Fontes de Ódio
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu gosto do Abelzinho ♥
Eu espero que Renata Ventura, autora dos livros, não leia esse texto. Eu acho que ela sangraria pelos olhos...
Fazer o quê. Tá aí...
Quatorze anos. Ele não podia acreditar que haviam feito aquilo com quatorze anos.
No começo eram conversas amigáveis. Estas se tornaram toques sutis. Evoluíram para toques no ombro ou na extensão do braço.
E estes se tornaram beijos e mãos entrelaçadas. Em pouco tempo um apressado Viny puxava o elfo para dormitórios abandonados do outro lado da escola.
Ele estava confuso. Sentia, nos toques confiantes do loiro, experiência. Em seus 14 anos, quantas outras pessoas já haviam passado por ele? Que lugar no coração do pixie Abelardo ocupava? No momento em que havia aceitado as primeiras carícias, ele não havia pensado nisso. Mas agora, vendo a confiança e a decisão nos movimentos de Viny, ele percebia que o garoto não era um iniciante como ele.
Virgem.
Gemidos baixos e abafados partiam do lado de Abelardo. Risos cínicos e pervertidos se misturavam aos gemidos do loiro. Aparentemente, só ele estava se divertindo.
Talvez machucar Abelardo não fosse a intenção dele. Quem saberia? Viny nunca havia sido um garoto cruel. Mas talvez ele passasse dos limites quando se tratava de sua diversão.
A mão embrenhada nos cabelos encaracolados do elfo se tornava incômoda de momentos em momentos. Era doloroso e desconfortável. Abelardo sentia-se diminuído e envergonhado diante do outro. Lágrimas se formavam abaixo de seus olhos.
Definitivamente era algo que ele não queria repetir.
“A dor vai passar”, insistia Viny, vez ou outra. Acabou por não ser verdade.
Ao fim, Abelardo adormeceu aconchegado ao peito do loiro.
Ele acordou horas depois. Ele checou o relógio: não estava atrasado. Sejam louvados os deuses do sono!
Mas Viny já não estava ao seu lado. Abelardo se culpou por acreditar que ele estaria. Ele provavelmente seria só mais um... Mais um dentre vários que haviam passado pelos braços do loiro. Ele nunca tomaria o lugar de alguém como Caimana ou Beni no coração de Viny. Caimana... Ela era sua irmã gêmea. Teria Viny só se aproximado dele pela semelhança com ela? Abelardo achou que poderia esquecer. Talvez ele pudesse considerar como uma diversão, assim como o pixie fazia. Mas sequer havia sido prazeroso! Ele estava decepcionado. Consigo mesmo e com Viny.
E a decepção se tornou tristeza.
Ele se arrumou rapidamente e voltou para seu dormitório. Seu colega continuava dormindo. Melhor dessa forma.
Viny não o procurou novamente. Talvez houvesse procurado depois, se Abelardo não houvesse se afastado tanto do garoto.
Não demorou a que percebessem que ele não estava bem. O brilho em seu olhar, mesmo que por vezes sarcástico, não se encontrava mais lá.
A tristeza havia se tornado depressão.
O gentil filho do faxineiro, Ítalo Twice, havia percebido antes de qualquer um. Abelardo o conhecia antes mesmo de ingressar na Korkovado: o garoto morava lá, e Abelardo costumava acompanhar a mãe ao trabalho na escola. Ítalo tinha sua idade, e era a melhor companhia que ele poderia ter quando era menor. Atualmente, ele não tinha muito contato com o capixaba, mas não nutria por ele o mesmo ódio que sua mãe.
Mesmo não tendo mais proximidade com ele, Abelardo se sentiu confortável em ser abraçado por ele e confiá-lo ele seus problemas. Ele sabia que poderia contar com o moreno. Nenhuma palavra sobre o ocorrido chegaria à outra pessoa se não pelos lábios de Abel.
Ítalo havia dito a ele que esse era o jeito de Viny. “Não será fácil prendê-lo a alguém”. Mas também havia dito que alguém amaria Abelardo, porque ele era uma pessoa ótima. Seria isso verdade? Ele não sabia. Conhecia Ítalo. Para ele, poucas pessoas eram realmente más. Todos eram bons. Ótimos. Só não haviam percebido isso, talvez. Nesse ponto, talvez somente nesse, era difícil confiar no capixaba. Mas ele aceitou o ombro amigo e o consolo das palavras do pixie.
