Força Especial da Marinha
19 Estava tudo bem, estava
Notas iniciais
Minhas pernas estavam melhores, o médico era um doce de pessoa e o Capitão sempre nos acompanhava, a mim e aos meus pais, quando eu tinha uma consulta e fisioterapia. Agora eu já conseguia andar sozinha, minhas pernas ainda estavam horríveis, cicatrizes em todos os lados, mas pelo menos eu ainda as tinha, meus pais haviam liberado a imprensa para que me perguntassem sobre o incidente e quase todos os dias ia alguém e lotava a casa com cameras, bloquinhos, luzes, o Capitão muitas vezes era chamado para dar a sua visão de fora, mas ninguém sabia sobre a nossa relação. Publicavam que ele se sentia culpado e por isso nos dava tanto suporte.
Voltei ao trabalho. Eu ficava de praça, isso é, não saia para missão alguma, apenas prestava suportes dali mesmo do continente. O Capitão não pegava nenhuma missão, dizia que tinha de me ajudar, por mais que eu dissesse que estava tudo bem e que não precisava se preocupar, mas devo dizer que eu gostava de vê-lo ali ao meu lado, me sentia mais segura.
Eu tinha de andar para cima e para baixo carregando informações e papéis, me sentia uma mensageira, eu queria as máquinas de volta, mas conheço meus limites, este dia foi como todos os outros, eu caminhava para pelos corredores levando documentos aos capitães e almirantes, tenentes, o que no começo todos estranhavam devido a minha colocação, mas nunca perguntaram, sabiam o que havia ocorrido, eu estava com documentos para o Capitão Charles, andei pelos corredores e parei em sua janela, vi que havia uma mulher com ele, ela não usava uniforme e segurava o rosto dele entre as duas mãos, ele parecia incomodado, mas nenhum deles tinha me visto.
Ela entrelaçou seus dedos aos dele e apertou, aproximou o corpo do dele e o beijou, eu me encolhi, fechei os olhos e bati na porta, eles se afastaram, ele a olhava.
- Capitão? — ele ficou vermelho — Tenho alguns documentos que o Almirante pediu para que você analisasse.
- Certo, obrigado, deixe-os sobre a mesa.
- Certo.
Não olhei para a moça, mas ela me olhava. Deixei as coisas sobre a mesa, bati continência e me retirei da sala, fiquei parada atrás da porta.
- Como ela é séria, sequer me olhou... — ela falou — Todas aqui são tão sem graça assim?
- O que você quer aqui, você sabe que estou em serviço... — voltei ao meu trabalho.
No almoço, me servi, sentei proximo a alguns marinheiros, gostava de falar com eles, todos perguntavam sobre como era o teste da Força Especial, uma vez que quando não estavamos em missão ficamos em meio a força militar normal. Muitas perguntas também eram sobre o acidente. Eu tentava responder a maioria.
O Capitão entrou no refeitório, estava sozinho, eu não o olhei, apenas soube de que estava lá porque alguns marinheiros se levantaram e bateram continência, eu me levantei e fiz o mesmo.
- Primeiro-Tente, posso ter uma palavrinha com você? — ele perguntou, confirmei e o segui, meu almoço ficou para trás, mas pelo menos eu já havia comido metade.
Eu ainda não conseguia correr, no máximo andar um pouco mais rápido, mas nada de esforços muito grandes. Ele andava bem rápido, mas eu sabia que estava indo para a própria sala.
- Aqueles documentos, você sabe sobre o que eram? — ele perguntou.
- Capitão, eu apenas os entrego não tenho conhecimento de seus conteudos.
- Certo. — ele acenou e indicou para que eu me sentasse, olhei para acadeira, mas não o fiz — Você não tem nenhuma pergunta para me fazer?
- Deveria? — ele fitou o chão e depois me olhou, sabia que falava da moça — Se diz sobre aquilo, não é do meu respeito, vi porque estava trabalhando, caso contrário nem ficaria sabendo.
- E não quer saber quem era?
- Não, não aqui, Capitão — ele me lançou o olhar para que eu o chamasse pelo nome, mas não o fiz — estamos em um ambiente de trabalho, não devemos discutir sobre isso.
- Yeva... — ele ia me tocar, encolhi o corpo, ele parou o movimento — Você não sentiu nada ao ver aquilo?
- Capitão! — ele me olhou.
- Charles...
