Fogo

3 Capítulo 3 – Lei de Newton


Notas iniciais
Na vida, para tudo se existe um retorno...

Eu não estou nem aí para a minha reputação
Você está vivendo no passado, esta é a nova geração
Uma garota pode fazer o que ela quer fazer e isso
É o que vou fazer
E eu não estou nem aí para minha má reputação

Tique-toque fazia o relógio na parede. Tique-toque. Oito e quarenta e cinco. Manuela suspirou frustradamente. Ainda faltavam alguns minutos para o sinal do intervalo tocar – uma coisa totalmente desnecessária, em seu ponto de vista. Já que todos eram maiores de idade e coisa e tal – e a cada segundo que passava, ela ficava mais e mais ansiosa. Queria dar uma bela lição no idiota do Vinni, mas não podia fazê-lo em sala de aula. Sua ficha estudantil já era bastante negra, não precisava de umas porradas em seu histórico.

Quando finalmente tocou o sinal, e todos os alunos foram saindo da sala, ela sorriu discretamente. O Albers ia se arrepender de tê-la provocado.

– Manu. – ouviu Alicia chamando-a. Virou-se para fitar a amiga, curiosamente. – Está aqui o que você me pediu. – sussurrou a garota, entregando o “brinquedinho” embrulhado em um pano preto. – Você tem certeza de que quer fazer isso? – a amiga fitava-a curiosa e nervosamente.

Manuela fitou as costas do rival, enquanto ele saia da sala acompanhando pelos trogloditas que chamava de amigos. Ela permitiu-se um risinho diabólico, enquanto guardava o brinquedo dentro da mochila.

– Nunca tive tanta certeza em toda minha vida. – respondeu de imediato, levantando-se e trazendo consigo a mochila. Quando todos outros alunos saíram da sala, virou-se para Alicia para dizer – Eu preciso que você me dê cobertura.

– O que? – a morena arregalou os olhos. – Eu já sujei minha ficha estudantil demais te ajudando! E se souberem que fui que te emprestei esse bagulho...

– Não se preocupe. – ela colocou ambas as mãos nos ombros da amiga. – Eles não vão te pegar. Está comigo, está com Deus. – e deu uma piscadinha divertida.

Alicia revirou os olhos e afastou-se, saindo da sala, sendo seguida pela loira que ria.

–--X—

– Você tinha que ver a cara dela, Will– dizia Vinni, entre uma gargalhada e outra. – Nunca tinha visto a Tiffany tão sem graça antes. Foi massa. – seu sorriso era divinamente diabólico.

– Eu acho que você exagerou. – William ajeitou os óculos garrafais; não era realmente um nerd, mas gostava de se passar por um. A maioria de suas blusas eram xadrez, a que estava usando hoje era preta e rosa. Ele também usava um alargador na orelha direita. – E eu tenho certeza de que ela não vai deixar barato. Fala sério, é a Lohmann cara! Ela tentou me matar com uma gilete na sétima série, porque eu disse que ela era uma patricinha reprimida. – diante da lembrança, não conteve um risinho.

Vinicius sorriu também, com os pensamentos em outro lugar. Era verdade. A maldita loira nunca deixava barato. Mas pensou que, talvez, aquela história da calcinha fosse deixá-la acuada para... Sei lá, fazê-la ficar na dela. Ele repensou sobre aquilo, pensando que provavelmente seria esfaqueado na hora da saída. Ignorou. O que ela podia fazer para se vingar? Estavam na faculdade e a reputação dela já era bem ruim por ai; se ela resolvesse agir contra ele, possivelmente seria expulsa...

– Eu não acho – disse com incerteza, mordendo um pedaço de seu hambúrguer quádruplo. – que ela vai querer fazer alguma coisa. Ela me pareceu bem constrangida. – argumentou, pensativo.

Mas a verdade é que no fundo, ele sabia que ela ia contra-atacar.

– Estamos falando da garota que bateu sua cabeça na parede, Vinni. – Will tomou um gole de seu refrigerante. – Mas que se dane. Essa guerrinha entre vocês nunca terá fim.

– Isso é o que você pensa. – Vinni rebateu, abalado com a verdade naquelas palavras. – Eu só estou me aquecendo para o verdadeiro golpe de misericórdia. Ela vai me deixar em paz, c vai ver ainda. – e piscou, dando atenção para seu hambúrguer.

William o observou e por fim suspirou fundo. Não, ela não iria deixá-lo em paz. Pelo menos não até mandá-lo para o inferno... Evitou de fazer essa observação em voz alta, porque a discussão nunca teria fim.

–--X---

Alicia comprimiu os lábios, nervosamente. Manuela tentava – sem sucesso – reprimir a vontade de rir, mas, as lágrimas em seus orbes e a expressão marota a denunciavam. Elas estavam no estacionamento da faculdade, mais precisamente atrás de um Peugeot branco.

– Manu. – Alicia sussurrou, enquanto olhava para todos os lados. Por questão de segurança. Afinal, seria bem complicado explicar a um funcionário da faculdade o que elas estariam fazendo ali... – Rápido. – exclamou, tremendo com a hipótese de ser pega. – Alguém vai nos ver.

– Cale a boca. – ralhou à loira, revirando os olhos. – Não é tão fácil quanto parece furar um pneu. – exclamou. Já tinha furado um, agora só faltava outro. Fez uns movimentos discretos, torceu aqui e então ali e... – Pronto! – os orbes verdes brilharam de excitação. – Está feito. Vamos dar o fora daqui. – e dito isso, levantou-se apressadamente. Enfiando o brinquedinho dentro da mochila. – Vem, Alicia! – e puxando a melhor amiga pela mão, saiu correndo de volta a faculdade.

