Fogo & Gasolina

3 Parte I – Capítulo 03: Conhecidos


Du pegou o primeiro ônibus do dia para a Lapa e quando chegou em casa todos ainda dormiam. Ela entrou no quarto que compartilhava com os irmãos e tentava fazer o mínimo de barulho possível. Se deitou na parte de baixo do beliche que ocupava, tirou o coturno e fechou os olhos na esperança de conseguir dormir pelo menos um pouco antes de ir trabalhar. Mesmo sendo domingo, sua folga era de seis dias pra um.

Não conseguia se aquietar o suficiente para dormir, só conseguia pensar no que tinha acontecido naquela noite e no cara que tinha conhecido. O jeito como ela o impressionara. Ninguém tinha mexido com ela assim. Ela ainda podia sentir os seus dedos segurando o seu braço.

Du nunca tinha tido um namorado sério, apenas ficantes. No trabalho, tinha um peguete quase fixo, mas ela nunca tinha sentido nada de mais por nenhum cara. Em relação ao amor, ela era cética. Não acreditava que existisse um amor de filmes ou de novelas que sua mãe assistia. Ela nunca teve exemplos reais de que o amor realmente existe.

Pelo o que ela sabia, sua mãe morava na favela Santa Marta quando conheceu seu pai. Ele era um dos comparsas de um traficante de renome da região. A adolescente Eliane, sua mãe, via nele um jeito de melhorar de vida. Assim como muitas outras que pensaram o mesmo. Quando Lili, como era conhecida, apareceu grávida, seu pai a escorraçou feito um cão de rua.

Em conversas escutadas atrás da porta, Eduarda soube que sua mãe nunca a quis de verdade. Ela era um pretexto para tentar segurar um babaca metido a traficante de morro. Lili queria ser a mulher dele, a única, e pensou que uma gravidez iria prendê-lo a ela. Depois do fora que tinha tomado, ela foi ameaçada caso não fizesse um aborto. Ela bem que tentou, mas os avós de Du a impediram.

Foi então que a mãe de Eliane a mandou morar com uma irmã na Lapa. Maria Eduarda nasceu e foi praticamente criada pela tia de sua mãe. Enquanto a mãe ia para os bailes, bares e festas.

A menina cresceu e quando completou 8 anos, foi morar com a mãe e seu marido, Carlos, outro babaca que quando abusava da bebida ou das drogas batia na mulher. Eduarda tentava entender até hoje aquela relação, mas desistiu. Com ele, a mãe teve quatro meninos e vivia uma relação de dependência e violência. Uma vez, Eduarda tentou defender a mãe dos tapas que tomava, mas foi em vão. No outro dia, tudo prosseguia como era antes.

Então, por que ela acreditaria que o amor existia de verdade?

Quando ela finalmente tinha conseguido pegar no sono, o despertador do seu velho celular tocou. Tomou um banho, se vestiu e maquiou. Quando saiu, os irmãos brincavam na sala, ela deu um beijo em cada um. Passou na cozinha para buscar um pedaço de pão ou qualquer coisa que forrasse o estômago. Carlos estava na mesa, enquanto Eliane estava no fogão.

_ Olha quem apareceu... – a mãe comentou.

_ Oi, Eliane.

Du nunca a chamou de mãe, só tinha chamado assim aquela que a tinha criado e já tinha falecido. Que Deus a tenha.

Ela foi até o armário e pegou um pedaço de pão.

_ Sabia, Eliane, que sua filha chegou junto com as galinhas hoje?

Du que estava de costas para a mesa revirou os olhos.

_ Eu já sou bem crescidinha. – ela disse.

_ Enquanto você morar aqui e comer a comida dessa casa, deve explicações.

_ Não pra você.

Du escondeu o pedaço que pegou no bolso e saiu ainda ouvindo Carlos reclamar.

Colocou os fones de ouvido e seguiu para a zona sul, petiscando o pão pelo caminho. Chegou lá e se trocou, mais um dia pra ser simpática e sorridente como nunca com cada cliente que entrar naquela loja.

Apesar da ressaca tremenda, João Lucas conseguiu ir pra casa, tomou um banho e tentava fazer um curativo no corte quando seu celular tocou. Seu quarto, que era uma das imensas suítes do apartamento duplex do Comendador. Ele saiu de toalha e pegou o celular que estava jogado na cama.

_ E aí, tu conseguiu? – ele atendeu. – Eu sabia que tu ia conseguir! Aqui em Copa mesmo? Tranquilo, tranquilo. Mais tarde, passo lá.

João Lucas voltou para o banheiro e se encarou no espelho. Aquele corte seria razão para uma encheção de saco sem fim. Principalmente quando o imperador e imperatriz reparassem. Ele colou um curativo por cima do corte seco.

A cama lhe parecia tão convidativa que ele só trancou a porta antes de se jogar por cima dela ainda vestindo apenas a toalha. A cabeça ainda doía, mas logo o remédio que tomou iria fazer efeito.

João Lucas acabou adormecendo sonhando com luzes vermelhas.

Fazia pouco tempo que tinha voltado do almoço quando Du ouviu o burburinho começar. Ela ajudava uma das colegas a pegar modelos de roupa para uma cliente, quando Renato, o seu amigo gay veio quase saltitando na direção das duas quando a mulher se vestia no provador.

_ Vocês não sabem quem tá aí! – ele murmurou para as duas.

