For the first time
5 Capítulo 5 - Bônus
Joseph parou a mato em frente ao prédio gasto, imundo e de má aparência onde ela morava. Esperou pacientemente em silêncio, não tinha nada a dizer, ou a demonstrar ali, somente o cansaço e a enorme vontade de ir embora. Mesmo com ela ali, o seu desejo era ir embora e esquecer a gritaria inútil que acontecera e toda aquela situação que estragara seu momento bom.
Ela o entregou o capacete e ficou ali procurando as chaves de casa. Nenhum dos dois ousava romper o silêncio esmagador.
Por fim, Jazz timidamente cruzou os braços, olhando para baixo e disse: — Você quer entrar e tomar um café ou uma água?
Ele balançou a cabeça negativamente.
_ Boa noite, Jazz! – E ligou a moto. Ela tocou sua mão.
_ Espera, Joseph. Sei que está chateado demais, mas você não está bem... Precisa falar.
_ Falar sobre o quê? – Ele desligou a moto e olhou para ela. A voz fatigada soava profundo desapontamento e tristeza. – Eu falei demais por hoje. Não quero chatear ninguém e eu preciso muito ir para casa.
Jazz mordeu os lábios, pensativa.
Porque ele era tão austero? Tão rígido consigo mesmo e tinha aquele jeito que ao mesmo tempo em que a deixava impaciente e louca para lhe dar um tapa na cara e mandá-lo ir a merda, também a fascinava por sua maturidade e raciocínio. Era um homem inteligente e, quase tinha certeza, de que era franco e merecia muito tudo que sonhava.
Ele mesclava todos os sentimentos controversos em si e a deixava ansiosa, inconstante e quase a fazia esquecer total e completamente que tinha uma vida horrorosa. Fazia se esquecer da saudade esmagadora que possuía de sua casa de verdade, de sua família e amigos, do som do mar vindo e trazendo-lhe boas energias, das músicas que tocavam nas festas a deixando com muita vontade de dançar. Era quase como se ela não fosse feita somente de nostalgia de sua terra e da vontade constante de ir embora para casa.
Os olhos azuis do rapaz estavam distantes, a boca em forma harmônica com seu rosto, com lábios que possuíam uma cor natural convidativa, semicerrados.
O vento soprou carregando as folhas do chão para longe. Jazz tremeu, mas não sabia ao certo se sentia frio ou alguma outra coisa.
Ela tocou o rosto dele e o virou para ela, aproximou-se com um medo que revoltava seu âmago, e timidamente o beijou. Era como se houvesse completado um quebra cabeça. Ambos se conectavam instintivamente. Joseph parecia sentir a mesma necessidade. O movimento das línguas sincronizadas, e uma corrente que transitava de dentro dele para ela e dela para ele, infinitamente. Jazz colocou a mão em seu cabelo e ela na cintura dela. Aproximou-a mais para perto dele, queria fundir seus corpos. Aquilo o fez emergir e ele se tornou voraz. O beijo parou e ele resolveu beijar o lóbulo de sua orelha feroz e ao mesmo tempo gentilmente, dando-lhe beijos quentes em seu pescoço.
Jazz esqueceu-se de tudo que era errado e até da concepção do certo. Era como se eles se conhecessem há muito tempo, que ambos eram partes precisas um do outro.
Ela se afastou dele e tombou a cabeça de lado passando a mão pelos lábios. O que havia acontecido?
_ O que foi? – ele puxou a mão dela gentilmente, trazendo-a para si. Seus olhos curiosos queriam penetrar na alma da garota para descobrir o que ela pensava. Será que havia ido longe demais, ainda mais longe depois do escândalo da festa? Droga.
_ Eu estou com frio... – Ela se afastou e começou a andar em direção a portaria do prédio. – Venha, vamos entrar.
‘’Nada estava errado’’, ele pensou. Passou a mão pelo seu cabelo, pegou o capacete e foi atrás da garota de olhos cor de mar.
*
Para um lugar com poucas coisas, era bastante aconchegante. O frio que dançava, ficara do lado de fora. O apartamento apesar de ter as paredes com rachaduras e manchas, uma aparência horrível do lado de fora e até mesmo nos corredores, contrastava com o apartamento dela. Havia várias fotos de paisagens belas da cidade de Manhattan e pessoas desconhecidas em seu cotidiano, outras do apartamento de Vera e das meninas com quem ela convivia, coladas nas paredes. Algumas luzes natalinas enfeitando a cama e a janela. Era bem a cara dela. A colcha verde da cama bem arrumada mostrava certo patriotismo. Ao lado da cama e perto da televisão pequena mais fotos desta vez de Dublin e de várias garotas na praia e em shows locais, runas, e corredores naturais de árvores.