A loira ria e a morena, rezava para que ninguém tivesse visto-as.

– Você é louca garota. – Alicia riu, quando já chegaram ao banheiro feminino.

– É a lei de Newton, minha amiga. – Manuela gargalhou, mordendo os lábios. – Tudo o que vai, volta. – e deu uma piscadinha cúmplice para a amiga, que retribuiu.

–--X---

Após o intervalo, Vinni percebeu que as suspeitas de Will – e as dele também – estavam corretas. Manuela tinha aprontado alguma coisa; somente isso para explicar o sorriso sacana que ela sustentava nos lábios. Ele arqueou a sobrancelha e decidiu confrontá-la. Ou aquela desconfiança iria deixá-lo paranóico pelo resto do dia.

– Lohmann. – chamou-a hesitante.

Manuela devolveu, sorrindo largamente. Com os braços cruzados e um olhar terrivelmente cínico.

– Albers. Está tudo bem com você? – perguntou, um tanto ansiosa.

Ele assentiu.

– Sim. E está tudo bem com você? Não te vi no intervalo. – exclamou, confuso. Ele não deveria estar falando com ela... Pior ainda daquela forma tão “amigável” mas sabia que estava fazendo aquilo, simplesmente pela maldita desconfiança. Geralmente a loira explodia na hora e o socava até quebrar algum dente dele. Mas... Estranhamente, ela estava quieta. E isso só podia significar uma coisa: Ele estava fudido.

Ela parou de sorrir, lançando-lhe um olhar zangado. Apesar de bem lá no fundo, estar se divertindo com toda aquela situação.

– É porque eu estava limpando o meu cabelo. Nojento. – proferiu a palavra com visível desdém, quase como se estivesse dizendo o nome dele.

Ele arqueou a sobrancelha, com os olhos cor de amêndoas bem estreitos. Inclinou-se sobre a mesa e disse.

– Está tramando alguma coisa. – definitivamente, não era uma pergunta. Era um contraste perfeito os olhos castanhos dele, com os verdes dela. – Nada disso teria acontecido se você não tivesse invadido a minha casa. – argumentou, defensivamente.

Ela revirou os olhos e suspirou.

– Eu não teria invadido sua casa, se você tivesse me ajudado a invadir a minha. – replicou seca. – É só isso ou você quer mais alguma coisa? – indagou, visivelmente aborrecida.

Ele fitou-a demoradamente e esboçou um sorrisinho.

– Quero que você se foda. – e dito isso, dera-lhe as costas bruscamente, indo em direção ao seu lugar de sempre.

– Cuidado com o tempo, Albers! – gritou a loira. Sentindo-se no ápice de um plano mais do que perfeito.

Ele é claro, virou-se para fitá-la curiosamente.

– Boatos de que vai cair uma tempestade. – continuou a loira, sorrindo maliciosamente. Atrás dela, Alicia tentava inutilmente disfarçar as risadas.

Ele continuou a encará-las, por alguns segundos. Ele tinha a sensação de que havia algo de muito errado em toda aquela história e o mais agonizante era que, infelizmente, ele não sabia o que. Manuela estava sendo mais cínica do que jamais fora antes e aquilo estava enlouquecendo-o. Fosse o que fosse, ela jamais diria o que tinha aprontado. O que era infinitamente pior do que levar uns socos e tapas na cara.

Duas horas após o termino das aulas, ele descobriu o que havia de errado. E amaldiçoou centenas de vezes aquela diaba de loiros esverdeados.

– Puta que pariu! – exclamou alterado. Passou as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso. a cretina tinha furado as merdas dos pneus dele! Como infernos ele iria embora? – Porra! – chutou o carro, envaidecidamente. – Cacete. – murmurou, a raiva tomando conta de cada misera parte dele. – Aquela vaca... – trincou os dentes, com os punhos cerrados.

De todas as crueldades que Manuela fizera, aquela era uma das piores. Ele não tinha estepe e naquela altura do campeonato, William já tinha se mandado com alguma virgenzinha. Ele passou a língua pela parte superior do lábio. Estava sendo punindo pelo próprio Deus! Não era possível... Bufou, passando novamente as mãos pelos cabelos.

Sabia que tinha exagerado na brincadeira da calcinha, mas nunca que poderia esperar... Por aquilo. A maldita Lohmann havia enfim, conseguido se superar. E isso só o fazia se tremer de raiva. Cacete. Cacete, repetia em voz baixa.

Seu avô não estava mentindo quando disse que as mulheres eram loucas e estúpidas. Respirou fundo, pensando em inúmeras formas de assassinar a loirinha quando algo inacreditável aconteceu: ao mesmo tempo em que começou a garoar, a vaca de sorriso cínico surgiu, no banco do carona do que só podia ser carro da Alicia, baixou a janela e exclamou sorridente.

– Tudo o que vai, volta meu amor. – e mandou-lhe beijos, repletos de falsidade.

– VOLTA AQUI, SUA VACA DESGRAÇADA! – berrou ele, correndo atrás do carro. Mas elas foram mais rápidas e afastaram-se, enquanto soltavam inúmeras gargalhadas.

Naquele momento, enfim, ele teve certeza de que era odiado por alguma divindade.

Notas finais
* O Gabriel e a Maria vão aparecer mais pela a frente.