For the first time
9 Capítulo 9
Ele abriu a porta do apartamento, cuidadosamente para não deixa-la cair no chão. A garota estava tão silenciosa e inerte em seus pensamentos que poderia jurar que ela não estava ali em alma, apenas em corpo. Ele caminhou e a colocou na cama. Retirou os sapatos dela e os jogou no chão, soltou seu cabelo também de forma cautelosa. Não sabia exatamente como limpar maquiagem, mas foi ao banheiro e molhou a toalha de rosto e passou pelo rosto dela, ela o observava, mas ao mesmo tempo não. Estava muito distante. Ele – com muita dificuldade – tirou a blusa dela e a calça jeans e colocou uma de suas blusas de beisebol nela.
A moça continuava tão inerte. Passou a mão pelo rosto e cruzou as mãos na nuca observando a cena. Como chegar até o mundo dela?
Joseph caminhou até a cozinha e colocou água para ferver. Quem sabe um chá...
Durante aqueles minutos a casa ficou em silêncio, estagnada. Cada um mergulhado em pensamentos. De um lado, Della pensando em cada opção que tinha e ainda relembrando as palavras de Wendy e cada vez que escutava novamente em sua cabeça era como um golpe forte e certeiro de uma faca. Ela ainda tentava absorver a força de suas palavras e se pudesse teria ido embora. De outro lado, Joseph estressado, preocupado, com medo do que poderia ter acontecido. Embora soubesse que era algo ruim, tinha medo de perguntar, afinal, nunca vira sua garota mumificada de tal forma, parecia estar... Com muita dor. Ele não queria romper o silêncio, acreditava que cada um precisa de um espaço e tempo para processar os acontecimentos da vida, em algum momento ele faria algo só que esperava ter certeza em qual momento ele faria isso.
O barulho de buzinas lá embaixo na rua contrastava com o silêncio mordaz que se fixara no apartamento. Embora houvesse luz do lado de fora vindo de outras casas, dos postes de iluminação, dos faróis dos carros e até mesmo da cozinha, o ambiente nunca esteve tão escuro, mergulhado em uma calmaria estranha.
Ele pegou uma caneca de chá e caminhou até o quarto.
‘’ Deus me ajude. ‘’ Pensou ele.
Ele sentou a beirada da cama. Della olhou para ele e pegou a caneca que ele lhe oferecia.
_ Pronta para me contar o que houve Jazz?
Ela bebericou do chá e assentiu. A voz saía como um sussurro – Parece que nunca terei paz. Não nesse lugar.
_ Ei, pare de falar assim. Eu estou aqui.
Ela lhe entregou a caneca e continuou.
_ Não devíamos ficar juntos. Não parece algo certo porque nunca vai acontecer naturalmente, não sem ter alguém sempre espreitando pronto para acabar com tudo que nós queremos. Fui egoísta, ignorei completamente o significado da palavra amizade, da palavra confiança ou qualquer coisa do tipo. Meu lugar não é aqui, e fui idiota de achar que você era o cara certo para mim. Garotas como eu não vivem para serem felizes, isto é conto de fadas. Garotas como eu são deslocadas.
_ Do que é que você está falando? Anjo, de onde vem tudo isso? – Joseph perguntou com medo da resposta.
_ Ela... Eu estava saindo do trabalho e Wendy me encontrou e me ameaçou. Disse várias coisas que tenho certeza que outras pessoas também achariam verdade. Ela me pediu para nunca mais voltar naquele lugar e...
Joseph levantou enfurecido. Sua boca tinha gosto de bile. Tamanha era sua fúria, queria dirigir até a mansão onde aquela idiota morava e lhe ferir, queria de verdade poder machuca-la da mesma maneira que ela machucava as pessoas que não faziam o que ela esperava. Ele fechou a mão em punhos tentando se controlar, no entanto, cada vez que ele lembrava das coisas que essas garota mimada fazia a fúria crescia e lhe atacava como um leão ensandecido. Socou a porta para tentar extravasar sua raiva. Não adiantou.
_ Não, Joseph pare...
_ Parar por quê? Me poupe do seu discurso ‘’ apesar de tudo ela é uma pessoa boa, a culpa foi minha’’ Não vou ficar escutando você ficar chorando achando que a culpa é toda sua enquanto aquela vadia fica lá achando que tem poder sobre alguém. – Ele cuspia cada palavra com tamanho ódio.
_ Ela não está de todo errado. – Della gritou.
_ Nós nunca fomos mais que sexo, só que ela não consegue entender. Nunca senti nada por ela. Eu me apaixonei por você naquela noite, mas fui um estúpido de não dispensá-la e leva-la para aquele maldito quarto. Eu amo você e você me ama! É isso que importa. Eu sei que ela te ajudou, mas a vida não caminha conforme nós queremos. – Ele caminhou até a janela e depois se virou para Della. – Por favor, pare de se culpar. Porque se a culpa for maior do que você sente por mim eu não vou conseguir ficar aqui olhando você chorar por achar que estamos juntos é um erro.
_ Não sei Joseph, parece um tanto errado. Eu sei... Me desculpa! – As lágrimas sufocantes rolaram pelo rosto dela. – Tudo que aconteceu hoje me fez ficar um pouco chateada com tudo. Eu gostava realmente deste emprego. Era minha chance de tentar pagar meu curso.
_ Ela não manda em você, volte ao seu emprego. E se este não der certo procure outro. Ninguém pode te impedir.
Não era assim tão simples. Não era assim tão claro como água.
Ela respirou fundo e resolveu contar a ele.
