For Once In My Life

11 Mudança de planos


Notas iniciais
Tardo mas não falho, como sempre ;D

Naquela mesma semana, durante um dos meus intervalos da gravação de um comercial, fui até o templo que ficava próximo ao estúdio para uma caminhada. Sempre tive o costume de fazer pedidos e orações em templos, como meu pai me ensinara. Papai convertera-se para casar com minha mãe, mas dentro dele ainda morava a fé shintoísta, a qual ele fez questão de passar para mim. Era uma tarde fria de outono, e eu resolvi acender um incenso e orar pedindo para que meu casamento com Kouyou fosse o mais feliz possível. Coincidentemente, naquela tarde, um casamento shinto estava sendo realizado no templo. Observei à distância a proscissão passar, a noiva sublime vestindo seu shiromaku, o silêncio e as cores em contraste, a atmosfera solene e a grandiosidade mascarada da cerimônia me fizeram repensar os meus ideais ao que se referia ao meu casamento. E de repente, ali mesmo, minha cabeça mudou. Peguei o telefone e disquei o número de Kouyou o mais rápido que pude, pouco me importava se ele estava ensaiando ou não.

- Anna? — atendeu confuso. — É urgente? Tô no meio do ensaio...

- Mudei de idéia.

- Mudou de idéia?

- É.

- Sobre o que?

- Sobre o casamento.

- Quê?! Você não quer mais...? — pareceu aterrorizado.

- Claro que quero, tolinho. Mas escuta... — afastei o celular do ouvido e coloquei-o na direção de onde vinha o som dos shamisen e shakuhachi. — Ouviu?

- Isso é Gagaku? — ele riu um pouco.

- É! Não é bonito?

- É sim... Mas o que você quer dizer com isso?

- Gosta de hakama, Shima? Se não, é melhor começar a gostar, porque teremos um casamento shinto. — eu ri.

- Uau... — pude notar pela voz dele que ficara paralisado.

- Quero dizer... Se estiver tudo bem pra você, é claro...

- Tá, claro que tá. Tá tudo ótimo. — soou entusiasmado.

- Sua mãe vai adorar, não vai?

- Vai... E como.

- Que bom. Ok, vou te deixar ensaiar agora... A gente conversa em casa.

- Ok, até mais tarde. — e desligou.

Eu tinha gostado da minha decisão. Quero dizer, no fundo eu iria me sentir mal futuramente se não tiver uma cerimônia religiosa, afinal eu posso não ser nem cristã e nem shintoísta assídua mas definitivamente acredito em alguma força superior. E além do mais, o casamento shinto era a melhor forma de se selar um compromisso entre duas almas. Casar deve ser um ato de grande importância na vida de alguém, e eu sinceramente não vejo tão grande significado em assinar um papel na frente de um juíz e dar um banquete pra meia dúzia de amigos.

- Então... Casamento shinto, hã? — disse Kouyou, quando nos encontrávamos sentados na cozinha comendo pizza.

- É... Não é ótimo?

- O que te fez mudar de idéia, Anna?

- Nada de especial. Eu tava andando no Yoyogi Park hoje a tarde e tava acontecendo um casamento em Meiji. Quando a proscissão passou por mim eu notei o quão profundo e espiritual o casamento shinto realmente é. Mexeu comigo de alguma forma.

- Como você acha que os sicilianos reagirão a isso? — perguntou, sorrindo de canto.

- Bom, eles vão ser cordiais mas no fundo eles estarão tão irritados que não verão a hora de ir embora. Sabe... Casar aqui no Japão e numa cerimônia tradicionalmente japonesa, me ajuda a dizer a eles que não quero amarras. Se nós optássemos por algo simples e um tanto ocidental, uma hora ou outra eles nos arrastariam pro lado negro da força. Mas o casamento shinto diz a eles que eu não quero ser italiana de jeito nenhum, pelo contrário, diz que eu quero ser japonesa, afinal eu moro aqui, meu marido é japonês e se eu tiver filhos, estes também vão ser, e com muito orgulho, obrigada. Enfim... Minha vida faço eu, onde eu quiser, com quem eu quiser e do jeito que eu quiser, não é mesmo?

- Então isso é você se rebelando? — riu.

- Talvez... — arqueei a sobrancelha e ri também — Vai se juntar a mim na rebelião, companheiro?

- Como quiser, companheira.

- Eu tava pensando em fazer a cerimônia num hotel. Sabe, é o mais apropriado, já que dessa forma a gente pode ter a cerimônia religiosa e a recepção no mesmo lugar. E minha família pode ficar hospedada lá.

- E... A gente pode se hospedar numa suíte de luxo pra nossa noite de núpcias. — sorriu sacana.

- Quando você poderá finalmente... — fui me sentar em seu colo — Me tomar nos braços e me fazer mulher. — brinquei.

- Oh, eu prometo te fazer feliz, minha doce Anna. — riu, beijando-me a mão.

- Seja gentil, será minha primeira vez, Takashima-san. <3 — disse, piscando os olhos e sorrindo feito uma boneca.

- Tá, claro. — riu — Sabe que lugar seria ótimo? O Laforet.

- Ah, seria mesmo. Ouvi dizer que o Gotenyama Garden é lindo...

- É sim... Mas será que não é caro demais?

- Não se preocupe. É a família da noiva que paga pela festa. E eles vão se sentir ofendidos caso alguém insistir no contrário.

- Então os italianos vão pagar pela revolução além de tudo?

- Vão, claro que vão. Numa das minhas conversas particulares com o vovô lá na Itália ele me disse que eu podia planejar o que quisesse e só mandar a conta pra ele.

- Eles são mesmo tão ricos assim?