_ Quem? – a outra perguntou.

_ João Lucas, filho do Comendador, do império de joias.

_ Quem? – Du perguntou.

_ Ai meu Deus, sério!? – a moça respondeu animada.

_ Fala sério, Du! Que mundo você vive, menina? – Renato cruzou os braços a olhando com descrença.

_ Ah, eu...

Du foi interrompida quando o seu gerente lhe chamou. Ela sentiu um frio na barriga. Provavelmente tinha feito algo errado e seria mandada embora. Ela se aproximou do homem.

_ Tem um cliente que quer ser atendido por você.

Ela estranhou, afinal, fazia pouco tempo que trabalhava ali para ter algum cliente fixo, ou alguém que quisesse ser atendido por ela preferencialmente. Ela o seguiu e quando chegou ao hall da loja quase saiu correndo.

O mesmo cara que tinha velado o sono naquela madrugada estava ali, ele conversava com algumas vendedoras. No entanto, parou ao vê-la ali.

_ Du, por favor, tente atende-lo da melhor forma possível. – o gerente sussurrou pra ela quando Lucas vinha em sua direção.

As mãos no bolso da calça, jaqueta de couro legítima, tênis caro, o corte na testa com um curativo e um sorriso de lado. Du sentiu o rosto queimar porque todos na loja a observavam.

_ Du, né? – ele se aproximou dela.

_ Isso. – ela sentia a garganta seca.

Mais cedo o tinha tratado com má criação e agora, ele estava ali. João Lucas, filho de um dos maiores empresários do país e um dos homens mais ricos do mundo.

_ João Lucas. – ele ofereceu a mão com um sorriso, como se tivesse lido os pensamentos dela.

_ Prazer. – ela não sorriu, mal conseguia falar.

Ao pegar na mão dele sentiu um arrepio na nuca, mas o ignorou. Tão logo quanto encostou em sua mão, a soltou.

_ Ah, que é isso? Agora vai me tratar com cerimônia?

_ O que o senhor gostaria de ver na loja?

_ Eu só queria agradecer pela ajuda mais cedo.

Du sabia que ele estava lhe jogando uma indireta e acabou se desarmando.

_ Eu que eu te agradeço. Obrigada por... Por ter me salvado...

Ela não agradeceria se soubesse que ele não estava com essa intenção. Lucas ficou sem graça ao perceber que ela estava sendo verdadeira. As bochechas dela estavam levemente rosadas.

_ O que eu não faria para salvar uma dama em perigo? – ele disse em um tom brincalhão.

_ Você é sempre tão convencido assim?

_ Sempre. – e sorriu para confirmar.

Internamente, Du tentava juntar as duas pessoas que conheceu: o rapaz drogado e alterado da noite passada com o simpático e rico que lhe olhava agora. As mesmas íris castanhas, que outrora estavam tão perdidas, lhe encararam com um foco impressionante.

De uma coisa Eduarda tinha orgulho, nunca usou drogas. Chances não lhe faltaram. Ela conhecia muito bem os efeitos colaterais e os enxergava em Lucas. O jeito ansioso de mexer os dedos e as olheiras profundas, como se ele não dormisse há dias. Imediatamente ela se sentiu imponente, queria poder ajuda-lo.

_ Tu não vai querer mesmo ver nada da loja?

Lucas tinha se distraído e olhava uma das roupas masculinas em exibição.

_ Claro que vou querer. – ele deu um sorriso de lado.

Ele se inclinou perto dela e falou mais baixo: – Mas só se você topar jantar comigo.

Por essa ela não esperava. Há principio quis aceitar de cara, mas se lembrou de quem ele era e seu status com as mulheres.

_ Eu não sou dessas não, cara.

Lucas riu do jeito dela. Ele já tinha notado que ela não era “dessas”.

_ Relaxa, Du. Só quero bater um papo contigo.

A verdade era que Lucas não sabia mais o que era ter uma amizade faz tempo. Todos seus amigos tinham se afastado dele. E com razão. Ele jamais questionou, eles tinham motivos. E aquela parecia uma chance de começar uma amizade.

_ Ok. – foi o que ela respondeu.

_ Que horas você tá livre?

_ Bom, daqui... – ela olhou para o relógio pendurado na parede da loja. – Meia hora é a minha hora livre.

_ Não está mais livre, então. A gente se fala, Du.

Ele deu uma piscadela para garota e saiu. Ela já sabia que ele iria espera-la em qualquer lugar do shopping.

Eduarda olhou ao redor e só naquele momento percebeu o silêncio que estava na loja. Todos, sem exceção, a encaravam.

_ Pô, gente, que é? Bora trabalhar.

Ela voltou para a cliente que atendia no provador e fingiu que nada aconteceu. Até mesmo quando Renato veio querendo saber o que tinha rolado entre eles. Ela não sabia o que responder. O melhor que conseguiu foi:

_ Somos só... Conhecidos.

Notas finais
Obrigada mais uma vez pelo retorno. Recebi poucos comentários, mas esses comentários são valiosos! A fanfic está com mais de 900 visualizações, é muita coisa, estamos só no terceiro capítulo. Espero que tenham paciência estamos na primeira parte ainda, vamos ter alguns pequenos conflitos, mas logo estaremos partindo para segunda parte, onde eles serão amigos, que é a que estou mais ansiosa pra escrever. Obrigada por tudo!