Follow Me
16 Nós nascemos doentes.
Chuva sempre foi uma das coisas mais belas do mundo. Lembro-me do dia em que minha mãe morreu, estava chovendo. Por um bom tempo eu odiei a chuva. Sempre que chovia eu sonhava que minha mãe morria afogada, às vezes era o meu pai. Nunca quis contar isso a ele, já que o coitado tinha tantos problemas e já sofria muito. Mas ele simplesmente descobriu e me ajudou a parar de temer a coisa mais linda e pura que existe. Gostaria de poder contar tudo a ele, gostaria que ele fizesse todos os meus medos sumirem. Mas ele não pode, nem ele e nem ninguém.
Ao que parece eu não sou o único que não gosta/não gostava de chuva. Meu cachorro que mais parece gente não quer nem saber de sair de casa. Snow conquistou o meu pai com tamanha rapidez que até fiquei com ciúme. Faz exatamente uma semana que a família stilinski arrumou um novo membro. Às vezes eu me pergunto como é possível uma criatura tão pequena e indefesa pode aquecer tanto o meu coração.
Theo não quer um compromisso sério e isso ficou bem claro na quinta-feira quando garoto aleatório e bonitinho estava se gabando no banheiro com os amigos porque Theo Raeken havia tirado a virgindade dele. Não tinha me dado conta do quanto eu estava apaixonado até aquele momento. Senti o meu coração se quebrar. É uma das piores dores do mundo. Apesar de tudo eu coloquei um sorriso no rosto e fingi que tudo estava bem. Fiz isso minha vida inteira com coisas piores.
Só Deus sabe o quanto eu chorei. Bem, Snow também sabe. Enquanto eu estava chorando ao som de Sam Smith, Snow lambeu delicadamente minhas lagrimas. Eu chorei mais ainda, mas foram lágrimas de gratidão. Ninguém nunca tinha lambido minhas lágrimas na vida!
—___________________
Educação física nunca foi o meu forte, mas nem por isso eu deixo de tentar. Se analisarmos bem tem pessoas mais deslocadas do que eu. Quando Lydia me dava um fora eu sempre ficava me comparando com algum nerd esquisito. Que bom que eu mudei! Dizem que você recebe o dobro de tudo o que faz, por isso vou tentar fazer apenas coisas boas (tentar).
A aula foi um tédio, mas até me sai bem. O professor disse que gostaria de falar comigo depois que todos fossem embora, fiquei esperando uns vinte minutos até que todos estivessem bem longe.
— Sabe, eu nunca tinha reparado que você leva jeito para os esportes _ comentou o professor.
Fiquei com cara de paisagem. Como assim ele nunca tinha reparado isso? Eu sou do time de lacrosse.
— Você sabe que eu sou do time de lacrosse, né?
— É senhor _ corrigiu bravo.
— O que?
— Me chame de senhor e eu sei que você faz parte do time de lacrosse. Pra falar a verdade eu sempre achei o treinador louco por deixar você no time.
Fiquei vermelho e sem graça.
— Já parou para pensar que lacrosse não é pra você? _ perguntou o professor.
Não consegui conter a minha raiva.
— Claro que é pra mim! _ exclamei nervoso.
O professor levantou as mãos em sinal de paz.
— O que eu quis dizer é que talvez você devesse escolher um esporte que use mais as suas habilidades.
— Tipo o que?
— Atletismo.
Tive que rir. Eu no atletismo? Essa é boa.
— Você é rápido e tem uma coisa motivadora que todos os atletas precisam _ explicou _ O que você acha de começar a correr uma vez por dia? Tenho certeza que você vai deixar de pensar no atletismo como inútil quando todas as suas frustações sumirem.
Quem ele pensa que é para falar das minhas frustações?
— Você começou a correr quando sua esposa e sua filha morreram? _ perguntei sem pensar.
— Sim _ disse ele por fim.
