For The Love Of A Daughter
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Hoje seria meu primeiro dia de aula desde que tinha 7 anos, por um milagre Patrick resolveu que me colocaria em uma escola de novo. Na verdade em um internato... é melhor que ficar perto dele. Ainda não sei como o suportei todo esse tempo, trancada nesse quarto escuro, no qual já passei tantas coisas horríveis quanto se pode imaginar. Sem poder morrer, mas também sem poder viver. Minha irmã mais velha, Dallas, fugiu com minha mãe no mesmo ano que Patrick me tirou da escola e me deixou presa aqui desde então, me dando de comer e de beber a força, me queria viva, não sei o porquê, mas queria. Apesar de já ter quase me matado uma vez. Acho que está me fazendo de refém esperando que um dia a mamãe voltasse... e, sinceramente, eu também espero.
Ela não me largou aqui simplesmente, não, ela tentou me levar junto com ela e Dallas, mas não deu certo...
Flashback [on]
Eu estava com o meu caderninho de desenhos em meu quarto, o caderno que eu usava pra me expressar, meu refúgio quando chegava em casa da escolinha e tinha que ouvir coisas que não queria, coisas que me faziam mal, que me faziam chorar, mas parecia que eles não percebiam. Aquele dia não era diferente. Ouvia gritos da briga que meus pais travavam todo santo dia, vindos da cozinha. Ele chegava bêbado em casa, mamãe reclamava, ele retrucava, e era assim sempre. Já tinham praticamente um discurso decorado, até o dia que papai começou a bater nela. Hoje parecia pior três vezes.
- EU VOU EMBORA DESSA MERDA DESSA CASA, EU NÃO AGUENTO MAIS, PATRICK, NÃO AGUENTO MAIS TODOS OS DIAS AS MESMAS DISCUSSÕES, A MESMA VISÃO DE VOCÊ BÊBADO, A MESMA PREOCUPAÇÃO COM AS MENINAS, — gritava Dianna — EU NÃO TE SUPORTO MAIS! VOCÊ É UM COV... — Ouviu-se um estalo de peles se chocando com violência impedindo que ela continuasse.
- NÃO SE ATREVA A FALAR COMIGO ASSIM, SUA VADIA! — uma voz grave e furiosa respondeu no mesmo tom da outra. — Você não vai a lugar algum.
Houve silêncio por alguns momentos.
- Já... chega! — disse Dianna, firme, porém com dificuldade pela alteração e nervosismo, fora o tapa bem dado que acabou de receber da mão pesada do marido. Ouviu-se passos. — Venha, meu amor, vamos embora. — agora sua voz urgente e preocupada. — Vamos pegar sua irmã e sair dessa casa pra sempre.
Eu ouvia tudo do meu quarto de olhos fechados muito apertados, e com as mãos na cabeça agarradas aos meus cabelos castanhos, na tentativa frustrada de pensar em outra coisa.
Achei estranho o silêncio mais duradouro dessa vez, olhei pra porta, esperando que mamãe entrasse e eu pudesse correr até ela, abraçá-la, e ela me levaria embora desse lugar horrível. Mas em vez disso, quem entrou foi... ele. ele nunca tinha feito nada contra mim, e creio que nem contra Dallas, mas dessa vez ele olhou pra mim e a fúria esbanjava em seus olhos, uma garrafa com líquido que eu desconhecia, mas sabia que tinha álcool, apenas no fundo dela, em uma de suas mãos. E me assustei quando olhei a outra, que segurava com força o cabo de um facão. Ele entrou cambaleante, largou a garrafa para um lado que caiu com estrépito, mas não quebrou. Vinha em minha direção com a mesma mão cerrada, e a mesma que agarrou minha blusa me elevando do chão.
- Você não vai a lugar algum, mocinha — ele me disse cerrando os dentes, logo ouvi a respiração rápida da minha mãe e um gemido medroso de minha irmã.
Ele virou para a porta me puxando junto, me segurava com força no braço enquanto apontava a faca para meu pescoço
- Mãe... — minha voz saiu fraca e falha e eu já estava chorando e com muito, muito medo.
