Fogo Na Água
2 Inesperado
Notas iniciais
Nada na vida é realmente o que se espera. Hoje está tudo bem, amanhã, se houver o amanhã, corremos sempre o risco de sermos atingidos por uma onda avassaladora disposta a destruir a nossa vida, ou apenas nos fazer de fantoches até a brincadeira perder a graça.
E quando a brincadeira não perde a graça e nada é destruído por completo, mas você fica naquele joguinho de vai e vem até o tabuleiro inverter e você poder correr para o mais longe possível?
–
Outono, as folhas secas caiam preguiçosas pela rua mal movimentada, o vento as soprava para um lado e para o outro com uma leveza absurda, por um momento acreditei que elas poderiam dissolver-se no ar. Perguntei-me se em algum momento da minha vida eu poderia me sentir daquela forma, livre, leve e solta, para qualquer coisa que atravessasse meu caminho.
Minha visão foi interrompida por uma batida irritante na porta do meu quarto, quatro toques leves demais foram o suficiente para eu saber que Savannah estava do lado de fora.
– Sai daqui, pirralha! – Eu disse rudemente para minha irmã mais nova, na verdade minha única irmã.
Savannah abriu a porta devagar demais, como se não quisesse fazer barulho ou simplesmente para não me estressar mais do que eu já estava.
– Você acha que eu estaria aqui por livre e espontânea vontade, Bella? – Savannah olhou ao fundo dos meus olhos enquanto falava – Só quero avisar que o papai mandou você descer, vamos ao mercado. – Savannah concluiu junto ao batente da porta.
– Diga a ele para ir sozinho, eu estou sem vontade. – Respondi simplesmente.
– Se você quer assim... – Savannah soou calmamente saindo de meu quarto e encostando a porta em seguida.
Savannah é minha irmã mais nova. Eu me lembro como se fosse ontem, eu tinha dez anos quando comecei a implorar aos meus pais para que me dessem um irmão ou irmã – uma companhia, que seja. Quando eu completei doze anos Savannah finalmente veio ao mundo. Eu estava tão empolgada com a chegada dela que fiquei uma semana inteira com febre quando o médico de minha mãe disse que Savannah poderia nascer a qualquer momento; Savannah não seria o problema se ela não fosse culpada pela morte da minha mãe por uma complicação depois do parto; Renée morrera de hemorragia.
É claro que eu me senti culpada nos primeiros dias, afinal era eu quem implorava por um membro a mais na família; mas se eu soubesse o que viria a acontecer eu não teria ao menos cogitado a possibilidade. Sendo assim, Savannah era única e exclusivamente culpada.
Conforme Savannah ia crescendo, era somente eu, ela e Charlie – meu pai. Eu o ajudava a cuidar dela como podia, mas eu fazia isso apenas por ele, não por Savannah. É claro que o tempo também passara para mim e eu obviamente cresci, completei meus quinze anos e quis viver loucamente como uma adolescente, me recusando em ajuda-lo. Charlie não se importou com o meu comportamento “adolescente revoltada” e nem com os meus namorados idiotas, toda a sua atenção era para Savannah: primeiros passinhos, primeiras palavras, e todas essas coisas a mais de criança. Ela cortou nossos laços e meu pai não fez questão de recupera-los.
Novamente a porta foi aberta, dessa vez sem aviso prévio.
– O papai disse que é para você descer, agora – Savannah avisou-me autoritária como se fosse um ser superior a mim.
– E eu já disse para você que não vou descer, consegue entender? Eu estou esperando Lauren chegar, nós vamos sair. – Minha voz foi seca, sem emoção alguma. Também não entendi porque eu me expliquei para ela.
Savannah semicerrou os olhos e jogou a cabeça para trás, fazendo com que seus cabelos cor de bronze pendessem pouco abaixo de sua cintura. Ela bateu porta com grosseria, em seguida eu pude escutar seus longos passos batendo contra ao piso de madeira avermelhado da escada.
Outra coisa que me incomodava era que Savannah sempre tentava ser doce comigo, eu brigava e a ignorava e estava tudo bem para ela, poderia compara-la com uma submissa. De uns tempos para cá Savannah se rebelou contra mim, se eu sou estúpida com ela, ela também era estúpida comigo da mesma maneira; um tipo de troco na mesma moeda, sem mais nem menos. Isso me fez odiá-la ainda mais.
Meu celular vibrou em cima do criado-mudo e em menos de um segundo eu já estava debruçada em cima do móvel o pegando na mão.
“Um minuto e estou na frente de sua casa, me espere na entrada vadia – Lauren”.
Sorri debilmente para a tela do celular, calcei a primeira sapatilha que vi pela frente e joguei minha bolsa surrada pelo ombro, passei pela porta de meu quarto e desci as escadas.
– Aonde pensa que vai? – Charlie me perguntou com uma carranca típica dele.
– Sair. – Respondi de costas me dirigindo a porta principal, já escutando as buzinas de Lauren.
– Você está saindo cada vez mais fora do controle. – Charlie resmungou, mas não dei importância.
Atravessei a porta principal e caminhei pelo gramado verde, Lauren acenou para mim de dentro do seu jipe e eu contornei o carro até abrir a porta e me sentar no carona.
– Quer? – Lauren ofereceu-me um gole de seu chocolate quente com canela e marshmallow assim que eu me sentei, ela acelerou rua adentro e eu neguei com cabeça.
– Essa tarde vai ser muito legal, vamos passar na casa da Jéssica e depois...
A frase de Lauren não pôde ser terminada, pois o seu celular tocou freneticamente ao som da música “Tonight I’m Fucking You”. Lauren procurou o celular dentro da porta luvas de maneira desajeitada e o atendeu no que eu jugo ser o ultimo toque.
– Oi vida! – Lauren atendeu com a voz mais melosa que as mocinhas em filme de romance – É claro que sim, eu topo!... Não, me pegue em casa daqui à uma hora. – Lauren desligou o celular animadamente e bateu com as duas mãos ao volante, então percebi que ela estava fazendo o retorno para a minha casa.
– Estamos voltando? – Perguntei confusa piscando os olhos algumas vezes.
– Sim. Mike me chamou para ir ao cinema com ele, não é o máximo? – Lauren perguntou retoricamente sem olhar para mim.
