O celular tocando insistentemente sobre a cômoda me fez revirar quase dolorosamente debaixo das cobertas. Amaldiçoei com todo o ódio dentro de mim quem quer que fosse o sujeito inconveniente que estava ligando àquela hora da manhã. Abri um dos olhos com muito custo e vi que começava a amanhecer lá fora. O céu já tomava um tom de azul meio acinzentado e as nuvens se dispersavam. O telefone não parava de tocar, me dava a sensação de que estava tocando dentro da minha cabeça. Ah, maldito seja! Revirei-me, atirando as cobertas para o lado. Cambaleei até a cômoda, já que meu cérebro ainda dormia e recusava-se a mandar impulsos para que minhas pernas obedecessem e andassem direito. Ah eu queria matar essa pessoa do outro lado da linha!

— Nem amanheceu ainda. – resmunguei ao atender a chamada.

— Também amo você. – aquela voz suave seguida de uma risada gostosa poderia ter sido suficiente pra amolecer o meu coração, mas era cedo demais pra ser doce.

— Filho da mãe.

— Te acordei? – o tom cínico da pergunta me fez jurar que eu o espancaria quando ele chegasse em casa.

— Uma palavra pra você: fuso! – sibilei. – Você deve estar tomando o chá das cinco em um café com vista pro Big Bang, mas isso não quer dizer que eu também esteja, sua anta.

— Quanta doçura. – e o cretino ainda tinha coragem de gargalhar.

— O que você quer? – meu cérebro finalmente despertara.

— Quero saber se ainda tem lugar pra mim nesta casa, ou se a senhorita já colocou outro no meu lugar?

— Devo dizer que o senhor foi muito bem substituído, senhor Takashima.

— Mesmo? Prossiga senhorita.

— Um grego de olhos verdes, chamado Miklos está no seu lugar. Ele é pescador e promete me levar pra uma ilha.

— Hum, certo. Diga ao senhor Miklos que faça as malas e volte pra Grécia porque o seu namorado, que, diga-se de passagem, não cheira à peixe, está voltando.

— Hum, vejamos... Um grego e um japonês? Dúvida cruel.

— Tô saindo daqui hoje, às nove.

— Tudo bem, a que horas eu e o Miklos devemos ir te buscar no aeroporto?

— Bom, são dez horas de vôo, faça as contas. Ah, vá me buscar na sede da gravadora.

— Te vejo amanhã as sete, doçura. – e desliguei.

Coloquei o celular sobre a cômoda e sentei-me na cama. Cogitei voltar a dormir, mas meu cérebro já havia aceitado a idéia de estar acordada. E já que dormir estava fora de questão, banho.

Entrei no banheiro e deparei-me com os vestígios dele na minha vida. A escova de dente ao lado da minha, o barbeador, a toalha de banho, o frasco de perfume, o cheiro da pele dele nas minhas roupas, os fios louros na minha escova de cabelo; coisas que pareciam minúsculas e insignificantes, mas que eram meu conforto quando ele viajava. Mesmo que ele estivesse a milhares de quilômetros dali, a impressão que eu tinha era de que ele ainda estava ali. Eu bancava a durona, mas a verdade era que a minha felicidade dependia dele. E ele sabia muito bem disso e se aproveitava do fato pra saciar sua sede dos meus abraços e carinhos. E eu cedia, só porque sabia que era mútuo. Uruha e eu éramos co-dependentes.

Saber que dali a pouco mais de vinte e quatro horas eu estaria nos braços dele de novo só serviu para alimentar a minha ansiedade e fazer o dia passar ainda mais devagar. A gravação foi fastidiosa e cansativa, minha vontade de trabalhar era quase nula, o que fazia com que as palavras saíssem dos meus lábios mais como murmúrios e resmungos do que palavras de fato. Dar ordens parecia uma coisa estúpida a se fazer sendo que dali a poucas horas eu estaria o ouvindo sussurrar palavras doces no meu ouvido.

