Foi Só Um Sonho.
14 Ácido.
Notas iniciais
Clara já estava atrasada para o trabalho, estava difícil acompanhar a vida de Dona de Casa com Marido doente, filho pequeno que tem que ser levado todos os dias para escola no horário certo e também, Marina. Buscou a chave do Carro que estava escondida novamente em um dos jarros que enfeitava a casa. Enquanto passava pela cozinha, reparou que Cadu estava com cara de poucos amigos, enquanto tomava seu café. Clara, antes que pudesse se chatear com a situação, se perguntou diversas vezes, graças ao seu instinto maternal incurável, se Cadu podia estar tomando Café.
– Cadu. – aclamou Clara. – Você pode tomar café? – questionou enquanto saia caminhando com o casaco na mão e tentando manter o equilíbrio para conseguir andar e tentar colocar o sapato ao mesmo tempo.
– Acho que posso. – Cadu fazia uma voz de garoto fazendo birra.
– Como “acho que posso”, Carlos Eduardo! – disse Clara fazendo “aspas” com as mãos depois de ter solto o casaco que transportava na beira do sofá, após de ter sido vencida pelo o cansaço de tentar andar e colocar o sapato ao mesmo tempo. – Você tem que ter certeza antes de fazer qualquer coisa nessa fase de sua vida! Afinal, pela tua vida Cadu. – deu uma pequena pausa como se algo essencial estivesse faltando, quando lembrou. – Por nossas vidas, Cadu!
– Então porque esse interesse tão fixo por essa fotografa? – questionou Cadu enfurecido. – Tudo sempre é ela. De repente, o teu marido doente em casa deixou de ser menos preocupante do que faltar um dia de trabalho, porque em um mês, eu só ouço você dizer que não pode faltar porque a Marina pode precisar de você. – passa a mão no cabelo e engole a saliva. – Eu preciso de você. E você só enxerga ela. Eu estou embaçado no teu campo de visão, está todo mundo um desfoque desde que vocês se conheceram!
– Olha, eu preciso desse emprego, nós precisamos! – Clara disse em um tom severo. – Sua cirurgia não é barato e só Deus sabe o que eu estou tendo que passar e o tão forte eu estou tendo que ser para aguentar tudo isso sozinha. – passa a mão no cabelo e olha com um olhar de desesperança como se apenas ela conseguisse saber os demônios que a atormentam.
– Nós podemos pedir um empréstimo. – Cadu se levanta e caminha até a frente da esposa e segura seu rosto. – Eu sinto que eu vou te perder assim.
– Você me encontra Cadu. – Clara passa a palma da mão no rosto do Marido. – Não há lugar longe suficiente que você não possa me achar.
– O lugar não é o problema Clara. – Os olhos de Cadu se lacrimejam. – É a companhia que você possa estar.
– Eu juro que eu estou lutando, todos os dias Cadu, para que nada me leve de você. – Clara abraça Cadu como se quisesse muito ficar ali, mas sabia que não podia. – Eu preciso ir trabalhar, porque não temos créditos suficiente no banco para fazermos um empréstimo porque você já fez isso para iniciar o Bistrot, Cadu, você fechou o contrato e ficou quieto nesse último mês, eu sei disso, Helena me contou.
– O galpão estreia amanhã Clara, e eu gostaria que você me ajudasse a tomar conta do Bistrot por nós. – Cadu encosta a cabeça nos ombros de Clara enquanto abraça sua cintura. – Peça demissão, precisamos nos salvar.
– Cadu... – observou os cabelos grisalhos de Cadu em seu ombro e veio a imagem de quando eram ainda jovens e de como tinham planos de fazer do deles o melhor lugar do mundo para conhecer. Abraçou o rosto do marido e sentiu na própria pulsação o desejo de não estragar tudo aquilo, de que nada podia ser maior que aquilo. Acreditou nisso a vida inteira, porque deixaria de fazer sentido agora? E continuou. – Tudo bem, eu te ajudo. Peço demissão do estúdio e vou trabalhar com você no Bistrot para juntarmos o que falta para sua cirurgia.
– Obrigada por lembrar de quem somos. – Cadu se levantou e olhou os olhos de Clara que correspondiam o sentimentos que sentia.
– Mas agora preciso ir, resolver as coisas, se não chegarei atrasada. – Clara recolheu o casaco e a chave do carro.
– Tudo bem. – Cadu deu um beijo no rosto de Clara e observou a esposa sair pela porta rumo ao estúdio.
