Folk - O Despertar

1 Programas, Lobo e Pantera


Era um lugar fechado e tudo o que Di via eram árvores através de uma janela oxidada. Não tinha domínio sobre sua visão. Era como assistir um filme. O ângulo mudou e viu um homem. Alto, cabelos castanhos e curtos, cortados no estilo militar, pircing na sobrancelha e tatuagens que corriam seu corpo pilhado de músculos. Usava um sobretudo preto que ia quase até o seu pé, combinados com coturnos e outros acessórios de couro pretos, e um assustador par de olhos completamente negros para findar o semblante tenebroso.

Na outra ponta da cabana havia uma mesa de pedra com uma garota, aparentemente entre seus vinte, vinte cinco anos, trajando uma roupa antisséptica de enfermeira.

Também pode ver mais sobre o lugar. Era uma cabana de madeira abandonada no meio da floresta a sabe Deus quantos anos. Musgo, limo, hera, trepadeiras e raízes cobriam todas as paredes. O homem estava perto de um pilar rústico, cheio de cera de vela derretida e velas novas que servia de apoio para um enorme livro com capa de couro. No livro haviam escritos em uma linguagem que Di jamais vira. Pareciam runas rústicas de milênios atrás.

O homem começou a entoar um cântico que, aparentemente, parecia estar sendo lido do grande livro, e a língua cantada parecia com as línguas fantásticas de jogos Online e filmes de ficção. Passou-se um tempo e nada aconteceu.

Uma leve brisa começou a entrar pela janela. Um leve tremor percorreu o chão e paredes, e o que era uma leve brisa virou um vendaval. Folhas de papel voaram e as chamas das velas tremularam. Uma luz azulada, como relâmpagos, entrava pela janela junto com o som ensurdecedor de trovões. O chão tremeu e rugiu furiosamente que rachaduras criaram vida e se espalharam pelo piso. As janelas explodiram e cacos de vidro voaram em todas as direções. Toda a cabana chacoalhava como se fosse feita de papel, mas nada do que acontecia fazia o homem parar de entoar o cântico. Ele não hesitava e sua voz sequer tremia ao ler os escritos, mesmo com todo o mundo rugindo ao seu redor.

De repente, toda a cabana foi arrancada do chão, deixando apenas um piso com rachaduras cercado por árvores que chacoalhavam em meio a tempestade de raios e ventos. Era como se os céus gritassem para que o homem parasse com o ato profano.

Por um segundo o canto parou, o homem de olhos negros se virou e caminhou tranquilamente em direção à mesa de pedra. Passou a mão a centímetros do rosto da garota e ela despertou aos gritos. Ele suavemente retirou uma adaga de seu sobretudo que emitia um brilho dourado, olhou para os céus e com um meio sorriso sádico cravou a adaga no peito da enfermeira.

Por um segundo, Di sentiu a dor da adaga em seu abdômen. A cena mudou. Agora estava em uma enorme construção abobadada, bela como um palácio. Várias figuras corriam de uma parte a outra como se o mundo estivesse ruindo. E de fato estava. O palácio desmoronava e rachava. Uma onça corria seguida por um pássaro de fogo para um dos cantos. Mulheres em belos vestidos de caimento com adornos que Di jamais viras antes choravam enquanto homens em roupas tribais se preparavam em pose de ataque.

“Meu Rei, o que faremos?” exclamou uma mulher com pele amarela e pintas negras como uma onça-pintada “O Sheol desperta enquanto servos dEle saem aos montes”.

“Isso não é o pior, o Senhor dos Pesadelos termina o encanto... em breve sofreremos qualquer que seja o seu efeito” disse uma bela mulher com vestido leve e belo azul celeste.

Um homem alto de pele escura como ébano que trajavam roupas de guerreiro e um enorme cocar feito de uma luz que lembravam raios. Ele estava em um trono em uma das paredes do grande salão abobadado. Ele se levantou e bateu seu cajado no chão, fazendo um ruidoso trovão ribombar pelo salão. Todos se calaram.

Rachaduras na abobada faziam fragmentos de pedra caírem do teto. Mas apesar do clima de destruição, todos aguardavam comandos do homem de cocar.