- Não, estamos em serviço e enquanto for, será Capitão — ele pareceu assustado — Capitão, eu vi aquilo, eu me senti muito mal, estou sendo corroida por ácido por dentro e isso machuca, mas o que você quer saber?
- Yeva, ela era uma antiga amiga, ficou sabendo do que aconteceu na Holanda e veio várias vezes me visitar e há muitos anos atrás eu namorei com ela, estavamos no colegial e bem... Eu terminei pela Força Especial, é o mesmo caso que você e o Charles.
- A diferença é que do meu lado nunca houve traição. — eu falei, ele parou.
- Yeva, eu não...
- Capitão, não adiante dizer que não, eu vi, eu estava vendo pela janela.
- Me observando? Você estava me observando?
- Tinha de saber se poderia entrar, quando vi que estava acompanhado imaginei que fosse algo importante e que não pudesse ser interrompido, mas vi que ela não estava fardada, então eu poderia interromper, são essas as ordens e então eu vi. — eu conseguia controlar a voz — Capitão... Aquilo me machucou e muito, eu nunca imaginei que até você seria capaz de algo assim.
- Yeva... Pare de falar assim, não quis aquilo, ela me surpreendeu — eu me afastei.
- Que seja, tenho de voltar ao serviço.
Bati a porta atrás de mim. Segui com meu trabalho, fui até a sala de reuniões onde alguns Almirantes e Capitães estavam sentados discutindo sobre algo, eu carregava os documentos daquela reunião, era um carrinho com prateleiras, parecendo bibliotecaria. Entreguei para eles as folhas e me retirei.
Eu já estava para sair, e ir para casa, peguei minhas coisas e saí do prédio. Estava indo para o ponto de ônibus que não ficava muito distante dali e um carro começou a buzinar na minha direção, olhei e vi Charles, ele desceu do carro após pará-lo, e me deu um forte abraço.
- Nossa! — falei rindo — O que aconteceu para vir par ao Brasil?
- Estou de férias, a Camilla não queria vir, mas eu já estava com saudades da família e de todos, resolvi fazer uma visitinha e nossa, você parece cansada.
- Foi um dia cheio. — falei dando de ombros — Hoje é dia de lasanha, quer vir comigo?
- Sua mãe quem fez? — confirmei — Lógico que vou. — ele abriu a porta do carro e eu entrei — As pernas parecem estar bem melhores.
- Você não sabe como. Já consigo andar bem rápido e nem preciso de apoio.
- E o Charles, como está? — ele perguntou e me olhou quando paramos no semáforo.
- Bem. — falei rápido demais.
- Bem? Aconteceu algo? — eu o olhei — Yeva, eu te conheço muito bem, para responder assim só se não estiver nada bem.
- É um saco ter alguém que me conhece por perto. — ele rio, estacionou de fora da casa, abri o portão e entramos. Meus pais se assustaram ao ver Charles, mas logo gostaram. — Vou tomar um banho e já desço para comer algo.
Os três ficaram conversando, coloquei meu pijama e desci, sentei a mesa junto deles e várias conversas iam e vinham, ele comentou que parecia que ia ser vendido para algum time Espanhol, eu e meu pai logo perguntamos para qual e ele disse que ainda não podia falar, ficamos atormentando-o para que nos contasse, mas nada o fez abrir a boca.
A campainha tocou.
- Eu atendo. — falei me levantando, abri o portão e o Capitão estava lá — O que faz aqui a essa hora?
- De quem é o carro? — ele olhou — Parece caro.
- É do Charles. — falei sorrindo — Ele veio de férias. — expliquei — Ms não me respondeu.
- Vim te visitar. — ele falou — Precisamos conversar. — dei passagem.
- Coma um pouco de lasanha e...
- Vocês lembrar aquela viagem na praia em que nós quatro voltamos mais vermelhos do que lagostas? — Charles falava rindo — Nossa! Essa sua lasanha é a melhor.
O Capitão pontou e os três se viraram, meus pais o cumprimentaram como de costume, tirei o que eu havia sujado e coloquei algo novo para que ele comesse um pouco.
- Acabei de jantar, estou bem — ele falou.
- Cara, que mancada não comer a lasanha da mamãe. — Charles falou — Experimente pelo menos um pedaço.
- Certo. — ele falou e me olhou, peguei seu prato e servi. — Obrigado.