_ Não posso trabalhar. Não da forma como eu quero. Meu visto é de estudante, e o acordo seria de que eu iria vir para estudar e somente isso só que eu não tenho dinheiro para estudar, muito menos me bancar nesse país sozinha e o que meus pais me mandam nunca daria para pagar um curso. É por isso que sempre estou fazendo alguns trabalhos freelances. É por isso que trabalho para Vera. – Ela respirou fundo mais uma vez, olhando cautelosamente a reação dele – Meu visto vai expirar logo e eu não sei o que vai acontecer. Tenho fé de que tudo dará certo mas...
Ele ficou paralisado. A linha da boca ficou rígida e tensa e seus olhos indecifráveis.
_ Você está fazendo alguma piada?
Ela permaneceu séria para mostrar que não havia nenhuma piada. Por mais que quisesse, não havia nenhum resquício de brincadeira ou humor no que ela dissera, apenas a verdade!
_ Certo, vamos lá resolver esse assunto. É coisa simples, a gente resolve e o assunto vai estar encerrado.
O QUÊ?
_ NÃO é simples. – Ela dissera olhando para o chão.
Claro que não era, as coisas nunca eram fáceis. Isso aqui era a vida real e não um filme hollywoodiano. Deus quanta dificuldade para uma vida só. Era alguma piada a vida? Porque se era, já estava na hora do humor acabar e voltar à seriedade.
_ Não posso ficar aqui para sempre. Eu tenho uma família, tenho amigos, uma vida em Dublin.
Ele sentou na cama e pegou sua mão. – E tem a mim.
Ela apertou sua mão gentilmente e tocou o contorno de sua boca.
_ Eu sei! Só que eu não posso ficar aqui atrasando sua vida. Não existiria justiça assim e eu não sei se daria certo, ainda teríamos que aceitar que meu visto em breve expira e não tem nada que possa fazer a menos que pague o curso de Fotografia. – Ela beijou-o levemente e olhou em seus olhos – E eu não vou permitir que assuma essa responsabilidade só para que eu fique. Você não me deve nada, Joseph.
_Tem de haver um jeito...
_ Só se você se casasse comigo, mas mesmo assim não era certeza.
Casamento? Argh. Joseph sentiu algo frio dentro de si. Um medo. Uma nostalgia e curvou a cabeça tentando esconder a reação.
_ Eu entendo que é pedir demais por isso não vou pedir isso. Jamais. Você pensa totalmente diferente de mim e nunca me deixa saber o porquê.
Ele deu um beijo rápido nela e sussurrou em seu ouvido ‘’ Vou pensar de verdade. Você não vai embora, amor. ‘’ Ele levantou, pegou a jaqueta e saiu.
Saiu sem dizer aonde iria, para quê e se voltaria.
*
Estacionou a moto logo ali na entrada gigantesca e fina da mansão do avô de Wendy. Ele não sabia ao certo se a garota estaria ali, mas rezou para que estivesse. Uma parte dentro de si queria pegá-la pelo cabelo e arrastá-la para algum lugar onde ninguém iria procura-los e esfregar na cara dela tudo que estava entalado em sua garganta. Dizer a ela o quanto era uma garotinha mimada e egocêntrica, que nunca deveria ter se deitado com uma vadia igual aquela, queria gritar para ela o quão estúpida ela era. Mas também queria lhe implorar para que ela desse o fora, sumisse e também que o ajudasse a arrumar um novo visto para Della.
Claro que seu orgulho era maior que qualquer arranha-céu daquela cidade, ele NUNCA faria aquilo. Então se contentaria com a primeira opção.
Esperou um tempo.
Por fim, percebeu que não iria adiantar jogar na cara dela tudo, só iria fazê-la perceber que garotas como ela realmente podiam mexer com a vida alheia. Ele não daria esse gostinho à ela. Não mesmo. Além disso, ele precisava se concentrar em outras coisas.
Enquanto dirigia cada assunto que o deixava preocupado se passou em sua mente: Wendy ameaçara Della e com certeza iria fazer de tudo para denuncia-la para a imigração. Della estava tão chateada e confusa que transmitia estes sentimentos a ele e o deixava atordoado. Vera não poderia ajudar em muita coisa, na verdade, não havia muita coisa a ser feita. E o casamento... Ele varreu aquela possibilidade, mesmo que ajudasse não era uma garantia certeira e ele não queria aquele verdadeiramente. Casamento despertava nele uma angústia, um medo, lembranças traumáticas de sua vida em Denver e por mais que amasse muito aquela garota não sabia se conseguiria superar o trauma. Ainda tinha o fato de que não continuaria no emprego.
A vida sempre lhe confrontava, mas desta vez ela partira para cima com tudo. Mais uma vez ele era colocado frente a frente com a realidade e desta vez não sabia como faria para se encaixar adequadamente.
Se Della soubesse de tudo que estava se passando em sua cabeça e cada desafio que lhe era proposto com certeza diria que era um teste de Deus.
De um lado a garota deitada na cama angustiada com seu coração quebrado, do outro, ele na soleira da porta na fila dos desempregados, mas com o orgulho encaixado em todo o seu ser.
Ele rumou para um pub que havia perto do Central Park, mesmo com todo o trânsito de quarta-feira. Ele sentia algo dentro de si que parecia que iria explodir, mas tudo que queria era beber algum vinho barato e tragar alguns cigarros como se isso dissesse ao mundo ‘’ Hey, são tempos difíceis e vão nos deixar loucos, mas eu não vou desistir então não desista de mim. ‘’
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