Fora das Câmeras
3 3º ATO – Ascensão
O sol se despedia no horizonte quando olhei para a janela e contemplei o tom alaranjado que tingia o céu. As estrelas, timidamente, surgiam de forma aleatória e a lua se destacava no que certamente será uma das noites mais bonitas do ano. Eu, enquanto isso, ainda não havia escolhido o vestido ideal para a premiação, e sendo apressada por minha equipe optei por um longo preto bordado à mão. Discreto, mas elegante.
O relógio marcava 20:45 horas quando, já com tudo pronto, saí para a varanda e cruzei o jardim em direção ao portão. Minha ansiedade começou a se manifestar no instante em que coloquei os pés para fora de casa, mas, incentivada por minha empresária, entrei na limusine o mais otimista possível.
Absorta em pensamentos, mal percebi como nosso trajeto passou rápido, apesar de o trânsito ter colaborado pouco para isso. Eu só notei que nos aproximávamos de nosso destino quando enxerguei, ainda de longe, a multidão que se espremia na calçada do grande teatro central. O público estava, como de costume, muito eufórico.
Estacionamos em frente à entrada do teatro, e, com cuidado, saí do carro, atenta para não tropeçar na cauda do vestido. Como o mar de câmeras ao redor aguardava paciente para registrar cada movimento para a posteridade, calculei cada passo dado milimetricamente.
Apesar de toda a exposição que é inerente a eventos come este, é curioso que, para mim, tapetes vermelhos tenham se tornado a oportunidade perfeita para rever velhos amigos. E hoje não poderia ser diferente, afinal, onde mais se reuniria tantos profissionais da área senão na maior premiação de cinema nacional? Este reencontro, contudo, durou bem menos que o desejado, e cedendo aos pedidos dos repórteres, me juntei a eles, mesmo que um pouco contrariada.
Os flashes das câmeras, após tantos anos de carreira, não mais ofuscavam meus olhos. Ainda assim, não nego que, às vezes, gostaria de pular esta parte. Entre sorrisos e cumprimentos, posei para mais fotos e concedi três ou quatro entrevistas. Inspirada por lembranças outrora arquivadas em minha cabeça, falei brevemente sobre um passado de altos e baixos que desencadeou uma forte nostalgia em meu peito.
Pouco a pouco o ambiente se encheu de pessoas que chegavam para revezar as luzes dos holofotes. Ao notar que não era mais o centro das atenções, me despedi do pessoal que cobria a parte externa do evento e me dirigi para o auditório principal. Pelo menos, até aqui, não houve qualquer imprevisto com a mídia.
Já acomodada em meu assento, fiquei feliz por logo terem dado início à entrega dos prêmios. Alternada entre números musicais e monólogos de grandes nomes da indústria, a cerimônia fluiu de maneira bastante satisfatória. Como não estou concorrendo a nenhuma categoria neste ano, pude aproveitar cada momento e me preocupar apenas com meu discurso de encerramento. Mais importante do que qualquer troféu, esta será, finalmente, a chance de costurar algumas pontas soltas.
Percebi o evento se aproximando do fim e, assim como o esperado, alguém da produção veio me alertar que minha homenagem começaria em instantes. Minhas mãos e pernas começaram a tremer na mesma hora, mas, crente de que tudo sairia dentro dos conformes, tentei mais uma vez me acalmar.
De repente, as luzes diminuíram gradativamente e um vídeo começou a ser exibido no telão, reproduzindo trechos da minha filmografia. Surpreendendo-me, uma antiga colega de profissão subiu ao palco e introduziu um relato tocante de quando trabalhamos juntas em meu primeiro longa-metragem. As lágrimas foram inevitáveis.
Entre aplausos entusiasmados, não demorou para meu nome ser chamado ao microfone, e com a ajuda de minha assessora também me desloquei para o centro do auditório. A esta altura meu coração batia tão rápido que parecia ter vida própria. Inspirei profundamente e me encorajei a seguir adiante.
Subi os degraus que levavam ao palco e, completamente emocionada, recebi o troféu das mãos de minha colega, dando-lhe um abraço apertado. Olhei à volta e, ao notar a imensidão de pessoas que nos contemplava, tive a confirmação de que realmente era chegado o momento de derrubar esta barreira que há tanto esteve de pé.
Impulsionada por algo dentro de mim que lutava para sair, senti as palavras em minha garganta como se há duas décadas estivessem prontas, apenas aguardando pela hora certa. E assim eu comecei:
— Estar aqui, nesta noite, é a maior prova que eu poderia receber de que sou mesmo uma mulher de sorte por ter conseguido realizar tantos sonhos. Estes sonhos, é claro, somente ganharam vida graças a todos aqueles que acreditaram em mim. Então, eu seria uma tola se não agradecesse os admiradores do meu trabalho e profissionais do cinema com os quais eu tive a honra de conviver ao longo destes quase 30 anos.
