Fora do normal
1 Bendita Chuva
Notas iniciais
Puxa, como estou cansada. Também, estou com tantos casos para tratar. A única coisa que desejo agora é relaxar na minha banheira e descansar.
Mas agora não posso pensar nisso, tenho que me encontrar com uma cliente num restaurante e já estou atrasada. Vou fechar rápido meu escritório e levar essa papelada.
Para piorar começou uma chuva forte bem agora. Merda! Vai molhar esses papéis, ainda bem que hoje cheguei mais cedo e consegui estacionar meu carro não tão longe daqui.
Tento proteger a mim e aos papéis — principalmente os papéis — com uma jaqueta, mas está sendo meio difícil porque além da chuva, tem também um vento muito forte.
Ando o mais depressa possível, olhando para baixo, quando trombo com alguém. Que legal! Meus protocolos caem todos no chão, o que os faz molhar. Com pressa o rapaz me ajuda a recolhê-los, e só quando nos levantamos percebo como ele é bonito.
Pelas barbas do profeta, como ele é lindo! Esqueço-me de tudo: da chuva, dos papéis, da cliente...
Sem perceber acabo derrubando os papéis encharcados de novo, nos encaramos por um longo momento, com a chuva ensopando nossas roupas.
Passado o "transe", me abaixo e recolho os papéis novamente.
– Me desculpe, ééé... Corra, meu escritório fica logo ali! Venha se secar. — grito para esse lindo estranho. Já era meu encontro com minha cliente.
– Eu que peço desculpas. Se não for incomodar... Ah, meu nome é Christopher, prazer.
– Prazer, o meu é Fabíola. — cumprimento-o com um breve aperto de mão.
Volto a meu escritório correndo acompanhada do... Christopher, e a chuva vai diminuindo aos poucos.
Destranco a porta e jogo a papelada em minha mesa.
– Entre, ééé... fique a vontade. — digo a ele, meio sem jeito.
– Com licença.
– Vou preparar alguma coisa para nos esquentarmos e enquanto isso você pode se secar no banheiro, tem uma toalha dentro do armário.
– Onde é o banheiro?
– Ah, me desculpe. Na segunda porta a esquerda.
– Obrigado.
– Se preferir tome um banho.
Dei um sorrisinho de canto de boca, e ele retribuiu com um sorriso que deixou seus belos dentes brancos à mostra. Ao se virar, me pego fitando-o com um desejo ardente.
Só agora parei para pensar na bobeira que fiz em deixar um estranho entrar em meu escritório — mesmo que seja um cara simpático.
Saí de meu devaneio e caminhei até cozinha para preparar café e chá. Deixei duas xícaras postas à mesa e fui ao outro banheiro. Só de pensar que aquele homem lindo estava tomando banho no banheiro perto de mim, tive pensamentos obscenos.
Olho-me no grande espelho que tem no banheiro e vejo que meu cabelo ruivo e encaracolado está todo desgrenhado, minha camisa azul escura está grudando no corpo, minha calçaflareclara está escura e meu pé está escorregando noscarpinpreto.
Dispo-me e entro no minúsculobox.Não é a deliciosa banheira da minha casa mas tudo bem. Relaxo e deixo a água levar minhas preocupações. Me seco e visto minha roupa molhada.
Saiu descalça do banheiro e me deparo com Christopher observando, meio intrigado, algo em minha mesa. Chego mais perto e percebo que é uma foto minha em que eu tinha dezenove anos e estava montada num cavalo branco no sítio do meu finado avô. O que será que está pensando?
– Já está meio tarde... — fala, percebendo que estou logo atrás dele, me dispersando novamente de meus devaneios. — Acho melhor eu indo agora.
– Primeiro tome uma xícara de café ou chá. — ofereço a ele, desejando que fique o máximo possível.
– Prefiro não incomodar mais. — fala, em um tom meio sério e já se levantando.
– Imagine se é um incômodo, você ir embora desse jeito que seria uma grosseria.
– Tudo bem, então.
Sento-me de um lado da bancada e ele se senta do outro.
– Café ou chá? — pergunto.
– Chá.
Sirvo-o com chá e me sirvo de café. Ficamos um momento em silêncio.
– Você parecia estar com muita pressa, não deveria estar em algum lugar? — me pergunta meio encabulado. Pego meu celular, levanto apressada e disco o número de minha cliente.
– Licença, preciso fazer uma ligação. — me retiro da cozinha.
Desmarco o encontro, alegando que a chuva me pegou desprevenida e que o trânsito está congestionado.
Volto para a cozinha.
Me sento na cadeira e tomo meu café, olhando para o chão. Christopher nem tocou em seu chá.
Como ele é branco! Até mais do que eu.
– Você mora nessa região? Nunca te vi por aqui.
– É, me mudei à pouco tempo. — ele diz, meio desconfortável e olha para o lado. — Mas me fala um pouco de você. — e sorri.
– Nasci na Escócia...
– E fala português tão fluente assim?!
