Notas iniciais
Ainda não recebi nenhum personagem, então não posso avançar com a história. Mesmo assim, gostei bastante de escrever esse capítulo.

POV: Richard

Arthur passou em minha casa por volta das 6 horas e, juntos, fomos para o terminal rodoviário. O local era amplo e mal-iluminado, sustentado por pilastras verdes. O cheiro forte de urina e as paredes pichadas tornavam o lugar ainda mais desagradável. Trabalhadores sonolentos e apressados andavam em passos firmes e automáticos, fazendo-me pensar em robôs proletários.

Meu coração palpitava. Como sempre, ansiedade. Respirei fundo. Já Arthur estava, certamente, inseguro e hesitante, apesar de demonstrar confiança. Dirigimos-nos a um canto vazio e ainda mais fedorento do terminal.

— Sua mãe vai ficar preocupada- falei. — Você sabe disso, não sabe? Você devia ter avisado...

— Duvido- ele respondeu, num tom amargo. — Ela me trata como lixo. Vai ficar aliviada.

— Ela te ama, cara.

— Ama, é?- a insegurança invadiu sua voz, que costumava ser tranquila e inabalável.

— Uhum. Acho que ela... só está com saudades da "filha" dela.

— Ela nunca teve uma "filha". Sempre fui um homem, e não é problema meu que ela não tenha percebido.
Suspirei. No dia anterior, havíamos juntado um grupo de mais três pessoas para a viagem.

— Já decidiu aonde nós vamos?- perguntei. – Os outros já devem estar esperando.

— Para o lugar que for mais longe.

Compramos, então, as passagens para uma metrópole localizada a oito horas de viagem dali. Para não termos que urinar no ônibus, fomos ao banheiro. Como eu esperava, o cheiro de urina do sanitário era suficiente para fazer meu nariz arder. Colocamos as malas sobre uma bancada.

— E aí, princesa? Tá perdida?- um homem perguntou ao Arthur. O sujeito era alto e rechonchudo, seu rosto redondo e demasiadamente vermelho e sua fala era arrastada. O que mais chamava atenção, porém, era o cheiro de cerveja.

— Princesa é o cacete!- o garoto respondeu, cerrando os punhos.

— Ei, calma, boneca! Só acho que você está no lugar errado.

— Obrigado por se preocupar, mas sei bem onde estou- Arthur respondeu sarcasticamente.

— Então está brincando de homenzinho?- o velhote riu.

— Não estou brincando de nada- um certo temor mostrou-se presente em sua voz vacilante.

— É mesmo? Posso te consertar então?- perguntou o sujeito , aproximando-se do garoto, tentando intimidá-lo.

— Não estou quebrado.

O homem desabotoou a própria calça e Arthur, tão furioso quanto amedrontado, acertou um soco em seu maxilar . O velhote urrou e partiu para cima de meu amigo, empurrando-o contra a parede. Contendo as lamúrias, o garoto tentava se desvencilhar do adulto. Eu não podia ficar parado. Em um impulso, chutei o agressor com força. Ele, enfurecido, empurrou-me. Após escorregar em uma poça, bati com a cabeça em um mictório. Minha visão ficou turva. Arthur puxou-me pelo braço e, deixando as malas para trás, saímos correndo dali.

— Você tá bem?- ele perguntou, ofegante.
Olhei para trás. O homem não nos seguia.

— Richard! Você tá bem?- repetiu.

Sequei o suor de minhas mãos. Meus pulmões pareciam queimar. Atordoado, perdi o equilíbrio e caí no chão.

— Foi uma pancada e tanto- disse Arthur, ajudando-me a ficar de pé. — Foi mal. Eu perdi o controle... Devia ter corrido logo em vez de bater no cara.

Dei de ombros.

— Com certeza ele não viria atrás da gente, estava completamente chapado- continuou. — Mas acho que não adianta pensar nisso agora. Já tá na hora de pegar o ônibus.

Olhei-o, surpreso. Ele ainda pretendia viajar? Estávamos sem as malas!

— Que foi? Vai amarelar agora? Eu vou de qualquer jeito, você indo ou não.

Não questionei. Era impossível fazê-lo mudar de ideia.

Quando entramos no veículo, eu já estava faminto e cansado. Um galo se formara na parte de trás da minha cabeça. Cambaleei pelo corredor estreito até, finalmente, conseguir sentar ao lado de Arthur. O restante do grupo se espalhou pelo ônibus, que agora estava quase cheio. Sentada no banco à frente estava uma menina mais ou menos da minha idade, com a pele pálida e um longo cabelo azul claro. Ajoelhando no assento, ela virou-se para trás.

— Olá!- cumprimentou ela. Seus olhos verdes fitavam os meus castanhos, forçando-me a desviar o olhar.

— Ele não é de falar muito — explicou Arthur.

Abaixei a cabeça, frustrado por precisar que alguém falasse por mim.

— Entendi...- disse a menina, com um olhar curioso. — Vocês são daqui mesmo, né?

— Como sabe?- Arthur perguntou.

— Vocês estão nervosos... Com certeza estão saindo de seus lares — ela disse calmamente. — É verdade, não é? E pelas suas expressões, imagino que estejam se preparando para enfrentar o desconhecido.

— Impressionante- Arthur sorriu e estendeu a mão para a menina. — Sou o Arthur e ele é o Richard. Qual o seu nome?

— Marianne — respondeu ela, apertando a mão estendida. — Vocês são os humanos mais interessantes que encontrei hoje.

— O que quer dizer com isso?

A menina colocou o cabelo para trás das orelhas, que eram estranhamente pontudas.

— Humanos são desinteressantes, mas gostei de vocês.

— Obrigado, eu acho.

Notas finais
Deixem críticas, sugestões e criem seus personagens! Obrigado!