Notas iniciais
Primeiro capitulo! Yey! E só pra constar (principalmente caso apareça alguém por aqui que tenha iniciado a leitura desta fic na FeB): decidi unir os capítulos que postava lá em dois ou três, desde que a coerência seja mantida, para deixar a fic menos extensa e sem capítulos curtos demais, que sei que é algo que acaba desanimando (eu, pelo menos, desanimo haha). Também estou fazendo edições minimas, tanto para possibilitar essas junções quanto para questões de acontecimentos futuros. Então é isso, espero que gostem e, é claro, não deixem de comentar! ;)

Senti o vento passar com força por mim, bagunçando meus cabelos e eriçando meus pelos, mas não me importei, aquilo era o de menos. Perto de tantas coisas que havia passado, aquilo era nada. Na verdade era quase como se ele falasse comigo, seu som se assemelhava a murmúrios, porém não indicavam qualquer tipo de problemas, apenas as banalidades que se repetiam todos os dias.

Aulas, refeições, trabalhos e mais trabalhos. Ser ignorado durante esses períodos também já estava se tornando rotina. Devia haver algum acordo tácito, entre os professores e alunos, que dizia que eu devia ser considerado como alguém a não ser incomodado, importunado ou simplesmente com quem se devesse existir qualquer tipo de aproximação.

Na minha situação, aquilo parecia uma benção, pois apesar de perceber certos olhares tortos, principalmente nos primeiros dias, os outros alunos se limitavam a isso e nada mais.

Assistia às aulas normalmente, apesar de não haver alguém sentado na cadeira ao meu lado. Conseguia me sair bem em todas as disciplinas, vira grande parte do conteúdo no ano anterior e não ter quem me distraísse ajudava na hora de me concentrar até mesmo nas palestras mais tediosas. Os dias se sucediam sem grandes emoções e por mais que eu soubesse que devia agradecer por isso, na verdade eu me sentia incomodado, extremamente incomodado.

O vento passou novamente e eu segurei meus cabelos, para que não se revoltassem de novo, mas era difícil, eles nunca estiveram tão longos antes e tão descuidados. Os esfreguei contra meus dedos e percebi que minhas palmas estavam extremamente pálidas, o que era esperado já que não frequentava as áreas externas do castelo sem que fosse realmente necessário. Também não recordava a última vez que me alimentara corretamente.

Já estava prestes a sair dali quando ouvi um baque surdo as minhas costas e percebi que a pesada porta de madeira era empurrada com força, fazendo-a bater contra a parede. Apesar da noite, a lua no céu me permitiu ver quem me surpreendera na torre de astronomia. O corpo era longo, esguio. Os cabelos, compridos e negros, estavam soltos, como na última vez em que eu a vira, e no rosto bonito uma expressão de surpresa que provavelmente superava a minha.

Ela pareceu indecisa entre entrar definitivamente na torre e em se virar e sair dali. Fitou-me e depois aos próprios pés. Se moveu e eu soube que havia se decidido. Seus pés começaram a girar em torno de si, foi quando me vi pronunciando:

— Você não precisa ir.

Eu não havia dito que desejava que ela ficasse, porém lhe dera mais do que a qualquer outro nos últimos dias, uma chance de se aproximar. Comecei a pensar se não estava me tornando mole por ela ser uma bela garota, mas sabia, mais ainda, sentia que havia mais, ainda estava curioso com a expressão que vira em seu rosto na plataforma de embarque.

Ela fitou seus pés uma vez mais antes de erguer o queixo e firmar sua postura. Era obviamente sangue-puro, apenas os que eram nascidos em famílias bruxas de renome possuíam aquele traquejo, aquele porte, era algo clássico, para não se dizer antiquado.

Eu mesmo já fora um destes que se orgulhava de seu nome e sobrenome – todos eles. Mas agora sentia que meu corpo envergava, acometido de uma magreza que ia além do meu biótipo físico. Eu carregava em meu corpo conseqüências das minhas escolhas, pior ainda, da falta delas.

Fui tirado de meus pensamentos e proposições ao senti-la ao meu lado. Ela se posicionou a alguns passos de mim, evitando uma proximidade maior de meu corpo. Fitou a floresta proibida, no mesmo ponto onde eu estivera antes.

Meus olhos seguiram os dela e voltei a fitar as massas verdes e cinzas, disformes devido a distancia, o vento voltou a se fazer presente, porém sem tanta força quanto antes, como eu, depois de muito tempo, ele parecia tranqüilo.

