Folhas de Relva
1 Folhas de Relva
Notas iniciais
Havia poucos veículos no estacionamento quando Isaac parou a moto. Tirou o capacete, fazendo os cabelos pretos sacudirem com o movimento. Quando fazia isso, sempre se sentia como Tom Cruise no Top Gun — e a ideia em geral o fazia rir sozinho de si mesmo. Pegou os óculos escuros na bolsa e os colocou no rosto. Foi andando e observando os arredores. Tudo parecia estranhamente tranquilo para um primeiro dia de aula. Poucos alunos circulavam pelos corredores do campus, e nenhum que ele conhecesse. Sentia um medo estranho de chegar à sala de aula e encontrá-la vazia. Era assim desde que entrara para dar aula pela primeira vez. Olhou para o relógio e tratou de acalmar seu coraçãozinho ridículo: estava muito cedo e essa era a razão por que não havia muitas pessoas na universidade ainda.
Foi para a sala dos professores e também a encontrou ainda vazia. Apesar disso, já havia uma garrafa de café à disposição, e ele tratou logo de encher a caneca de Star Wars que trazia na bolsa.
Havia uma grande mesa de madeira, rodeada por cadeiras. Puxou uma e sentou, depois retirou o notebook da bolsa e, enquanto o computador ligava, ficou reparando nas mudanças na decoração. Franziu o cenho para o vaso de flores artificiais amareladas no centro da mesa. Não sabia de quem era aquela obra, mas a pessoa não tinha o menor senso de bom gosto.
Tomou um gole de café enquanto abria os arquivos no computador: o plano para a primeira aula, a lista de alunos e aproveitou para ler algumas notícias na internet antes de começar a trabalhar de fato.
— Olha só quem voltou! — Ergueu a cabeça em direção à voz e, de pé na porta, estava uma mulher, vestida num elegante terninho azul marinho, com os cabelos grisalhos bem presos. Isaac levantou-se para cumprimentá-la e recebeu um abraço carinhoso.
Eliza Montenegro era uma lenda. A professora mais antiga e chefe do departamento de Letras, fora professora de Isaac durante a graduação, sua orientadora no curso de mestrado e se tornara uma grande amiga, alguém por quem ele nutria profunda admiração e respeito.
— Achei que você não voltaria mais, hein? — ela continuou depois de soltá-lo. O rapaz deu uma risada.
— Que ideia, professora. — Ele havia perdido as primeiras reuniões do semestre letivo em decorrência de ter estendido sua permanência na Inglaterra por dois meses além do período que durou o doutorado.
— Como foram as coisas? — Ele voltou a sorrir. Havia passado um ano e meio afastado da universidade, todavia, mantivera contato com a mentora durante todo o tempo que ficou fora, não era como se Eliza não estivesse a par de tudo que tinha acontecido. Mesmo assim, era muito atencioso da parte dela perguntar, provavelmente imaginava que ele não iria se cansar nunca de falar sobre o quão incrível fora fazer doutorado em Oxford.
Passou os próximos minutos falando sobre como foi passar aquele tempo imerso em outra cultura. Os outros colegas de trabalho foram chegando, e por alguns instantes, o horário foi deixado de lado, pois todos queriam cumprimentá-lo, fazer perguntas e dar os parabéns pela tese. Logo a conversa se transformou numa cacofonia de idiomas misturados — o departamento de Letras tinha a particularidade de ser poliglota, então era comum ver os professores de Francês ou Espanhol conversando, cada um na língua de sua especialidade. Se eles conseguiam se entender era outra história.
Assim, quando resolveram ir para suas respectivas salas de aula, já estavam uns bons dez minutos atrasados. Pelo menos isso dava aos alunos tempo para chegar, se acomodar e começar a se sentir mais à vontade — no caso dos calouros. Começaria o dia com a aula de Teoria da Literatura para a turma do primeiro semestre.
Enquanto andava pelo corredor, rumo ao setor de aulas, pensando no tipo de discurso motivacional que os estudantes gostariam de ouvir no primeiro contato com a universidade, encontrou alguns alunos conhecidos. Os garotos que eram ingressantes no mesmo ano que ele começara a dar aulas, ainda como professor substituto, agora estava se formando. Ao mesmo tempo em que ficava orgulhoso, sentia-se um pouco tiozão. Aquela frase sobre não ser mais um moleque que seu pai adorava dizer parecia fazer cada dia mais sentido.
Entrou na sala e surpreendeu-se por encontrá-la cheia — claro, era o primeiro semestre, eles ainda eram bonzinhos àquela altura. —, mais uma prova de que seu medo de ser abandonado pelos alunos era infundado. Deixou a bolsa em cima da mesa e deu um bom dia à turma. Algumas vozes tímidas responderam, mas era como se não acreditassem que o rapaz fosse o professor.
Isaac tinha acabado de fazer vinte e nove anos, mas ainda mantinha a aparência dos dezoito. O rosto bem barbeado e os cabelos castanhos lisos ajudavam, além das roupas bastante casuais que usava. Naquela manhã, fora trabalhar vestindo jeans e uma camiseta de Lord Of The Rings — achava interessante começar o curso de Teoria da Literatura fazendo referência a Tolkien.
Por um instante, deu uma olhada para a turma. Havia alunos bem jovens, claramente recém-saídos do ensino médio — era fácil identificá-los também pelas mochilas e cadernos bem organizados. Também havia aqueles que pareciam já ter mais experiência, que provavelmente vinham de outros cursos ou simplesmente retornavam à universidade depois de alguns anos. Chamou-lhe a atenção, em particular, um homem de cabelos grisalhos sentado na primeira fila. Gostava da diversidade. Sorriu.
— Bom dia, pessoal — repetiu o cumprimento, postando-se diante da turma. Dessa vez houve um pouco mais de entusiasmo na resposta. — Se alguém ainda tem dúvida, eu sou o professor — acrescentou, brincalhão, depois pegou o pincel e foi até a lousa, onde escreveu o próprio nome e o endereço de e-mail. Sentindo um pouco de orgulho, também acrescentou as letras “dr.” antes do nome. — É Isaac Luís de Medeiros, mas vocês podem esquecer o Luís e me chamar só de Isaac. Ou vocês podem me chamar de “Ó captain, my captain¹”. — Houve alguns risos por parte daqueles que entenderam a referência, mas também havia os que pareciam não fazer ideia do que o professor falava. Mas não poderia criticá-los, não era como se esperasse que uma turma inteira já chegasse conhecendo Walt Whitman. — E anotem o e-mail também, a gente vai usar bastante. Não vou pedir que vocês se apresentem, ok? Sempre achei isso um saco e prometi que não faria quando estivesse dando aula. — Os alunos riram. — Mas vocês irão conviver durante os próximos quatro anos, é legal saber coisas sobre as pessoas com quem você passa tanto tempo da sua vida. Por isso, fiquem à vontade.
Usava aquela estratégia desde que começou a lecionar, e geralmente funcionava. Dessa vez não foi diferente. O primeiro a se manifestar foi o homem de cabelos grisalhos sentado na primeira fila. Depois os outros o seguiram, diziam seus nomes, se moravam na cidade ou se tinham vindo de outro lugar — havia muitos estudantes de outros estados na universidade —, porque tinham escolhido o curso e etc.
Apenas um garoto não falou. Estava sentado no fundo da sala, quase encolhido na cadeira. Isaac ainda olhou para ele, sorriu, porém não insistiu para que ele falasse. Entendia perfeitamente como era ter pânico de falar em público. Quem o via circular com desenvoltura na frente de várias pessoas — e até fazer palestras às vezes —, não imaginaria que em seus anos de infância e adolescência ele tão ou mais quieto até do que aquele garoto.