Encerrei a gravação um pouco antes do que o de costume e fui ao mercado comprar coisas para preparar algo para Uruha, afinal não queria ser privada dos beijos carinhosos que eu sabia que ele me daria se eu lhe servisse algo feito em casa ao invés de rosquinha da padaria do outro lado da rua. Cheguei em casa e preparei um bolo de chocolate com avelãs, um de seus preferidos, e então me afundei no sofá esperando que as horas voassem e que amanhecesse logo pra que eu fosse buscá-lo.

As imagens na tela da televisão não faziam o mínimo sentido, a não ser os beijos dos casais apaixonados dos filmes românticos, que me faziam sentir ainda mais falta daquelas mechas douradas entre os meus dedos e aquela boca procurando a minha como se isso fosse a última das mil coisas a fazer antes de morrer. Fiquei ali por horas, encarando o teto sobre a minha cabeça, cheirando o travesseiro vazio ao meu lado e recordando cada milésimo de segundo vivido naquele apartamento como se fossem os mais preciosos da minha vida.

Nem soube dizer como foi que peguei no sono, tanto que só percebi que dormia quando o alarme do celular disparou me avisando que eram seis e meia e eu tinha dez minutos pra tomar banho e me vestir e vinte minutos pra chegar à gravadora. Por pouco não entrei no chuveiro de meias no meio de tanta pressa. Não sequei os cabelos mesmo sabendo que sairia no vento frio lá fora e que isso poderia acarretar num resfriado sério. Mas isso não importava agora. Enfiei-me no primeiro jeans que vi, uma camiseta, as botas baixas e corri para sala. Já estava quase do lado de fora do apartamento quando lembrei das chaves do carro e o casaco. Vesti um casaco aleatório do cabide próximo à porta, tal que só fui perceber que se tratava de um casaco dele quando estava parada no semáforo no fim da rua. Ri sozinha do meu descuido pouco antes de encolher-me subitamente soltando alguns palavrões por conta de um trovão que ecoou sem aviso pela cidade. Mais alguns relampejos e trovoadas durante o percurso e quando estacionei em frente ao prédio da gravadora o céu já desabava sobre Tokyo fazendo as pessoas correrem de um lado para o outro como se tentassem se salvar de um dilúvio.

A chuva forte e pesada só serviu para alimentar minha agonia enquanto eu me encolhia dentro do carro amaldiçoando Uruha por não ter mandado o ar condicionado do carro pro concerto. O que me confortava era saber que dali a poucos minutos seriam os braços de Uruha que serviriam como abrigo naquela maldita manhã fria. Liguei o aparelho de som e logo ouvi o som daquela guitarra conhecida. Sim, ele era egocêntrico o suficiente pra ouvir a si próprio e dizer: “Uau! Que solo incrível! Quem é esse cara?” e eu ria da infantilidade dele. Quando menos percebi a van preta da banda dobrou a esquina e entrou pela garagem do prédio. Meu coração aqueceu e fez um sorriso brotar dos meus lábios. Os minutos se arrastaram até que ele saísse pela porta da frente seguido de Reita. Uma sensação doce e suave me envolveu ao vê-lo lá, sorrindo, enrolado no casaco de couro, de trás dos óculos escuros, mala na mão.

Ele acenou para os outros que estavam ainda dentro do prédio, lançou um olhar triste e um muxoxo para a chuva que caía insistentemente, encolheu-se no casaco, respirou fundo e correu até o carro. Senti-me mal por ter estacionado do outro lado da rua, mas ao mesmo tempo não consegui não achar graça quando ele bateu a porta do carro, praguejando ao entrar.

— Deus do céu! O que é isso?! Dilúvio chegou em Tokyo? – disse, colocando a mala no banco de trás.

— É o que parece. Não vamos esquecer os unicórnios dessa vez, Noé. – eu ri.

— Ué, cadê o Miklos? – olhou em volta como se procurasse por alguém.

— Ele viu a sua foto, ficou com medo e voou de volta pra Atenas.

— Aterrorizado eu suponho. – arqueou uma sobrancelha.

— Óbvio.