O caminho era mais longo que habitual, talvez porque Clara não o percorreria mais com tanta frequência. Passou a observar as coisas com mais atenção. Gravou os nomes das ruas paralelas das ruas habituais que passava. Tudo para que a cena ficasse mantida em sua cabeça de maneira mais metódica possível. Queria se lembrar de tudo. Até da sintonia do rádio que tocava sempre na mesma estação todos os dias. Ninguém podia saber da relação que mantinha em segredo em sua cabeça com Marina e de quem ela era para Clara. Marina sempre era algo a mais a ser descoberta. Não entendia porque existia algo no peito que doía e porque nunca tinha feito isso antes, desistido. Sempre era uma intenção, mas nunca havia passado dela. Um pequeno olhar ou uma respiração profunda próxima eram o suficientes para convencer Clara de alguma coisa, mesmo sem perguntas questionadas sobre algo. Era convencida sem nem ao menos duvidar.
Estacionou na frente do estúdio, buscou a chave da entrada, não entraria no estacionamento. Só estava hoje ali, para resolver um problema maior do que ela. Entrou e foi até a entrada do estúdio e abriu a porta. Observou tudo novamente com cuidado e muita analise. Gisele estava rindo com uma revista de na mão, parecia estar se divertindo. Vanessa obviamente discordava de algo. Flavinha ria também da reação de Vanessa, mas parecia concordar em algo que foi dito a ela. Gisele reparou Clara na entrada e se dirigiu até ela com a revista na mão.
– Bom dia Clara! – disse Gisele animada. – Estamos vendo signos. Qual é o teu?
– Bom dia. – disse Clara reparando mais até mesmo na Gisele, tudo parecia como uma grande despedida. – Gêmeos, porque o que diz?
– Nossa diz que você é muito mutável, mil mulheres em uma. – Gisele da um sorriso. – Ah, diz aqui que você é meu paraíso astral, eu sou de Aquário.
– Engraçado, eu sempre me dou bem com pessoas de Aquário. – sorriu tentando se distrair. – O Cadu é de Aquário. Do que estavam rindo?
– Da Vanessa, ela é de Virgem e Marina é de Libra e diz aqui que elas não combinam, porque Virgem é inferno astral de Libra. Mas Virgem é muito critico. E a Flavinha é de Áries, então pensa né? – Gisele deu uma risada mais percebeu que o rosto de Clara estava preocupado com algo. – Clara, aconteceu algo? Está distante.
– Onde está Marina? Preciso conversar com ela. – comentou Clara.
– Diretamente com ela? – questionou Gisele preocupada. – O que foi Clara?
– Vou precisar me demitir. – disse Clara sem rodeios.
– Se demitir? Assim, do nada? – Gisele se mostrava surpresa. – Mas porque, foi algo que a Marina tenha feito?
– Não... – sim, também era, mas Clara não podia dizer isso a Gisele. – Cadu está abrindo um Bistrot no galpão de um primo meu e quer que eu ajude ele lá, ele está doente e está precisando muito de mim.
– Ele conseguiu abrir o Bistrot... – a voz triste de Gisele era óbvia. – Que bom Clara, mas... – Gisele se aproximou um pouco mais de Clara como se fossem jogar a real uma para outra. – Marina vai ficar arrasada quando souber, você sabe disso, não é?
– Ela não é um singular nisso. – disse Clara olhando os olhos de Gisele. – Posso ir vela?
– Está no escritório da piscina. – falou Gisele.
– Obrigada! – Clara agradeceu deu bom dia para Vanessa e Flavia e caminhou até o escritório da piscina.
Os passos foram curtos, se pudesse caminhar para outro lugar provavelmente caminharia. Queria que só chegasse ao destino depois de caminhar pelo mundo até chegar ali novamente. Bateu na porta que estava fechada. Barulhos vindos de dentro da sala, passos até a porta quando ela se abre. Marina olhou desacreditada, Clara podia ter certeza de que ela esperava por todas ali menos por ela.
– Clara... – declarou Marina.
– Posso conversar com você? – perguntou Clara.
– Pode, entre. – Marina deu passagem para Clara que passou por ela deixando rastros do seu perfume no ar e parou no centro do escritório e olhou para Marina que fechava a porta e se encostava nela segundos depois. Ela sempre mantendo uma distância confortável de Clara.
– Você não vai gostar. – disse Clara olhando para os olhos de Marina.
– Eu posso sentir que não. – concordou Marina.
– Eu preciso me demitir. – disse Clara imóvel ainda olhando Marina.
– Não... – Marina se vira contra a porta encostando sua testa nela. – Você não pode fazer isso.
– Sim, eu posso e estou fazendo isso. – Clara mostra com as mãos a sala como se fosse seu cenário de melancolia. – Esse susto, esse rebu de ti e sessenta dias. – Clara observou a cadeira de Marina e caminha até ela para sentar. Quando sentada, observa com detalhe livro que Marina lia em sua frente e as fotografias espalhadas sobre a mesa. Marina se afastava da porta e segue ao centro onde Clara se retirou. – Houve uma noite de solidão em que o meu quarto se encheu de flagelo infeliz e a máquina de escrever, que foi presente do meu avô, riu de mim, enquanto eu te sufocava numa caixa miúda pela inclemência de amar sozinha até que sua impetuosa estada virou um único espinho. Talvez você nunca saiba que junto ás suas pernas, enroscado, agarrado, encarapinhado, me veio também, uma devoção calada, inclusa sobre o que passaria a nos pertencer. Eu pude amar o abraço inepto, a miséria do cenário e me atentei enraizada, desde o que era ao que me tornara, por tal amor. – Clara segurava o choro, era óbvio.
