Fogo Contra Fogo
20 Descobertas
Notas iniciais
*Ponto de vista de Rod Dawes
Passei as mãos pelo meu cabelo, penteando-o para trás com os dedos enquanto a água molhava meu rosto em abundância. Fechei o chuveiro e respirei fundo o denso vapor deixado pela água quente no ar. Peguei minha toalha, enrolei-a em volta da cintura e fui até a cozinha pegar algo para beber. O apartamento que aluguei no West Side era minúsculo e me dava nos nervos, mas foi tudo o que consegui tão em cima da hora. Se eu tivesse sorte com minha intuição, eu estaria fora dali em menos de uma semana.
Abri a geladeira e tirei de lá uma garrafa de vinho barato. Mais do que nunca, senti falta da minha adega em meu apartamento na Virginia. Servi-me de uma taça e pouco antes da minha minha terceira golada ouvi meu celular tocar. Deixei a taça meio cheia sobre a bancada e fui à procura do telefone, seguindo seu som. Encontrei-o sobre o criado-mudo, no quarto. Olhei para a tela antes de atender.
"Ei, Dawes. Como estão as coisas por aí?" perguntou Tyler, meu parceiro, ao telefone. "Já entrou em contato com a NYPD?"
"Não. Acho que não preciso contatar a polícia nova-iorquina por enquanto. Ainda não tenho muitas informações concretas aqui." respondi com franqueza. "Eu preciso de um relatório mais substancial."
"Entendo." disse ele pensativamente. "E quanto tempo pretende ficar?"
"Não posso ser exato ainda, mas pretendo acabar com isso o mais rápido possível." comentei.
"Eu só não entendo qual é a relação dessa modelo com o nosso caso." disse ele.
"Você vai entender quando eu fizer o relatório." garanti.
Tyler começou a dizer algo, mas sua voz foi interrompida pelo meu telefone que começara a vibrar. Eu estava recebendo outra chamada. Franzi o cenho para o número desconhecido que apareceu em meu visor. Era um número local.
"Tyler, estou recebendo uma segunda ligação. Preciso atender." Falei rapidamente sem dar a ele a oportunidade de responder. Encerrei sua chamada e atendi à outra.
O que ouvi do outro lado foi um tanto alarmante. Gemidos chorosos e soluços que sem dúvida vinham de uma fonte feminina.
"Agente Dawes!" disse a voz rouca em meio ao choro. A forma desesperada como chamou meu nome era quase um clamor. "Senhor Dawes, por favor, me ajude."
"Loreanne?" perguntei, preocupado de repente.
"Não. Michelle." respondeu ela. A moça respirava irregularmente e eu percebi que ela lutava para se acalmar.
"Michelle, o que houve?" perguntei em tom complacente e ignorei as formalidades para criar um vínculo familiar entre nós.
"Ele levou a Lori!" gritou ela e voltou a chorar. "Ele levou minha irmã..." sua voz se perdeu entre as lamúrias.
Senti a cor ser drenada de meu rosto. Meu maxilar se enrijeceu e minhas mãos se fecharam em punhos. Loreanne era minha única fonte, eu não podia perdê-la.
"Quem a levou?" perguntei de um jeito gélido.
"Eu não sei." ela gemeu. "Ele me rendeu com uma arma quando saí de casa e me forçou a levá-lo até ela. Ele disse que só queria conversar. Disse que não a machucaria..."
Ela não conseguia mais falar. Suas palavras saíam aos tropeços e aos gemidos. Aquilo não estava dando certo.
"Onde você está?" perguntei calmamente, interrompendo-a. Ela deu um longo suspiro na tentativa de se recompor.
"Estou na West 52nd Street, no Hell's Kitchen." gaguejou ela, ainda muito nervosa.
"Tudo bem. Quero que fique calma e não saia daí." orientei-a. "Estou à caminho."
***
Segui caminho rapidamente até o endereço que Michelle Garrow havia me passado. Ajeitei minha gravata enquanto subia as escadas até o terceiro andar. Era um prédio antigo, daqueles feitos de tijolos marrons e com escadas de incêndio e sem elevadores. Um lugar estranho para uma garota milionária como Loreanne. Michelle havia mencionado que a irmã havia preferido alugar um local pela vergonha seguida por um orgulho sólido. Eu, por outro lado, achava que a modelo tinha coisas a esconder da própria família, o que não parecia ter dado totalmente certo.
Bati à porta do quarto indicado e olhei em volta. O lugar, de fato, era lamentável e eu ainda reclamava do apartamento que eu havia escolhido. Ajeitei novamente o nó da gravata, sentindo-me incomodado por não ter usado um espelho na pressa de ir ao socorro de Michelle. Eu estava prestes a bater novamente quando a porta se se abriu e uma moça pequena apareceu. Eu quase havia me esquecido do quanto ela era jovem, devia ter vinte e um no máximo. Na primeira vez em que nos vimos, quando a interroguei em sua casa, ela tinha um olhar atento, uma postura firme e por conta disso era fácil se deixar enganar. Mas agora, seus olhos estavam avermelhados, seu rosto inchado e suas faces coradas. Seu corpo inteiro transparecia seu desespero. Ela estava completamente vulnerável. Não seria difícil tirar dela um depoimento.