– É que minha mãe é brasileira, então eu vim pra cá bem cedo. Meus pais são separados e eu vou duas vezes por ano para a Escócia.
– O que você quer saber sobre mim? — e percebo que ele não se sente muito à vontade em falar sobre si. Estranho.
– Você mora com sua família?
– Eu sou órfão.
– Ai, me desculpe!
– Já superei, relaxa.
– Você... namora? — e rufem os tambores...
– Não. — responde, ainda sério. — E você?
Ufa.
– Terminei com um cara faz alguns meses.
– Hun. — resmunga, sem demonstrar nenhuma reação.
Até parece que ele já sabe o que vou responder!
– Você é daqui do Brasil mesmo?
– Não, sou da Inglaterra.
– E faz o que aqui?
– Passeando, o Brasil é muito encantador.
– Isso é verdade.
O que mais eu pergunto?! Ele não se abre comigo. meu café acaba e vou pegar mais. A chuva já passou, olho no celular e já são quase 20h.
– Faz tempo que está por aqui?
– Quase um mês.
– Pretende ficar mais tempo? — pergunto, forçando uma conversa casual.
– Se houver alguma coisa que me prenda aqui... — e me encara com aqueles olhos... espera, não eram verdes claros? É impressão minha ou estão escuros?
Ele percebe que estou boquiaberta e com os olhos arregalados.
– Tudo bem com você? — pergunta, assustado.
– Tudo, é que... — e fico em silêncio.
– Que...?
– Seus olhos...
Então se levanta rápido e anda direto para a porta.
– Calma, onde vai? — seguro sua mão, por trás, e ele se vira para mim. Seus olhos ficam mais escuros ainda. Nos encaramos. Não sei o que está acontecendo comigo. Parece que estou... enfeitiçada.
Passo as mãos em seu rosto frio, fico na ponta dos pés e aos poucos nos beijamos. No começo Christopher resiste, mas depois passa suas mãos em minha nuca e nos beijamos longamente. Sua boca tem gosto de menta, e eu adoro menta.
Fecho a porta com os pés e me agarro ainda mais a ele, apoiando-o na porta. Passo minhas mãos por de baixo de sua camisa de brim roxa e sinto seus músculos bem definidos. Começo a arfar e me solto do beijo, mas continuo agarrada em sua cintura.
O que foi isso? Eu não sou assim.
– Mil desculpas, eu... — falo, me afastando bruscamente dele.
– Desculpas pelo que? — sussurra ele ao meu ouvido, chegando mais perto.
Dessa vez ele que me puxa forte e me beija ardentemente. Eu me entrego completamente a esse homem que mal conheço. Ele beija meu pescoço e desabotoa minha camisa, meu sutiã e começa a beijar meus seios e toda minha barriga.
O ajudo a tirar suas roupas molhadas com uma pressa voraz e ele faz o mesmo com as minhas. Já deve ser umas 20h30 e deveria estar em casa cuidando de alguns casos.
Que se dane.
Nos deitamos no sofá e transamos ali mesmo. Começa a chover forte novamente.
– O que fez comigo? Quem é você? — o pegunto depois que aquele fogo todo já passou, deitados abraçados.
– Você que se agarrou a mim, não se lembra? — fala sarcasticamente.
– Engraçadinho.
– Quantos anos você tem? — me pergunta casualmente.
– 26, e você.
Faz-se silêncio.
– 24.
– Você é mais novo que eu?! Parece ser tão maduro.
– Pois é. — fala ele, sério novamente.
– Por que você é assim? — pergunto irritada olhando em seus olhos.
– Assim como?
– Muda de humor rápido.
Silêncio.
Continuo olhando-o fixamente e sei que tem alguma coisa que não quer me contar. Então insisto:
– É alguma coisa comigo?
Silêncio.
– Fala, está me deixando preocupada.
– O problema não é com você, sou eu. — fala, olhando em meus olhos depois de muito tempo, com um olhar triste.
O que será que ele esconde?
– Preciso ir, sério. — fala, se levantando e pegando suas roupas.
Me pego novamente o admirando, que delícia de corpo! E fica vermelho. Que fofo.
– Fica comigo esta noite, sem compromisso. Não tem mais como voltar para casa hoje e não quero ficar sozinha. — falo, abraçada a uma das almofadas. — E outra, suas roupas estão molhadas ainda, coloque elas atrás da geladeira que amanhã cedo já está seca.
Ainda nu, segurando suas roupas, me encara pensando se tem opção.
– Tudo bem, então. — se deita novamente comigo.
– O que estava fazendo quando trombei com você?
– Estava... saindo do shopping. E você?
– Estava indo me encontrar com uma cliente, sou advogada. Você trabalha, estuda... faz o que?
– Por enquanto estou vivendo com minha herança. — falou, sem muita convicção. — Mas estou atrás de um emprego. Pare de falar e vem cá... — me puxou pra si e me lascou um beijo.
Dormimos assim, nus, aquecendo um ao outro, com a chuva como música de fundo. Bendita chuva.
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Notas finais
bjinhos.
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