Pouco tempo depois a depressão se tornou ódio. Ódio esse que se estendeu a todos os outros Pixies. Era um ódio cego que provinha de mágoa e tristeza, não tinha razão nem sentido para odiar os outros, mas para Abelardo parecia certo. Eles continuavam ao lado de Viny. Ele odiava Viny. Por que não odiar os outros, também?
Nem o gentil capixaba livrou-se da raiva do anjo. Por mais incrível que fosse, ele era o maior alvo. Ele conhecia Viny! Não será fácil prendê-lo a alguém, ele dissera. Sua mãe, Dalila, também o odiava. Todos os motivos para ser amigo do garoto ou para simplesmente não odiá-lo se perderam em meio à fúria.
E mesmo após as humilhações e hostilidades, ele sabia que Capí (Capí! Belo apelido havia ganhado.) não o odiava. E também sabia que ele não havia revelado uma palavra do que Abelardo o havia confiado, tempos antes. Mas não era o momento apropriado para parar com aquilo. Ele havia se tornado esnobe e rude, como a mãe. Seria até mesmo suspeito se aproximar, mesmo que apenas do moreno, após tudo que havia acontecido.
Final de 1997. Sua memória havia sido apagada. Mesmo entre dúvidas, ele sabia disso. Por que os acontecimentos de anos antes também não foram?
1998. Ele repetiu o ano. Ítalo, mais uma vez, tentou se aproximar do elfo. Sem sucesso. Abelardo não se sentia seguro quanto a isso. Ele não sabia o que havia acontecido nos meses anteriores.
E o ano continuava. Ele fora arrastado junto com os Pixies, Hugo, Janaína e Eimi para o nordeste, para ajudar um grupo de rebeldes. Os momentos mais assustadores de sua vida, provavelmente.
A coragem de Ítalo ao atravessar o corredor polonês o surpreendera. Até mesmo me atrevo a dizer que o admirara. Mas ele não teve muito tempo para pensar nisso. No dia seguinte, a pessoa que ele mais amava no mundo, seu pai, havia morrido.
E tudo porque ele foi levado junto aos Pixies e os outros.
Tempos depois, Ítalo havia sumido. Nem Abelardo duvidara que os comissários o houvessem levado.
E ele havia se preocupado com o que poderia ter acontecido com o pixie. Ninguém havia percebido, é claro. Abelardo havia dado o melhor (ou seria o pior?) de si para esconder aquilo. Mas não pôde deixar de ficar horrorizado com o que havia acontecido com ele, quando o encontraram. Ele chegou a visitar a enfermaria, certa vez. Capí não havia percebido. Ítalo dormia, sob o efeito de narcóticos.
Ele havia se sentado numa cadeira, ao lado da cama, por alguns momentos. E lá permaneceu, em silêncio. Vendo o garoto lá, machucado, fraco e abatido, torturado, na realidade, ele já não conseguia sentir ódio por ele. Ao sair, tocou levemente o ombro do capixaba, tomando cuidado para não feri-lo, e saiu. As imagens dos ferimentos que estavam visíveis a ele não sairiam de sua mente tão cedo.
Por fim, Abelardo deixou a enfermaria com sua mente mais confusa do que anos antes, quando havia contado suas aflições ao pixie. Ele esperava, finalmente, poder retribuir de algum modo o apoio recebido.
Notas finais
Ah, eu sei que com 14 anos o Abel e os Pixies já deviam ter aquela rivalidade... mas, sei lá, achei apropriado colocar essa idade. Se é que algo nessa joça é apropriado, haha. À todos que comentarem (se alguém o fizer, haha), eu agradeço desde já, porque duvido que vou ter coragem o suficiente para respondê-los depois que lerem isso. Não lancem feitiços da morte em mim, tá? Nem em latim, nem em tupi ou outras línguas indígenas/africanas ou sequer em Esperanto.
Desculpem pelo tamanho do capítulo e, creio eu, pela qualidade. Muito obrigada por lerem! Tchau.
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