– Claro – Respondi com uma falsa animação – Eu vou sobreviver a isso.
Lauren começou a gargalhar ao meu lado como uma bêbada em colapso, se inclinou para me dar um beijo na bochecha e depois recebi um beliscão em minha coxa.
– Ai! – Resmunguei passando a mão debilmente pela região que prontamente se pigmentou num tom vermelho.
– Só para você saber que eu te amo. – Lauren deu-me uma piscadela.
Vamos recapitular: Lauren era minha melhor amiga, nos tornamos amigas quando estávamos no segundo ano, mesmo estudando na John High School desde o quarto ano. Eu tinha dezesseis anos de idade. Jéssica também está incluída nesse meio, ela veio no pacote com Lauren. No terceiro ano até criamos um grupinho chamado LIJ, com nossas iniciais, idiota, eu sei, mas todos nos conheciam por ele. Mike foi meu primeiro namoradinho quando eu tinha quinze anos, ficamos um mês juntos até eu flagra-lo aos beijos com Lauren atrás da arquibancada na Educação física. Tudo bem, nós ainda não éramos amigas nessa época, e também nunca falamos sobre esse fato. Certas coisas não são necessárias falar.
Anos depois e eles são namorados, engraçado, não? A vida nos prega peças, como lhe dar uma melhor amiga que foi amante do seu ex-namorado.
Lauren me deixou na porta de casa, eu mal desci do carro e ela já acelerava novamente como se eu não estivesse ali. O vento causado pelo seu jipe arrepiou todos os pelos de minha nuca. Ignorei a reação de meu corpo e vi que meu pai estava entrando no seu carro – da polícia – com Savannah no banco do passageiro.
– Resolveu se juntar a nós, mocinha? – Meu pai perguntou-me ainda emburrado.
– Não, fui cruelmente obrigada a isso. – Respondi ríspida.
Charlie soltou um longo suspiro cansado balançando a cabeça negativamente, mas não me importei; não é como se ele se importasse comigo de qualquer maneira.
Entrei no carro no banco do carona e joguei a minha bolsa no banco de trás, propositalmente para cair em cima de Savannah. Ela resmungou algo como “idiota” e novamente não me importei.
Sim, eu não me importava com muita coisa que vinha de Savannah e Charlie.
(...)
– E então Bella, já decidiu qual curso vai querer cursar na universidade? – Charlie perguntou para mim tentando puxar assunto enquanto mordiscava uma torrada durante o café da manhã.
– Uh, não, ainda não me decidi qual curso fazer. – Respondi. A verdade é que eu ainda não havia recebido nenhuma carta de aprovação de nenhuma das três faculdades das quais tinha mandado minha ficha de inscrição.
– Pensei que você quisesse cursar direito. – Charlie balbuciou tentando prolongar o assunto.
– É, pensou. – Eu disse tomando um gole de chocolate quente – Se eu pudesse não faria curso nenhum.
– Qual é o seu problema? – Savannah perguntou-me com uma voz irritantemente doce, seus grandes olhos castanhos, iguais aos meus, me fuzilaram. Odiava o fato de ela ser uma mini cópia da minha aparência. Também odiava o fato dela estar me desafiando cada vez mais.
– Nada que seja da sua conta. – Respondi indiferente tomando outro gole de chocolate.
– Chega Isabella, chega! – Charlie ralhou a minha frente, sua face estava completamente vermelha.
– Qual é pai? Estou respirando, isso que está incomodando você? – Perguntei ironicamente levantando-me da mesa o encarando friamente, um sorriso sínico brincava em meus lábios.
– Cale a boca agora! – Ele gritou, a impressão que tive era que seu rosto iria se desmanchar em grandes partes vermelhas pelo chão de madeira.
Senti meus olhos arderem, meu pai nunca havia gritado comigo antes. Caminhei de costas até a escada que dá acesso aos quartos simplesmente para não cortar nosso contato visual; assim que senti o primeiro degrau se chocar com o meu pé esquerdo eu subi as escadas correndo, minhas pernas tremeram involuntariamente e meus olhos liberaram algumas lágrimas teimosas.
Joguei-me na cama e pensei em Renée. Pensei em todas as vezes que ela me colocara para dormir, o modo que ela penteava meus cabelos castanhos avermelhados em ondas e prendia as madeixas em um longo rabo de cavalo para que eu fosse ao colégio. Lembrei-me de seu sorriso incrivelmente branco direcionado ao meu pai nas manhãs de domingo enquanto ele lia ao jornal do dia, e quando os olhares de ambos se encontravam eu juro que poderia encontrar faíscas voando dali. Talvez não seja só eu que sinta falta dela, talvez também seja difícil para Charlie. Tudo era perfeito antes de Savannah Marie Swan respirar.
Algum tempo depois caí na inconsciência, sonhos coloridos e idiotas invadiram minha mente, como um beija-flor que fala, ou um cogumelo dançante. Prontamente eles foram substituídos por sombras e algum tempo depois, os sonhos sem sentidos me invadiram novamente, me disponibilizando uma sensação de paz.
Acordei assustada com trovoadas, a chuva arrebentava lá fora de forma grosseira, como se estivesse avisando ao mundo que o céu iria cair a qualquer momento. Os raios cortaram o céu cinzento de forma traiçoeira, e pensei por um momento que a cidade poderia ficar sem energia a qualquer hora. Sentei-me na cama e acendi o abajur que fica ao meu lado direito da cama, peguei meu celular e notei que ele marcava 1h45 da manhã.
“Savannah deve estar com medo, ela sempre tem medo de tempestades” gritou meu subconsciente, mas logo afastei esse pensamento de mim. Dito e feito, a porta abriu-se delicadamente e eu sobressaltei da cama, recebendo um susto não tão forte assim.
– Que merda, você me assustou Savannah! – Eu reclamei irritada com ela, logicamente estava fazendo drama.
– Desculpe, mas estou com medo. – Ela disse visivelmente assustada adentrando no meu quarto e sentou-se na ponta da minha cama.
– Você pediu para entrar? – Perguntei a ela.
– Não. – Savannah respondeu reprimida.
– Então saia, bata na porta e peça para entrar. – Anunciei; obviamente sendo má.
– Não vou fazer isso. – Ela me respondeu olhando os meus olhos.