Enquanto sua irmã gêmea era toda desinibia e falava pelos cotovelos, ele ficava à sua sombra, raramente abria a boca e a deixava responder quando alguém fazia uma pergunta. Só havia mudado o jeito introspectivo depois que entrou na universidade. Foi uma época de muitas descobertas e novidades.
Quando as apresentações terminaram, ele tinha ligado o computador e projetor e passou para a parte de apresentar o programa da disciplina, o cronograma de avaliações e seus respectivos métodos. Não era muito fã de perder tempo com informações que estavam acessíveis no sistema acadêmico, mas como se tratava de uma turma iniciante, abria uma exceção e oferecia tudo detalhado.
— Sobre a bibliografia, a nossa biblioteca tem um acervo bem legal, então todos os livros que a gente vai trabalhar estão disponíveis lá. Eu não costumo deixar material na copiadora porque vocês podem usar os originais que tem na biblioteca, ok? Alguém tem alguma pergunta?
O homem grisalho — Marcos era seu nome —, ergueu o braço e perguntou sobre as provas. Assim, Isaac gastou o restante da aula explicando sobre as avaliações e as alternativas que costumava dar além da tradicional prova escrita.
— Nosso tempo acabou por hoje, mas eu vejo vocês na quarta. Class dismissed.
Os alunos tinham um intervalo de dez minutos antes da próxima aula. Enquanto eles saíam, Isaac arrumou as coisas. O garoto quieto ainda estava sentado no mesmo lugar quando se preparava para deixar a sala. Ele mantinha a cabeça abaixada, com os olhos fixos no que parecia ser um livro.
— Ei! — chamou. Agora que não havia mais ninguém na sala, talvez ele se sentisse mais à vontade para dizer o nome. O garoto levantou a cabeça; uma mecha de cabelo caiu na testa e ele a afastou com a mão. — Você não se apresentou como o resto da turma.
— Desculpe, professor, eu não...
— Tudo bem — cortou, com um sorriso brincalhão no rosto. — Eu vou descobrir quando corrigir suas provas. A propósito, camiseta legal. — O rapaz usava uma camiseta preta com o símbolo do disco The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. — Até quarta. — Sorriu novamente e foi embora.
Passou na sala dos professores apenas para tomar mais um café e conversar um pouco mais com os colegas, depois seguiu para a próxima aula.
Ter um doutorado era ótimo para seu ego, mas não mudara muita coisa na sua carga horária. Não que reclamasse. Dava aulas porque gostava de fazê-lo, de modo que não demorou a se acostumar e já estava readaptado à antiga rotina de passar o dia inteiro na universidade, com aulas nos períodos da manhã e da noite, com as tardes dedicas ao grupo de pesquisa e à orientação de concluintes.
Pelo menos dez alunos do último período o procuraram em busca de orientação para o TCC, mas não pode, obviamente, aceitar todos eles. Ser o mestre dos magos para mais de três orientandos seria uma bagunça.
Além do trabalho, ainda encontrar tempo para sair um pouco e se divertir, apesar de as opções na cidade serem bastante limitas. Portalegre era quase um vilarejo, cuja população urbana não ultrapassava quinze mil habitantes. Apenas a presença de muitos universitários salvava o lugar do tédio total.
Ainda morava na casa dos pais — uma fazenda a poucos mais de dez quilômetros de distância da cidade, de onde ia e vinha de moto todos os dias, apesar da desaprovação da mãe. Já havia pensado na possibilidade de ir morar sozinho, chegara a alugar um pequeno apartamento próximo à universidade, mas ter que tomar conta da casa se poderia ter tudo facilmente, lhe parecia um extremo desperdício de tempo.
Precisava apenas suportar com paciência o fato de os pais quererem tratá-lo como se ainda fosse um adolescente. Mas isso, já tinha percebido, não mudaria tão cedo. Seus dois irmãos mais velhos eram casados e tinham filhos, e os pais ainda se metiam na vida deles como se fossem crianças.
Já era mais de meia-noite quando parou a moto na garagem. Ainda havia luzes acesas dentro da casa, o que era de espantar, porque seus pais costumavam dormir bastante cedo. Entrou e deixou o capacete em cima de um balcão no hall. A luz vinha da sala de TV, onde encontrou a mãe sentada na poltrona, com a televisão ligada, mas sem prestar atenção direito ao que assistia.
— Ainda tá acordada por quê, mãe?
— Perdi o sono, então resolvi esperar você chegar. Onde você estava até agora? — Isaac olhou para o relógio.
— Fui comer uma pizza com o pessoal depois da aula. — Isso era o mais próximo da verdade que podia chegar. De fato, fora à pizzaria quando saiu da faculdade, mas não chegou a comer. Manteve-se ocupado em receber um presente de boas-vindas meio tardio de um aluno do curso de Jornalismo. Não era a favor de mentir, mas não diria à mãe que estava dando uns amassos em um beco escuro. Ela certamente encararia isso como falta de respeito.
— Aham, jantando besteira na rua, não é? — Ele apenas sorriu e assentiu, tentando demonstrar ao menos um pouquinho de culpa. — Ah, hoje eu falei com a Isa, ela vai tentar vir no feriado. E vai trazer o namorado.
— Que ótimo. Espero que esse novo namorado seja melhor do que o traste do Murilo. — Rosemeire deu uma risada.
— Seu pai disse a mesma coisa!
— A gente tinha que concordar em alguma coisa, não é mesmo? — Ela voltou a rir, balançando a cabeça numa. — Eu vou dormir, mãe, boa noite.
— Boa noite, querido.
A expectativa da chegada de Isabela com o namorado passou a ser o assunto da casa. Não via Aurélio e Rose falarem de outra coisa. O que era bom, porque assim, eles não perguntavam sobre seus namorados. Contar aos pais que sobre sua orientação sexual não fora tão difícil quanto imaginou. Quando se tem dezesseis anos é natural ter medo de tudo. Na época, Aurélio e Rose quase não o levaram a sério. Achavam que gostar de garotos seria uma coisa passageira — assim como seria passageiro ter o cabelo grande, querer estudar no exterior.
Ambos eram religiosos e apegados aos costumes e às tradições. Todavia, eles também eram o tipo de pais que colocavam o amor pelos filhos acima de qualquer outro. Isaac sabia que eles não concordavam, nem mesmo chegavam a aceitar totalmente o que ele era, mas não o abandonariam por causa disso. A maneira que eles tinham para lidar com o filho gay era não falar no assunto com a esperança de que ele voltaria ao normal.
Não era a situação ideal, mas era melhor do que ser hostilizado pela própria família. Para evitar conflitos, Isaac dançava conforme a música. Não chegava a esconder de ninguém que era gay, mas tentava ser o mais discreto possível, principalmente quando não estava namorando sério. Ser discreto, no entanto, nem sempre era fácil quando vivia numa cidade onde todo mundo conhecia todo mundo e, na falta do que fazer, as pessoas faziam fofocas.
Foi uma fofoca — ou fuxico, como Aurélio chamava —, que o fez brigar com o pai depois de muito tempo.