—

Na manhã seguinte, saí da sala seguindo os movimentos dos outros alunos. Do lado de fora o sol estava a pino, me senti tentado a fazer como muitos outros alunos ali e me sentar a sombra de uma arvore na margem do lago.

Ao invés de ir direto para meu dormitório ou para o salão principal, esperar o almoço, comecei a andar em direção ao gramado. Olhei ao redor, os rostos não eram familiares, eram alunos de classes anteriores a minha no ano que se passara. Os que haviam estudado comigo ou que estavam no mesmo ano que eu durante o período do segundo levante do Mestre das Trevas eram quase inexistentes ali, alguns porque haviam desistido, outros porque estavam mortos.

Afastei estas lembranças lançando outro olhar ao redor. Pensei na garota. Ela havia ficado um bom tempo comigo na Torre de Astronomia, percebi, que as vezes, um certo incomodo a atingia, devido a forma como ela se portava, mas então a abandonava pouco tempo depois e ela mirava a paisagem como se aquela fosse a melhor coisa a se fazer no mundo. Eu sabia que ela estava consciente da minha presença, assim como eu estava da dela, por mais que tentasse mostrar indiferença.

Como se soubesse que pensava nela, a vi se aproximar, acompanhada de um rapaz, sem me notar. Ela não estava muito perto, mas se eu a chamasse poderia me ouvir facilmente. Mas porque eu a chamaria? Nem sequer sabia seu nome. Não havia dito nada na noite anterior, só se virara e saíra quando desejara. Também não disse nada e pouco depois também sai de la.

— Hey idiota! – uma voz me tirou de meus pensamentos.

Me virei em sua direção e percebi que era um rapaz sentado a uns dois passos de mim. Ele se revezava entre me fitar e fitar a colcha quadrada, na qual ele e uma garota estavam sentados e eu pisava.

— Olhe por onde anda idiota!

Ele havia me ofendido pela segunda vez. Não que algo vindo dele me afetasse mais do que se fosse vindo de outra pessoa, mas eu estava cansado de ‘ficar na minha’.

Retirei meu pé do tecido, mas sequer cogitei me desculpar. A marca da sola do meu pé estampava o tecido xadrez.

— Olha só o que você fez babaca! – ele me fitava irado.

Era mais baixo, porém era atarracado e com minha magreza devia ter duas vezes minha largura. Não me importei, me virei de forma a fita-lo diretamente e lancei um olhar de desafio. A garota ao lado dele, que estava de olhos arregalados, deixou o queixo cair. Ele se levantou e percebi que colocara a mão no bolso, onde sua varinha devia estar.

Não me preocupei em fazer o mesmo. Aquele moleque não me assustava. Quando se tratava de duelar eu era, com toda certeza, melhor que ele. Eu era melhor de que qualquer outro aluno ali. Mas se ele resolvesse partir para uma luta corporal, eu estaria ferrado, isto era óbvio.

— Sr. Bennet – uma voz atraiu a atenção do cara.

Me virei também e vi a nova diretora a nos fitar.

— Está tudo bem? – ela questionou.

Ele me lançou um ultimo olhar irado antes de se voltar para ela.

— Sim, está tudo bem – ele tentava manter o tom tranqüilo – Vamos Harley.

Estendeu a mão para a menina e pegou a colcha assim que ambos saíram de cima. Se afastou e senti que mirava minhas costas enquanto a diretora se fixava em mim.

— Tudo bem, Sr. Malfoy?

Não sabia se ela estava preocupada comigo ou com o que poderia fazer, mas respondi o mesmo que o tal de Bennet:

— Sim, está tudo bem.

Ela demorou mais alguns segundos lançando um olhar clinico em mim antes de se afastar. Quando atingiu umas boas passadas de distância suspirei e me virei para seguir em direção ao castelo. Foi quando a vi, assim como as outras pessoas que estavam ao redor.

Depois de passar meu olhar por todos, fiquei uns instantes mais longos fitando-a. Seu acompanhante desviou o olhar, mas ela manteve seus olhos nos meus durante todo o tempo em que fiz o mesmo.

—

Apoiei meu cotovelo na ameia. Bufei e uma mecha de meus cabelos se moveu. O tempo estava começando a esfriar, indícios de que o inverno se aproximava. Já havia mais de um mês do ocorrido nos jardins do castelo. A garota não havia aparecido novamente e, eu não sabia o porquê, mas, me sentia decepcionado.