- Tá de brincadeira né? Importação de azeite, fábrica de motores, imóveis em Roma, vinhedos, duas ou três pousadas na costa... Os Giordano tem dinheiro suficiente pra alimentar um país da África. — respondi — Eles vão nos dar a festa e mais uma gorda quantia em dinheiro como presente. Dinheiro aliás que pode pagar pela nossa lua-de-mel e uma parte do valor da casa. Porque afinal estamos falando de euro, não é mesmo Shima?

- Parece ótimo. — suspirou. — Mas antes você tem que dar essa notícia a eles...

- Hm... — resmunguei — Tem razão. Amanhã eu ligo.

- Não. Liga agora.

- Nem pensar. — afundei o rosto em seu pescoço. — É muito tarde.

- Anna... — disse, um tanto repreensivo. — Liga agora... — e então seu tom mudou para um mais doce e suas mãos acariciaram meus braços. Ele estava tentando me persuadir, e estava conseguindo — Pelo fuso eles devem estar jantando agora.

- Ok, ok... Vamos lá na sala e eu ligo. — levantei-me e fui até a sala a passos lentos, ele me seguiu. Disquei o número da casa dos meus avós.

- Alô? — pude identificar a voz do outro lado como a do meu pai.

- Otousan?

- Anna!

- Otousan, vou te colocar no viva-voz, não diga nada constrangedor. — eu ri, colocando o telefone no viva-voz.

- Ok... Olá, Kouyou. — disse meu pai, alegremente.

- Olá, Osaki-san. — respondeu o loiro.

- Tá tudo bem com todo mundo, otousan? — perguntei.

- Ah, tá sim. Seu irmão finalmente voltou de Roma.

- Ah, diga a ele que eu disse \"olá\". Aliás, mande um abraço a todos. — completei.

- E como vocês estão? — perguntou meu pai.

- Estamos bem, muito bem pra falar a verdade. — parei por uns instantes — Na verdade, fiquei feliz que você tenha atendido, otousan, porque temos um comunicado a fazer, e não sei se o conseguiríamos falando diretamente com Il Don. — eu ri — Então vai ter que quebrar esse galho pra mim, pai, tudo bem?

- Quebro todos os galhos que você precisar, menina. — respondeu, denotando carinho na voz.

- Eu e Kouyou, nós decidimos nos casar no Japão. — revelei — E mais... Decidimos ter um casamento shinto.

- Ah... Minha nossa... Mas isso é ótimo! — meu pai riu do outro lado e Kouyou sorriu pra mim — Fico muito feliz por vocês, Anna! É uma ótima decisão.

- Eu sei, pai. Obrigada. — completei — O que você acha que o vovô vai achar?

- Ele não vai gostar nem um pouco. — meu pai sussurrou um pouco, rindo.

- Foi o que pensei. — ri também.

- Ele vai considerar um ultraje, vai dizer que você se envergonha de ser siciliana e tudo mais... Mas esse é Don Angelo, o que podemos fazer hã?

- Tem razão... Mas ele supera, tenho certeza. Então, otousan, nós nos casaremos em maio, se possível no dia 2. Já temos um lugar em mente. Será num hotel, assim vocês poderão se hospedar no mesmo lugar em que cerimônia e a festa acontecerão.

- Ótimo. Vou me certificar de que os Giordano sejam informados. — meu pai parecia feliz com as condições.

- Obrigada, otousan. Fico te devendo uma.

- Disponha, minha filha. Agora, deixe-me ir, do contrário sua avó me deixa sem sobremesa — riu — Kouyou, cuide bem da minha filha hein rapaz?

- Cuidarei, Osaki-san, pode ter certeza. — Uru sorriu.

- Até mais, otousan.

- Até. — então meu pai desligou.

- Viu só? Nem foi difícil. — disse o loiro, recostando-se no sofá.

- Não foi porque por uma feliz coincidência meu pai foi quem atendeu. — retruquei, voltando à cozinha.

- Anna... — apareceu na porta da cozinha. — Tô feliz da gente realmente estar fazendo isso.

- Eu também. — parei de colocar os pratos na pia e encarei-o, devolvendo-lhe o sorriso.

- Por que você não deixa essa louça pra amanhã e vem me namorar um pouquinho? — aproximou-se de mim, andando, falando e sorrindo daquele jeito que sempre fazia quando não queria ouvir um \"não\" como resposta.

- Espera só um pouquinho... Eu lavo rapinho. Você sabe como eu odeio deixar louça pro outro dia. — resmunguei.

- A louça espera... — e me puxou pros seus braços, roubando-me um beijo que me fez desistir de resistir.

Com os olhos fechados, rosto encostado no dele, seus dedos correndo pelos meus cabelos e sua respiração quente contra a minha pele, entorpecida pelo seu abraço perfumado, mais uma vez eu notei que havia achado o paraíso. A TV ligada parecia distante, as vozes se embaralhavam, só o que importava era aconchegar-me aos braços de Kouyou e sentir seu coração bater sob minha mão em seu peito. Eu brincava mechas de seu cabelo entre os dedos, enquanto ele distraía-se com uma coisa qualquer na TV. Pensei no que seria de mim sem ele. Cerrei os lábios com força e afundei meus dedos em sua pele, inconscientemente, como se aquilo fosse capaz de não deixá-lo escapar nunca.

- Anna? O que houve? — sua voz soou calma, mas preocupada ao mesmo tempo.

- Nada... — levantei o rosto, encarando-o. Ao ver que ele sorria discretamente, meus dedos soltaram seus braços. — Me diz que nunca vai me deixar. — passei os dedos por seus lábios.

- Eu nunca vou te deixar. — apertou os braços à minha volta.

Suspirei, voltando a esconder o rosto em seu abraço, me deixando levar mais uma vez pela certeza confortável de que ele estaria ali para sempre.