Isaac estava sentado no chão da sala, com todo o material espalhado em cima da mesinha de centro. Sua mãe não gostava muito quando ele bagunçava a casa daquele jeito, mas o dia estava terrivelmente quente e o Sol ficava exatamente do lado do seu quart naquela hora. Tinha uma pilha de trabalhos para corrigir e pretendia terminar antes da chegada de Isabela. Queria ter tempo para ficar com ela e conversarem, afinal, fazia muitos meses que não se encontravam.
O rock ecoava das caixas de som potentes enquanto ele balançava a cabeça, lendo e fazendo anotações no canto da página.
— ... essa música dessa altura? — Só ouviu o final da pergunta, mas conhecia o conteúdo integral dela. Seu pai entrara na sala e fora direto ao som para desligá-lo.
— Tô ouvindo música, cara — resmungou. Seu pai estava de pé à sua frente; a calça jeans estava suja de poeira e havia lama seca nas botas.
— Não dá pra ouvir mais baixo? — Isaac bufou, mas não discutiu. Era a casa dele, afinal. — Eu vim agora da cidade... — Aurélio informou, como se aquilo fosse algo vital.
— E...?
— E você não toma jeito na vida, Isaac.
— A sua afirmação é carente de coerência, pai — foi irônico, mas como sabia que seu pai era incapaz de entender ironia ou sarcasmo, desistiu da abordagem. — Eu não entendi o que o senhor quis dizer. O que foi que eu fiz?
— O que você fez...? O quê...? — Foi a vez de Aurélio bufar e revirar os olhos. Isaac viu o pai se virar com a intenção de sair e voltar na mesma hora. — As pessoas estão falando de você na cidade inteira — quase gritou, mas o filho ainda se fez de desentendido.
— As pessoas não têm muito o que fazer da vida, não é mesmo?
— Não se faça de besta, rapaz! Você é um professor universitário, deveria ter um mínimo de vergonha...
— Para! Pelo amor de Deus, para! — Geralmente tentava lidar com paciência com o pai, mas quando ele ameaçava colocar sua conduta moral em xeque, não tinha como aguentar. Ficou de pé e encarou o pai. — O senhor precisa me dizer exatamente o que eu fiz de errado e do que eu deveria ter vergonha, papai.
Aurélio abriu e fechou a boca, mas parecia não saber o que responder. Isaac deu um risinho de deboche. Ele estava, sim, a par do que as pessoas andavam comentando sobre a sua vida. Já era um assunto popular na pequena cidade e depois que voltara do exterior, era como se fosse uma celebridade. Aquela gente adorava fazer fofoca. O que ele sabia também era que Aurélio não admitiria em voz alta o que estava pensando.
— Eu não fiz nada errado — garantiu, porém não viu o pai ceder. — Agora, se o senhor puder me dá licença, eu tô trabalhando aqui.
— Sua mãe não merece isso, Isaac.
— Para de me tentar me fazer sentir culpa, pai! Eu sinto muito que algumas pessoas insistam em constranger você com comentários sobre a minha vida, mas deixa eu te lembrar uma coisa: ninguém tem nada a ver com ela. Eu não devo satisfação a ninguém além de você e da minha mãe. E eu não fiz nada errado — repetiu. — Eu não estou dormindo com um aluno, se isso te preocupa. Agora se vocês acham que ter um filho gay é uma vergonha, apenas admita. — Explodiu de repente. Toda paciência que tivera com o pai, pareceu desaparecer.
— Abaixa o seu tom de voz, moleque. Eu não tô falando disso.
— Não? Tá falando de que então? Por qual motivo você teria vergonha do seu filho? Por que o diploma de medicina veterinária do meu irmão vale mais do que meu doutorado numa universidade de prestígio internacional? Por que todos os seus outros filhos são melhores do que eu, pai? O que o Levi fez de tão grandioso pra ser um filho mais digno de orgulho do que eu?
— Cala a boca, Isaac, você tá passando dos limites.
— Eu tô passando dos limites? Quer dizer que o senhor tem o direito de ofender e eu não posso responder?
— Eu não estou ofendendo você, só pedindo pra você parar de agir que nem um...
— Que nem o quê, pai? Fala, caralho. Veado? Veado, veado, veado. Qual o seu problema?
— Você não precisa fazer isso.
— Eu tô cansado de não ser bom o bastante pra vocês.
Depois disso, a conversa se tornou um verdadeiro bate-boca, com direito a palavras de baixo calão e a Aurélio ameaçando dar umas palmadas no filho — coisa que ele, aliás, nunca fizera, e atribuía a rebeldia de Isaac à falta de uma boa surra. No fundo de sua mente, uma vozinha pedia para parar, dizendo que seu pai estava nervoso e ele não deveria levar aquela discussão idiota adiante. Mas Isaac não conseguiu, e eles continuaram até que Rose chegou e interferiu. Como não conseguiu terminar a briga apenas pedindo e lembrando aos dois que Isabela chegaria a qualquer instante, ela arrastou o marido para fora da sala ao mesmo tempo que lançava um olhar sério ao filho.
Isaac estava tão irritado que resolveu sair. Não queria que sua gêmea o encontrasse naquele estado de nervosismo, tampouco queria voltar a discutir com o pai — o que certamente aconteceria se ficasse no mesmo lugar que ele antes de se acalmar. Apenas juntou o material e guardou, depois pegou o capacete e saiu, sem rumo.
Guiou sua moto por vários minutos sem saber para onde ir. Como era feriado, a cidade estava deserta, a universidade fechada e os bares também. Depois de vagar a esmo, foi para a casa de sua colega de trabalho.
Eliza também estava corrigindo trabalhos dos alunos, mas não se incomodou de parar seus afazeres para receber o amigo, apesar de ele aparecer de repente.
— Aconteceu alguma coisa? — a mulher perguntou depois de perceber que ele parecia nervoso.
— Eu tive uma briga com o meu pai, e... desculpe, eu não deveria ter vindo aqui, Eliza. Eu só... — acabara de perceber que não tinha amigos além dos colegas de trabalho. Não havia ninguém com quem pudesse conversar e abrir o coração. — Não sabia pra onde ir, precisava me acalmar um pouco.
— Ok, fique o tempo que precisar, querido.
A amizade com a professora o deixava confortável, todavia, não quis abusar da boa vontade dela, por isso tratou de levar a conversa para um campo menos delicado do que sua vida pessoal.
Ficou na casa de Eliza até a noite. Apenas quando já se sentia seguro o bastante para não começar a discutir por qualquer bobagem que o pai dissesse, resolveu ir embora. Agradeceu à professora pela atenção e tomou o rumo da fazenda.
A família quase toda estava reunida na sala quando ele entrou. Cumprimentou os irmãos, fez graça com o sobrinho e perguntou por Isabela, então foi direto para o quarto a fim de vê-la. Encontrou-a dando uns amassos com o namorado e se divertiu com a cara constrangida dele. Enquanto isso, a versão feminina e delicada de si mesmo deu um pulo e o abraçou. Isaac a apertou contra si, tirando-a do chão.
Depois dos cumprimentos, ela o apresentou a Inácio. Num minuto, Isaac avaliou o sujeito de cima a baixo e ficou relativamente satisfeito. Claro que não gostava de ver nenhum marmanjo agarrar sua irmã, mas aquele ao menos não tinha cara de cafajeste.
— Só pra constar, foi ela quem me agarrou — Inácio brincou.
— Eu sei.
— Acho que eu vou deixar os siameses conversar, vocês devem ter um monte de coisa pra colocar em dia. — Esse tipo de sensibilidade fez Isaac simpatizar um pouco mais com o namorado da irmã.