– Porque não vai atrás do seu papai? – Tenho certeza que Savannah notou meu sarcasmo.
– Acha que eu estaria aqui por livre e espontânea vontade, Bella? – Sinto déjà vu, tendo certeza que já escutei essa frase por Savannah, mas o momento não me veio à mente – Eu já o procurei, mas ele não está por aqui.
– Como assim não está aqui? – Perguntei surpresa, meu pai nunca foi de nos deixar sozinhas em casa, ainda mais no meio da noite.
– Você entendeu, não vou repetir novamente. – Savannah resmungou e logo depois sobressaltou com um trovão avassalador.
De repente fiquei com medo de procurar por meu pai, se Savannah estivesse realmente certa isso significava que havia alguma coisa errada. Levantei-me de minha cama e caminhei em direção ao corredor, senti um frio correr pela minha espinha e uma horrível sensação de que durante o meu percurso alguma coisa poderia puxar-me pelo pé e me levar para longe dali.
Fechei os olhos e continuei seguindo, agora para a cozinha. Acendi todas as luzes que eu consegui no momento. Meu olhar vasculhou o local em tonalidades claras e tudo pareceu estar no seu devido local, exceto por uma enorme folha de sulfite pregada junto à geladeira. Obviamente quem a colocou ali deveria estar com o pensamento “Olhe para essa folha, por Deus”.
E foi o que eu fiz.
Alguns passos a mais eu já estava de frente à geladeira, tirei os imãs que a prendiam no grande objeto e li as palavras em letras tortas e feias escritas evidentemente por Charlie.
Bella,
Não posso mais ficar, mas tenho certeza de que um dia você entenderá o que estou fazendo, assumo total responsabilidade e culpa. Filha, você sabe que não seria da minha índole lhe deixar sozinha com sua irmã, desprotegidas e indefesas, espero que um dia você me perdoe por isso. Não diga a ninguém que é filha de Charlie Swan, esconda o sobrenome de quaisquer pessoas desconhecidas por você, até que obtenham a sua total confiança; mesmo assim não recomendo que você se exponha dessa forma, isso se tornou perigoso, querida. Esconda o seu sobrenome e o de Savannah também.
Deixei um pacote contendo dinheiro no porão, creio que essa quantia lhe ajudará a viver um tempo com Savannah, longe daqui. Perdi a casa, e de qualquer forma ela está marcada, saia daqui o mais rápido possível. Vocês agora correm risco de vida, me desculpe.
Busque ajuda em Forks, pode haver tempos que não vejo Carlisle, mas ele poderá lhe ajudar, ele é um bom e velho amigo. Eu te amo, Isabella. Por favor, cuide de Savannah, por mim. Eu também sinto falta dela.
Com amor, seu pai Charlie.
Como assim com amor? Como com amor? Como ele ousava a assinar “com amor” sendo que ele nos abandonou marcadas para morrer? Que tipo de amor era esse?
Meus olhos queimaram furiosamente, meu pai havia me abandonado e de quebra jogado Savannah nas minhas costas. Eu não me conseguia ver cuidando dela, ele não podia ter feito isso comigo, não poderia ter nos deixado.
– Bella? Por que está chorando? – Savannah me perguntou aparentemente preocupada.
Sem cerimonias estendi o sulfite para ela e logo em seguida me sentei no primeiro banco que avistei, minhas pernas tremiam e eu pedia que aquilo fosse apenas uma brincadeira de mau gosto, obviamente não era.
Sim, Savannah era muito nova para saber o que nosso pai havia feito, mas eu não tinha outra saída a não ser contar a verdade, eu não iria poupa-la de sofrimento algum.
– Ele teve ter algum motivo. – Savannah disse num sussurro.
– Hahaha! – Eu ri histericamente – Você é tão boazinha, Savannah! Deveria parar de ser idiota desse jeito. Nada é um conto de fadas garota, nada, não se pode esperar muita coisa das pessoas, e agora vejo que não se pode esperar nada nem do próprio pai. – Falei por fim com amargura, as palavras saiam da minha boca como veneno. Savannah chorou silenciosamente.
– Desculpe.
– Está se desculpando por quê? – Perguntei levantando o rosto em direção à Savannah e arqueando as sobrancelhas.
– Por ser idiota.
– Não desculpo. – Senti culpa pelas palavras ditas a ela, apesar de tudo Savannah era apenas uma criança; então joguei o sentimento para o meu baú interno de esquecimentos, afinal, eu não era do tipo que se importava muito com as pessoas.
– Precisamos ir embora. – Falei me levantando depois de alguns minutos em silêncio.
– Precisamos? – Savannah me olhou e sua expressão era desconfiada, também identifiquei uma ponta de surpresa.
– Não leu o que Charlie escreveu? – Perguntei retoricamente.
– Li, eu só pensei que você não iria me levar.
– Tudo bem que eu odeio você Savannah, mas eu não vou deixar você aqui para morrer. Eu nem sei com o quê ou com quem estamos lidando, apesar de não te querer por perto eu não vou te deixar para ser violentada e depois morta. – A culpa pelas palavras usadas novamente me invadiu, eu reconhecia que às vezes era dura demais com ela.
– Pará Bella! – Savannah repreendeu-me com um soluço preso na garganta.
– Então faça o que estou mandando. Suba agora, pegue uma mala no meu guarda-roupa, coloque tudo o que você vai precisar e não se esqueça de absolutamente nada. – Avisei-a já fazendo meu caminho para o porão.
Contornei a cozinha e fui até a escada, sentei-me no chão e tirei o tapete de cima da abertura que dava acesso ao porão. Desci a escada que era muito inclinada por sinal e não foi difícil de avistar três pacotes pardos jogados em cima de um sofá de couro velho. Abri um dos envelopes e conclui que cada um deles deveria ter dez mil dólares.
Sem perder tempo, subi novamente a escada inclinada e fechei a abertura que dava acesso ao porão, coloquei o tapete em cima e rumei escada acima. Ao dobrar o corredor em direção ao meu quarto escutei soluções fortes de Savannah, procurei pelo som e a espiei chorando ao mesmo tempo em que fazia sua mala – há tempos eu não entrava ali.
Senti pena, uma pena que rapidamente foi substituída por desprezo e entrei em meu quarto. Peguei a primeira mala que vi pela frente e a enchi de diversas roupas, inverno e verão, roupas de banho e roupas íntimas.