– Há um compartimento na minha mente que te mantém no centro de saudades atemporais, eu gostaria de retirar você de lá– Marina finalmente dizia algo. – Não é justo que tenhamos nos tornados somente pretérito. Todo passo errado e toda despedida mal calculada ocasionou em um adeus nunca concretizado. Poderíamos acusar Vênus, minha personalidade, seu temperamento áspero, minha voz nunca ouvida em momentos que ela deveria dizer algo bem alto. Mas fomos nós, somente nós, nosso choro impiedoso e outras centenas de gritos. De alguma forma, compactamos a desunimos tudo. – Marina parecia estar sempre se concentrando para não desmoronar ali. – Lamento pelas vezes que desconsertei seu cérebro, ainda faço o mesmo com o meu. Não se perca como as minhas memórias arcaicas, não mate a sua tripulação. Te carrego para lembrar quem fui e aceitar quem me tornei. – Marina se aproxima da mesa onde Clara está se senta na mesa em sua frente apoiando os pés na cadeira onde Clara permanecia imóvel. – Você certamente sempre será minha mais bonita aquisição.
– Agora que já resolvemos tudo podemos seguir em frente. – Clara se afastou de Marina ao se levantar da cadeira. – Irei trabalhar no Bistrot do Cadu. Bem, preciso ir embora agora. – Clara se comportava como se aquilo não a destruísse, mas estava com um furo bem no fundo da alma.
– Seu pagamento pelo seu serviço cai amanhã na tua conta. – declarou Marina de maneira profissional.
– Muito obrigada. – Clara caminha até a saída do escritório quando ouve novamente o som de Marina.
– Clara... – disse Marina fazendo a Dona de casa parar sua caminhada. Desce da mesa e se coloca em sua frente. – Você se permite sonhar?
– Sim. – disse olhando os olhos da fotografa.
– Eu também.
Marina manteve um silencio constrangedor enquanto se aproximava do rosto de Clara que aos poucos se via hipnotizada pelo momento. Não conseguiria quebra-lo mesmo se quisesse. Sentia os braços de Marina se entrelaçando em sua cintura e um pequeno vazio profundo quando os seus rostos se aproximavam. Clara não podia parar de se culpar, sabia que não a pararia e também não podia evitar olhar os lábios da fotografa com um desejo afinco e tímido de acontecer e claro, também a culpa por não ter coragem de fazer algo que pudesse para-la. A memória que recolhe o vento do norte e afoga o lótus surge sem pretensão de não ferir. Ninguém grita. Eram alvo mais fácil para mente que as controlam. A solidão é a premissa de quem encosta uma arma no céu da boca. O beijo ocorre, molhado, sedento, agudo. Como se quisessem se eternizar. A língua de Marina explora todos os cantos. Ela isola e expõe desespero. Clara passa mão pelo rosto de Marina, a sente, em leves toques com as pontas do dedo, sabia do errado, o reconhecia muito bem, mas por alguns segundos não o temia. Se perguntou, em segundos, se esse era o sonho de que Marina falava. Os sentimentos autodestrutivos são Deuses maiores, cada qual no seu trono milenar sabem quando os sonhos devem se tornar realidade.
Clara empurra Marina e a olha de maneira severa, ríspida. No fundo a culpava. Ela sabia que poderia descansar no ácido da língua de Marina e correr a seus braços pedindo por paz, paz, paz, paz, só paz. Só queria saber o preço do oásis, porque o grito é pouco, mais é tudo que tinha. Saiu as pressas do escritório. Marina em seu impulso nítido, a seguiu pedindo para que esperasse. Talvez se culparia. Entrou no estúdio e seguiu direto a porta. Gisele, Vanessa e Flavia não entendiam a pressa de Clara até ver Marina no desespero atrás. Antes que pudesse dizer algo a porta foi fechada com força. Gisele foi até Marina que se encostou em uma das paredes sentando no chão abraçando os próprio joelhos e chorando como se tivesse limpando a alma.
– Marina, o que aconteceu? – Gisele se ajoelhou em frente a fotografa tentando uma tentativa de consolação.
– Eu estraguei tudo. – dizia quase sem voz. – E terei que me lembrar disso amanhã.
Marina apertava o botão de pausa de sua caneta dourada. Havia gravado, infelizmente, tudo.
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