For Love
1 Capítulo Único
Desde que ela me deixou, não consegui fazer nada. A comida não tinha gosto, o ar que eu respirava parecia mais pesado. A caminhada matinal foi ficando cada vez mais curta e simplesmente perdi o meu motivo para existir. Apenas existia, mas não vivia mais. Agradeceria se eu fosse morto por um ladrão, ou atropelado por um carro desgovernado. Tirar a minha vida parecia insano demais. E eu não teria coragem para isso. Sou um covarde. Todos me disseram para tentar com alguém novo, mas não posso. Sinto que trairia minha esposa. Mas depois que ela voltou, me senti outra vez vivo. Seus olhos azuis e seus cabelos dourados, seu perfume… Suas roupas… Abraçá-la enquanto durmo, uma coisa tão banal, ganhou um novo significado para mim.
Deixe-me explicar porque estou escrevendo isso. Eu não tenho vontade de desabafar isso em um papel, ou em um computador. Na verdade, pouco me importo em contar. Mas minha psicóloga pediu para que eu escrevesse. Dissesse o que me levou a fazer o que eu fiz. Ela me perguntou várias vezes. E eu só tive uma resposta para dar para ela.
Por amor.
Sim, sim. Isso é clichê, é ridículo, mas é a verdade. Fiz isso por amor e faria novamente. E novamente, e novamente. Quantas vezes fossem necessárias. Por quanto tempo fosse necessário. Eu sempre amarei minha esposa e ela sempre me amará. Prometemos isso um ao outro. De fato, ela me abandonou por um tempo, mas admito que fiz algumas coisas que a decepcionaram. Isso justificaria o afastamento dela. Bom, deixe-me contar do início.
Conheci minha esposa, Claire, quando entrei na faculdade. Ela me apresentou a faculdade e, consequentemente, ao seu círculo de amizades, pessoas com quem ela já havia estudado ou que foram para a mesma faculdade. Eu realmente não conhecia ninguém. Ela fazia administração e eu, economia. Nós nos formamos no mesmo ano. Continuamos amigos e, dois anos após nossa formatura, saímos com um grupo de amigos e começamos a ficar. Nossa “ficada” evolui para um namoro. De namorados, viramos noivos. E foi nesse ponto que as coisas começaram a desandar.
É constrangedor, mas posso dizer que tínhamos uma vida sexual bastante ativa.
Depois de quatro anos namorando, a pedi em casamento. Ela aceitou, sem pensar. Três meses após o pedido, começamos a morar juntos. E foi quando ela me contou que estava grávida. Eu não conseguia sentir nada além de uma felicidade incontrolável. Começamos a comprar coisas para o bebê quando ela confirmou com o exame, aos quatro meses. Aos seis, ela teve um aborto espontâneo. Nossa bebê, nossa pequena Jane, se foi antes mesmo de nascer. Minha esposa, ainda minha noiva, ficou inconsolável. Claire sempre foi uma mulher forte, eu nunca a vi chorar, e quando ela me contou sobre o aborto… Sinceramente, foi o pior dia da minha vida. Eu a vi chorar e aquela me cortava tanto quanto a perda da nossa filha. O tempo passou, nos casamos e ela parecia estar melhor. Um ano e pouco após o casamento, ela novamente me disse que estava grávida. Experimentei aquela sensação novamente, aquela alegria.
Claire estava radiante, parecia a Claire que conheci no primeiro dia da faculdade. Quando ela estava com oito meses, ela teve outro aborto. Toda a dor voltou com a mesma onda de culpa e remorso. Minha esposa se culpou por aquilo, tanto que uma vez me disse para terminar tudo, pois não poderia me dar filhos. Eu lembro aquela conversa até hoje. Ela me disse que não valia a pena manter isso, que não poderia me dar um herdeiro. E eu simplesmente me limitei a dizer que eu adoraria ter um filho, com ela, e que ainda não era nosso tempo. Que teríamos um filho, ou uma filha, ou os dois, no tempo certo. E que, por enquanto, tudo o que eu precisava era dela. Em meses, foi a primeira vez que a vi sorrir de novo.
Ela estava numa depressão terrível.
Seu emprego ia de mal a pior, até o chefe dela oferecer um afastamento e ela recusar. As coisas foram piorando, até ela ser demitida. Por justa causa. Ela quase arruinou um negócio importante da empresa porque pediu para etiquetar duas pastas, mas entregou as pastas erradas. Foi o primeiro emprego dela, e agora ela estava fora. Isso só a fez se afundar mais. Simplesmente, ela se afundou de vez. Chegava em casa e a encontrava jogada no sofá ou na cama, dormindo, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, mas ela era teimosa, dizia que estava ótima. Cheguei a acordar de madrugada, ouvindo ela chorar no banheiro ou no quarto do bebê, que era ao lado do nosso. Eu não tinha forças para continuar.
Dois meses depois, ela conseguira arrumar um novo emprego. Não ganhava tão bem quanto ganhava no outro, mas não era o dinheiro que me preocupava. Eu ganhava substancialmente bem para nos sustentar com uma vida consideravelmente boa. Só queria que ela arrumasse um emprego para poder se focar em algo, e funcionou. Ela parecia mais animada, agora que tinha algo para se concentrar. E ela realmente não queria passar a vergonha de ser demitida novamente. Lá, no novo emprego, Claire encontrou um antigo amigo da faculdade, com quem teve um caso nos dois últimos períodos. Não me preocupei muito, confiava na minha esposa.