Ele e Isabela foram sentar na varanda, e ela o interrogou sobre o que havia acontecido. Tentou esconder, fingir desentendimento, mas afinal, tinham dividido o útero e ela sabia quando o irmão estava mentindo. Terminou contando sobre a discussão com o pai e motivo por que acontecera.
— Mas isso não é antiético?
— Não, porque ele não é meu aluno, é aluno da universidade. Além disso, não aconteceu nada sério, apenas ficamos umas duas ou três vezes. — Ele reconsiderou a questão. — Talvez tenha sido mais vezes, mas isso não vem ao caso.
— Isaac, tá cheio de homem no mundo, por que cê tem que ficar com esses moleques? Eles são encrenca.
— Olha só quem fala de encrenca!
— Bom, pelo menos eles não ficam grávidos, o que já é uma grande coisa não é?
— Que ideia, garota!
Ele a puxou para junto de si e fez cócegas. Era bom ter sua metade ali e poder compartilhar o que estava sentindo. Gostaria que Isabela passasse mais tempo em casa, mas sabia que era egoísmo de sua parte pensar assim. Ela estava estabelecida em outra cidade, tinha uma vida diferente agora e não pretendia voltar.
O feriado foi bastante divertido, mas depois que a irmã e o namorado foram embora, no domingo à tarde, ele se deu conta que a pilha de trabalho ainda esperava para ser corrigida.
Retornou à normalidade da vida na segunda de manhã. Porém, algumas coisas começaram a mudar.
Chegou à sala de aula cedo. Apenas o aluno quieto que sentava no fundo havia chegado até aquele momento. Descobrira que o nome dele era Nilo.
— Bom dia — cumprimentou, e Nilo respondeu sem levantar a cabeça. — Escuta, eu corrigi os trabalhos e gostei bastante do seu — comentou, enquanto procurava na pasta o artigo do rapaz. Encontrou-o e foi até ele. Pôde perceber um sorriso discreto quando ele viu a nota na capa. Porém, quando Nilo ergueu a cabeça, também notou o olho esquerdo arroxeado. — O que aconteceu? — perguntou, fazendo um gesto para o machucado.
Nilo deu um sorriso envergonhado e voltou a baixar a cabeça.
— Briga de bar.
Para Isaac não parecia provável que um garoto que mal abria a boca na sala de aula pudesse se envolver numa briga física. Todavia, não o confrontou sobre o assunto. Nesse ínterim, outros alunos foram chegando e preenchendo as cadeiras vazias. Ele entregou o resto dos trabalhos e começou a aula normalmente.
Teria deixado o incidente do olho roxo passar, se o rapaz não tivesse aparecido machucado novamente na semana seguinte. Imaginava milhares de possibilidades, mas em sua mente, uma briga no barzinho onde os universitários gostavam de ir era a menos improvável. Ele mesmo frequentava o lugar e nunca vira Nilo por lá, tampouco tinha notícia de alguma briga recente — essas coisas geralmente eram comentadas como um acontecimento importante pelos corredores do campus.
Nesse dia, depois que dispensou a turma, ele esperou que todos saíssem para o intervalo, então, quando Nilo também havia se levantado, chamou-o. O rapaz parou antes da porta e mal levantou a cabeça.
— Está tudo bem com você? — perguntou.
— Aham, tudo bem.
— Eu não quero me meter na sua vida, nem algo assim, mas é que esse olho roxo já tá parecendo maquiagem permanente... Se você estiver precisando de alguma ajuda... Se estiver sendo vítima de bullying...
— Não, eu tô legal, ok? Não...
— Nilo...
— Não preciso de ajuda nenhuma, ok? — Como aquela era a maior sequência de palavras que ouvia do rapaz, Isaac ficou um pouco desconcertado com o tom dele.
— Ok, tudo bem. Mas se você mudar de ideia... — Nilo saiu da sala sem ouvir mais nada.
Isaac resolveu deixar quieto e apenas observá-lo. Muitas vítimas de bullying têm medo de denunciar os agressores, mas se isso acontecia dentro da universidade, ele não poderia ignorar, estaria em falta com seu papel de educador.
Reparava em Nilo durante as aulas e não via nada de errado. Ele era quieto, quase não falava, mas os colegas pareciam gostar dele. Era um dos melhores da turma e o que não conseguia expressar falando, fazia-o através da escrita. Via-o pouco fora da sala de aula. Às vezes sentado no chão do corredor, como os fones nos ouvidos e um livro, às vezes na biblioteca. Raramente ele estava acompanhado por algum colega.
Um dia, viu-o sentado numa das mesinhas do pátio, conversando com um rapaz chamado Thales. Isaac o conhecia porque, por acaso, era seu irmão. Foi até eles, tanto para tentar descobrir algo mais sobre Nilo, quanto para fazer Thales pagar mico.
— Ei, o que o “senhor exatas” tá fazendo desse lado do campus? — perguntou, enquanto colocava o braço em volta dos ombros do irmão caçula. Thales rolou os olhos e meio que mostrou a língua. — Vocês se conhecem? — apontou de um garoto para o outro.
— Do ensino médio — Nilo respondeu. Era normal que não conhecesse os amiguinhos de colégio de Thales, já que enquanto ele estava no ensino médio, estivera fora do país.
— Cuidado com as más companhias, Nilo — acrescentou, mas apertou o abraço no irmão e ainda bagunçou os cabelos dele.
— Para, Isaac.
— Para, Isaac.
— Ridículo — o rapaz se livrou do abraço, mas não parecia propriamente zangado. — Vai embora, você não é bem-vindo aqui.
Isaac deixou-os. Ainda olhou para trás e viu os dois rindo de alguma coisa, pareciam realmente grandes amigos.
À noite, quando estava em casa, resolveu perguntar a Thales se ele sabia de alguma coisa sobre o olho roxo de Nilo. Ele estava no quarto, ouvindo música com os fones e vendo alguma coisa no computador. Já não gostou de ser incomodado, mas Isaac não se importava muito com os chiliques do irmão, porque quando ele precisava de ajuda com os exercícios, sabia bem a quem procurar.
— Ele foi assaltado.
— Assaltado? — Arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— Foi o que ele disse.
— E você acreditou?
— E por que ele mentiria? — deu de ombros. — Cara, você tá a fim do Nilo?
— O quê? Por que você tá dizendo isso?
— Não é segredo que você gosta de alunos mais jovens, mas o Nilo não é dessas coisas. Além disso, ele é meu amigo, tenha noção.
— O Nilo não é dessas coisas. Que graça, agora cê tá falando igual ao pai? Se o cara é seu amigo, você deveria perceber que alguma coisa está errada. Como é que ele foi assaltado e continua usando o mesmo celular, a mesma mochila? Além do mais, ele disse pra mim que foi uma briga. Olha, eu não tô a fim do seu amigo, ok? Só preocupado, ele é meu aluno e alguma coisa não tá me parecendo certa.
De repente, a brincadeira despretensiosa pareceu de extremo mal gosto e Thales sentiu-se envergonhado demais por tê-la feita.
— Desculpa, eu não...
— Ok, não precisa se desculpar. Fica de olho no seu amigo, talvez ele precise de ajuda.
— Eu não entendo por que o Nilo mentiria sobre isso... ele é muito tranquilo e é pouco provável que se envolva numa briga.
— Quando vocês estavam no colégio, isso aconteceu alguma vez? Ele aparecer machucado...?