Puxei uma outra cadeira e me sentei proximo ao meu pai e ao Capitão. Ele parecia estar gostando do que comia, repetiu a dose o que fez todos rirem.
- É a melhor lasanha que já comi — falou rindo.
Ajudei minha mãe com os pratos sujos e os guardei, depois todos fomos para a sala, minha mãe fez um balde de pipoca e comemos, o Capitão se distraiu e esqueceu que tinha de conversar comigo, bati de leve em sua mão, ele me olhou e eu fiz sinal para que seguissemos para meu quarto e pudessemos conversar. Subi na frente e ele veio logo atrás, os três fingiram não nos ver.
Fechei a porta do quarto, ele olhou as paredes.
- Ainda mantém tudo isso aqui? — ele perguntou meio conturbado.
- São minha marca, se eu tirar não serei mais a Yeva.
- Entendo, mas você já tem vinte anos, deveria pensar mais sobre isso.
- Eu gosto deles. — falei dando de ombros — Mas então sobre o que quer falar?
- Sobre o que viu hoje — eu já sabia — aquela mulher era uma ex-namorada.
- Você já me disse isso.
- E ela me forçou aquilo.
- E você retribuiu, não a afastou nem nada, eu vi Capit... Eu vi Charles.
- Qual a dificuldade de me chamar pelo meu nome?
- Nenhuma, apenas que me acostumei ao modo antigo.
- Mas já faz um ano que namoramos e você ainda confunde.
- Desculpa.
- Yeva... — ele me segurou pelos ombros, foi uma pegada forte que me forçou a olhá-lo nos olhos — Eu amo você, pare de agir dessa forma pelo o que você viu.
- Charles... — eu o afastei — Eu também te amo, mas você tem força o suficiente para afastar uma mulher de um sessenta de altura, pesando mais ou menos cinquenta quilos.
- Yeva, me escute — fiz sinal de que ouvia — Ela me pegou de surpresa, disse que estava passando por aqui e resolveu me visitar e começou a contar sobre o que havia acontecido quando eu estava fora e começou a lembrar de nossos tempos juntos e me beijou, mas eu a afastei, você viu isso.
- Desculpa — eu falei e ia abrir a porta do quarto — Charles — fechei os olhos — sei que não é fácil quando o passado volta assim, se quiser um tempo para pensar eu te dou isso.
- Você está me ouvindo? — ele falou e puxou meu braço — Eu não quero tempo para pensar, quero que você entenda que aquilo aconteceu porque fui pego de surpresa, você já passou por isso, sabe do que estou falando.
- São diferentes.
- No que?
- Eu não estava namorando. — falei e saí do quarto.
Desci as escadas, falei para os que estavam na sala que eu estava de saida, eles se entreolhara quando bati a porta. Peguei o primeiro ônibus que passou, sentei bem ao fundo e fui até chegar a um pequeno parque eu tinha o costume de ir quando era mais nova, sentei em um dos bancos e fiquei lá, não fazia frio, mas vez e outra um vento gelado batia.
- Ei...! — olhei para quem estava chamando, Charles estava vindo na minha direção — Ele me contou o que aconteceu.
- Agora são amiguinhos? — falei e olhei o céu encoberto.
- Yeva, pare de se comportar assim, você nunca foi disso.
- Charles, é diferente.
- Você gosta dele, por isso te machucou, não foi?
Ele me abraçou, estava de camisa polo, os braços eram bem mais fortes do que antigamente, as pernas estavam musculosas, ele me apertou bem forte.
- Ele está te esperando.
Entrei no carro, não disse mais nada, quando chegamos meus pais e o Capitão estavam de fora nos observando, minhas pernas doiam com o vento, Charles me ajudou a descer e deu o braço de apoio. Entrei na cama e me enrolei no cobertor.
- Por que não ficam aqui hoje? — meu pai falou — Está tarde para sairem por ai.
Os dois concordaram, peguei dois cobertores, um ficaria no meu quarto, eu dormiria na sala e o outro no quarto de visitas. O Capitão dormiu na sala, estava com a cabeça em meu ombro, nos levantamos, já tinhamos puxado a cama par ao caso de isso acontecer. Deitei o Capitão e coloquei um cobertor sobre ele, estava de calça e blusa, não sentiria tanto frio. Charles foi par ao quarto de visitas, já sabia como tudo funcionava. Eu deitei no meu.
Foi uma noite longa, meus musculos doiam.
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