- Pratrick, solte-a! — mamãe disse tentando parecer forte e sem medo, mas não conseguia.
- Não. Vocês ficam e eu não machuco a garota. Se forem, ela morre.
Elas não tiveram tempo de responder. O som de uma sirene de polícia invadiu o ambiente. Todos naquele quarto viraram a cabeça para a janela. Senti meu pai firmar sua mão grossa e pesada em mim, mas vi a expressão de Dallas relaxar junto com a minha. Estávamos pensando a mesma coisa: estamos salvos.
- Você chamou a polícia?! — rosnou Patrick numa pergunta retórica.
- Solte a minha menina e eu digo que foi tudo um engano.
- Ainda não aprendeu que chantagem não fun... — ele foi interrompido por um barulho de tiro, que veio na direção do quarto, mas não acertou ninguém.
Quando me vi livre dele, que se jogou no chão para o lado, corri para onde minha mãe estava abraçada a Dallas como se fosse protegê-la, até que viu o que houve, tentou pegar minha mão, mas não conseguiu pois fui puxada pra trás de volta, então gritei.
Depois disso aconteceu tudo muito rápido. Ele cortou minha garganta, eu chorava muito, estava com muita dor, não conseguia pensar e quando vi que ele estava indo em frente para fazer o mesmo com elas. Queria gritar ajuda, mas nada saia.
Até que tudo escureceu.
Flashback [off]
Tenho a cicatriz do corte no pescoço ainda, a única visível desse nível e alguns hematomas. Mas as piores são as emocionais. Ele não era um pai, era um monstro. Ele e os amigos drogados, que estavam sempre aqui, que já bateram em mim e fizeram coisas piores. Eu não tinha coragem de tentar sair, arrombar a porta ou pular pela janela pois sabia que sempre estavam por perto. Eu não tinha contato com pessoas da minha idade, cresci durante esses cinco anos com a amargura, insegurança, com medo de tudo. Não confiava em ninguém. Era apenas uma criança e não tinha como me defender.
Até hoje eu não sei o que aconteceu após eu ficar inconsciente, apenas tenho uma ideia pelo que ele resmunga quando chega em casa bêbado, mas as palavras não fazem muito sentido pra mim. Principalmente não entendo como a polícia não o pegou. Eu já devia estar longe dessa imundície desde aquele dia. Mas de uma coisa eu sei: mamãe e Dallas ainda estão vivas, porque ele reclamou disso por dias seguidos.
Será que elas sabem que eu ainda estou aqui também?
Agora, finalmente, elas vão saber. Porque somente agora tive a chance de sair daqui, e não vou desperdiçá-la com mais nada a não ser na procura por minha mãe e minha irmã. E então nunca mais vou precisar olhar pra cara desse crápula.
Pensar nisso tudo que passei me fortalece pra continuar o que planejei até agora desde que ele disse que me colocaria num internato. Fortalece-me lembrar de que minha mãe está viva, de como eu sorri a primeira vez que o ouvi reclamar que a deixou escapar... eu preciso dela, e vou poder abraçá-la antes do que eu imagino. Tenho certeza.
Já estava arrumada e minha mala feita com as poucas coisas que tinha. Todos os hematomas que ele me fez haviam quase sumido completamente (pelo menos ele não tentou fazer mais nenhum na última semana), mas ainda precisava escondê-los com a manga da blusa. Peguei a mala e peguei na maçaneta da porta do meu quarto, respirei fundo pensando em finalmente poder voltar a ver a luz do dia. Abri e saí dali, meu coração acelerou. Abriu com tanta facilidade que me deixou confusa, tanto tempo que tentava abrir, mas não conseguia. Depois de um tempo desisti de tentar, ficava apenas no meu canto com meu caderno que era de desenhos, agora como um diário, escrevendo e não me dava ao trabalho de ir até aquela porta mais. Será que ela estava aberta há muito tempo e eu nem percebi? Não, com certeza não. Andava pela sala olhando tudo em volta, era uma bela casa. Meu pai herdou tudo de meu avô, um homem bem-sucedido e honesto por incrível que pareça.