— Não... — Thales respondeu de pronto, mas depois reconsiderou. Nilo geralmente fugia das aulas de educação física e sempre andava de blusa de manga comprida. — Mas teve uma vez, numa aula de campo, a gente viajou com a turma, e nós ficamos no mesmo quarto, ele estava trocando de roupa e havia um hematoma nas costelas — fez um gesto mostrando o ponto no próprio corpo para ilustrar o que dizia.
— E você não se preocupou em perguntar o que tinha acontecido?
— No mundo dos heteros, um cara não admite pro outro que estava olhando ele trocar de roupa.
— Sério que a heterossexualidade é tão frágil assim? Olha, você deveria tentar falar com ele, talvez o problema seja mais sério do que eu imaginei. — Thales não entendia, e deixava claro, pela expressão de dúvida em seu rosto, que estava confuso com o interesse do irmão pela vida do amigo.
Isaac entendia a confusão de Thales. Ele tivera muitas aulas de psicologia e psicopedagogia, estava mais habilitado para entender um comportamento estranho num adolescente do que o caçula.
— Seu amigo pode estar sofrendo bullying, ou violência doméstica, eu não sei qual dos dois é pior. Ele pode esconder isso por medo, por vergonha, por se sentir culpado por alguma coisa, não sei...
Nos dias que se seguiram, Isaac voltou a questionar o irmão sobre Nilo, e Thales disse que tinha perguntado, mas o amigo dissera a mesma coisa. Também não tinha dito se havia qualquer problema, ao contrário, garantira que estava tudo bem.
Mas Isaac não acreditava nisso. Porém, não havia nada que pudesse fazer se o garoto não queria contar o que estava havendo. Ao menos ele passou vários dias sem aparecer com algum hematoma no rosto — embora não pudesse ter certeza quanto às outras partes do corpo.
Nilo faltou alguns dias de aulas. Perguntou a Thales se ele sabia e o irmão informou que seu amigo tinha ido passar uns dias na casa da avó porque estava doente. Ele também pediu para que Isaac parasse com a paranoia, que Nilo estava bem e era apenas estranho mesmo.
Quando Nilo retornou às aulas, tinha cortado o cabelo e abandonado o preto como única cor a compor seu vestuário. Nas quintas-feiras, a aula de Isaac era a última da turma dele, e o professor estava terminando de guardar o material quando foi surpreendido pela sombra do aluno de frente à sua mesa.
— Posso falar com você, professor? — Isaac reparou no casaco que o rapaz usava, apesar do calor.
— Claro. Qual o problema? — Talvez ele quisesse finalmente se abrir.
— Sobre as aulas que eu faltei... eu perdi alguma coisa importante?
— Bom, eu geralmente costumo achar todas as minhas aulas importantes, mas talvez a sua opinião seja diferente — acrescentou um sorriso para demonstrar que estava brincando. O aluno sorriu, um pouco corado. — Não se preocupe, você vai conseguir acompanhar, leia os textos e o material de apoio que eu deixei no sistema acadêmico.
— Tá...
— Quanto as faltas, eu não posso fazer nada, a menos que você tenha atestado ou algo assim.
— Tá, tudo bem. Obrigado, professor. — Ele deu outro curto sorriso e se virou para sair.
— Nilo? — Isaac chamou e o garoto parou, virou-se novamente para o professor. — Como está sua avó?
— Hein? — Não parecia entender do que o professor estava falando.
— Você não faltou aula por que foi visitá-la?
— Ah, é, sim. Ela tá legal.
— Que bom — o professor sorriu e o garoto foi embora, andando a passos lentos, de cabeça baixa.
A sensação de que algo estava errado ainda o perseguia, apesar de ver um Nilo um pouco diferente. Participando mais das aulas, sorrindo e conversando com os colegas. Às vezes, quando encarava o azul dos olhos era como se visse além deles. Os olhos são a janela da alma, sua mãe costumava dizer e talvez estivesse certa. Ou talvez ele estivesse mesmo paranoico. Talvez sua mente de pretenso romancista visse drama onde havia apenas um adolescente normal que contava umas mentiras de vez em quando. Talvez fosse apenas isso.
Numa tarde de sexta, quando ele estava em sua sala, preparando a aula que daria à noite, foi surpreendido por uma batida na porta, e logo depois Nilo entrou.
— Com licença, professor.
— Isaac. Eu já disse que você pode me chamar pelo meu nome. — O garoto sorriu e coçou a cabeça.
— Desculpa, é a força do hábito.
— Em que posso ser útil?
— É sobre o seu grupo de pesquisa, queria saber se eu poderia entrar.
Isaac deixou a caneta sobre os papeis e passou a mão no cabelo. Era raro que os alunos do primeiro semestre, ainda acostumados com o ritmo do ensino médio, demonstrassem interesse por fazer pesquisa.
— É ótimo que você queria participar, cara, mas a seleção dos bolsistas já foi feita... — Não queria ter que dizer não quando um aluno ia em busca de ampliar horizontes, principalmente no caso de Nilo. Aquela era uma excelente oportunidade para manter um olho no garoto. — Mas você pode ser voluntário, se quiser.
— Tudo bem, eu aceito. — Parecia feliz da vida.
— Ok, então. Eu te aguardo na próxima reunião. — Abriu a gaveta da mesa e pegou uma folha. — Estes são os textos que a gente vai discutir. Geralmente dividimos as tarefas no encontro anterior, mas como você vai começar agora, pode só dá uma lida pra não ficar perdido.
— Ok. — Nilo pegou a folha e correu os olhos pelos títulos.
— Você tem ideia do que a gente faz?
— Pra ser sincero, não — admitiu. — Mas eu preciso das horas complementares, então...
— Quanto antes começar, melhor. Eu te explico mais na reunião, porque agora tenho que terminar isso aqui. — Fez um gesto para a mesa e não precisou de mais explicações.
— Tá. Obrigado, professor... Isaac.
A princípio, parecia um calouro que não entendia muito bem o que era fazer pesquisa acadêmica, mas logo Isaac percebeu que tinha ganhado um membro dedicado para seu grupo. Não precisou explicar nada duas vezes e, já na segunda reunião, Nilo estava à vontade e em pé de igualdade com os outros alunos — mesmo aqueles que eram de períodos à frente dele. Às vezes, nem parecia o mesmo menino quieto das aulas. Sempre chegava cedo e preparado para discutir os textos, dar opinião e levantar questões relevantes para a pesquisa. Geralmente ele ficava até depois do horário e se dispunha a ajudar o professor com qualquer coisa que ele precisasse — encher a garrafa de café na copa ou tirar cópias, ele estava a postos.
Estava quase convencido de que suas suposições sobre ele eram equivocadas, quando elas, ironicamente, se confirmaram. Nilo voltou a faltar aula, assim como não compareceu às reuniões do grupo de pesquisa, e como já estavam se aproximando do período de provas, o professor ficou preocupado. Pediu ao irmão para que telefonasse e procurasse saber o que estava acontecendo. Ficou no pé de Thales até se certificar de que ele estava fazendo o que pedira.
— Pronto, já falei com ele — Thales disse enquanto desligava o telefone. — Ele tá doente.
— Doente de quê?
— Você tá agindo como louco, sabia? — rebateu, ignorando a pergunta anterior. Isaac, no entanto, preferia confiar na própria intuição.
— Você sabe o endereço dele?
— Quê? Isaac...
— Sabe ou não?
Louco. Paranoico. Não queria nem saber. Seu melhor aluno estava com algum problema, e ele não iria ficar sentado sem tentar ajudar.