Uma irlandesa apaixonada!
_ Venha vou preparar um café.
_ Você quem tirou todas estas fotos? – ele perguntou admirado.
_ Foi sim. Eu disse que amo fotos. Sou completamente apaixonada por fotos. – Ela respondeu enquanto andava de lá para cá na cozinha preparando o café. – É uma pena que não se dá para ganhar a vida com elas. Não sem um contato bom, equipamentos bons e um certificado que diga que estou apta a usar todos eles. Em Dublin era bem mais fácil.
_ Estas fotos são lá em Dublin? – Ele indicou uma mesmo sabendo que ela não estava lá perto. Não conseguia tirar os olhos das fotografias. – Lá parece ser incrível.
Ela parou na soleira da porta e suspirou feliz. Caminhou até ele e arrancou a fotografia da parede e a entregou com um sorriso. – Não aqui, é um condado pequeno. Bem acho que é pequeno. Perto de Manhattan tudo é extremamente minúsculo lá. Esta foto é em Chiltern.
_ Estou encantado!
_Devia ver como é lindo no inverno. Faz tudo parecer irreal, até mesmo para quem nasceu lá como eu. Eles dizem que depois de um tempo ou quando nascemos em um lugar não sabemos apreciar a beleza deste, mas não nós. Nós irlandeses sabemos da beleza e magnitude de nossa terra e cultura.
Joseph sorriu, a convicção e o respeito na voz da irlandesa chamava a atenção e fazia ficar com inveja de tamanho amor a pátria.
_ Porque veio para cá então?
_ Como eu disse a fotografia não pode dar dinheiro se você não tiver contatos, diploma e toda essa burocracia idiota. Aqui tinha um curso muito bom em fotografia então vim através de muito dinheiro que meus pais juntaram para realizar meu sonho. – Ela voltou para cozinha e fez um silêncio por um tempo, Joseph fora atrás dela e parou na soleira da porta olhando ela preparar o café e colocar em xícaras. – Eu então vim me alojei aqui, foi o lugar mais barato que encontrei. No primeiro dia de aula descobri que era preciso ter câmeras sofisticadas e modernas, bastante aparelhagem cara que eu não teria condições de comprar. Além do preconceito forte que sofri por ser irlandesa. – Ela o entregou a xícara de café e o convidou para sentar-se na cama já que não tinha cadeiras.
_ Fiquei até onde consegui, mas eu não podia continuar então parei. Vi outro curso muito bom na Europa mesmo, mas também não tenho dinheiro e ainda nem tive coragem de contar aos meus pais que não estou estudando. Isso os desolaria. – Ela olhava para a xícara de café, a voz soava pesarosa e triste. Era como se ela visse no café toda sua história. Joseph compreendia que ela tinha muito mais que beleza ou educação, tinha uma história... Difícil como a dele. – Eu tentei várias vezes algum emprego, mas deve ter algo de errado comigo, eu não me vejo indo bem em nenhum. Foi aí que conheci Wendy e ela teve compaixão comigo. Me banca nesse apartamento, e me deu um trabalho. Sou eternamente grata, jamais conseguirei pagar esta dívida e sei disso...
Ele engoliu seco. Nunca imaginaria essa história para uma pessoa que estava sempre sorrindo, que aparentava ser feliz.
_ Você quer voltar para casa, Jazz?
Ela limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto e assentiu. Colocou a xícara no chão e escondeu o rosto cedendo ao choro.
_ É tudo que mais quero.
Joseph sentiu um enorme aperto no coração. Pensara que sua vida era difícil, mas fora um completo idiota pensando que seus problemas eram maiores que o mundo. Uma tristeza o tomou e uma necessidade tremenda de livrar aquela garota de tudo aquilo. Com tudo isso ele ainda lembrou-se dela defendendo Deus... Ela tinha fé! Era uma pessoa boa, com fé. Ele nem sabia onde enfiar a cara de tamanha vergonha. Falava mal de Deus pelos seus problemas, no entanto, não conseguia ver que todos têm problemas, que podiam, inclusive, serem maiores que os seus.
Ele a abraçou e tirou as mãos de seu rosto. – Por favor, não chore, não chore. Não posso ver você assim, Jazz...
Ela virava o rosto. – Sou uma idiota.
_ Não. Idiota sou eu de pensar que meus problemas eram maiores que o mundo. De julgar a Wendy antes de entender que se não fosse ela... Não quero nem pensar onde você estaria. Te ver sofrendo assim, chorando... Oh Deus, isso dói em mim, amor. Me sinto prepotente.
Ela olhou em seus olhos. Estava tudo errado, os olhos cor de mar estavam chorando, estavam tristes pela primeira vez desde que a viu pela primeira vez. Estava tudo errado.
