Eu não sinto nada por dentro. Apenas o vento frio e as gotas de chuva, ainda fracas, que fustigam meu rosto. Com o rosto inclinado para a frente, eu continuo observando silenciosamente o chão e a pedra simples fincada sobre ele.
Minhas lágrimas se misturam a água da chuva que cai. O céu também chora por você? O céu também se sente incompleto?
Não posso fazer nada; não tenho como fazer nada. Impotente, apenas fico onde estou, olhando para o presente e lembrando do passado...

[namida ni natte koboreta...
...uma lágrima caiu]

Você lembra daquela tarde, quando nós desabamos em um sofá, mortos de cansaço? Quando você tirou da sua sacola um álbum bastante velho e quadrado, com uma capa verde meio gasta?
Eu vejo com perfeição o seu sorriso, o jeito orgulhoso com o qual você simplesmente abriu o álbum e me mostrou toda uma vida que aconteceu antes de você e até mesmo o começo da sua.
Sua primeira bicicleta; você brincando com seus primos menores no fundo da sua casa; seu aniversário de sete anos e vários colegas da escola ao seu redor; uma foto com destaque, onde estavam você e uma garota que aparentemente, era de quem gostava na época.
Eu sorria vendo o seu entusiasmo, vendo a sua felicidade em compartilhar comigo tudo aquilo que representava tanto para você, enquanto os outros ainda ensaiavam. Eu prometi trazer as minhas fotos um dia, para que você pudesse rir delas também.
Mas eu nunca as trouxe. E você jamais as verá agora.

[zutto matteru yo wakatteru kedo...
...eu posso esperar para sempre, você sabe]

Eu menti quando disse que não sentia nada por dentro. Na verdade, eu sinto um vazio. A ausência de tudo que deveria estar aqui comigo e não está. A sensação estranha que é contar apenas com a minha memória para ouvir a sua risada, para sentir as suas carícias, saborear o seu beijo, sentir o seu perfume...
Como se eu fosse oco, eu me inclino ainda mais para a frente, o vento ficando mais forte e a chuva engrossando. Uma tempestade se prepara para cair.

[mata ore wo nokoshi hitori de hashitte yukunda ne...
...você me deixou sozinho e continuou a correr]

Você lembra do dia que Reita passou mal e acabou indo para o pronto-socorro? O ensaio acabou sendo cancelado, e como os outros haviam ido para o hospital também, ficamos com a tarefa de desligar os aparelhos e fechar as coisas.
Mas não foi apenas isso que fizemos. Já vínhamos nos olhando e conversando de maneira diferente nos últimos dias. Aquela vez foi somente uma deixa para que tudo que sentíamos passasse do fundo dos nossos corações para a superfície.
Consigo me lembrar como se fosse ontem da surpresa estampada no seu rosto quando o abracei pela cintura, sentindo o calor do seu corpo contra o meu, na sala vazia e gélida. Recordo como sua expressão mudou para um sorriso gentil quando se virou para mim. No escuro, nós nos encaramos e meus lábios foram tomados pelos seus em um gesto de ousadia. Calmamente, apaixonadamente.
O primeiro de muitos beijos que trocamos... Até hoje.

[yatto kimi ni aeta no ni gamanshiteta mono ga subete nagarete...
...pelo menos encontrar você acabou com a minha paciência abundante]

A minha visão começa a ficar obstruída por mechas do meu cabelo encharcado, que cai na frente do meu rosto. Não poderia ligar menos para isso. Meu foco é a lápide, e ela continua ali. Parada.
Parada como o tempo para mim. Como se nada mais funcionasse, vivesse ou acontecesse sem a sua presença. Agora, inatingível para mim...

[mou todokanai mou todokanai...
...eu não consigo alcançá-lo mais, eu não consigo alcançá-lo mais]

Você lembra do seu aniversário? O último que comemorou, que nós comemoramos? O seu rosto era puro prazer e surpresa quando encontrou o bolo e toda a comida que Kai, Reita, Ruki e eu tínhamos dividido entre nós e cozinhado. Nunca fomos muito bons nisso, é verdade. Mas talvez porque era tudo para você, saiu excepcionalmente delicioso.
Largamos Reita e Kai dormindo na sala, depois de vários copos de sake, não foi? Ruki foi embora mais cedo... E nós fomos para o seu quarto, onde dormimos juntos pela primeira vez.
Jamais me esquecerei desse dia, quando pude sentir todo o seu corpo, quando pude vislumbrá-lo e provar cada centímetro de pele alva e macia que me era oferecido. As sensações experimentadas naquela noite jamais se igualarão a quaisquer outras noites que passamos juntos, simplesmente porque foi a primeira.
Sua voz nunca me soou tão doce quanto na hora que gritou meu nome, em êxtase. Não lembro de vê-lo tão lindo quanto no seu ápice, com a cabeça jogada languidamente para trás e os olhos cerrados, entreabrindo levemente a boca e permitindo que eu a explorasse com meus lábios ávidos, enterrando meus dedos nos seus cabelos dourados.
Sentidos, vozes e memórias que agora estão enterrados. Assim como você.

[futari ga ita heya ima mo sono mama...
...o quarto onde duas pessoas ficavam ainda é o mesmo]

A chuva desabou em definitivo, mas eu não me importo. Ignorando os uivos que o vento faz no lugar deserto, eu estendo meu braço direito para a frente, me abaixando logo em seguida.
Delicadamente, deposito uma flor na sua lápide. Uma flor que sempre me trará lembranças suas, que a partir de hoje, é tudo que poderei ter de você.
A pequena flor vermelha resiste ao vento que sacode árvores por perto. Um meio-sorriso melancólico se segue, logo me levantando e dirigindo um último olhar a lápide.
— Uruha...

[kimi no na wo yondemitemo...
...tentando chamar seu nome]

Você lembra que eu disse que te amava? Você lembra quantas vezes eu disse isso?
Eu perdi a conta. Perdi a conta de ouvir o mesmo de volta, e gostaria de continuar ouvindo, mas sei que isso não é possível.
Eu te amei mais do que qualquer outra pessoa. Assim como você dizia não ter sentido nada igual por outra pessoa antes.

[aishiteru. aishiteru...
...eu te amo. eu te amo]

A pequena malva-da-índia fica no seu lugar sobre o jazigo, enquanto eu começo a me afastar lentamente do túmulo, sem olhar para trás. Malva-da-índia. Hollyhock. Aoi. Eu deixo um pedaço de mim no pequeno vegetal para você, que sempre achou tão bonito o fato de meu nome ser o de uma flor.
A pessoa que mais significou para mim foi você, que teve sua vida ceifada tão rapidamente como uma rosa arrancada do chão. Ainda tinha muito para viver; muito para encantar.
— Aishiteru...
Eu digo mais uma vez para o vento a palavra que lhe dirigi tantas vezes antes... Mas sei que você, agora, está fora do meu alcance.

this voice does not reach you...
...does it?

FIM
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!