— Oi. – sorriu largamente expondo os dentes infantis.

— Oi. – respondi antes de ganhar meu tão esperado beijo. – Como foi na Europa, senhor rock star?

— Como esperado, senhora hollywood star. Shows lotados, garotas desmaiando, Ruki bêbado, enfim... Foi legal.

— Quando a gente chegar em casa quero que me conte tudo, com detalhes, claro. – eu disse, enquanto dava a partida no carro e saía da vaga no estacionamento. – Com fome?

— Muita.

— Vou fazer panquecas.

— Mal posso esperar – e fez cara de nojo.

Dei-lhe um beliscão no braço e dirigi até em casa ouvindo-o contar sobre o medo de avião de Reita. Subimos as escadas e ele tagarelava sobre como as aeromoças se cutucavam e davam risinhos apontando Kai e coravam quando ele chamava uma delas e pedia alguma coisa.

— Elas amam o Kai. – eu ri enquanto nós entrávamos e ele largava a mala dentro do quarto. – Deve ser esse jeito de irmão mais velho que ele tem.

— São as covinhas. – a voz dele vinha de dentro do quarto. – Tenho certeza.

— São uma graçinha mesmo. – eu ri sabendo do ciúme que a frase despertaria nele.

— Quer trocar isso tudo aqui por um par de covinhas? – ele apareceu na porta do quarto sem camisa, apoiando um dos ombros no batente.

— Preciso pensar antes de decidir – suspirei e ri do sorriso debochado dele – Vai tomar banho?

— Vou. E espero ver a comida pronta quando sair, mulher. – ele deu as costas.

E era assim que funcionava entre nós dois. Estávamos longe de ser um daqueles casais melosos como Kai e a namorada dele, cheios de apelidinhos e beiçinhos. Mas também não éramos completamente frios. Acho que posso dizer que nós nos dávamos bem o suficiente pra levar quase tudo na brincadeira. Sarcasmo era a palavra de ordem nos nossos diálogos. Não que não tivéssemos nossos momentos de carinho e gentileza, mas estes ficavam reservados àquele apartamento pequeno, à nossa cama, ao sofá, aos lugares onde só nós dois pertencíamos.

O som do chuveiro ligado serviu de consolo pro meu coração enquanto eu preparava as panquecas. Saber que ele estava ali era motivo suficiente pra sorrir. Minutos depois o barulho da água parou, as panquecas foram pra mesa e ele apareceu vestindo sua calça de moletom favorita e um sorriso lindo.

— Tô morrendo de fome. – disse, ao sentar-se na mesa.

— Não te alimentaram na Europa, Kou-chan? – fiz a volta na mesa e fui abraçá-lo por trás da cadeira, passando a mão pelo seu peito, pensando no quanto era bom tocar aquela pele depois de um mês longe dela.

— Acabei descobrindo que não sou o tipo que gosta de croissant e chá com leite. – sorriu e serviu uma panqueca no prato.

— Ficou com saudade da comida de casa, é? – beijei-lhe o ombro, não querendo mais descolar daquela maciez.

— Fiquei. – ele fez beicinho e eu beijei-lhe os lábios antes de me sentar na cadeira ao seu lado.

— Então, me conta mais sobre as suas aventuras além-mar, garoto. – servi café nas duas canecas e assisti-o mastigar satisfeito um pedaço de panqueca.

— Os fãs europeus são malucos. – resmungou, antes de descer um generoso gole de café pela garganta.

— Eles são bem diferentes dos japoneses mesmo.

— Uma menina desmaiou na minha frente durante a sessão de autógrafos. – e ele não sabia se ria ou se ficava preocupado.

— Mesmo? – eu escolhi rir – E o que você fez?

— Nada. Foi assim: ela chegou na minha frente, depois de ter passado pelos outros quatro, aí quando ela me entregou o booklet dela, eu sorri e murmurei “Hi!”, e do nada ela ficou branca e começou a tremer. Eu abaixei a cabeça pra assinar e aí eu só ouvi o estrondo da menina caindo – agora ele ria. – O Ruki disse que eu fiquei olhando com uma cara de medo e só. O staff veio juntar a menina e eu fiquei sem entender.