“O efeito do encanto não será nada agradável” disse o homem “todos nós seremos forçados a deixar o Monte Ipiaba, mas não será o fim. O Sheol tem suas estratégias e nós temos a nossa.” o homem se dirigiu a uma mulher de cabelos encaracolados e pele parda que trajava roupas preto e brancas como uma caçadora, seu arco e flechas brilhavam e um de seus olhos tinha o globo branco com a íris e pupila absolutamente negras e o outro globo era negro com íris e pupila brancos como a lua no anoitecer. “Prepare os guerreiros, se vamos cair, cairemos lutando.” Ele se virou para a mulher com vestido azul celeste “Invoque as Icamiabas, precisaremos delas na dimensão de barro.” A mulher acenou a cabeça e saiu do campo de visão.

As portas do salão tremeram por um segundo antes de se abrir com uma explosão deixando que uma densa escuridão invadisse a brancura do grande salão enquanto milhões de gritos se misturavam a um silencio mortal.

Di acordou pingando de suor. Sentiu algo gelado em sua camisa na altura do abdômen e olhou por baixo do lençol soltando um gritinho do fundo da garganta. Sangue ensopava suas roupas e lençóis de cama, ele se desembrulhou e ao tirar o lençol de seu corpo, tudo sumira. Limpo. Nada de sangue ou sacrifícios humanos. Ele fechou os olhos e respirou fundo

“Droga cara, as aulas do professor Marco estão fritando meu cérebro”

As aulas do Marco.

— Droga! – praguejou Di.

Olhou no relógio. 17h. Se quisesse chegar na faculdade a tempo para a primeira aula de Análise de Estruturas de Dados do professor Marco, às 18h, precisaria correr. Já estava no limite do atraso levando em consideração que levaria duas horas para chegar à Universidade Federal do Amazonas... Ah, sim. Di vive em Manaus, capital do Amazonas.

Após três ônibus e duas horas para cruzar a cidade e chegar nas imediações, finalmente ele chegou na sala de aula do Laboratório de Programação do Instituto de Computação da universidade sob o olhar fulminante do professor mais assustador do curso de Sistemas de Informação.

— Boa noite, senhor Ferreira. – disse Marco observando cada passo do garoto.

— Boa noite, professor.

Todos observavam enquanto Di se encaminhava a sua máquina habitual que ficava na outra extremidade da sala, o que parou a aula por mais ou menos quinze segundos. Após isso, Professor Marco voltou a dar sua aula sobre Listas Encadeadas, Tipos Abstratos de Dados e a enfadonha Recursividade.

— Gus, o que eu perdi? – perguntou Di para Gustavo, seu amigo da faculdade que sentava no computador ao lado.

— Não muita coisa, só a explicação prévia do trabalho prático. – respondeu Gus imaginando os milhões de motivos do atraso de Di, mas preferiu focar-se em seu código de Controle de Trafego que o Professor Marco passara como atividade e já estava programando a uma hora.

Di olhou para as duzentas e vinte e três linhas de código já escritas por Gus e soltou um protesto.

— Droga, o que tem que fazer nesse código? – perguntou Di não muito interessado na resposta.

— Bem, precisa fazer um programa que verifica, num intervalo de um minuto, o fluxo de carros que vão para o sul e voltam para o norte em uma via. Depois seu programa tem que imprimir a placa do carro, a velocidade em que estava, a data e a hora do registro e... Di? Oi? Ta me ouvindo?

Di parou de ouvir na parte do “intervalo de um minuto” pois ocupou-se em observar um garoto que nunca vira antes na turma de Análise de Estruturas de Dados e que vez ou outra o fitava por cima de seu monitor.

— Gus, quem é o esquisitão?

Gus olhou indiscretamente para o garoto que abaixou o olhar.

— Eu sei lá, talvez ele tenha reprovado nessa disciplina no período passado e agora deve tá pagando a matéria. Mas, eu nunca o vi antes nessa turma.

Di continuou a olhar. O garoto era alto, cabelos ruivos até os ombros e braba e bigode do mesmo tom do cabelo. Suas sobrancelhas eram grossas e seus olhos eram negros. Usava uma blusa do Metalica e tinha uma cicatriz que cruzava o olho esquerdo.

A aula perdurou por mais duas horas e meia e os alunos foram liberados por volta de 22h. Di estava saindo da sala quando o professor Marco o chamou. Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de se virar para o carrasco. Gus arregalou os olhos, fez um sinal com a mão e mexeu a boca formando a frase “te espero lá fora”.

— Oi professor...