A rua de calçamento irregular não era muito boa para andar de moto, sacolejava o tempo todo. Estacionou junto ao meio fio e verificou o endereço. Era o lugar que seu irmão dissera. Um sobrado de dois andares, com o que parecia ser uma mercearia embaixo e provavelmente uma residência em cima. Testou o portão que dava acesso à escada para o primeiro andar, mas o encontrou trancado.
— Posso ajudar, moço? — uma voz grave e desagradável soou atrás de si. Girou nos calcanhares e deu de cara com um verdadeiro “poço de simpatia”.
O homem tinha altura mediana, uma barriga proeminente, destacada pela camisa aberta e o peito peludo à mostra. Usava uma barba de semanas e os cabelos desgrenhados tinham uma aparência sebenta. O rosto sério o encarava sem qualquer emoção.
— Olá, boa tarde. Eu estou procurando o Nilo. Ele mora aqui... eu acho. — Isaac sorriu, tentou ser simpático, mas não adiantou muito. O homem deu um passo à frente.
— E eu posso saber quem é o doutor? — Sentiu o cheiro de álcool emanar do bafo dele. Mas pelo menos alguém estava usando seu título.
— Eu sou professor dele.
— Ele tá doente. — O homem informou com evidente má vontade.
— O senhor o conhece?
— Sou o pai dele.
— Será que eu posso falar com o seu filho? Ele tem faltado aula e as provas estão aí... — deu um sorriso, porém, novamente, tentar ganhar a simpatia do sujeito foi inútil.
— Eu já disse que ele tá doente. Agora se o senhor doutor me dá licença, tenho que trabalhar aqui.
Isaac ainda pensou em insistir, mas achou melhor não.
— Obrigado pelo seu tempo. Se o senhor puder dizer ao seu filho que eu passei por aqui... bom, espero que ele não perca as provas. Ele é um bom aluno.
Foi embora sem esperar mais do pai de Nilo. Aquela criatura grosseira era o que ele temia. O garoto ainda faltou aula no dia seguinte, mas retornou para a reunião do grupo de pesquisa. Isaac havia chegado cedo e estava sozinho na sala quando Nilo entrou.
— Você voltou! Que bom. Eu fiquei preocupado. Até fui à sua casa. — O garoto puxou uma das cadeiras da mesa oval e sentou. Tamborilou com os dedos na madeira e falou sem olhar para o professor.
— Você não pode ir à minha casa, Isaac — ele disse, com um tom de voz tão sério que fez Isaac sentir um arrepio na espinha.
— Eu... eu só... queria ajudar.
— Obrigado, mas você não ajudou muito. — Nilo se virou um pouco e levantou a camiseta, exibindo um pedaço de suas costas, onde Isaac pôde ver marcas arroxeadas. Ele voltou a baixar a camisa e fez um esforço para encarar o professor. — Você não pode me ajudar. Não pode. Ninguém pode.
Viu os olhos do garoto encherem d’água e ele tentar impedi-las de cair.
— Você não precisa passar por isso sozinho, Nilo.
— O que você sugere que eu faça?
Isaac ficou um instante sem saber o que dizer. Odiava tanto estar certo sobre Nilo que sua vontade era de ir à polícia e denunciar o desgraçado do pai dele.
— Em primeiro lugar, você não precisa guardar tudo só pra si. Você pode conversar com alguém, aceitar ajuda.
— Eu tô falando com você, não estou? — Ele ergueu a cabeça e fixou os olhos azuis marejados no professor. — Olha, eu sei que você quer ajudar, desde que... desde que eu conheci você. Mas não é que eu não queira ajuda, é só que... não tem nada que você, ou qualquer pessoa, possa fazer. Ele é meu pai.
— Ser seu pai não dá a ele o direito de agredir você. O dever dele é cuidar de você.
— Eu prefiro que ele bata em mim e não na minha mãe.
— Nilo, escute o que você está dizendo! Isso não é uma questão de escolha, cara. Ninguém merece passar por isso, nem você, nem sua mãe. Ninguém.
O choro que Nilo tanto tinha lutado para conter, veio em ondas e deixou o professor um pouco desconcertado. Isaac foi pegar um copo de água no bebedouro do corredor e aproveitou para ver se não havia ninguém por perto — por sorte, seus bolsistas gostavam de se atrasar; não gostaria de constranger Nilo ainda mais. Voltou para a sala e ofereceu a água.
— Obrigado. — Tomou um gole. — Eu acho melhor ir embora.
— Não, de jeito nenhum. Você vai se acalmar primeiro.— Nilo não discutiu. Se pudesse, não voltaria para casa, afinal. Ficou um instante em silêncio, encarando a água no copo, como se esperasse encontrar respostas ali. — Ele não foi sempre assim. Houve um tempo que as coisas eram... melhores. Ele não bebia tanto...
Aquele problema, infelizmente tão comum na vida de algumas famílias, despertava em Isaac uma raiva quase incontrolável. Pensar no inferno que deveria ser a vida daquele garoto, obrigado a suportar os abusos de um pai para proteger a mãe... Lembrou-se então do próprio pai e de todas as vezes que chamara seu Aurélio de careta, retrógrado. Ele era, de fato, um homem de costumes arcaicos e ideias tradicionais, mas, apesar de várias ameaças, jamais erguera a mão contra um dos filhos, muito menos para a esposa. Talvez fosse injusto não reconhecer o quanto tinha sorte por ter um pai que só esperava que ele não beijasse garotos na frente de outras pessoas.
— Por que ele bateu em você quando eu fui até lá? — A pergunta lhe veio ao acaso. Queria entender se a violência tinha alguma causa ou se surgia de qualquer evento aleatório.
Nilo voltou a encará-lo. As palavras pouco elogiosas do seu pai ainda ecoando em sua cabeça.
— Ele tem ódio da ideia de ter um filho veado. Ele odeia que eu tenha entrado nesse curso de veado. E se qualquer homem falar comigo, ele provavelmente está me comendo. — A frieza das palavras fez Isaac estremecer. Tinha demorado tanto para conseguir fazer Nilo falar e agora ele o fazia sem ressalvas. Era assustador. — Desculpe pelas palavras feias.
— Suas palavras não feias. São apenas um reflexo do que você está vivendo. — Isaac pôs a mão sobre a do aluno e a deixou ali por alguns segundos. Queria fazer mais por ele, porém, não sabia o quê. O som de vozes e passos se aproximando o obrigou a recuar o gesto. — Eu vou estar aqui sempre que você precisar conversar, ok? — Um sorriso sincero de agradecimento e no segundo seguinte, a porta foi aberta e os dois bolsistas entraram e começaram a falar, praticamente ao mesmo tempo, com as desculpas padrão pelo atraso. — Tudo bem, galera, eu já percebi que não estou mais na Inglaterra. — Os alunos riram e até Nilo esboçou um sorriso. — Vamos trabalhar?
— Ué, cadê o professor Marcos? — Gabriela, a garota do sexto período que adorava falar, perguntou. — E a gente achando que já estaria todo mundo aqui! — comentou com o outro atrasado do recinto.
— Seremos só nós hoje, minha querida — Isaac informou e logo o grupo estava discutindo os textos da semana e preparando o material para o artigo que deveria escrever antes do fim do semestre.
Disse a Nilo que ele poderia ir, se quisesse, mas o rapaz resolveu ficar. O grupo de pesquisa era, afinal, seu refúgio preferido.