Fiquei puta mente arrependido de ter dito isso. O lance com o professor de educação física é que há três anos, a esposa e a filha morreram em um acidente de carro. Ninguém nunca falava disso perto dele, ninguém nunca falava disso perto de ninguém. O professor tem fama de ser agressivo ou coisa do tipo. Mas a verdade é que ele não me parece agressivo, ele parece muito triste e perdido. Exatamente como meu pai ficou quando minha mãe morreu. Vou começar a correr como uma forma de desculpa (?). Mas primeiro eu tenho que saber o nome do meu professor.
Fui para o vestiário arrependido e com o rabinho entre as penas. Nem me preocupei com privacidade e tirei a camiseta antes mesmo de entrar. Fui bem Alice em pensar que estaria sozinho, uns caras estavam lá, acho que rindo de alguma piada machista sobre peitos e bundas femininas. Nunca me encaixaria nisso!
Cumprimentei os caras e fui até o meu armário pegar umas roupas. Jamais iria andar nu na frente deles.
— Stiles _ chamou um deles.
Ele sabe o meu nome e eu não sei o dele, estou parecendo a Regina George.
Dei um aceno com a mão.
— Olha que coisa repugnante nós temos aqui _ falou outro cara, acho que o nome dele é Ulber ou Rulber.
Virei à cabeça e me deparei com o garoto bonitinho que tinha ficado com o Theo. Olhei atentamente para cada um dos garotos, são do time de futebol da escola. Eles haviam batido tanto no garoto que seu rosto estava coberto de sangue. Deixaram-no apenas de cueca e escreveram GAY em sua barriga com batom rosa.
— Olha esse viadinho _ zombou Ulber. _ Temos que ensinar ele a ser homem.
Todos os outros soltaram uma gargalhada.
Eu não sei o que deu em mim ou o que se apoderou de mim, mas quando me dei conta eu já havia socado a cara de Ulber tão forte que um de seus dentes tinha caído. Os outros ficaram me encarando com medo.
— Você que deveria aprender a ser um homem _ a raiva estava impregnada em minha voz.
Contei até dez e respirei fundo.
— Se vocês encostarem um dedo nele ou em qualquer outro garoto mais fraco, vou destruir cada um de vocês lentamente _ encarei todos eles _ Entenderam?
Todos disseram sim e saíram correndo.
Ajudei o garoto a se levantar. Dei minha camiseta pra ele. Mesmo segurando em mim ele caiu. Só me dei conta de como ele estava machucado agora. Esses caras são doentes!
— Ei, olhe ali o Ulber caído no chão _ tentei outra tática _ Você quer ficar aqui igual a ele?
O garoto parou de chorar e cuspiu no peso morto desmaiado.
— Isso! Agora vamos sair daqui.
Aos poucos nós conseguimos sair do vestiário. Nem me importei com Ulber. Levei o garoto até minha casa, duvido muito que ele conseguiria me dizer onde era a casa dele. O caminho foi silencioso e cheio de significado. Por sorte meu pai não estava em casa, ele nunca estava. Mas Snow estava e como sempre dormindo na minha cama. Fofo.
— Você vai tomar um banho e depois nós vemos o que fazer.
Ele assentiu e subiu as escadas atrás de mim. Peguei umas roupas pra ele e deixei que ele tomasse um banho e fui fazer uma canja. Nada melhor do que uma canja quentinha em dias de merda!
Lavei minhas mãos na torneira da pia. A água ficou vermelha de sangue. Fique paralisado de fascínio. Com uma mão eu consegui deixar um cara que tem o dobro do meu tamanho inconsciente e sem um dente. Balancei a cabeça e afastei esses pensamentos.
Coloquei o avental para cobrir minha “nudez” e caprichei na canja. O garoto desceu um tempo depois com as minhas roupas. Ficaram um pouco largas. Agora sem o sangue e sem o batom rosa eu realmente puder ver o quanto ele é bonitinho. Até entendo o motivo de Theo ter ficado com ele... Que? Entendo porra nenhuma! Theo é uma biscate isso sim.