— Olá senhor Ferreira, não se preocupe, não vim lhe aplicar uma prova... não a essa hora. – o professor deu um meio sorriso sádico. – vim lhe devolver um teste que você fez semana passada... curiosamente sua nota muito me surpreendeu...

O professor entregou a ele uma folha de prova com uma nova 10.0 no campo “nota”. Di riu (por dentro).

— Mas, devo alertar que esses testes valem apenas 30% de sua média, e que vão ter outros dois testes que, se você tirar 10.0 neles também, você fica com três pontos.

— Ué, pensei que os testes valiam algo mais... notável do que um três.

— As avaliações é que valem senhor Ferreira, e infelizmente você tirou 5.0 na avaliação passada.

— Ham, tudo bem... eu... posso ir agora? – perguntou Di fazendo um sinal por cima do ombro apontando pra porta.

— Sim, claro... boa noite senhor Ferreira.

Di saiu da sala. Para questões de visualização, a Universidade Federal d Amazonas é formada por diversos Institutos localizados nas mais diferentes áreas da universidade, que por sua vez, fica dentro da mata. NÃO! A cidade não é uma floresta. Na verdade, você raramente verá uma árvore na capital superpopulosa e modernizada do Amazonas, porém, como contraste, a universidade o fez. Os blocos dos institutos são ligados por pequenos caminhos, como trilhas, porém concretadas que atravessam uma pequena floresta não selvagem. Os institutos levam à um Centro de Convivência no meio da Universidade. Lá ficam localizados os restaurantes universitários e outros departamentos.

— Droga, Gus – praguejou.

Ele odiava ficar sozinho naqueles corredores cercado de árvores altas e sinistras. Apertou a mochila nas costas e seguiu corredores a fora em direção ao Centro de Convivência e as paradas de ônibus. Estava frio e uma leve camada de orvalho e neblina cobriam as plantas baixas. Sua barriga estava gelada e seus joelhos ameaçavam vacilar. Mas que diabos era isso? Di já havia feito aquele trajeto milhões de vezes, o que havia de errado? Ele cruzou uma bifurcação que levava ao Centro de Convivência e caminhou rapidamente, pois naquele ponto não havia luz à exceção da luz da lua, e para seu terror interno, alguma coisa se mexeu nas arvores e plantas rasteiras. Seu sangue gelou e seus joelhos travaram. Olhos que brilhavam como o de felinos no escuro o fitava de dentro da pequena floresta que o cercava. “Calma seu louco, a floresta não é tão aberta assim, e fica no meio da cidade, não há mais animais grandes aqui... talvez seja um tamanduá, um gato ou mesmo um cachorro.” De fato em alguns pontos da Universidade haviam muitos cachorros que por sua vez eram bem interativos com os alunos... brincavam, comiam ração que os seguranças traziam para eles. Di forçou sua mente a acreditar que era apenas um cachorro.

E de fato era, mas não um cachorro comum. Apertou o passo e aumentou o volume de seu celular, onde o aplicativo do Spotfy tocava Cherry Bomb de The Runaways. No centro de convivência o silencio imperava. Não havia uma alma vivente. Nada de alunos, nada de professores, nada de seguranças e nem mesmo os cachorros habituais. O Centro de Convivência era uma grande e alta estrutura, como um prédio de quatro andares com pátio gigantesco no centro e como se o tal prédio de quatro andares desse acesso pelas laterais para outros institutos por meio de arcos gigantescos. O pátio devia ter uns duzentos metros quadrados incrivelmente cercado por uma “floresta” que na verdade é apenas um agrupamento de árvores que não foram derrubadas durante a construção.

A parada de ônibus ficava logo depois do Centro de Convivência. Di, com passos largos, cruzou o enorme pátio olhando de uma ponta a outra para se certificar de que nenhum maníaco o observava. Mas como Di era uma pessoa que tinha grande sorte no azar, uma figura surgiu à sua frente, a mais ou menos vinte metros. Di reprimiu um gritinho involuntário do fundo da garganta e parou. A figura furtiva era o tal garoto novo da turma de Análise de Estruturas de Dados.

— Ham, oi? – Di esperou resposta, mas o garoto só o fitava – Eu sou Di...

Nenhuma resposta ou sinal.