“Dito isto, devo esclarecer que decidi, de última hora, mudar meu discurso para falar sobre algo que julgo ser muito mais importante. Por diversas vezes, ao longo de minha carreira, cogitei trazer isto a público, mas a verdade é que jamais me senti pronta para reviver o passado. É fato que o passado pode nos machucar, principalmente quando tentamos enterrá-lo a sete palmos do chão e ignoramos sua existência. Mas, sem ele nós não temos história, e como é a minha história que está sendo celebrada nesta noite, cheguei à conclusão de que é preciso abrir meu coração como jamais o fiz.
“Não é segredo para ninguém que a minha estreia no cinema se deu há muitos anos, quando fui descoberta ainda adolescente pelo meu primeiro empresário e também primeiro marido. Por conta disto, desde muito jovem aprendi a lidar com a mídia, a qual sempre salientou o quão ‘sortuda’ eu era por ter ‘fisgado’ um dos empresários mais bem-sucedidos da época. Afinal, ainda que meu desempenho em meus primeiros trabalhos tenha sido satisfatório, a única coisa que parecia importar era o que se passava em minha vida particular.
“Só que infelizmente, fora das câmeras, o meu dia a dia era bem diferente do anunciado pelas revistas, e a rotina não era tão perfeita como aparentava ser. Eu sei que, para muitos, a minha trajetória se assemelha à de uma pobre plebeia que teve a chance de viver como uma princesa. Mas, como eu disse, nem tudo é o que parece, e nesta noite eu assumo o compromisso de tirar a mordaça que me calou durante tanto tempo.
“Há exatos 20 anos uma tempestade caía ininterrupta no que era para ter sido apenas mais uma noite como outra qualquer. As filmagens de meu último filme já haviam terminado e o projeto se encontrava em pós-produção, então, me permiti uma pequena folga antes de rodar o país para participar da divulgação dali alguns meses. Lembro-me de, no dia anterior, ter dispensado todos os empregados de casa de irem trabalhar naquele fim de semana, pois precisava de um momento para mim. Apenas eu e meu marido, no que eu imaginava ser a oportunidade perfeita para recolocar a cabeça no lugar e tirar um tempo para nós.
“O relógio indicava que faltava pouco para a meia-noite e, como estava exausta, comecei a preparar a cama para dormir. Meu esposo, enquanto isso, continuava na mesma ligação telefônica há pelo menos 20 minutos, andando impaciente de um lado para o outro do quarto. Eu não lembro ao certo se o chamei para vir dormir ou se lhe pedi para manter a calma, mas foi o suficiente para despertar algo perverso dentro dele.
“Eu sabia que não havia me casado com o homem mais paciente do mundo, mas, após ouvir seus insultos habituais, tentei argumentar acreditando que seria a melhor maneira de ajudá-lo a resolver aquele conflito. Eu não poderia estar mais enganada, e com um único tapa ele conseguiu me derrubar no que foi uma queda em slow motion.
“De início eu não senti dor alguma, como se meu corpo estivesse anestesiado. Mas, sentada no chão, ergui a cabeça e me vi apavorada quando notei o sorriso bizarro que estampava o semblante dele. Ali, naquele instante, eu tive a certeza de que meu marido tinha partido para sempre. Imediatamente meus sentidos voltaram a responder e percebi meu rosto ficar quente e dolorido.
“Agindo por instinto, reuni o máximo de energia que consegui e levantei de uma só vez, em um empurrão que o fez desabar e ficar momentaneamente atordoado. Para ser sincera eu não pensei muito no que estava fazendo, só tive a certeza de que precisava quebrar o controle que há tanto ele exercia sobre mim. E depois disso grande parte da noite se resume a eu correndo pelas ruas, de camisola, sendo socorrida por um taxista e me hospedando no primeiro hotel que me passou pela cabeça.
“Talvez não pareça, mas existe uma razão para que, 20 anos mais tarde, esta história esteja sendo contada. Provavelmente um número grande de pessoas não me entenderá e chegará à conclusão de que só estou me pronunciando agora para me promover. Ninguém mais presenciou o que ocorreu naquela tempestuosa noite de 1997, e consequentemente tudo isto pode não passar de uma grande mentira. Então, não há escolha: ou você acredita em mim ou não.