— Queria ter visto a sua cara.

— Foi estranho. Acho tão estranho as pessoas desmaiarem por causa de mim. – ele riu, contrariado – Quer dizer, eu sou normal, não tem porque desmaiar por minha causa.

— Errado, caro Kouyou. Isso é porque você tá acostumado e se vê no espelho todo santo dia, já pra ela, ver um cara bonito assim ao vivo e a cores pela primeira vez deve ter sido um choque e tanto.

— Foi um choque pra você? – ele arqueou a sobrancelha e sorriu daquele jeito que me fazia querer arrancar aquela calça de moletom, jogá-lo naquela mesa e devorá-lo com cobertura de panqueca.

— Confesso que fiquei um pouquinho zonza, mas isso porque eu tava me apaixonando e não por causa da sua beleza. – correspondi o sorriso. Depois de uma curta pausa ele disse:

— Senti sua falta. – ele se aproximou e beijou-me o queixo.

— Também senti sua falta. – beijei-lhe os lábios, não conseguindo não sorrir devido ao fato de que ele estava ali de novo, ao alcance das minhas mãos.

— Ah! Deixa eu te contar as duas maiores da Europa! Primeiro a menos chocante pra não perder a graça.

— Tá. — assenti, tomando um gole de café.

— Estávamos nós sentados no café da manhã do hotel e de repente o telefone do Aoi toca e ele começa a falar todo cheio de doçuras. A gente ficou olhando pra ele e tentando entender a situação. Aí ele desligou e simplesmente deu um sorriso meio sem graça e disse: “Minha namorada”.

— O Aoi tem uma namorada?! – meu queixo caiu.

— Pois é. Lembra da Nao Nagasawa, aquela que entrevistou eu e o Ruki na B-True TV?

— Ah, a da calcinha invisível?

— Essa mesmo.

— Não. – eu ri – Quem foi que fez a proeza homérica de apresentar os dois?

— Eu fiz.

— Bom, pelo menos ela não fala daquele jeitinho irritante e é inteligente o suficiente pra manter uma conversa por mais de dois minutos sem mencionar o namorado.

— Você realmente não gosta da Miyazaki-chan, né? – ele imitou o jeito do Kai se referir a namorada e eu ri.

— Eu não consigo conversar com ela! Da última vez ela disse: “Sabe, Anna-chan, ontem eu comprei um casaco super-fofo pro Kai né~<3;!” e eu respondi “Mesmo? b25; Eu comprei umas algemas pro Uruha, ele adorou né~<3;!”.

— Você é perversa, menina. – ele riu. – Pronta pra segunda história?

— Prontíssima.

— Olha, eu não falei com ninguém sobre isso. Acho que você é a única pessoa com quem eu poderia falar.

— Ah que bonitinho ele confia em mim.

— Sério, escuta... O Ruki... – longa pausa e suspiro.

— O que tem o baixinho?

— Ele bebeu um pouco demais depois do show em Frankfurt e eu fiquei cuidando dele na mesa no bar. O Kai e o Aoi já tinham ido dormir e o Reita tava conversando com uma das figurinistas. Foi aí que ele me cutucou e disse: “Nee, Uru, você conhece o Reita há bastante tempo, né?”, eu assenti sem entender o porquê daquela pergunta tão de repente e então ele continuou: “Por que é que ele sempre tem que ficar afirmando a heterossexualidade dele desse jeito? Será que ele tem tanto medo assim de gostar de mim?” e aí ele desmaiou.

— Hum... – suspirei longamente e ponderei calmamente, sabendo que essa não era uma noticia completamente inesperada, pelo menos pra mim — Não acho que Ruki estivesse delirando ou algo assim, acho que ele definitivamente tem sentimentos pelo Reita, mas precisou de uns goles de cerveja pra contar pra alguém, porque provavelmente ele estava se sentindo sufocado pelo sentimento.