Havia um homem dormindo no sofá, sujo, nojento, com uma barba muito desalinhada e muito suja. Dava repulsa olhá-lo. Passei por ele sem fazer barulho, abri a porta da frente, observei o céu azul com um sol magnífico brilhando, o som dos passarinhos nessa manhã linda e fora do habitual da época. Respirei fundo de olhos fechados o ar fresco enquanto uma brisa leve roçava meu rosto. Há tanto tempo que não sentia isso... Estava livre. Praticamente.
Algumas horas depois...
Acordei assustada com a parada brusca do ônibus. Olhei através da janela e dei de cara com uma enorme estrutura, pintada de vermelho e branco. Eu desceria ali.
Os portões estavam entreabertos. Dei de ombros e entrei, seguindo para a grande porta do prédio. Não havia movimento algum no campo ou na quadra; deviam estar todos dormindo. Olhei meu relógio de pulso que marcava 6h10. Continuei andando e logo avistei um balcão com uma mulher muito concentrada por trás dele em uns montes de papéis.
- Bom dia — chamei sua atenção.
- Posso ajudar? — ela permaneceu olhando os papéis.
- Sim. Sou nova aqui e preciso saber em que quarto vou ficar.
- Seu nome, por favor?
- Lovato. Demetria Lovato.
Ela passou os olhos por uma lista, parou em uma parte e ergueu os olhos pra mim pela primeira vez. Era intimidadora.
- Quarto 253. — ela pegou uma chave e me entregou — Suba dois lances de escada e vire a primeira direita. – pegou um papel e me entregou também – esses são seus horários para as aulas. Esteja de uniforme às 8h em ponto.
Agradeci e segui o caminho que ela mandou olhando as informações na folha.
Não encontrei ninguém ao entrar no quarto, mas havia o som do chuveiro ligado. Tranquei a porta atrás de mim e percorri o cômodo com os olhos. Havia pôsteres nas paredes de bandas que desconhecia, pareciam bandas de rock. Uma bagunça só no chão, com roupas espalhadas por todo canto, achei até estranho ver um guarda roupa, não parecia ter lugar pra colocar esse monte de roupa. Havia também um gaveteiro com a última gaveta aberta completamente bagunçada, e encima dele, quites de maquiagem e na parede um espelho relativamente grande. Também havia duas camas no cômodo sendo que demorei pra reparar na segunda, que tinha entulhos, caixas fechadas por cima. Encima da outra cama vi a única coisa limpa e bem cuidada dali, uma guitarra.
Saiu um riso abafado analisando tudo isso. A minha colega de quarto era bem relaxada pelo jeito. Deixei minha única mala num canto e reparei que o som do chuveiro havia cessado. Nesse momento, a porta dele se abriu, e pude avistar uma figura totalmente linda sair com uma camisa do tipo das que tinham espalhadas pelo chão, calça jeans preta e com uma toalha enrolada na cabeça. Era magra, sua pele, branca, seus cabelos, pelos fios que saíam da toalha, davam pra ver que eram pretos. Seu rosto, angelical, nariz perfeitamente desenhado, belos olhos castanhos que capturaram os meus por um momento, e uma boca linda transformada num pequeno sorriso. Não pude deixar de sorrir também e desviei o olhar pra qualquer lugar menos seus olhos. Não tinha muita coragem de encarar alguém nos olhos faz tempo.
- Desculpe a bagunça, – ela disse ainda sorrindo – não sabia que viria hoje. – retirou a toalha da cabeça e os cabelos caíram bagunçados em seus ombros, em largos cachos negros até a metade das costas.
- Tudo bem, depois damos um jeito nisso – disse retribuindo o sorriso. – Você deve ser...
- Selena! – ela disse estendendo a mão que apertei logo em seguida. – E você é Demetria, certo?
- Por favor, me chame somente de Demi.
- Tudo bem, Demi. Espero que sejamos amigas. – sorriu novamente mostrando os dentes brancos. Adorei seu sorriso. Apenas assenti com um meio sorriso tímido.
Notas finais
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