“A verdade é que trazer esta história à tona me custará caro, já que estou quebrando o contrato que assinei após o meu pedido de divórcio. Financeiramente falando, eu tenho mais a perder que a ganhar. Não nego que permanecer em silêncio, durante todos estes anos, me garantiu uma vida bastante confortável. Afinal, foi por causa de meu ex-marido que eu tive a oportunidade de ingressar nesta indústria, e se não fosse por ele talvez eu jamais estivesse aqui hoje.
“Esclareço também que minha intenção não é começar uma caça às bruxas, apesar de eu saber que, de uma forma ou de outra, certas pessoas terão suas vidas reviradas de cabeça para baixo após esta noite. Por conta de toda esta iminente exposição, e apenas por isto, eu peço desculpas. Mas, depois de duas décadas, eu finalmente compreendi que a minha voz vale muito mais do que uma cláusula de confidencialidade. E, bem, eu cheguei ao ápice da minha carreira, então por que continuar a guardar este segredo?
“O que me motivou a desenterrar meu passado talvez seja uma tardia, porém ainda válida, tentativa de resgatar os bons frutos que este diálogo poderia ter gerado se tivesse sido feito à época dos fatos. Muitos podem discordar, mas eu acredito que precisamos falar sobre relacionamentos abusivos e violência doméstica.
“Por mais que não pareça, o assédio e a agressão no âmbito familiar são muito mais comuns do que podemos imaginar. Existem muitos rostos sem nomes por aí e com muitas histórias a contar. O meu papel, nesta noite, é ser uma voz para estas pessoas que, independente da razão, foram silenciadas por seus traumas. Mulheres e homens que, por viverem num ambiente hostil, não se sentem seguros ao lado daqueles que, em tese, deveriam protegê-los.
“É claro que cada pessoa possui o seu tempo e algumas feridas demoram mais para se cicatrizar do que outras. Por isso, não cabe a quem está de fora julgar aqueles que decidiram permanecer ao lado de seus agressores. Eu, por exemplo, me submeti a anos de abusos psicológicos até que culminassem em abuso físico. Por inúmeras vezes adormeci chorando e sonhei com uma vida diferente em algum lugar distante, sem saber, ao certo, o que fazer para sair daquela situação. Portanto, reforço que o momento de cada um precisa ser respeitado, por mais lento que seja.
“Isso não significa que não possamos oferecer ajuda àqueles que vêm até nós, ou que não devemos tentar ajudar aqueles que sofrem algum tipo de violência que é de nosso conhecimento. Talvez não consigamos fazer muito, mas eu acredito que uma palavra de conforto poderá fazer a diferença para quem se encontra em um relacionamento abusivo. A terapia, se possível, também é um caminho a se pensar, e não há nada de errado em se permitir ser acompanhado por um profissional capacitado. Afinal: ninguém nasce vítima, mas se torna, e contra a sua vontade.
“É curioso como a palavra ‘vítima’, por si só, nos remeta uma ideia equivocada de fragilidade. Isso porque, ao longo dos anos, tive a oportunidade de visitar muitas instituições de acolhimento para pessoas que sofreram violência doméstica. E, durante cada conversa que tive ficou-me evidente que nada do que nos aconteceu foi por nossa culpa. Se eu tenho uma certeza inquestionável é a de que somos, acima de tudo, sobreviventes.
“Eu realmente espero que quem esteja em um relacionamento abusivo consiga se livrar deste tormento. E também espero que a minha história possa, de alguma maneira, incentivar outras pessoas a contarem suas histórias. É claro que isto levantará alguns questionamentos que precisarão ser respondidos antes de se vir a público, pois estamos falando de algo muito íntimo e doloroso. Então, se você tem para onde ir; há pessoas de confiança ao seu redor; e está ciente de que irá enfrentar aqueles que duvidarão da sua palavra, talvez você esteja pronto para dar o próximo passo.
“Eu tenho certeza de que não será nada fácil. Muitos se afastarão de você, pois não serão capazes de se colocar em seu lugar. Mas isto é algo que estas pessoas terão de resolver consigo mesmas, e não com você. Você não deve nada a ninguém e não é tarefa sua implorar pela compreensão daqueles que se negam a tentar o mínimo, que é te ouvir. Entenda que quem quiser ficar ao seu lado, ficará, sob a conjuntura que for.
“Viver durante um trauma é um pesadelo, mas, acredite, há vida após o trauma. Talvez ela não seja tão perfeita como o final de um conto de fadas, mas existe, e eu lhe garanto que é de verdade. Apenas saiba que esta é a sua história, queira você contá-la ou não. Seja pelo sim ou pelo não, eu lhe desejo boa-sorte e uma boa vida”.
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