— Você e a sua objetividade. – Uruha sorriu de canto. – E quanto ao Reita?

— Não acho improvável que ele também alimente algo pelo Ruki. Talvez ele finja temer pela banda quando na verdade ele teme por ele mesmo, como Ruki disse. E quanto a você e os outros dois? O que vocês diriam?

— Bom, eu acho que se os dois tivessem um relacionamento ambos seriam maduros o suficiente pra separá-lo do trabalho, por mim tudo bem. O Kai tem o coração bom demais pra ficar chateado e tentar impedir o romance. E bom, você conhece o Aoi e a personalidade indiferente dele.

— Sei. – suspirei.

— Só não queria que o Ruki sofresse mais. Você acha que eu deveria falar com o Reita?

— Por enquanto não. É cedo. Se a situação se estender, você fala.

— Tem razão. Me sinto melhor depois de ter conversado com você. É um fardo difícil de se carregar sozinho. – ele tomou mais um gole de café.

— De nada, senhor Frodo. – eu ri e ele me puxou para seu colo me beijando de um jeito que me fez rir e querer beijá-lo mais ainda. – Sabe, o que me preocupa mais é o Aoi com a senhorita no-panties.

— Pelo menos ela tirou o Aoi do pouco saudável estado de abstinência. – ele sorria.

— E o seu estado de abstinência temporário, senhor Takashima?

— Implora por um alívio, senhorita Osaki. – Uruha sorriu malicioso e a próxima coisa que me lembro era de estar no quarto, nos braços dele.

Não me lembro de haver sensação melhor que aquela. Seus lábios em minha pele, seu calor sob meus dedos, sua respiração descompassada, o peso gostoso de seu corpo sobre o meu, seu cheiro invadindo os meus poros, a sincronia entre nós dois, o desejo queimando, fervendo e sendo aliviado pelos lábios famintos. E tudo culminava em uma sensação gostosa de perda de sentidos, como se estivesse flutuando para o desconhecido em um barco cujos remos eu havia perdido há muito tempo. Luzes e cores pipocavam de trás dos meus olhos enquanto eu ouvia ao longe seus suspiros e ofegos. A realidade voltava lenta e prazerosamente, envolvendo meus pensamentos aos poucos, me fazendo perceber o calor delicioso do seu corpo nu sobre o meu, as batidas de seu coração desacelerando contra o meu peito, os fios dourados grudando na minha pele. E aí ele me olha nos olhos, sorri e diz:

— Você é tão bonita que às vezes dói. – me beijou e então deitou-se do meu lado, esperando que eu fosse me aconchegar em seu peito, e assim o fiz.

— Hum... Tava com tanta saudade de você. – praticamente ronronei contra o corpo dele.

— Eu também. – ele suspirou e apertou mais os braços em minha volta – Sabe, fiquei decepcionado de saber que nem todas as européias são bonitas como você.

— Não me chama de européia. Eu sou só metade, bobo.

— Escuta, o Aoi chamou todo mundo pra ir jantar na casa dele depois de amanhã, aparentemente sem motivo algum...

— Mas nós sabemos que é pra introduzir a Nagasawa-chan oficialmente no nosso... círculo, digamos.

— Exato. E então... Vai encarar mais essa? – ele riu.

— Claro. Depois da Miyazaki-chan eu agüento tudo.

— Sabe, pelo que eu conheço da Nagasawa, ela não é tão inocente quanto parece.

— Claro que não. Nenhuma delas é. A primeira vista elas são todas bonitinhas e encantadoras, mas depois que elas chamam o sujeito de “namorado” elas viram maníacas obsessivas e dominadoras.

— Mas você não é assim. – ele riu.

— Não mesmo.

— Você é pior.

— Cala boca. – eu ri mais ainda. – Acho que o Aoi tem que tomar cuidado, se não ele vai acabar dominado e aí não tem mais saída.

— Mas sabe, acho que eles combinam. O gosto dela por coisas douradas e salsa se encaixa com a personalidade do Aoi.

