Fora de pé

1 Capítulo 1


Lara tomou consciência como se tivesse despertado mas estava de pé, na cozinha da sua casa, ainda vestida como na noite anterior. Olhou para o relógio digital projectado na parede, eram 07.33 horas. Olhou para baixo. As mãos sujas de sangue, o vestido branco de seda rasgado e manchado de sangue fizeram-na dar um pulo.
Varreu a memória mas não encontrou nada que justificasse o que estava a ver. Não sabia como tinha chegado a casa nem a razão porque tinha as mãos e o vestido sujos de sangue.

Arrancou o vestido do corpo e meteu-se na banheira. A água quente e relaxante permitiu-lhe acalmar um pouco.
— Pensa Lara! – dizia para si própria, enquanto as gotas de água quente do chuveiro tingiam o fundo da banheira de vermelho.

Havia um espaço em branco na sua memória como se tivesse dormido mas não se lembrava de se ter deitado, nem de voltar para casa e, muito menos, da razão e origem do sangue que se esvaía rodopiando no ralo da banheira. Nada disto era normal.

Saiu da banheira, secou o corpo e sentou-se nua no sofá da sala. Fechou os olhos e mentalmente acedeu ao seu implante do FaceMind, aí encontraria todas as respostas. O FaceMind é um implante cerebral que regista através dos sentidos, principalmente visão e audição, todos os acontecimentos do dia permitindo a partilha no Facebook de forma automática e instantânea, através da ligação ao WP (Wireless Planet) pela antena em filamento de platina introduzida no contorno da orelha. Permite também aceder à Internet e consequentemente aos bancos de dados mundiais. Afinal, esta era a civilização da comunicação.

Em poucos segundos estava ligada ao mundo e à cloud para onde os dados iam sendo transmitidos. Começou a rever o final do dia. Saltou para as 23.00 horas e já estava na festa da embaixada. As caras aparentemente felizes e os copos na mão das pessoas que ia vendo indiciavam que a festa prometia. A sua amiga Carol estava deslumbrante no vestido púrpura decotado em “V” que abria nos ombros e voltava a fechar em “V” nas costas, muito abaixo da linha da cintura. Passou para a 01.00 da manhã. O embaixador, sorridente e de olhar atrevido, segurava-lhe a porta da biblioteca da embaixada para que ela entrasse. A biblioteca era um espaço afável e discreto no interior do palacete onde funcionava a embaixada. Seria mais um escritório que uma biblioteca – pensou ela – pois apercebera-se que algumas estantes eram apenas decorativas e, dos velhos livros, apenas restavam as lombadas em imitações quase perfeitas dos originais. Fechada a porta, o barulho da música e da festa desapareceu por completo. Esta era certamente a sala que mais segredos guardava pois o isolamento perfeito tornava-a no cofre de inúmeras reuniões e encontros inconfessáveis.
O embaixador abriu a cristaleira e tirou dois copos; abriu uma das estantes onde os livros escondiam um pequeno frigorifico encastrado e tirou uma água tónica e um balde de gelo e perguntou-lhe:

- Gin?
Laura concordou com um sorriso enquanto baixava a cabeça. O velho Gin voltara à ribalta numa mescla de sabores inimagináveis quando da sua criação. O balde com gelo mostrava que o embaixador era um homem preparado para todas as situações, como o lugar que ocupava exigia.

Ele serviu-lhe o Gin e convidou-a a sentar-se no sofá. Cada um do seu lado, semi-voltados um para o outro, olharam-se nos olhos e ela bebericou um pouco de Gin.

De repente a imagem mudou, visualizava um bosque sendo a imagem acompanhada de música clássica.

- Que raio! – expressou ela – Que aconteceu aqui?

Voltou a concentrar-se, passou para as 03.00 horas. Continuava a música clássica mas agora visualizava paisagens de montanha. Começou a ficar assustada. 06.00 horas da manhã. Uma praia deserta onde as ondas vinham morrer suavemente em branco espuma ao som da “Avé Maria” de Schubert. 07.30 da manhã. Um regato corria entre a vegetação verdejante, martelado pelas teclas de um piano que acompanhava o contornar das margens e o galgar das pedras do leito. Subitamente, como antes, olhou para o relógio da cozinha e depois para as suas mãos ensanguentadas, o vestido rasgado e cheio de sangue.

Não era apenas a sua memória que estava em branco, o registo do seu dia na cloud através do FaceMind também estava em branco; bem, não era bem em branco mas tinha seis horas e quinze minutos de música clássica e paisagens.

Desligou-se da cloud e acedeu ao Facebook. Como sempre, tinha milhentas notificações. Seguiu o link de uma notificação e na cronologia da Carol encontrou uma fotografia sua, de quando se tinha cruzado com ela, com o simpático elogio “Lara, a outra miúda fantástica da festa”. Era um post que a Carol tinha feito às 23.18 horas. Subiu nos posts da cronologia e arregalou os olhos com a imagem projectada no seu cérebro. Carol postara às 03.10 horas, uma fotografia dos jardins na entrada do palacete, onde várias lâmpadas azuis dos carros da polícia iluminavam o lago no centro da rotunda frente à porta, com a seguinte frase: “A festa acabou em tragédia, assassinaram o embaixador.”

Desligou-se do Facebook e ligou-se à Internet. Depressa encontrou as notícias sobre o caso: “Embaixador da Turquia assassinado durante festa na embaixada.” No desenvolvimento da notícia ficou a saber que o embaixador tinha sido abatido a tiro cerca das 02.30 horas. A polícia acreditava na motivação política do crime pois quem o assassinou abriu-lhe o pescoço junto à nuca e retirou-lhe o implante de memória do FaceMind. As autoridades iam entrar em contacto com o governo Turco para obter autorização para aceder à cloud do FaceMind do embaixador e rever os seus últimos momentos de vida.

Lara, estava habituada a pensar depressa. A sua situação era muito desfavorável, não se lembrava do que acontecera nem tinha registo na cloud de seis horas da sua vida. Não sabia de onde viera o sangue que lhe manchara as mãos nem tinha explicações para dar quando a polícia a viesse procurar; sim, porque mais tarde ou mais cedo, eles viriam à procura dela. Meteu algumas roupas numa mochila, desceu para a rua e parou no primeiro Multibanco que encontrou. Levantou todo o dinheiro que conseguiu; precisava desaparecer até esclarecer o que lhe aconteceu mas ainda tinha um problema para resolver, o implante do FaceMind. O FaceMind tinha localização GPS através do Wireless Planet e da aplicação GMapyou, que fazia a localização de todo o registo feito pelo FaceMind. Se alguém a podia ajudar era o Leonard, a quem os amigos chamavam carinhosamente LeoNerd. O Leonard era um hacker nato, se alguém sabia o que fazer com o FaceMind, essealguém era o LeoNerd.

Começou a descer a rua em direcção à estacão do comboio e não se apercebeu que alguém a seguia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.