— Obrigado _ disse o garoto com a voz baixa.
— Não foi nada... Hã, qual o seu nome mesmo? _ perguntei sem graça.
Ele deu uma risadinha.
— Meu nome é Robb. Você é o Stiles, certo?
— Sim. Como você sabe o meu nome?
Ele deu um sorriso triste e sentou na cadeira da cozinha.
— Quando estava com o Theo ele me chamou de Stiles, depois disso eu meio que fiquei fissurado em saber quem era o tal Stiles e o porquê dele ser melhor do que eu _ explicou abatido e triste.
Fiquei sem graça. Isso é uma coisa horrível. Theo está cada vez mais caindo do topo da minha tabela de crush.
— Eu nem... Olha, eu sinto muito.
— A culpa não é sua se ele é um idiota. Na verdade, a culpa é minha por ter caído na conversa dele.
Assenti e resolvi deixar o Theo bem longe de qualquer conversa.
Servi um prato cheio de canja pra ele. Estava com um cheiro muito bom. Snow deve ter sentido o cheiro, pois veio correndo.
— Ei, que saudade _ falei pegando o meu bebe no colo _ Está com fome, não é mesmo?
— Seu cachorro é muito lindo _ disse Robb _ Meu Deus, essa é a melhor canja que eu já comi na minha vida.
Dei uma risada toda orgulhosa e coloquei um pouco de ração para o Snow. Ele atacou o pote com tanta fome que parece que o coitado nunca comeu na vida.
Sentei na cadeira de frente para Robb e respirei fundo, já estava na hora de saber os detalhes do que tinha acontecido.
— Então...
— Eu sou gay! _ exclamou de supetão _ Eu sou uma merda de gay e por isso eles me atacaram porque eu sou uma aberração, uma aberração que nem deveria existir.
Ele voltou a chorar.
Snow ficou me encarnado como se dissesse “Você tem que fazer alguma coisa”.
— Eles te atacaram porque ELES são um bando de aberrações!
Levantei da cadeira e coloquei minha mão no ombro dele. Meu coração estava partido. Nunca sofri de preconceito diretamente, mas se bem que só os mais próximos sabem que eu já fiquei com um cara ou dois. Mesmo não sendo vítima diretamente de homofobia, eu sempre percebo os olhares mais longos das pessoas e isso é uma merda.
— Minha igreja não oferece absolvição e meus pais dizem que eu nasci doente _ confessou com fragilidade e mais lágrimas.
A verdade é que nada do que eu disser vai apagar essa dor no coração dele.
— Eu deveria morrer.
— O que? Claro que não! É isso o que eles querem você não pode aceitar isso _ comecei nervoso _ Não vou falar que com o tempo isso vai melhorar, porque não vai. Quer saber o que eu acho? Eu acho que todos eles têm inveja de quem você é, inveja porque você sabe quem é você mesmo e não precisa viver em um mundo de ilusões. Eles são os únicos que nasceram doentes.
Robb parou de chorar e ficou me encarando por um bom tempo.
— Obrigado _ foi tudo o que ele disse e depois voltou a comer a canja.
Esse garoto é bipolar, só pode. Olhei para Snow que me encarou como se dissesse “bom trabalho”.
Comemos o resto da canja em um silêncio reconfortante. Robb foi embora me prometendo que tudo seria diferente e que ele nunca mais iria aceitar esse tipo de coisa.
Mesmo com todo o caralho a quatro de coisas sobrenaturais em minha vida, o preconceito não muda e acho que não vai mudar tão cedo. Relembrando de todo aquela cena no vestiário eu fico com medo de que amanhã eu seja a vítima, nem o nogitsune me assusta mais do que a homofobia.
Fale com o autor