— Tem razão. Mas isso não diminui os riscos de uma possível futura psicopata. A Miyazaki parecia inofensiva do alto de toda sua fofura, mas agora, o Kai nem sequer respira sem dar satisfações a ela.

— E isso tudo tá vindo do pequeno monstrinho que domina a minha pobre existência.

— Domina porque você deixa. Pior! Porque você quer. – subi em cima dele com uma perna de cada lado do seu corpo, assistindo-o sorrir e suspirar.

— Me rendo. – ele pôs as mãos sob a cabeça e eu aproveitei para beijar-lhe o rosto e achar abrigo em seus braços.

E então ele dormiu pelo resto do dia, recuperando-se aos poucos da mudança brusca de fuso horário. E mesmo ele estando dormindo eu lamentei ter que ir trabalhar e deixá-lo ali. Mas fui mesmo assim. Não costumava me permitir falhar com compromissos profissionais. Deixei o almoço na geladeira e um bilhete preso em um imã, e então, me sentindo uma dona de casa, fui trabalhar. A gravação, diferente da anterior, fluiu. Minha concentração finalmente havia voltado.

Quando voltei pra casa já havia anoitecido.

— Tadaima. – tirei os sapatos sem receber um “okaeri” em resposta, não havia ninguém na sala. O dedilhado de um violão vinha suave pelo ar de dentro do quarto. Segui o som e lá estava o meu tão adorado Takashima sentado na cama, violão no colo e um cigarro no canto dos lábios. — Pensei que tinha parado de fumar.

— Okaeri. – ele tirou os olhos do instrumento e sorriu pra mim, apagando o cigarro no cinzeiro sobre o criado-mudo em seguida. – Eu também pensei, mas aparentemente não é tão fácil assim.

— Ganbatte ne, Kou-chan. – debochei da falta de perseverança dele e me sentei ao seu lado.

— Como foi a gravação?

— Bem, muito bem. E o almoço?

— Ótimo.

— Descansou? – beijei-lhe o ombro e tomei uma de suas mãos entre as minhas.

— Ah, sim. Mas se você tivesse ficado aqui comigo...

— Amanhã eu vou ficar. – nem deixei ele terminar a frase. – Já avisei todo mundo que não vou trabalhar amanhã.

— Ah, bem melhor. – ele sorriu vitorioso e beijou minha mão.

— Garoto mimado. Banho?

— Tentador demais pra dizer não.

Minutos depois, lá estávamos nós, mergulhados na banheira de água quente, conversando sobre coisas aleatórias enquanto eu lhe esfregava as costas. Eu gostava de como as coisas eram simples e fáceis entre nós. Nossas “brigas” geralmente acabavam em boas risadas. Não me lembro de ter discutido sério com ele sequer uma vez. Sério ao ponto de ficar sem se falar, nunca. Não sei se era porque eu amava demais aqueles cabelos louros, aqueles lábios macios e aquela risada gostosa, ou se era porque ele simplesmente tinha total controle sobre os meus sentimentos, mesmo que inconscientemente. Ele era meu dono, e isso não se podia nem questionar. E eu não só gostava, como fazia questão, de ser só dele.

Naquela noite, pouco antes de cair no sono com a boca colada à pele dele, eu pensei em nunca mais sair dali, daquela cama, do alcance das mãos de Uruha. Deus, como era bom acordar sentindo aquele perfume. Eu havia encontrado meu paraíso particular e não abriria mão dele por nada no mundo. Passamos o outro dia todo deitados, assistindo dvds, tomando chá, falando bobagens, aproveitando a companhia um do outro. Uruha sabia me fazer rir, sabia o jeito certo de me abraçar e me beijar, sabia o jeito certo de sorrir pra fazer meu coração amolecer, ele me conhecia como a palma de sua mão. Nunca fui o tipo de pessoa que confia e se entrega, mas eu era tão feliz quando vestia uma camiseta velha de Uruha e me jogava em seus braços, que seria impossível me reconhecer comparando com a Anna de dois ou três anos atrás. Eu estava completamente entregue àquele homem, sem medo, sem máscaras.