— E você é....? – tentou mais uma vez

Por um segundo os olhos do garoto brilharam do mesmo jeito que a criatura que o observava no mato. Ele mostrou os dentes e começou a rosnar. Barulho de ossos se quebrando, como aquelas pessoas que tem mania de quebrar o pirulito na boca, foram ouvidos. O garoto se contorceu e em quatro segundos, o garoto novato de Análise de Estruturas de Dados se fora, deixando em seu lugar uma criatura esguia, esquelética, com focinho de cachorro com sarna, braços longos que chegavam ao chão com pelos ruivos e sarnentos em alguns lugares. A coisa lembrava vagamente um cachorro/homem/monstro. Como a criatura em que Remo Lupin se transformou em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

A coisa estava bloqueando o caminho para o ponto de ônibus. Só restavam três saídas. Ou ele corria para o instituto a sua direita, ou para o instituto da esquerda ou voltava pelo trajeto que fizera, em direção ao seu instituto. Considerando que os institutos da direita e da esquerda eram completamente desconhecidos para Di, ele preferiu voltar para seu instituto, já que ele o conhecia bem, talvez tivesse mais chances de fugir do Remo Lupin fermentado.

Correu com todas as suas forças. A coisa soltou um rugido/grasnado e correu atrás dele ora sobre duas patas, ora sobre quatro patas. Di gritava, mas ninguém apareceu para ajudá-lo. Decidiu parar de fazer algazarra pois isso estava denunciando sua posição. Ao chegar em seu instituto ouviu o som da coisa se aproximando, cortando caminho pela mata. Precisava sair dali. Olhou para a direita, para um caminho que levava ao estacionamento da Faculdade de Direito e correu. Ele era cercado pela mata que a coisa se embrenhara, mas Di não queria pensar nisso agora. Tudo em que pensava era em chegar ao estacionamento. O caminho devia ter uns trinta metros. Di correu com todas as suas forças. Vinte metros. Quinze. Dez. Cinco metros... ouviu o mato se mexer mais à sua frente e de lá uma raposa negra surgiu. Seus olhos brilhavam com um verde não humano (claro, era uma raposa... mas não pareciam olhos de animal também). Di parou. Na universidade já vira muitos bichos de pequeno porte por aquelas matas... tamanduás, preguiças e outras coisas. Mas nunca uma raposa. Ele e o animal negro trocaram um intenso olhar, mas não durou muito, pois o cachorro fermentado saiu da mata atrás dele. Ele estava cercado. De um lado a raposa negra e de outro um monstro raivoso.

Os olhos verdes incandescentes da raposa brilharam e ela avançou em direção à Di. Ele se abaixou e ela saltou sobre ele. Quando ele se virou, viu a cena mais bizarra que poderia ver dentro da Universidade Federal do Amazonas, e ele já vira muitas coisas estranhas. A raposa negra não era mais uma raposa. Era uma pantera negra que arranhava, chutava e mordia o mostro que revidava e tentava se livrar do encalço da pantera.

A pantera foi lançada para o alto pela criatura e em pleno ar um brilho verde cintilou e o que a minutos atrás era uma pantera, agora era uma mulher alta, com cabelos e roupas negras empunhando uma adaga longa com inscritos estranhos. A trajetória que ela descreveu até o chão foi curta e graciosa, como a de um felino.

Ela caiu atrás da criatura que avançava na direção de um Di atônito à tudo que estava acontecendo. Sua mente não estava conseguindo processar tudo aquilo de maneira natural. Quando a criatura tentou investir contra Di, os olhos da coisa se arregalaram e ele soltou um gemido esganiçado. Ele foi ao chão com um baque surdo. Uma adaga estava cravada em sua nuca. A mulher se aproximou usava botas pretas e roupas de guerreira indígena feita de pele de animais escurecidas até atingir tons de preto. Seus cabelos negros eram encaracolados e caiam sobre seu corpo. Tinha feições agudas ameaçadoras, porém cruelmente belas com os mesmos olhos verdes cintilantes.

Ela se abaixou à altura da criatura abatida, tirou a adaga da nuca da coisa e sussurrou.

— Jabró Anaantanha – disse ela como uma ordem.

A criatura se desfez em cinzas e depois de segundos, não restara nada pra lembrar Di da perseguição animalesca.

— Olá Dionísio Ferreira. – disse a garota com os olhos brilhando como faróis esmeraldas.

— C-como... como sabe meu nome? Quem é você? O que é você?

— Chame-me de Iagara... e em breve saberá mais sobre mim e o mundo que o cerca... – os olhos da garota brilharam no minuto que a ela disse a palavra que encerrou a conversa rápida e inesclarecedora dos dois – Mortal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.