Ao me ver, Michelle tentou inutilmente corrigir sua postura para me receber e me deixou entrar. Agradeci e antes de começar a enchê-la de perguntas, observei o lugar. Era um quarto pequeno com um banheiro e uma cozinha apenas. Não havia muitos bens pessoais, apenas uma mala vazia sobre uma cadeira perto da janela e algumas bitucas de cigarro em um cinzeiro sobre a bancada da cozinha. Voltei-me para Michelle que me observava com ansiedade. Fiz um gesto com a mão em direção à cama, dizendo a ela para se sentar. Assim ela o fez. Pensei em me sentar também e dar início ao interrogatório, mas algo me chamou a atenção. Uma das pontas superiores do colchão estava ligeiramente elevado, como se algo estivesse em baixo. Fui até lá, seguindo meu instinto e minha curiosidade. Cuidadosamente ergui o colchão e encontrei um revólver. Loreanne realmente tinha coisas a esconder. Tirei meu lenço de dentro do paletó e o usei para pegar a peça. Examinei-a rapidamente e a exibi para a moça que agora me encarava confusa.
"Você tinha conhecimento disso?" perguntei a ela em tom de voz neutro. Michelle parecia surpresa e não duvidei minimamente de sua ignorância. Ela negou com a cabeça, não devia saber dos precedentes da irmã enquanto esta esteve fora.
"Eu juro que não sabia que isso estava aí." ela disse.
"Acredito em você." afirmei.
"O senhor não parece muito surpreso." observou ela.
"Sou agente há muitos anos. Poucas coisas me surpreendem hoje em dia." expliquei. "Vamos deixar isso de lado por enquanto." pus o revólver sobre o criado-mudo e sentei-me ao lado dela. "Por que você não começa a me contar tudo o que aconteceu?"
"Eu não sei nem por onde começar." disse ela, parecia cansada. "Estou tão perdida no meio disso tudo. Eu não faço ideia do que está acontecendo."
"É por isso que estou aqui, Michelle." eu disse. "Como era o homem que te rendeu? Comece falando sobre ele. Tem certeza de que não o conhece?"
Michelle assentiu solenemente.
"Absoluta." ela disse. "Acho que Lori também não o conhecia."
"Prossiga." pedi.
"Ele era baixo, meio calvo e já era um pouco grisalho também. Provavelmente ele está por volta dos cinquenta anos." ela disse.
Franzi o cenho quando um rosto se passou pela minha mente, dadas as características, mas não a interrompi.
"Quando ele me abordou, ele me chamou pelo nome da minha irmã. Ele mesmo não a conhecia. Duvido que sequer a tenha visto antes. Ele usou a arma para me render e me forçou a trazê-lo aqui, dizendo que me mataria caso eu não cooperasse. Perguntei a ele o que ele queria com a gente, mas tudo o que ele disse era que tinha assuntos a resolver. Ele desviou de todas as minhas perguntas."
"E o que aconteceu quando vocês chegaram aqui?" perguntei quando ela não continuou. Michelle engoliu em seco.
"Eu bati à porta ao invés de usar a chave pra evitar que ele a roubasse ou tivesse acesso mais fácil." ela começou a explicar. "Também pensei que, como Lori sabia que eu tinha a chave, espiaria pelo olho-mágico antes de abrir a porta e talvez, se armasse com uma faca."
"Ou um revólver..." pensei alto e vi a moça estremecer com meu comentário. Pigarreei e murmurei um pedido de desculpas. "Foi muito esperto da sua parte tomar essa precaução. Por favor, continue."
"Bom, aparentemente, Lori não olhou e quando abriu a porta, ficou tão chocada quanto eu ficaria, mas se manteve calma e controlada. Assim que o homem teve acesso à ela, ele me jogou na cama e apontou a arma para ela, dizendo que a levaria."
Os olhos da moça se encheram de lágrimas novamente. Eu ia oferecer um copo d'água, mas ela insistiu em concluir.
"Depois disso," prosseguiu. "Ele disse que a levaria de volta para o namorado dela. Eu não faço ideia do que ele quis dizer com isso. Lori não tem nenhum namorado." afirmou ela.
Apesar da certeza na voz da jovem, eu não estava tão certo disso. Loreanne deixou claro que estava mantendo seus segredos bem guardados. Agora eu tinha uma lógica concreta. Eu estava ainda mais certo do envolvimento da modelo com o Adam Hastings. E mais, o rosto do homem descrito por Michelle com certeza me lembravam alguém. Peguei meu celular e abri a pasta atualizada do caso que Tyler havia me enviado. Dentro dela estavam as fichas e as imagens dos três principais suspeitos. Abri a imagem de Mark Cortez e mostrei a Michelle. Sua reação foi imediata.
"Você conhece esse homem, não é? Foi esse homem que levou sua irmã?" perguntei.
Michelle não conseguia desviar os olhos da imagem nervosamente.
"S-sim." balbuciou ela. Suspirei e disquei o número de Tyler.
"Não se preocupe, senhorita Garrow. Vou encontrar sua irmã." garanti a ela.
E ao encontrar Loreanne, encontrarei também Cortez e Hastings.
"Alô?"Tyler atendeu.
"Tyler," respondi. "Entre em contato com a NYPD. Preciso prestar relatórios e convocar patrulhas. Estamos prestes a encerrar este caso."
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