Uma hora depois eu já havia feito tudo o que planejei. Havia três malas, a primeira continha minhas roupas, a segunda eram roupas de Savannah e na terceira tinha calçados de nós duas; em uma mochila individual havia nossos documentos e a carta idiota de meu pai. Nesse tempo eu também coloquei roupas mais quentes, assim como Savannah.
A chuva ainda insistia em cair, dessa vez com menos intensidade. Deixei Savannah dentro de casa enquanto colocava as malas na minha picape, senti uma pontada no coração ao não ver o carro de policia estacionado ao lado. Ignorei o sentimento como de costume e voltei para dentro tentando me proteger da chuva.
– Tudo pronto? – Perguntei para Savannah que estava quase dormindo no sofá da sala.
– Já fiz tudo o que eu podia fazer, enquanto você estava lá fora eu enchi uma bolsa com biscoitos e outras coisas de comer. – Ela respondeu-me receosa, provavelmente esperando por uma bronca.
– Que lindo você pensando mais do que o normal. – Eu tinha que manter o costume, não é?
Savannah ficou em silêncio apenas me olhando nos olhos. Eu não vou mentir, ela era uma criança inteligente, bonita e estranhamente madura para a idade dela, às vezes eu observava as suas conversas com meu pai e era como duas pessoas adultas estivessem falando despreocupadamente. Muitas vezes eu a invejava.
Antes de ir embora eu precisava falar com Lauren, ela era minha melhor amiga e não pensaria duas vezes em me ajudar.
Peguei meu celular no bolso traseiro da minha calça jeans e mandei e digitei uma mensagem, antes conferi a hora, quase 3h00am.
“Acordada? – Bella”.
Não demorou muito para eu receber uma resposta.
“Claro, acha que eu estaria dormindo essa hora em plena sexta-feira? – Lauren”.
Respondi de imediato.
“Estou indo para a sua casa, preciso da sua ajuda – Bella”.
Não esperei resposta, enfiei o celular no bolso e observei minha casa por um momento. Eu sentiria falta desse lugar mesmo com tantas coisas ruins tendo acontecido aqui. Eu sentiria falta de Port Angeles.
Cheguei à casa de Lauren e fui recebida silenciosamente por ela, não podíamos fazer barulho, pois seus pais estavam dormindo. Lauren lançou um olhar reprovador para Savannah que se encolheu com o ato na hora, não sei o motivo, mas o gesto de Lauren me incomodou.
Expliquei a situação para Lauren e a deixei ler a carta deixada por Charlie. Ela parecia não acreditar, Savannah observava sentada no chão de um dos cantos do quarto de Lauren.
– Você vai embora, não é? – Lauren perguntou com os olhos arregalados.
– Eu estava pensando em ir hoje mesmo, mas eu não sei, eu posso ficar aqui por alguns dias até eu me acostumar com a ideia? Estou com medo! – Minhas mãos tremiam, a ficha começava a cair levemente.
– Você está louca? – Lauren me perguntou como se a resposta fosse óbvia. – É claro que não Bella, você precisa ir! Se te encontrarem aqui vão me matar também!
– Lauren? Você está de brincadeira?
– Me desculpe Bella, mas eu não vou me arriscar por você! É melhor você ir agora mesmo! – Ela disse abrindo a porta do quarto num convite para que eu saísse.
– Eu achava que você era minha amiga. – Falei olhando o nada.
– E sou, mas não sou louca.
– Amigos se arriscam um pelo outro, eu me arriscaria por você. – Falei com as mãos em punho segurando o choro que ameaçava cortar minha garganta.
– Então eu não sou sua amiga. É melhor você ir, não vá atrás de Jéssica também. – Lauren disse friamente, sua voz demonstrava indiferença absurda.
Não havia mais nada a fazer ali, olhei para Lauren com lágrimas nos olhos, eu não me permitiria chorar na sua frente. Meu pai me abandona praticamente para morrer com a minha irmã, e minha melhor amiga me recusa ajuda no momento em que eu mais preciso de apoio. A vida é realmente engraçada.
– Vamos Bella, você não tem nada para fazer aqui. – Escutei a voz suave de Savannah logo atrás de mim.
Ela passou a minha frente delicadamente e segurou na minha mão me puxando e só então percebi que eu estava parada como uma pedra no meio do quarto. Logo em seguida deixei que Savannah me conduzisse porta afora.
– Tchau Lauren. – Savannah despediu-se cordialmente e eu simplesmente a segui até a porta por onde havíamos entrado.
Eu era acostumada a não me importar. Nada que fosse sobre o meu pai ou sobre Savannah me importava, eu os ignorava todas as manhãs, cortava qualquer conversa e agia como se eles fossem estranhos para mim. Então, por que eu me importava tanto com Lauren? Eu não pude contar com meu pai, então eu realmente não devesse esperar nada de Lauren; eu só achava que ela era diferente. Game over, ela era igual a tantas que eu abominava.
(...)
Savannah dormia ao meu lado no carona, eu estava com sono e ao mesmo tempo tentando manter a atenção na estrada molhada por conta da chuva. Charlie não me dera nenhum endereço de Carlisle, provavelmente achava que eu me lembraria de onde ele morava com sua família, afinal, nesse ovo que a população é acostumada a chamar de cidade todo mundo conhece todo mundo.
Depois de duas longas horas de viagem eu cheguei a Forks, estava amanhecendo e o Sol não ousou se apresentar como é de costume. O dia amanhecia nublado e uma chuva fraca cobria o horizonte acinzentado. Parei na primeira pousada que vi, o sono estava prestes a me derrubar e eu não poderia arriscar continuar dirigindo, com certeza eu precisaria de ajuda para achar a casa de Carlisle, o que seria patético.
– Bom dia – Eu disse entrando na pequena pousada – Preciso de um quarto, por favor.
A mulher mal encarada de pele morena e cabelos brancos me olhou de cima abaixo, uma ruga se formou no seu rosto e eu me apressei em falar.
– Eu sou Isabella... Isabella Barker. Vou passar alguns dias na cidade, visitar amigos. – Forcei um sorriso, mas foi o suficiente para convencer a mulher de meia idade.