Ela começou a trabalhar mais, fazer hora extra, trabalhar em algum trabalho importante no fim de semana. Sempre não poderia sair, não poderia me encontrar, iria se atrasar para o jantar. Então, comecei a desconfiar. Um dia, recebi um telefonema. Era do telefone dela, mas não era ela. Um policial estava me informando que minha esposa sofrera um acidente de carro. Estranhei por não ser na rota que ela faz entre nossa casa e o trabalho, mas ignorei. Estava realmente preocupado.
Peguei o nome e o endereço do hospital, entrei no meu carro e corri para lá o mais rápido que pude. O policial me perguntou se o homem que estava com ela era amigo nosso. Quando descobri que era o ex-namorado, amigo dela da faculdade e do trabalho, me senti confuso. Ela ficou três dias em coma. Passei os três dias com ela. Meu chefe me dispensou até que ela estivesse boa o suficiente para fazer as coisas sozinha. Quando ela acordou, eu estava ao lado dela, segurando sua mão, quase cochilando. Ela apertou minha mão e corri para chamar o médico responsável por ela, e logo em seguida eu expliquei o que acontecera, calmamente.
Ela ficou incomodada quando perguntei pelo Jonathan.
Ela me pediu desculpas, horas depois. Chorava como uma criança. Me implorou para que eu a perdoasse. E eu não entendia o motivo do pedido de desculpas. Então ela me disse que estava saindo com ele. Me disse que aquilo aconteceu, que estava errada, mas conseguia lutar. Então contei que ele havia morrido no acidente. Ele quebrou o nariz na batida, desmaiou e sufocou no próprio sangue, de acordo com a perícia. Quando vi que ela ficara perturbada com aquilo, resolvi oferecer algo. Perguntei se ela queria se juntar a ele. Ela me disse que se sentia culpada. Ela estava triste pelo amante na frente do próprio marido. Eu juro que fiquei cego. Planejei o que faria com cuidado.
Dias depois ela foi para casa. O médico passou um remédio injetável, que ela mesma aplicaria quando estivesse sentindo muita dor. Esperei minha esposa dormir, após alguns remédios para dormir que misturei em seu suco. Peguei uma das seringas, que ela mantinha pronta para uso, e esvaziei nela. (Sim, isso é uma confissão. Já contei essa história para os policiais). Cuidadosamente, usando uma luva. Enchi a seringa de ar e injetei. Virei as costas e esperei, do lado de fora do quarto, por um pouco mais de dez minutos. Quando cheguei, verifiquei o pulso. Não tinha. Respirei fundo, me deitei ao seu lado e, na manhã seguinte, ao acordar, levei ela até a sala. Coloquei seu corpo no sofá, sentado. Simulei que ela morrera ali com tanta perfeição que cheguei a me assustar. Joguei a seringa no chão e ela se quebrou, como se ela a tivesse deixado cair. Liguei para seu médico. Eu chorava, mas de raiva dela, por ter me obrigado a ir tão longe.
Os legistas me disseram que fora um suicídio acidental. Eles não descobririam que eu a matei se não contasse. Dias depois, me entreguei. Não por culpa, mas por medo, admito. Eu estava com aquela sensação de que algo estava atrás de mim, me observando. Uma sombra no canto do meu olho, um sussurro no quarto escuro, batidas repentinas. Não, não é fruto de uma mente culpada. Na manhã que me entreguei, isso chegou em um ponto que realmente me assustou. Meu espelho do banheiro estava quebrado e, na parede, escrito com sangue, estava escrito “Espero por você, Jake”. Os policiais confirmaram isso. E por não encontrarem nenhum vestígio de que eu tenha escrito aquilo (pois eu não tinha nenhum corte) e não tinha rastros de sangue em nenhum outro lugar, pois o sangue na parede ainda estava fresco quando chegaram, como se alguém tivesse se cortado e escrito aquilo. Bom, o resto você já sabe, doutora.
Achei que estaria seguro aqui, mas não estou. Eu a vi essa noite. Meu companheiro de cela também. Ele disse que viu uma mulher ao lado da minha cama essa noite, enquanto eu dormia. Eu a vi, fora da nossa cela, por um breve segundo, quando acordei assustado durante a madrugada. Ela está aqui, a Claire está cumprindo a promessa dela. A promessa que eu fiz e quebrei.
“Nem a morte vai nos separar”.
Foram nossos votos de casamento. Nossos votos de noivado. Nossos votos de namoro. Nossos votos de vida. Eu não cumpri com eles, e agora ela está cumprindo. Essa provavelmente será a última notícia que terão de mim. Temo pela minha vida. E quero que saibam o motivo de eu ter feito isso. Eu reafirmo o motivo de eu ter feito isso. E se eu morrer, será pelo mesmo motivo. Não porque eu acabei com minha vida, mas porque ela fará comigo a mesma coisa que eu fiz com ela. Se eu morrer, saibam quem é o responsável. E o motivo de ela ter feito isso.
Por amor.
Essa carta foi encontrada debaixo do travesseiro de Jake Hooper. Ele foi encontrado enforcado com o próprio cobertor dentro da cela, assim como seu companheiro. Jake foi preso por violação de túmulo e roubo de cadáver, e o corpo de sua esposa foi encontrado ao seu lado na sua cama, após ele se entregar. Aparentemente, ele teve um ataque de pânico e foi tomado pela paranoia, após dormir com o corpo de Claire por 3 anos.
Fale com o autor