Na prática, o fato de ele saber a verdade sobre a vida de Nilo não mudava muita coisa, principalmente porque o garoto se recusava a prestar queixa do pai à polícia. Nilo argumentava que um vizinho já tinha feito isso uma vez e quando o pai voltou, as coisas apenas pioraram. Todavia, ter alguém com quem conversar e dividir suas angústias era uma coisa boa.
— Mas você é amigo do Thales, por que nunca conversou com ele? — A pergunta veio quando estavam sentados na lanchonete do setor II depois da reunião do grupo de pesquisa. Isaac quase não acreditava que o irmão era amigo de Nilo desde o colégio e nunca tinha suspeitado de nada.
— O Thales é legal, eu gosto muito dele, mas com a vida perfeita que ele tem, apenas ia me olhar com pena e talvez quisesse se afastar. E eu não estava disposto a arriscar perder o único amigo que tenho. — Isaac considerou a questão. De maneira bem objetiva, seu irmão mais novo era, de fato, um garotinho mimado acostumado a ter tudo, cuja única obrigação na vida era ir bem na escola.
— Mas ele é meu irmão, o que te leva a não pensar o mesmo de mim? — Nilo chupou o canudo do refrigerante, depois sorriu.
— Você é o cara que lê Walt Whitman e tem a foto de um gato na proteção de tela do computador. — Isaac deu uma risada.
— Já me chamaram de veado de muitas formas, mas essa foi a melhor.
— Não foi isso que eu quis dizer, eu... — o garoto gaguejou e ficou vermelho. — Eu não...
— Tudo bem, cara, relaxa. Eu entendi o que você quer dizer. Você queria ter uma ligação maior do que gostar de jogar Xbox.
— PS4, na verdade.
— Whatever.
— Mas é isso mesmo. Você sempre foi legal comigo e me entendeu, não me obrigou a falar na frente da turma. Além disso... — Parou, pois não considerava o que diria a seguir adequado. Não poderia abusar da sorte.
— Além disso o quê?
— Você é meu professor. É uma figura que inspira respeito.
— Bom, você vai poder contar comigo sempre que precisar. Menos agora, porque tenho aula daqui a pouco — acrescentou com seu costumeiro sorriso brincalhão. — A gente se vê amanhã, e eu espero ver o esboço daquele artigo pronto na próxima semana, ok? A gente vai acabar perdendo o deadline da publicação.
— Ok, mestre, pode deixar.
Com o passar dos dias, Isaac foi vendo um Nilo diferente. O rapaz garantia que as coisas em casa estavam relativamente melhores, já que o pai não tinha voltado a agredi-lo ultimamente — o que era um grande progresso, comparado com o começo do semestre. Ele participava das aulas e estava sempre animado, até começou a fazer amigos na turma. Não queria se sentir responsável pela mudança, mas tinha consciência de desempenhara um papel importante no processo.
Além de um grande amigo, Nilo descobriu logo que por trás do jeito divertido e espontâneo de dar aula, também havia um professor extremamente exigente e perfeccionista que obrigava a ele e aos colegas do grupo de pesquisa a se esforçar em dobro para fazer as coisas dentro do prazo.
— Gente, eu não aguento mais o Isaac, eu vou cortar a cabeça dele, é sério! — Era Gabriela reclamando. — Ele riscou absolutamente tudo que eu escrevi. Tudo! — Ela agitava um maço de folhas na mão enquanto falava.
— É, riscou o meu também — Nilo comentou. — E trucidou meu trabalho final da unidade. — Lembrou que tinha passado a noite quase toda acordado fazendo uma análise de um poema de Walt Whitman, ouvindo o pai xingar os palavrões mais feios do mundo e ameaçá-lo, e o professor o devolvera com trilhões de observações.
— Ele é um carrasco, oficialmente.
O carrasco em questão entrou na sala logo em seguida, mas não deu mostras de ter escutado alguma coisa da conversa dos alunos.
— Então, galera, a gente termina esse artigo ou não? O fim do semestre tá aí! — Puxou a cadeira e sentou.
— A gente terminaria, professor, mas você não aceita o que a gente escreve. — Ele era carrasco, sim, mas ela não tinha medo de dizer o que estava pensando da situação.
— Ok. Eu vou esperar que você derrube minha crítica com argumentos mais contundentes do que este, daí a gente conversa. Que tal? — Gabriela tentou, olhou para o papel que tinha nas mãos, mas, claro, não conseguiu encontrar palavras para argumentar.
— Você é terrível!
— Gente, é sério, vocês já estão no sexto semestre, não o Nilo, claro, mas vocês dois estão quase chegando no TCC, tem que saber lidar com críticas. Vocês vão colocar meu nome nesse artigo, e eu não assino nada que não esteja excelente. É com um doutor de Oxford que vocês estão falando, se eu estou pedindo que vocês melhorem é porque sei que vocês têm competência pra melhorar. Ok? — Os estudantes se entreolharam. Aquela versão de discurso motivacional não era a melhor, mas já era alguma coisa. — E você — apontou para Nilo —, pode melhorar e muito essa análise. — O garoto encolheu os ombros, não tão certo de que realmente conseguiria.
Todos eles tentaram melhorar. Nilo especialmente. O que menos queria era decepcionar Isaac, alguém que colocara tanta confiança em si. Leu e releu A song to myself centenas de vezes e reescreveu todo o trabalho. Sentia que estava sendo meio babaca, pois poderia ter escolhido um poema mais simples, menor pelo menos. Mas preferiu escolher o autor preferido de Isaac.
Quando recebeu a nota — sete e meio —, não evitou ficar um pouco decepcionado. Depois de tanto esforço...
— Seu esforço foi notável, mas sua análise ainda está um pouco baseada em senso comum, você vai ver que quando se aprofundar mais na teoria, isso vai melhorar. Você tá saindo do primeiro semestre, cara, tem um curso inteiro pela frente.
— Não, você tá certo, eu só... acho que é isso. Você vai ser o professor de Teoria II, não é?
— Ainda não sei, mas é provável que sim. — O professor terminou de guardar o material. A turma já tinha ido embora. — Bom, a gente se vê no próximo semestre. A menos que você vá à festa de encerramento... — acrescentou. Os dois foram saindo juntos da sala.
— Você vai?
— Talvez. Depois da correria, a gente bem que merece um pouco de diversão. — Chegaram ao ponto em que o professor teria que seguir por outro caminho para chegar à sua sala. — Boas férias, Nilo.
— Obrigado, você também.
Os alunos estavam de férias, mas o professor ainda tinha trabalho a fazer. Fechar os diários de classe, lançar as notas no sistema acadêmico, entre outras coisas. Mesmo assim, Isaac resolveu ir à festa dos alunos, comemorar com eles o fim do semestre, principalmente com aqueles que estavam se formando. Também tentava convencer a si mesmo que a expectativa de encontrar Nilo fora da universidade não tinha nada a ver com aquela decisão.
Sentir-se fisicamente atraído por um aluno era algo com que poderia lidar. A ideia de gostar de um, no entanto, não lhe parecia sensata, principalmente alguém como Nilo, tão frágil emocionalmente.
Ficou circulando pela festa, cumprimentando e sendo cumprimentado por seus alunos, que apesar de espalharem sua fama de carrasco em sala, o adoravam. Já estava quase sem esperança de que Nilo aparecesse, quando o viu, quase encolhido, próximo ao bar.
— Minha vida é um clichê, meu Deus! — murmurou consigo enquanto caminhava para o garoto. — Você veio.
Nilo coçou a cabeça e encolheu os ombros. A expressão em seu rosto parecia dizer que ele não fazia ideia do que estava fazendo ali.