– Cinquenta dólares o dia. – A mulher anunciou-me.
– Fechado. – Sorri nervosamente.
– Está de carro?
– Sim.
Ela me estendeu uma chave que indicava no chaveiro o número “12”.
– Pode pega-lo e entrar na garagem, apresente essa nota que eu vou lhe entregar para o rapaz e ele te deixará entrar. Estacione o carro na frente do quarto doze.
– Tudo bem e obrigada. Bom serviço. – Disse me retirando e ela não fez questão nem me responder.
– Mal educada – Sussurrei quando estava longe demais para que a mulher não pudesse ouvir.
Fiz o que a mulher havia me dito, acordei Savannah para que ela visse comigo e deixei que ela tomasse um banho primeiro, em seguida ela caiu na cama e dormiu novamente. Peguei uma toalha de banho na minha mala e roupas limpas, tomei um banho quente desejando que todo o cansaço e decepção fossem embora junto com a água. E como Savannah, cai na cama; mas não consegui dormir.
Eu morei nessa cidade até os meus oito anos até que meu pai decidiu se mudar quando recebeu uma proposta da polícia de Port Angeles, meu pai era muito amigo de Carlisle e sua família. Mas o tempo, traiçoeiro como é, nos afastou. Carlisle tinha três filhos, Emmett, o mais velho, Edward e a caçula Alice. Nós vivíamos em guerra; entre tapas e beijos.
Eu realmente odiava Alice Cullen, ela era chata e grudenta, me perseguia onde quer que eu fosse e me defendia das garotas más na escola. Tudo bem, talvez eu não odiasse ela tanto assim. Emmett adorava me irritar, mas era tudo propositalmente, ele sempre dizia que eu ficava com cara de palhaça quando minhas bochechas ficaram rubras. E Edward, céus, eu o odiava ainda mais do que qualquer outro ser humano, nossos dias começavam bem e no final eu estava montada por cima dele tentando desfigurar sua cara.
“Bella, você passou maquiagem, levou uma chinelada na cara ou o quê?” Edward me perguntou quando eu cheguei à escola, tínhamos sete anos. “Eu passei maquiagem – mentira – mas posso dar uma chinelada na sua cara se você quiser” O respondi sorridente. Ele fez uma careta estranha e em seguida pegou minha mão e caminhamos para a sala de aula comentando o quanto a aula de artes era legal. Tudo bem, talvez eu não o odiasse tanto assim, ele era meu melhor amigo.
Sorri com a lembrança repentina que me atingiu em cheio. Talvez Edward não estivesse mais por Forks, talvez estejivesse em uma faculdade cursando biologia, era isso que ele costumava dizer para mim quando nossas conversas não acabavam em socos e puxões de cabelos; uma coisa que vale ressaltar é que ele não me batia para machucar-me, apenas tentava se defender.
Virei para o lado e como Savannah, cai no mais profundo sono.
Acordei com o corpo totalmente quebrado, me deparei com um relógio no criado mudo ao meu lado indicando ser 18h47 da noite. Droga, dormi demais!
Levantei-me ainda sonolenta tateando Savannah ao meu lado – sim, a cama do quarto era única e de casal – e logo a encontrei olhando para o teto.
– O que foi? – Perguntei intrigada.
– Desde quando você se importa? – Savannah perguntou-me sem me olhar.
Abri a boca várias vezes para falar alguma coisa, mas nada me veio à mente. Era a primeira vez que ela me deixava sem fala e eu não soube como reagir a isso. Não respondi sua pergunta, afinal ela não esperava uma resposta; ela fizera aquilo para me calar.
– Vou escovar os dentes, depois você faça o mesmo. Vamos procurar por Carlisle. – Falei depois de alguns segundos em silêncio.
Fui até a minha mala pegando uma toalha de rosto, escova de dente e creme dental. Enquanto isso observava Savannah comer um biscoito qualquer que ela havia enfiado dentro da mochila. Logo sem seguida guardei tudo o que eu tinha usado e fiz menção para que ela fosse para o banheiro, sem hesitar ela fez o que eu mandei.
Em menos de meia hora estávamos na minha picape seguindo para o centro – minúsculo de Forks – lá eu pediria alguma informação para encontrar por Carlisle.
Desde quando eu me mudei nunca mais tinha o visto, será que ele se lembraria de mim? Fiquei insegura por um momento, mas se meu pai havia me mandado procurar por ele, ele deveria ser um bom amigo. Lauren. Talvez ele não seja; veremos.
– Como é esse amigo do papai? – Savannah perguntou-me.
– Ele era legal, pelo menos até quando eu tinha contato com ele. – Respondi normalmente.
– Você acha que ele vai nos ajudar? – Ela perguntou-me insegura.
– Pergunte a ele. – Respondi ríspida, às vezes Savannah fazia perguntas idiotas, eu simplesmente não conseguia segurar minha língua.
Alguns minutos mais tarde eu parei em frente ao hospital que reconheci assim que bati os olhos, claro, estava mais bonito, conservado e maior, mas era o mesmo. Foi aqui aonde eu vim parar quando cortei o braço jogando futebol com os meninos. Emmett me trouxe de cavalinho acompanhado de Edward que estava desesperado, não falamos para nossas famílias porque meu pai odiava essas brincadeiras, dizia que era coisa de menino. Obviamente, assim que chegamos lá a equipe entrou em contato com os nosso pais.
– Boa noite – Cumprimentei um rapaz alto, moreno e de olhos escuros que estava na recepção – Eu gostaria de saber se o Dr. Cullen ainda trabalha aqui.
– Não querida, ele abriu a sua própria clinica aqui em Forks há algum tempo. – O rapaz anunciou-me melancolicamente.
– E você sabe onde eu posso encontrar ele? – Fiz meu melhor bico e acho que funcionou.
– Para falar a verdade eu não posso lhe informar, você sabe... Concorrência. – O rapaz parecia envergonhado.
– Mas eu não quero serviços dele, vim visita-lo, há muito tempo não o vejo. Ele é amigo da minha família.
– Por favor, moço. – Savannah soou ao meu lado e eu rolei os olhos.
O rapaz pareceu hesitar, mas logo se pronunciou novamente.