Bufei novamente e fitei a floresta. Ficando nas pontas dos pés, ergui meu corpo e o suspendi em direção ao declínio à frente. Olhei o musgo que proliferava na lateral externa da parede de pedras. Fiquei uns bons minutos naquela estranha observação e então voltei a plantar os pés no chão por completo.

Estendi as mãos a frente e, na penumbra, observei sua palidez, seu comprimento alongado, com os ossos salientes nos nódulos das juntas. Os contornos arredondados que ela possuía anos antes haviam sumido. Era uma mão plenamente adulta. Provavelmente teria começado a analisar o resto de meu corpo se não tivesse ouvido a porta da torre ser aberta.

Ela entrou, fechou a porta cheia de pressa e quando estava totalmente separada da atmosfera do outro lado da madeira, soltou um suspiro de alívio ainda tocando a maçaneta.

— Olá – não resisti a chamar sua atenção para mim.

— Ah... – ela me fitou entre surpresa e nervosa – Você está ai?

A pergunta era quase uma afirmação e não denotava alegria pelo fato. Me senti ofendido.

— Sim. Eu estou – tentei usar um tom neutro.

— Me desculpe por... bem... invadir sua privacidade novamente... – ela parecia realmente chateada com aquilo, mas pelo menos havíamos iniciado uma conversa – mas é que... que... eu precisava... preciso... bom... na verdade...

Sorri e como se isso a incitasse, ela disse de uma vez.

— Estava fugindo de um garoto.

Seus ombros envergaram enquanto ela fitava os pés, mas depois voltou a me olhar.

— Não vou me demorar, será por apenas alguns minutos, até ele desistir da busca.

Franzi o cenho. Porque ela fugiria de alguém?

— Ele lhe fez algo? – minha curiosidade falou mais alto.

— Ah... Não, não, está tudo bem, ele não me fez nada, só queria – ela corou – queria me beijar.

Soltei um riso debochado diante da revelação. Aquilo não me fazia ter desejos reais de sorrir.

— E você não queria beijá-lo? – não sabia por que continuava o interrogatório.

Irritei-me comigo mesmo por não evitar a pergunta. Não sabia o que acontecia, o porquê de aquilo me interessar.

— Bom, não sei – ela estava visivelmente confusa – Acredito que sim.

Dei um meio riso e acho que ela percebeu a pitada de zombaria presente nele quando fiz nova pergunta.

— Então porque fugiu?

Estava novamente me metendo onde não devia, mas me calei, esperando sua resposta. Ela baixou os olhos, fitou os pés e depois voltou a me olhar.

— Eu nunca beijei – ela corou novamente, mas manteve o porte, coluna ereta, rosto erguido.

— Ah – eu estava surpreso.

Ela devia ter pelo menos dezesseis anos e nunca fora beijada. Sendo ela bonita como era, não era algo muito comum.

— Então você ficou com medo – afirmei.

Ela foi rápida na tentativa de negar. Balançou a cabeça e murmurou que ‘não’, mas ambos sabíamos que ela mentia. Ficamos alguns segundos ali, calados, até que ela falasse.

— E você? Sentiu medo? – ela esfregava as mãos como se estivesse com frio e baixou o olhar novamente quando aumentei a intensidade do olhar.

Sorri ao me lembrar de meu primeiro beijo, havia sido um desastre e eu fingira que ele não ocorrera logo em seguida.

— Sim, eu estava muito nervoso, mas era um pirralho muito curioso e petulante para fugir.

Ela sorriu para mim, um sorriso pequeno, o primeiro que via e que me agradou muito.

— Eu posso te ajudar com isso – sorri, mas não imaginava de onde havia tirado aquela ideia, porque a expusera e, mais ainda, porque sentia que queria levá-la adiante.

Ela me fitou e eu me aproximei, ela arregalou os olhos negros, sabia o que eu ia fazer tanto quanto eu, mas não se moveu. Meus lábios tocaram os dela de leve enquanto sentia sua maciez. Temia que me repelisse, mas ela continuou parada, então aumentei a pressão e a senti corresponder, também gerando uma pressão sobre meus lábios.

Depois de poucos segundos me afastei e , enquanto ela ainda abria os olhos, eu sorri ao dizer:

— Problema resolvido.