— Então, como estão as coisas em casa? — Isaac perguntou e foi se aproximando do bar. Pensou em pedir uma bebida, mas lembrou que estava dirigindo e não pretendia ser preso ou correr o risco de bater com o carro do pai em algum poste.
— Não estão bem, mas já estiveram piores. Eu não tô a fim de falar sobre meus dramas hoje, se você não se importar.
— Ok, e sobre o que você quer falar?
— Que tal sobre você? — Ao dizer isso, Nilo deu um passo para frente, ficando mais perto do professor. Num ímpeto de ousadia, deixou que sua mão pousasse sobre a dele. Assim, Isaac pôde senti-la fria.
Se alguém pedisse que explicasse o que estava fazendo, Isaac não conseguiria. Se lhe dissessem que estava agindo de maneira frívola e irresponsável, seria incapaz de argumentar. Ele sabia que havia um limite e Nilo estava além dele, mas ignorou a voz da razão e deixou que a tensão que o ameaçava sufocar há tantos dias fosse liberada. A conversa despropositada culminou com os dois num canto mais afastado da festa, onde a iluminação era parca, e seus lábios correndo pelo pescoço de Nilo, enquanto as mãos ocupavam-se com outras partes do corpo dele.
— Eu não acho que isso seja certo — murmurou, ainda que interromper aquele contato lhe custasse um esforço enorme.
— Talvez não seja certo, mas é bom. A gente pode sair daqui, se você preferir mais discrição. — Uma mão insinuou-se por baixo da camiseta de Isaac e foi tocando-o pelo abdômen, até parar no cós da calça, fazendo ainda uma brincadeira por aquela região. O gesto ousado fez o professor sobressaltar-se, como se acordasse de alguma espécie de transe.
— Oh! — Ele encarou os olhos de gato de Nilo e viu nele uma malícia até então desconhecida.
— O que foi?
— Você. Está... estranho. — Nilo riu e a inocência retornou ao seu rosto por um breve segundo.
— Eu já disfarcei tanto o que eu sinto... acho que eu não consigo mais fazer isso, Isaac. — Isaac abriu a boca, mas nenhum som saiu. — Não precisa fingir surpresa, ok? Você é mais inteligente do que isso e já deve ter percebido há tempos. Deixar você se aproximar, entrar pro grupo de pesquisa, ler Walt Whitman pra te impressionar... — Deu um sorriso nervoso. — Eu sei que você deve tá acostumado a ter alunos se apaixonando por você o tempo todo... — O que quer que Nilo pretendesse dizer a seguir, foi interrompido quando Isaac voltou a beijá-lo.
Não muito tempo depois, estavam no banco de trás do jipe 4x4 do pai de Isaac — detalhe este que nem parecia passar pela cabeça do professor enquanto corria a língua úmida pelo peito liso e pálido de Nilo. Já estavam ambos despidos, Isaac encobrindo o corpo de Nilo, beijando-o e tocando em todos os lugares possíveis, quando sua consciência veio à tona e ele travou.
— Nilo, você já fez...quer dizer, já fez isso, certo? — quis saber e ouviu o rapaz xingar qualquer coisa. — Não vai rolar — decidiu e já começou a procurar as roupas jogados no lastro do carro.
— Isaac, qual é? Eu não sou virgem, ok?
— Tem certeza? — Nilo queria mentir com mais certeza, mas estar deitado de pernas abertas não o favorecia em nada. — Desculpa, mas...
— Desculpa, mas? Você é esse tipo de cara?
— Não, eu sou o tipo de cara que não tira a virgindade de garotos virgens.
— Uau! Agora você falou com a eloquência de um doutor de Oxford.
— Olha só, eu gosto de você, sei que é errado, mas eu gosto. Você não é o único a esconder o que está sentindo, ok? E eu não quero ferir seus sentimentos, nem machucar você fisicamente. — Nilo franziu o cenho, sem entender direito o que ele estava falando. — Você não está preparado pra ter tudo isso aqui — gesticulou, abrangendo especialmente a área do baixo ventre — dentro de você. Eu falo sério, você merece mais do que uma penetração a seco no banco traseiro do carro do meu pai para sua primeira vez. Pode achar que é besteira, mas essas coisas marcam a nossa vida e você já tem feridas demais.
— Você é tão... você é a pessoa mais correta que eu já conheci.
— Não, a questão é que eu não tenho direito de ser irresponsável com você.
Isaac terminou de se vestir e pulou para o banco do motorista. Nilo também recompôs as roupas e foi sentar na frente. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, enquanto Isaac colocava o veículo em movimento e pegava o caminho em direção ao bairro onde Nilo morava. Ao perceber isso, o garoto se manifestou.
— Sério, eu posso ir sozinho. — Isaac apenas balançou a cabeça. Estava tarde, não o deixaria na rua sozinho. — Porque você não pode ser irresponsável comigo... Ok, eu já entendi isso, mas Isaac, você vai ter que parar de ser meu professor, eventualmente, e levar em consideração que eu sou maior de idade e sei o que estou fazendo. — O professor não respondeu. Parou o carro no sinal vermelho, batia com os dedos no volante e olhava para a frente. — Eu não entendo, você já ficou com vários alunos...
A resposta de Isaac demorou alguns segundos.
— Eu nunca me apaixonei por um. — Isaac balançou a cabeça, exasperado.
Muita coisa para uma noite só. Tanto o esforço de um semestre inteiro para manter o foco e não ceder àquele sentimento latente, e ele fora traído por um único momento. Agora poderia ver claramente, preto no branco, que continuar escondendo o que sentia não o levaria a lugar nenhum.
— Você se lembra de The Road Not Taken², nós discutimos em aula. — Nilo assentiu. Fora uma das melhores aulas do semestre. — Bem, talvez não seja sobre você, Nilo. Apenas sobre você. — O garoto esperou que o professor fizesse um pouco mais de sentido, por isso não falou nada, apenas deixou que Isaac continuasse. Ele dirigia e falava. — Eu já fiquei com muitas pessoas, caras, garotas, mais velhos, mais jovens, alunos... mas eu nunca senti nada mais forte do que o impulso, a atração física. — Fez uma pausa e deu um sorriso sem muito humor. — O cara que lê poesia e tem um gato na proteção de tela do computador não sente. Eu não quero transar com você hoje e amanhã ser capaz de esbarrar com você na rua e agir como se nada tivesse acontecido. Eu já tive muito disso na minha vida e é legal por um tempo, mas... talvez seja hora de ir por outro caminho. Eu quero que você me conheça mais, saiba do que eu gosto, do que eu não gosto, e principalmente, quero que você entenda que um relacionamento entre um professor e um aluno cujo pai é um bêbado homofóbico pode se transformar numa confusão dos diabos, por isso a gente precisa conversar muito, ponderar muito sobre as possíveis consequências antes de levar isso adiante.
Nesse meio tempo, tinham chegado à rua onde Nilo morava. Parou o carro e desligou o motor. O garoto desprendeu o cinto de segurança e se virou para Isaac.
— Foi um discurso e tanto, mas, só pra ver se eu entendi direito: você quer um relacionamento sério?
— Eu sei que pode ser muito pra você processar — Nilo levou ergueu o dedo, num gesto de silêncio.
— Professor Off. Eu gosto da ideia de que tem coisas no mundo que você não sabe, nem eu, e nós podemos aprender juntos. And what I assume you shall assume, for every atom belonging to me as good belongs to you.³
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