_ Joseph. Eu me sinto egoísta! Mesmo sabendo do que você e Wendy têm, eu gosto de você. Gosto da alegria, da paz que você me dá, em como me faz rir. – Ela engoliu o choro e depois tocou o rosto do rapaz, sentindo sua barba por fazer. — É injusto.
_Jazz desde o dia em que você jogou cerveja em mim não paro de querer encontra você. Olha, sou um completo puto, nunca levei mulher alguma a sério, sempre quis só sexo, sexo, e nunca senti nada por elas. Só que quando olho para você percebo que você é diferente. Me contraria, me desafia e parece algo bom nessa podridão que é minha vida, certo?! Injusto é ver você infeliz. Há muito tempo parei de me importar com as pessoas para me importar só comigo, mas com você, vejo que posso começar a acreditar nas outras pessoas.
A garota sorriu mesmo com os olhos cheios d’água. Era algo sincero, um conforto. Um conforto que ela não encontrara em lugar nenhum desde que chegara à América.
_ Obrigada Joseph por me deixar saber um pouquinho sobre você. – Ela sussurrou brincando com seus dedos. Levantou a cabeça e o beijou.
O beijo foi mais intenso que o primeiro, desta vez não havia medo ou pensamentos que o impedissem de se entregar um ao outro. A mesma sensação de paz e um pingo de felicidade, um êxtase se esparramava pelo lugar e pelos dois. Joseph a enchia de beijos e afagava sua cintura e seu rosto com um carinho novo. Nunca se sentira tão bem com uma pessoa. Ela por sua vez, não sentia tanta falta de casa, mas preenchia-se com aquela sensação boa de ao menos uma vez sorrir com uma pessoa que ela queria.
_ Jazz... – ele sussurrou e voltou a beijá-la.
Ela se afastou e jogou o cabelo para trás. – Della.
_ Como? – ele a olhou curioso, passando o dedo por seus lábios.
_ Meu nome é Della. Jazz é só um apelido que eu mesma me dei depois que li On The Road.
Ele sorriu.
_ Okay, Della. A irlandesa.
_ Repete!
_ O quê?
_ O meu nome... – E ele respondeu, e assim ela o beijou novamente, deitando-o em sua cama. O calor espalhava-se e cada vez mais o clima esquentava de maneira que ele não precisava de droga alguma mais para satisfazê-lo, somente dela... Della. Ele colocou suas mãos por dentro de sua blusa e desabotoou o sutiã. Ele a ajudou a tirá-lo.
_ É isso mesmo que você quer? – Ele perguntou rouco, alisando suas coxas. Ela hesitou por um instante e mordeu os lábios. – Vou respeitar se não quiser.
_ É só que, sei lá...
_ Della, relaxe. Não vamos fazer nada. Vamos ver TV se você quiser, ou conversar, ou posso ir embora e deixá-la dormir também.
O pânico em seu rosto ficou claro – NÃO! Por favor, então fique aqui comigo?
Ele olhou a garota com olhos cor de mar, seus cabelos desarrumados e em como ela se abraçava com vergonha, com o sangue corando suas bochechas. Ele nunca vira tamanha beleza. Toda a beleza que emanava dela ia muito além da beleza física, mas era uma beleza interior, da sua humildade, simplicidade, de seus costumes.
_Vou trocar de roupa. Feche os olhos e prometa que não irá abri-los. – Ela falou saindo de cima dele. Joseph riu deliciado com o pedido. Então fechou os olhos.
_ Eu não imaginava que as mulheres irlandesas fossem realmente românticas e meigas. Achei que era uma história e essas coisas... Eu adorei isso, aliás.
_ Nós somos, pode acreditar! – A voz oscilava de um lado para o outro e os pés dela faziam barulhos no chão – Também acreditamos realmente em São Patrício. Também amamos muito mais nossa música do que a de vocês, que parece que ofende nossos ouvidos, Deus me livre. – Ela pulou em cima dele sorridente, como uma criança radiante, vestindo um short e uma blusa puída. Joseph abriu os olhos e a segurou pela cintura. – Também posso contar a história do anel de Claddagh. – Ela mostrou o dedo direito indicando o anel. – É minha história preferida.
_ Você é tão patriota, garota. – ele falou beijando o dedo dela.
_ É impossível não amar suas raízes.
Era sim, Joseph sabia exatamente e claramente que era sim possível. Ele era uma prova viva disso. Ele deu um sorriso torto e assentiu.
_ Você me contraria em tudo. – ele admitiu.
_ Desculpe. – Ela respondeu baixinho.
_ Não se desculpe, eu é que sou muito fechado. As circunstâncias me fizeram assim, você vai ter muito trabalho pela frente.
_ Eu aguento, Joseph. – Ela respondeu e novamente o beijou.
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