– Tudo bem... Por via das dúvidas eu vou lhe ceder o endereço da casa dele, mas não diga a ninguém como e onde você o conseguiu, estamos combinados? – O rapaz me perguntou arqueando as sobrancelhas.
– Combinadíssimo! – Lhe direcionei o meu melhor sorriso e ele retribuiu – Muito obrigada... – Bisbilhotei seu crachá que estampava o nome J. Black – Sr. Black.
– Não há de quê!
– Não era para você se meter! – Ralhei entrando na minha picape acompanhada por Savannah.
– Eu só queria ajudar! – Resmungou ela.
– Não preciso que me ajude! – A essa altura eu já dirigia estrada afora.
Não demorou muito para que eu chegasse ao endereço marcado. Não era a mesma casa que eu me recordava em passar muitas das minhas tardes quando era uma criança, essa era maior, mais bonita, moderna e sofisticada. Era definitivamente uma casa que poderia pertencer a uma família rica, parabéns, eles subiram na vida.
POV EDWARD
– Se você estiver zoando comigo, eu juro que vou te matar! – Alice disse semicerrando os olhos com um olhar desconfiado direcionado a mim.
– Alice, por favor! Abra o presente, agora! – Fiz cara de cachorro sem dono e Alice rasgou o embrulho de uma só vez.
– Ah, infeliz! – Alice gritou correndo atrás de mim assim que viu qual era o seu presente e eu disparei jardim afora rindo como uma gazela.
– Gostou? Um banquinho para você subir quando quiser beijar seu namorado! – Falei praticamente sem folego apenas por ver a cara impagável que minha irmã fez; eu deveria ter sido mais inteligente e tirado uma foto.
– Quantas vezes eu vou ter que falar que vocês não são mais crianças? – Carlisle disse aparecendo no meu campo de visão e eu empaquei.
– D-desculpe. – Gaguejei terminando ali mesmo a minha fuga de Alice e por puro instinto levei minhas mãos até minha camisa a arrumando de qualquer jeito.
Meu pai era um homem autoritário e rígido, meu sonho era que ele confiasse a mim seu grande negócio de sucesso – mesmo sendo um negócio ilegal – e me deixasse atuar ao seu lado. Eu era o único filho que sabia disso, Alice e Emmett achavam que a nossa vida boa era fruto de uma clínica que fachada que meu pai teve a brilhante ideia de criar. Eu descobri a sua casa de bingo por coincidência e as consequências desse trabalho logo subiram para minha cabeça; eu seria um homem rico e todas as mulheres estariam jogadas aos meus pés, assim como era com meu pai.
– Siga-me, eu preciso falar com você. – Carlisle anunciou-me e eu o segui rapidamente, ele fazia o caminho até o escritório.
– Como você quer que eu lhe dê um status importante em meu negócio sendo que até dentro de casa você se comporta como uma criança encrenqueira? – Carlisle perguntou-me com ira já acomodado em sua poltrona.
– Eu só estava brincando com Alice. – Falei na defensiva.
– Não, você estava se comportando como uma criança e eu não admitirei isso, se quiser entrar para a minha sociedade terá que merecer, terá que se tornar um homem primeiro. Entendeu bem Edward? – Ele perguntou-me apontando o dedo para meu rosto.
– Claro, desculpe pai. – Falei não totalmente arrependido, a cara de Alice valia a bronca.
– Procurarei algum serviço para você, será o seu primeiro e grande passo. Mas vai começar com os mais sujos para chegar aos mais merecedores. – Ele anunciou por fim dando-me as costas e saindo porta afora.
Engoli seco. Carlisle estava querendo dizer que primeiro eu seguiria suas ordens, seja de perseguição a pessoas que devem dinheiro e em extremo caso matar quem gastou o que não tem. Carlisle não era do tipo que perdoava.
Depois da conversa com meu pai e a tensão ter me dominado pensei em pegar meu volvo e voltar para meu apartamento em Port Angeles – meu pai havia me dado há exata uma semana – mas desisti da ideia por conta da chuva que caia na cidade.
Transitei calmamente pela sala e Alice ainda estava nervosa comigo, mal olhou na minha cara, ela simplesmente odiava quando eu caçoava dela por conta de seu tamanho minúsculo. Ao passar do seu lado baguncei seus cabelos curtos e ela agarrou meu braço instantaneamente, fui rápido em soltar-me e corri escada acima, rumando para meu quarto.
Amanheceu e o dia passou rápido, Emmett chegaria hoje de viagem com a universidade – ela cursava turismo, por isso vivia viajando – e Alice ainda estava no ultimo ano da escola, no momento não se encontrava em casa.
Enquanto eu assistia a um filme qualquer na televisão meu pai entrou furiosamente pela sala e olhou-me, eu já sabia que ele queria conversar comigo. O segui por puro habito e fomos ao mesmo escritório da noite anterior.
– Eu já tenho um serviço para você. – Ele disse encarando o nada, imerso em pensamentos.
– Pode me dizer – Falei me sentando, um calafrio percorreu minha espinha e por um momento eu tive medo.
– Há algum tempo atrás eu apresentei a casa de jogos para um velho amigo – Ele riu amargamente – Mas, o velho se viciou assim como todos os outros; ora ele ganhava, ora ele perdia. Obviamente ele não sabe quem comanda os jogos, apostas, quem ganha e quem perde. Ele me deve cinquenta mil dólares. Ele perdeu e não pagou. – Os olhos de meu pai queimavam ao pronunciar as palavras.
“Ele já sabe que já está morto, mas é claro que eu não vou deixar barato. Hoje de manhã eu mandei alguns homens irem a casa dele, que por sinal já foi abandonada. Ele tem duas filhas e eu conheço uma delas pessoalmente, se a visse hoje eu reconheceria na hora. A mais nova eu vi apenas por foto, tratarei de arrumar uma para você. Charlie não sabe que eu sei onde ele está. Vai ser um jogo divertido.”
“Seria mais divertido se eu soubesse onde as garotas estão, porque elas não estão com ele. A ideia que eu tenho é: você vai comandar um grupo muito bom de homens que irão lhe ajudar na caçada, e assim que colocar as mãos nelas vamos matar uma por uma na frente de Charlie, ele irá logo depois. Ele vai sentir que não se pode brincar com um Cullen.”
