiedade enorme tomou conta de mim, sentia minha respiração fraca e um desespero enorme. Abri a porta do quarto e comecei a andar pelo enorme corredor até trombar com Marissa.
– Kary? O que aconteceu? – ela me olhou preocupada.
– Eu não consigo fazer isso, Marissa.
– Fazer o que?
– Ficar aqui, fingir que está tudo bem, começar uma vida nova, nada disso! – minha respiração ficava cada vez mais acelerada.
Marissa segurou meus ombros e olhou no fundo dos meus olhos.
– Você consegue sim. Eu sei que você já passou por coisas terríveis e é difícil acreditar que vai ficar tudo bem, mas vai, Kary. Você vai conseguir recomeçar e vai conseguir se transformar na frente de todos. – ela sorriu pra mim – Quero que saiba que pode sempre vir conversar comigo, não hesite em me procurar.
– Obrigada. De verdade.
Seu olhar mudou repentinamente e ela parecia pensativa.
– Kary, posso tentar uma coisa? Se me permitir, é claro.
– O que? – perguntei meio receosa.
– Quero tentar acessar alguma memória do seu subconsciente. – ela esticou a mão.
Eu concordei com a cabeça e segurei sua mão.
Eu me encontrava em um lugar completamente diferente e estranhamente familiar. Estava em um quarto de criança e uma mulher ruiva de olhos castanhos aninhava um bebê na minha frente. Ela cantava uma música de ninar quando uma criança, de aproximadamente dois anos, entrou no cômodo. Ela tinha cabelos ruivos como o da mãe e olhos verdes. A mulher colocou o bebê no berço e pegou a criança no colo.
– Você e a sua irmã vão ser melhores amigas, Kary, eu consigo sentir isso.
Kary? Mas ela não estava falando comigo, estava falando com a criança. Isso não pode ser possível.
Então eu fui sugada para fora do quarto e estava na frente de um orfanato. Um homem segurava a mão da mesma criança ruiva, a minha mão, e puxava em direção a porta de entrada. Eu tentava me soltar dele e chama minha mãe.
– Ela morreu! Você não consegue entender isso criança? – ele me olhou com repulsa – Ela morreu por vocês.
– Bella? – perguntei prestes a chorar.
– Ela já esta bem longe daqui.
Então voltei para o corredor. Marissa estava na minha frente e me segurava em seus braços.
– Kary! – ela me chamava preocupada – Me desculpe, não devia ter feito isso.
– Quem é Bella? – foi a única coisa que consegui perguntar.
– Sua irmã Kary, ela esta aqui na fortaleza.
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