Estremeci. Eu queria entrar para a sociedade, mas eu não queria matar pessoas, muito menos matar suas garotas que serão obrigadas a pagar pelo erro do pai. Esse foi o primeiro momento em que percebi que o caminho que eu escolhera era muito mais complicado do que eu julgava ser.
Eu também não poderia decepcionar meu pai, eu teria que passar por esse obstáculo e num futuro próximo, talvez eu não precisasse mais passar por esses testes que meu pai impôs para mim. Mais cedo ou mais tarde eu seria poderoso assim como ele, e eu estava determinado a fazer qualquer coisa que fosse necessário.
– Vou sair e talvez eu não volte mais hoje. Tenho assuntos a tratar. Tchau, Edward. – Carlisle despediu-se de mim apenas com palavras, sem abraço, sem um olhar, nada.
– Tchau, pai. – Respondi com a mesma frieza o assistindo desaparecer porta afora.
Voltei para o meu filme e fiquei pensando... Velho amigo... Charlie... Esse nome não me era estranho, eu tinha certeza que o conhecia de algum lugar, de um passado aparentemente muito distante. Tentei lembrar-me e veio o chefe Swan a minha mente, só que ele não poderia ser. Ele tinha apenas uma filha, uma única filha... Isabella. Talvez matar pessoas não seria tão difícil assim, se fosse preciso eu entregaria Isabella Swan para a morte.
– E aí Edward, qual foi a voltagem dessa vez? – Emmett perguntou-me alegremente entrando pela porta arrastando uma mala de rodinhas.
Ele sempre fazia essas piadinhas comigo, a voltagem era relacionada a um choque que ele criou em sua própria mente por meus cabelos serem tão desnaturados. “Parece que você levou um choque e seus cabelos agora desafiam a lei da gravidade”, ele falara uma vez.
– Também senti sua falta, Emmett! – O recebi sorridente lhe dando um abraço de macho. – Como foi à viagem? – Perguntei realmente interessado.
– Cara, foi muito maneiro! Meu espanhol está quase fluente, daqui a pouco estarei pegando gatinhas mexicanas. – Emmett riu e me deu uma piscadela.
– Emmett, o conquistador barato! – Alice disse entrando e recebeu um abraço de tirar o fôlego do brutamonte.
Nossa relação entre irmãos sempre foi completamente louca, mas as vezes eu tinha a sensação de que estava faltando alguém.
– Cadê o papai? – Alice perguntou olhando em volta da sala.
– Saiu. – Dei de ombros.
– Para onde? – Emmett perguntou literalmente se jogando no sofá.
– Não sei, ele não falou. Ele nunca fala. – Disfarcei.
Eu não sabia quais eram os locais que meu pai frequentava, mas tinha a noção dos assuntos que ele travava e as coisas que ele fazia.
Eu estava discutindo com Alice e Emmett, nossas vozes não eram ouvidas e nem identificadas por nenhum de nós, mas continuávamos gritando como se tivéssemos razão em alguma coisa e eu nem sabia o porquê dos gritos vindos de todos os lados.
Determinada hora Emmett jogou-me na cara um Puff enorme e eu parti para cima dele, aquilo tinha doido pra caralho.
E como um sinal de Deus para que nós não nos matássemos de uma vez, o interfone soou alguns toques até que Alice decidiu atende-lo; achei estranho porque não estávamos esperando visita.
– Vocês não vão acreditar em quem está aqui fora! – Alice disse dando pequenos pulinhos de animação e eu rolei os olhos.
– Alguma das suas amigas que andam de rosa dos pés à cabeça? – Emmett perguntou-a fazendo uma cara de safado.
– Não, muito melhor que isso. Vejam com os seus próprios olhos. – Alice disse simplesmente direcionando-se até a porta.
Dois toques suaves bateram de encontro a grande porta branca da entrada da sala e Alice a abriu se hesitar.
– Oh meu Deus! – Alice disse pulando em cima de uma garota e quase a derrubou no chão.
Não pude identifica-la de imediato, pois Alice teimava em permanecer pendurada no pescoço da garota e aquilo provavelmente estava a sufocando, sendo assim percebi ao lado da porta uma garota que deveria ter uns seis anos de idade totalmente acanhada com a situação.
Seus cabelos eram uma cor acobreada, ruiva, castanho claro ou loiro; não consegui definir, e eles pendiam até a sua cintura. Seus olhos eram um tanto familiar e sua pele era pálida. A garotinha olhava tudo em volta com certa curiosidade no olhar.
Quando Alice milagrosamente saiu de cima da garota eu finalmente pude olhar seu rosto. Ela era muito mais que familiar, mas eu simplesmente não conseguia lembrar-me ao certo dela. Seus cabelos era em um tom castanho avermelhado que caiam em leves ondulações até o meio de suas costas, seus olhos chocolates penetrantes estavam atentos em mim e sua pele branca tinha um contraste perfeito com a cor de seus lábios naturalmente vermelhos. Uma versão maior da garota ao seu lado.
– Bella, é você mesmo? – Emmett disse sorrindo debilmente para a garota.
“Bella” é claro que era ela! Como eu não pude me lembrar de imediato? Tudo bem, ela estava muito mudada, diferente, mas ainda tinha o mesmo olhar e a face delicada como a de uma boneca.
– Não idiota, eu sou a Angelina Jolie! – Bella respondeu sorrindo enquanto era embalada num abraço esmagador dado por Emmett, ela continuava a mesma provocadora irritante de sempre por sinal.
– Não vai falar com ela Edward? – Alice disse dando novos pulinhos como um bobo da corte.
– Olá século XIX! – Bella sorriu ironicamente para mim vindo à minha direção.
“Sério, Edward, de onde seus pais tiraram esse nome? Parece ser mais velho que um museu!” Bella perguntou-me encabulada. “Era o nome meu avô, pai da minha mãe Esme” respondi ofendido. “Ele viveu em que século?” Ela perguntou-me. “XX, Bella, XX!” “Mentira, acho que ele viveu no século XIX” ela disse com um sorriso presunçoso nos lábios. “Você é uma boba!” a provoquei. “E você é um bobo, século XIX” Bella desafiou-me. “O que disse?” “Eu te chamei de bobo e século XIX” Bella respondeu-me já se levantando da grama e tomando uma distancia segura de mim. Não hesitei em levantar-me também e correr atrás dela, depois eu cai, ralei meu joelho e chorei como um filhinho de papai descontroladamente.
– Eu não acredito que você ainda lembra isso, você não muda não é? – Perguntei prendendo um riso satisfatório na garganta, um sentimento bom me apossou assim que a reconheci.
Ela fez que não com a cabeça chegando finalmente até mim e sem pensar duas vezes passou a mão pelo meu pescoço me abraçando. Não entendi o porquê do abraço repentino, mas eu aproveitei o momento passando meus braços por sua cintura e a trazendo contra o meu corpo. Senti um choque involuntário com o contato, o ignorei afundando meu rosto em seus cabelos.
– Senti sua falta. – Sussurrei durante o abraço.
– Eu também senti a sua falta, Edward.
Separamo-nos e percebi a garotinha na mesma posição que estava antes de eu reconhecer Bella.
– Senta Bella, senta menininha! – Alice disse alegremente com um sorriso que poderia rasgar sua cara a qualquer momento.
Bella sentou-se ao meu lado assim como Emmett, a garota sem nome sentou-se no sofá de dois lugares que estava vazio e Alice continuou em pé.
– Quem é a menina? – Emmett perguntou curioso.
– Minha irmã. – Bella disse com um desdém.
– Ela é a sua cara, Bella! – Alice disse sentando-se ao lado da garota.
– Infelizmente. – Ela respondeu e Alice a olhou incrédula.
– Tudo bem, vamos às apresentações – Bella impôs – Essa é Savannah, como eu já disse ela é minha irmã e tem sete anos.
– Com quantos anos você está? – Perguntei-a interrompendo.
– Edward, quantos anos você tem? – Bella retrucou depois de rolar os olhos teatralmente.
– Dezenove? – Respondi incerto.
– Ah, sim. Continuando, Savannah querida, esses são Emmett, Alice e Edward. Meus amigos de quando eu ainda morava por aqui.
– Oi – Savannah cumprimentou todos coletivamente.
As horas se passaram com conversas leves, como por exemplo, a escola recém-terminada de Bella, o ultimo ano de Alice, a curso de turismo de Emmett e o belo nada que eu fazia na vida. “Vagabundo”, Alice dissera em certo ponto da conversa. Depois a conversa pendeu para um ponto mais pesado, quando Alice perguntou sobre Renée e Charlie para Bella. Ela disse que Renée havia morrido ao dar a luz pela segunda vez, pude observar Savannah se retrair com as palavras de Bella – que mais pareciam facas apontadas para a menina – e que Charlie estava viajando, captei a mentira na segunda parte quando Bella abriu a boca duas vezes e a fechou para depois soltar a mentira. Bella também ignorava Savannah o tempo todo, como se a menina não existisse ou fosse apenas uma observadora ao lado de fora da conversa. Na verdade, ela estava sendo.
– Desculpem-me visitas, mas eu preciso sair! – Alice anunciou levantando-se do sofá segurando seu celular.
– A visita agradece. — Corrigi Alice cinicamente e deu o meu melhor sorriso torto, olhei de soslaio para Bella que ainda ria com a minha correção.
Depois de Alice abraçar Bella umas cinco vezes e esmagar Savannah em abraços sufocantes ela saiu porta afora dizendo que se encontraria com Jasper, ao mesmo tempo Emmett se recolheu alegando estar cansado demais, xingando a todos os vapores a poltrona vagabunda da companhia de avião. Sendo assim, sobrara eu, a mini Bella e a própria Bella.
– Edward, eu preciso falar com Carlisle. – Bella disse com uma tensão na voz que me assustou por um momento.
– Ele não está e provavelmente só amanhã. Quer esperar? Você pode ficar por aqui. – Perguntei preocupado.
– Eu gostaria mesmo de esperar, se não for muito incomodo. – Ela disse visivelmente incomodada.
– Não será incomodo algum. – Respondi prontamente.
– Tudo bem, eu fico, e obrigada. – Bella disse ruborizando, lembrei-me da ultima vez que a vi ruborizar.
“Edward, Edward” Bella disse chorando e me abraçou na primeira oportunidade, era uma segunda-feira na primeira aula. “O que aconteceu Bella?” Perguntei preocupado. “Nós vamos nos mudar, eu não quero ir.” Senti meu coração acelerar freneticamente com as palavras, eu quase odiava Bella, mas isso não significava que eu a queria longe. “Mas se seu pai disse que você vai você tem que ir” Eu disse tentando não chorar junto com ela. “Você não me quer perto?” Ela perguntou com os mesmos olhos penetrantes de sempre. “É claro que eu quero – afirmei olhando timidamente para o chão – quando você vai?” “Hoje mesmo, depois da aula” Bella respondeu-me dando uma fungada. “Eu posso te pedir uma coisa?” Perguntei normalmente. “Pode sim” Ela respondeu-me prontamente secando os olhos. “Eu posso te beijar?” “Oi?” Bella perguntou confusa. “Eu posso te beijar, Bella?” Insisti. “Pode”. Foi um selinho, rápido, doce, completamente sem maldade e completamente intenso. Depois disso olhei nos seus olhos chocolate novamente e suas bocechas completamente ruborizadas, então corri. E foi a ultima memória que eu tive dela até hoje.
– Tem alguma coisa que quer me contar? – Perguntei já sabendo a resposta, eu sabia que Bella não estava aqui simplesmente porque sentiu saudades e resolveu bater a porta acompanhada de sua irmã que ela aparentemente odeia.
Bella olhou timidamente para o chão desviando seu olhar do meu. Ela parecia travar uma batalha interna, “conto ou não conto?” e então sem cerimônias Bella abriu uma mochila que carregada consigo e me esticou uma folha de papel sulfite sobrada duas vezes ao meio.
Notas finais
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Nossa FIC também terá consideráveis flashbacks da infância dos dois...
Algumas revelações já feitas no primeiro capítulo! Eu pretendo continuar nesse ritmo, capítulos grandes e proveitosos, e vou determinar dois dias na semana para postar para vocês, um será na sexta feira e o outro eu ainda vou escolher!
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Se houver algum erro de português, mil desculpas, e me avisem para que assim eu possa concerta-lo, tudo bem?
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Mereço reviews? Até o próximo, galera! Espero que tenham gostado assim como eu!
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